segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Uma Colherada - Paulo Cesar Corrêa

15 de junho. Seis meses de namoro.
Era provavelmente uma das datas mais excitantes para Heloísa. Tudo em seu corpo era animação e Túlio, seu namorado, sabia o quanto ela levava a sério essas comemorações: aniversário de quando se conheceram; tantos dias do primeiro beijo; mensário do primeiro “eu te amo”.
Heloísa era do tipo que ficava feliz com simples demonstrações de afeto; uma carta, uma flor e pronto: ela já resplandecia.
Enquanto revistava a caixa de correio, deparou-se com um envelope rosado, clássico e com letra de calígrafo. Estava endereçado a ela.
“Túlio”, ela pensou, com um sorriso na boca, revelando um pequeno diastema nos dentes superiores da frente. Rubem Alves dizia que cartas de amor são escritas não para dar notícias, não para contar nada, mas para que mãos separadas se toquem ao tocarem a mesma folha de papel. Era por isso que ela amava receber cartas. Emails, em sua opinião, eram muito superficiais e nada íntimo e especial era compartilhado.
Abriu o envelope. Um cheiro de rosas foi emanado do papel e, por um instante, ela apreciou a fragrância. Túlio havia se superado. Depois de apreciar o perfume, leu a carta.
Eis o seu conteúdo.

“Srta. Quemelli,
Neste dia tão importante (O tetra do São Paulo na Libertadores? Melhor. Tudo em 80% de desconto na loja da Lacoste? Muito melhor. O nascimento do primeiro hermafrodita? Quase...quase lá)... Ei, calma, pequena. É uma piada! Hoje faz seis meses que estamos juntos e sei o quanto você ama comemorações.
Está pronta? Pega a moto na garagem e sai. Vai começar a busca ao tesouro.
Espero você.
Túlio.
P.S: A primeira pista é: the praça of us. Izquierda. Ten árboles.
Vai!”

Heloísa fechou a carta, ainda sorrindo e rindo por dentro por causa do senso de humor de Túlio.
“The praça of us”, ela pensou. Certamente uma mistura bem mal feita entre português e inglês. A tradução, ao pé da letra, seria “a praça do nós”. Após pensar mais um pouco, Heloísa chegou à conclusão de que o lugar seria a Praça dos Namorados, perto da Praia do Canto. Um dos lugares que ela mais amava ir aos fins de semana.
E as outras partes? Bem... Obviamente a parte em espanhol significava “esquerda” e o restante tinha algo a ver com a décima árvore.
− Pai, − gritou da porta da sala – vou sair um pouco.
− Aonde?
Heloísa se sentia um pouco desconfortável em dizer ao pai que iria a uma busca ao tesouro proposta pelo namorado – um jovem com quem seu progenitor não se dava muito bem.
− Vou à casa da Larissa. Ficamos de estudar juntas para a prova de física de amanhã. – Mentiu, o coração começando a disparar.
− A que horas volta? Mais alguém estará?
Que inquisição era aquela?!
− Volto para jantar. Giovana e Maria disseram que também iriam. – A mentira estava ficando maior.
− Ok. Qualquer coisa, me ligue.

(...)

Heloísa saiu tão rápido que nem ouviu o pai a aconselhando a levar um cachecol por causa do frio do inverno que se aproximava. Ligou a moto, sentindo o motor fazer barulho e arrancou. Amava sentir o vento indo contra o seu corpo.
Na altura da Avenida Saturnino, chegou aos 70 km/h e um leve sentimento de culpa a tomou por estar andando tão rápido dentro da cidade. Mas a curiosidade era enorme e Heloísa não conseguia se conter.
Ao chegar ao seu destino, estacionou a moto e, descendo dela, correu para o lado esquerdo da praça, contando as árvores.
1, 2, 3, 4, 5...
“O que será que Túlio está aprontando?”, ela se pergunta.
...6, 7, 8, 9, 10
Um amontoado de folhas estava na raiz da décima árvore. Heloísa espalhou as folhas e um pequeno pacote foi revelado. O abriu: dentro havia um cachecol de caxemira azul e outro envelope.

Com certeza você não está usando um. Nunca te vi usar. Agora que o teu belo pescoço não sentirá mais frio, continue sua busca. Vá até o Cafuné com Pimenta – sim, esse mesmo que você está pensando. Se disser o teu nome, uma moça te atenderá e uma bela peça usará.

Heloísa subiu na moto e sorriu divertidamente, adorando este jogo romântico. Envolveu o pescoço com o cachecol. Um belo presente, pensou, e certamente não foi barato.
Ligou a moto e foi a toda velocidade ao Cafuné com Pimenta. São quase dois quilômetros de distância e Heloísa chegou em cinco minutos.
Na porta da loja, Heloísa parou. O que faria num sexy shop? Suas roupas íntimas eram todas compradas por sua mãe e tinha certeza de que os outros utensílios da loja não a interessariam.
Ao entrar na loja, uma vendedora a perguntou se necessitava de ajuda.
− Sim, sou Heloísa Quemelli.
− Ah, perfeito – disse a vendedora. – Estava me perguntando se você realmente viria. – E com um sorriso simpático, ela continuou. – Nesta caixa há cinco modelos de lingerie. Escolha uma e se vista.
O primeiro era inteiro, roxo, com desenhos transparente e ombros sutis. O segundo era de duas peças, rosa claro, com desenhos transparentes ligeiramente mais claros. Havia mais outros dois, porém Heloísa não os reparou. Chegou ao último: preto, duas peças, com a parte de baixo sendo um fio dental – mal coberto na frente; nada coberto atrás.
Heloísa estava perdida no meio daquelas roupas íntimas e a vendedora, como se lesse a mente dela, disse:
− Acho que você não faz o tipo dessa última lingerie. Aconselho a escolher a segunda. – E, dando-a nas mãos de Heloísa, indicou-lhe o trocador.
Enquanto se trocava, Heloísa pensou no que diria a sua mãe quando ela visse tais peças no meio da roupa suja. Poderia dizer que foi Larissa e as outras meninas fazendo uma brincadeira.
A vendedora tinha razão. Aquela peça lhe havia ficado magnífica e ela imaginava o que suas amigas falariam quando lhes contasse sobre toda essa loucura. Algumas até teriam inveja.
Após se vestir e entregar as roupas íntimas velhas à vendedora, um novo envelope lhe foi dado. Até onde aquilo iria? Ela não tinha ideia, mas estava se divertindo muito.

Próximo lugar, Adriana DelMaestro. Acho que você vai gostar.

Na joalheria, ela recebeu um belo par de brincos turquesa e mais um envelope. Em Splendore Atelier uma senhora lhe aguardava com o vestido de gala mais bonito que Heloísa já havia visto na vida. Também havia um envelope e nele estava escrito para que voltasse ao lugar onde tudo começou. Um táxi a esperava do lado de fora da loja e a levaria até a praça. O que fazer com a moto? "Tranque-a e deixe a noite acontecer", dizia o envelope.

(...)

Ao entrar no carro, Heloísa era uma nova mulher. Desde a roupa interior até o que se via por fora. Se algum conhecido a visse naquele instante, jamais a reconheceria.
O rádio tocava Tenerife Sea, de Ed Sheeran, o que parecia perfeito para aquele final de tarde/início de noite. O sol começava a baixar e, segundo os termômetros das ruas, a temperatura estava amena, não passando dos 20 C°.
Heloísa fechou os olhos, recordando tudo o que havia feito naquele dia. Era uma aventura e, no momento em que reabriu os olhos, o taxista aumentou o volume do rádio.

“You look so wonderful in your dress
I love your hair like that”

Tudo parecia certo. A forma como as esparsas luzes do sol caíam sobre a terra. A forma como o céu e o mar se abraçavam no horizonte. Os transeuntes passeando pelas ruas nem imaginavam o quão importante aquele dia era para ela e o quão maravilhoso estava sendo.

“The way it falls on the side of your neck
Down your shoulders and back”

O carro virou na Avenida Saturnino e logo chegaram à Praça dos Namorados. Ela reconheceu o Golf preto de Túlio e começou a correr. Túlio estava ali, apoiado na árvore. Heloísa, ainda correndo, abriu os braços e se lançou sobre ele, beijando-o apaixonadamente. Túlio tirou de detrás de si uma orquídea e a pôs nos cabelos da namorada, sorrindo para ela.
− Admito que tive medo de que você não entendesse nada das pistas, se perdesse no caminho e eu ficasse aqui esperando a noite toda.
Heloísa lhe deu um leve tapa, como se estivesse ofendida com tal pensamento do namorado.
− Feliz mensário. Espero que tenha aproveitado o jogo – ele comentou.
Ela disse que sim e quando ele a chamou para ir tomar sorvete na Fioretto, tudo o que pôde fazer foi beijá-lo. Heloísa quase brigou com a atendente para ter uma banana split dupla com cereja e cobertura de chocolate e menta ao mesmo tempo. Túlio pagou um adicional para satisfazê-la e tudo se resolveu.
No carro, ainda discutindo sobre o sorvete, a atendente e os fascínios pitorescos do dia, Heloísa mal percebeu que estavam indo em direção à casa de Túlio. Ele abriu a porta, percebendo que os pais não estavam. Caminharam até o quarto dele, Heloísa entorpecida pela beleza do momento. Túlio ligou o som. Kenny G soprava, em seu saxofone, a melodia de “You’re Beautiful”.
A janela foi aberta e um pouco de lua entrou no quarto e uma leve brisa balançou os cabelos de Heloísa. Túlio a beijou na testa e começaram a dançar. Da dança para um grande beijo não demorou muito.
Túlio a levou para sua cama box, tirando o belo vestido de gala de sua namorada. Ao ver a roupa interior que ela usava, disse:
− Esperava que escolhesse a preta com fio dental – falou, rindo-se.
Heloísa o beijou. Naquela noite todas as músicas mais românticas compostas foram tocadas. Ou assim pareceu para eles. Túlio era doce e terno, mas insistia em ter algo mais. Porém seus esforços foram em vão. Teve somente o prazer de vê-la em sua roupa íntima e nada mais. Um pouco mais tarde, a levou para casa e ao chegarem lá, ele a beijou, escondendo sua decepção. Depois, dirigindo loucamente pelas ruas e avenidas de Vitória, Túlio se lembrou de uma música velha de um italiano que falava sobre uma garota igual a uma torta de baunilha decorada. Uma garota feliz de não ser comida.
“Igualzinho a ela”, ele pensou. “E eu dei só uma colherada”.
Naquela noite, Túlio recordou o quanto gastou para aquele dia ser um fiasco.
Em contrapartida, Heloísa ligava para suas amigas a fim de contar-lhes o maravilhoso dia que teve.



            

domingo, 4 de outubro de 2015

Mirada Leve - Caio Machado

“Por que apenas voar, se posso ter o prazer de conseguir a atenção de todos os olhares noturnos?”. Amanda calçou seu sapato de salto alto número 36. O vestido estampado se preenche com suas curvas, mais ressaltadas, devido a inclinação resultante do sapato. Pensou melhor e abandonou a vestimenta de cores berrantes. Preferiu logo trajar um vestido de tubinho preto. Perderia pela discrição e ganharia pelo melhor entalhe de seus desvios simétricos corporais. Em sua penteadeira, uma pilha de adereços comprados semanalmente no AliExpress. As quinquilharias orientais não poderiam substituir todos os adereços femininos, mas já seria uma mão na roda. O nome do perfume francês só é agora corretamente pronunciado porque ouviu a lojista do shopping o repetir exaustivamente, nas três vezes em que comprou um novo frasco. “Toucher Cristallin”. Era o movimento de lábios exato para verificar se o batom carmesim não estava exagerado.

Olhou-se rapidamente no espelho. Sempre que se sentia magra demais se lembrava do apelido dado pelo seu pai quando era criança. Magrolina, era assim que a finada figura paterna carinhosamente a nomeava. Arrepiou-se com a lufada de ar frio entrando pela janela e esgueirou-se para fechá-la. Sentiu a inércia abandonando os fios de cabelo levitados pela corrente. Lamentou que o cheiro que recendia de seu belo corpo fosse artificial. Aquilo que a identificava não passava de combinações químicas e mistas de aromas de procedência biológica um tanto quanto duvidosas. Estaria pronta para sair em poucos instantes. Na manhã seguinte encontrar-se-ia na cama de um estranho de seu agrado. Descabelada, com a maquiagem borrada e com odores físicos despontando e sobressaindo o seu aclamado Toucher Cristallin. Estaria também exalando ressaca e toques de vodka em seu hálito seco. Em seguida, observaria os pertences e a decoração do local em que estiver. Provavelmente lamentaria este estilo de vida e iria embora com a dolosa promessa de retornar quaisquer ligações.

O ato de acossar de Amanda nunca é realizado sozinho. Bia era sua fiel escudeira nas noitadas. Escudeira por ter sido escolhida a dedo em sua seleta e nem sempre disponível lista de amizades. Alta propensão ao álcool, indiscreta e desleixada. Sempre cabulava os treinos de spin, o que via de regra, tornava seu corpo levemente flácido. Tinha o rosto com feições duras e animalescas que tornavam-se mais gritantes devido ao uso de uma maquiagem muito carregada. Mesmo assim era atraente. Ao lado de Bia, Amanda era estonteante. A escudeira não deve se tornar parte da concorrência. Amanda preferia manter Beatriz em rédeas curtas. Apesar disso, gradava de sua companhia e por algumas vezes, não conseguiu disfarçar tal apreço que sentia por sua amizade.

As opções de locomoção da noite seriam duas: dividir um táxi ou se aventurar na Honda Biz velha de guerra de Bia. O grande entrave era sempre o de guardar os capacetes da dupla. Bia conseguia manter o seu elmo no interior da motocicleta e o de Amanda ela prendia de forma sábia no clipe de trava do banco. Por sorte, nunca foram roubadas. Naquela noite, a produção não permitia que os capacetes baratos moldassem de forma grotesca os tão elaborados penteados das duas moças. O próprio serviço realizado no salão de beleza teria sido mais caro do que a gasolina que alimentava o veículo e os capacetes surrados da moto. Nem sequer o preço da corrida do táxi, numa gananciosa bandeira dois, faria alguma diferença na exorbitante soma do make-up de Amanda e Beatriz.

Na entrada do clube noturno, as vastas inimizades das garotas já as avistavam com ódio, repulsa e inveja. O sentimento era recíproco. Os olhares se ocupavam de imediato em descobrir quais eram os novos modelítos de roupas, e de identificar onde foram comprados para então, estipularem em suas mentalidades aracnídeas qual quantia havia sido investida. Nem mesmo acionistas da bolsa de valores conseguiriam tamanha precisão. A possibilidade de descobrir que as peças haviam sido adquiridas em liquidações alimentaria os pequenos prazeres daquelas mulheres. A pequenez sentimental prosseguiria no ato de perceber avarias na pele, cabelo e quilos adquiridos ou perdidos durante a semana. Ou até mesmo no ato de desejar que os saltos alheios se quebrem e que as alças das caríssimas bolsas Louis Vitton e Prada se arrebentem no banheiro, na fila do bar ou na pista. Por último, os olhares destas moças se dirigiriam para as figuras masculinas. Para cada homem acompanhado por uma de suas rivais, as olhadelas ganhariam muito mais peso.

Bia de top verde musgo talhado ao tórax, repleto de madre pérolas e um short curto. Amanda em seu perigoso tubinho preto. Bia tomando Martini em grandes golfadas. Amanda na marcha leve e sutil de pequenos golinhos em seu Bloody Mary. Bia soltando-se ao som entusiasmante de Calvin Harris. Amanda jogando o cabelo para trás na levada insinunante da batida de M.I.A. Os pequenos contrastes da dupla de amigas era analisado e perseguido por várias perspectivas ópticas distintas e peculiares. Objetivas e flashes de fotógrafos freelancers, desesperados por reconhecimento e uma futura procura para produções fotográficas de enfadonhas festas de casamentos; Parcas e óbvias capturas advindas das selfies efetuadas em smartphones caríssimos em suas câmeras nada convincentes; Neons e globos de luzes frenéticos e mal sincronizados; Astigmáticos, estrábicos, míopes e perfeitos flertes oriundos de globos oculares das mais diversas cores e simetrias.

No banheiro, Bia beijou Rita em troca de um tiro. O barato animaria sua noite. Amanda na pista rejeitou alguns rapazes pífios e trocou o multi-saboroso Bloody Mary, por um scotch de valor razoável. 2:35 da manhã era o prazo idealizado pelas moças para se separarem de vez e darem um rumo para o fim de noite. O número carregaria para as duas amigas, diversos signos dos mais distintos credos e precauções. Era quase um ritual, e que pelo menos para a Amanda, nunca havia falhado. O jogo sujo na sedução nunca foi um problema em suas jogatinas noturnais. Beatriz estava ali mais pelo movimento, pela falsa sensação de liberdade adquirida em goles nas taças mal polidas e em seus infindáveis cigarros de filtro amarelo sujos de batom. Em um determinado momento, as luzes da pista de dança alinham-se em um pragmático formato de cela. Um cárcere luminoso e metafórico que representaria praticamente todos no interior daquele lucrativo recinto, um simulacro massivo e incognoscível.

Bia conhece um engenheiro agrônomo de uma cidade vizinha. Hospedado no Plaza, chaves do Dodge Ram expostas na cintura. Amanda conhece um estudante de Direito. Jogador de polo aquático, ombro largo estufando a camisa polo de cor esverdeada. Daniel Miranda, garrafa de Blue Label combinando com a pulseira azul da área vip. Leandro Moura, dose nada ríspida de Absolut combinando com o sorriso claro, cerrado e cativante. As pretensões de Daniel não iriam muito além das sexuais e para o futuro, a companhia deveria valer a pena. Leandro sempre cauteloso em seus relacionamentos buscava companhia, risadas e porque não, algo mais. Ambos despretensiosos quanto a alguma seriedade, mas nenhum descartava a possibilidade de um investimento compensatório.

O matchup imperfeito aos olhos de Amanda e, bem, tanto faz para Beatriz. Amanda queria trocar de par. Aliás, que se dane a barganha. Ela só queria tomar o lugar de Bia e cair nos braços de Daniel. Arrancou o iPhone da bolsa Dior e “folheou” qualquer coisa na linha do tempo do Facebook. Elucidou desdém e sorria paulatinamente para a luminosa tela. Leandro não quis desperdiçar sua eloquência para reverter a situação. E olha que o rapaz era bom de discurso. Não via tanta dificuldade na aura feminina como costuma ver em sua área de estudo. Aproveitou a deixa e arrancou o celular da mão de Amanda para cadastrar seu número. Os olhos de Amanda brilhavam numa mistura de susto e inocência. Um raro registro em sua feição. Após ligar para seu próprio número, Leandro beijou a face gélida do lado direito do rosto da moça. Saiu sem dizer nenhuma palavra. Um problema a menos para Amanda.

Para fisgar Daniel bastou dançar ao lado da amiga e de seu desígnio masculino. Ao bailar, fazia um rabo de cavalo em seus cabelos usando as pontas dos dedos e deitava o olhar para a altura do queixo de Daniel. Quando ele percebia, Amanda fitava seus olhos, sorria com o canto esquerdo da boca e desviava o olhar. Bia entendeu a jogada e quis permanecer em cena pelo menos para implicar. Daniel deu o último trago no copo de uísque. 53ml para quase engasgar e criar coragem para despachar Beatriz, que saiu sem pestanejar. A garota caminhou em direção ao bar e investiu um pouco de seus níquéis em uma bebida fumegante.

Amanda sentiu os dedos calejados do robusto homem tateando com firmeza sua cintura esguia. Sequer titubearam e já se beijaram. Daniel sentia que sairia de sua zona de conforto ao estabelecer relação com uma moça que havia o abordado de tal maneira. Admirou a forma com que Amanda abreviou o processo do flerte e de azaração. Mas temeu se daria conta ou não do recado. A curiosidade foi sempre um grande aliado e inimigo. O recém formado casal quitou as bebidas no caixa e abandonaram o recinto.

O ronco vibrante da 4x4 de Daniel. O house desatualizado que preenchia os alto-falantes da caminhonete vinha do pendrive emperrado no player do carro. Pelo menos não era sertanejo universitário que Amanda havia deduzido erroneamente tratar-se das preferências musicais de Daniel. O check-in no hotel duraria uma eternidade e a cabeça de Amanda não parava de girar devido a mistura irresponsável das bebibas no clube. Era um esforço que valeria a pena.

Os primeiros raios de sol já invadiam a janela e reluziam nas opacas paredes do quarto. Amanda não conseguiu dormir bem. Entediada buscava um mote para evadir. Tateou o LCD do celular por alguns minutos. Encontrou o nome de Leandro no registro de chamadas recentes. A recompensa justa para sua desdita. “Bom dia ;)”, escreveu e enviou na breve mensagem do Whatsapp. O celular vibrou com um sms de resposta apenas setenta e cinco segundos depois. Calçou o salto, fechou o zíper do vestido e esticou as asas para alçar voo novamente.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Me ADD?


Sábado a noite

Parecia receosa quando me aproximei, diferente de alguns minutos antes...

- Posso? – disse, apontando para a cadeira ao seu lado.

Fez uma expressão como que a decisão dependesse somente de minha vontade. Estava sentada de costas para o balcão do bar. Pedi ao barman que me trouxesse duas garrafas verdes de cerveja, a mesma que ela segurava quase vazia.

- Qual curso você faz?

- Química, respondeu assim que o homem retornou com a bebida.

Sobre a cerveja, eu não pagaria nenhuma outra exceto aquela que lhe dava agora, poderia parecer que desejava somente sexo depois da segunda garrafa, ou mesmo que ela aproveitasse disso e ao fim, quando reivindicasse meu tempo e dinheiro gastos, a sua carruagem se transformaria em uma carona de última hora e seu sapato de cristal seria um número de telefone aleatório.

Já sobre o curso, apenas uma mera formalidade! Pelas redes sociais sabia seu nome, curso, animal de estimação e inclusive que estaria hoje aqui, estava a lhe observar a algum tempo nos corredores da Universidade.

- E você?

- Ciências da computação.

Uma amiga nos interrompe e cochicha algo no seu ouvido, ela sorri, responde algo também aos ouvidos da amiga.

- Foster the People! Curte? – Sim, tocava a música da banda que sabia que ela gostava, havia postado uma música em sua timeline, e era justamente aquela que vinha aos nossos ouvidos agora.

- Sim, adoro essa música! Qual o seu nome?

Durante os anos de minha vida quase que inteiramente por tentativa e erro, fui aprendendo que algumas coisas não funcionavam, simplesmente. A maior lição é que as mulheres enxergam tanto quanto os homens, a diferença talvez seja uma questão de sinapses. Os homens precisam se prestar a olhar e a olhar por minutos, talvez horas, enquanto o cérebro delas é capaz de tomar decisões no rápido intervalo de uma jogada de cabelo, se muito um cruzar de pernas, ou mesmo o cruzar já seja a decisão tomada.

- Guilherme.

- Guilherme... Eu gosto desse nome!

- Você puxa o “r” quando fala, de onde você é?

- São Paulo e você?

- Patos de Minas.

- Como?! – e riu.

- Patos, cuá, cuá... de Minas.

O mal de todo paulista é achar que vai induzir a pensar quem pergunta que São Paulo se trata da capital e não do estado...

- São Paulo, capital?

- Não, do interior. – respondeu arrastando ainda mais o “r”.

Posso dizer que foi uma noite que correspondeu as minhas expectativas. Não era uma das mais bonita da Universidade sendo honesto, mas possuía o jeito que me cativava e isso me fez persegui-la, mesmo que não tenha notado. Aliás, aí está o segredo da sociedade virtualizada.

Todo mecanismo tem um algoritmo e a chave está em conhecer tal. Antes, me lembro que o Orkut entregava quem visitou seu perfil, e nesse caso ela já teria me reconhecido como um “perseguidor”.Já no moderno Facebook, talvez tenha visitado tanto seu perfil que o mecanismo tenha me sugerido como um possível conhecido, e se ela talvez não se importasse tanto em descartar tais sugestões infundadas, provavelmente tenha visto minha cara sorridente pela fotografia.

Antes da noite anterior terminar, me ofereci para acompanhá-la até a sua casa num táxi, mas ela recusou.

No dia seguinte restava saber se o número não era um número aleatório. Mandei um simples SMS, que obteve respostas horas depois. Se tudo ocorresse como planejado, algumas visitas ao seu perfil virtual bastaria para que o algoritmo me trouxesse novamente a sua lista de potenciais amigos.

Quinta a tarde

Já desesperadamente visitava seu perfil, vi que o atualizava mas nada de me adicionar, talvez a ela tivesse muitos potenciais amigos, ou mesmo que não ligasse para tal informação, mas estranhamente respondia com interesse minhas mensagens ao celular.

Não resisti e a convidei para sair, precisava vê-la mesmo que isso não seguisse a estratégia inicial de fazer com que isso viesse de forma natural numa conversa online. Ela aceitou.

Sexta a noite

- Preciso lhe contar algo.

- Diga.

- Olha, eu gostei de você, me parece um cara legal...

Eu sabia que não era o fim, apenas medo...

- Eu também gostei de você.

- Pois é, então não me leve a mal mas é que não gostaria de me envolver muito sabe.

Fitei-a interrogativamente...

- É que eu tenho uma filha.

Sófia carregava os mesmos olhos da mãe e adorava a Galinha Pintadinha, nada que me surpreendesse, cantavam juntas em vídeos disponíveis em sua conta no YouTube.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Eponine no século XXI


É um hábito meu fingir que não me importo com o que as pessoas pensam e dizem a meu respeito. A verdade é que me importo um pouquinho. A sociedade em que vivemos é tão medíocre e alienada em seus próprios preconceitos que fica um pouco dificil sobreviver sem abrir mão de parte de sua personalidade.
Um bom exemplo de mediocridade social: amor!


[...]


Eu preciso te esquecer. Preciso seguir em frente. Preciso me sentir bem e feliz de novo, mesmo estando longe de você.
Olhar nos teus olhos e não encontrar a mesma coisa que existe dentro de mim dói muito, dói tanto que chega a doer fisicamente.


[...]


Uma vez você me disse que amar alguém é muito raro, mas, mais raro ainda era haver reciprocidade. Você esqueceu de dizer que essa primeira raridade é capaz de destruir sua alma, caso não venha acompanhado da segunda hipótese. Na minha opinião, entre ficar com a solitária primeira hipótese e a morte, prefiro mil vezes a morte.
Existem muitas teorias sobre o que ocorre depois da morte. Para alguns existe a possibilidade de reencarnação, para outros, apenas o céu e o juízo final. São tantas ideias e divagações que giram em torno do assunto que fico até confusa e perdida.
A verdade é que eu não gosto de nenhuma dessas possibilidades. Gostaria que a morte fosse apenas a morte, ou seja, a interrupção definitiva de um organismo. Sem mais e nem menos. O ponto final da frase em que não cabem mais vírgulas ou qualquer outro tipo de acréscimo. Sem renascimentos, sem recomeços, sem tribunais do júri, sem inquisição!
Outro ponto que me irrita muito em relação à morte é essa crença de que seu controle deva ser indisponível a nós. Não acho justo que tenhamos a obrigação de manter esse fio amarrado a nós.  Sim, a vida tem sua beleza. Uma beleza mágica  para aqueles que sabem degustá-la. No entanto, sinceramente, meu paladar é péssimo!
Você pode estar pensando: nossa, que morbidez inútil! Se quer ver dessa maneira, que assim seja! Mas, tente olhar pela minha janela. A vida é um jogo, tipo aquele do “Super Mário”, sabe?! Ela é composta por diversas fases e situações, assim como no jogo. A diferença entre ambos está no final. No “Mário” você só tem que apertar os botões certos, na hora certa. Movimentos planejados. No final você salva a princesa e é feliz para sempre. A vida, por sua vez, também lança mão de vários níveis e circunstâncias, entretanto, ela não depende apenas da sua vontade e desempenho. Depende da reciprocidade dos seus próximos.
Reciprocidade. Eis o grande objeto de desejo dessa criaturinha asquerosa chamada Amor! Sem esse ponto de equilíbrio, o amor é obrigado a escolher entre dois caminhos distintos: obsessão ou amor verdadeiro (em sua forma pura). Nesse, há sacrifício e renúncia. Deixa-se o objeto amado seguir seu próprio caminho e ser feliz à sua maneira. Naquele, há a constante perseverança, mas, sem a pureza típica do amor. Trata-se de uma sentimento egoísta e ciumento, que põe a si  mesmo no centro do espetáculo.
Refletindo sobre esta última hipótese, deixo claro que nunca me permitirei ficar obcecada por você. Uma vez li em algum site (digo site por não ter a menor noção de onde tenha encontrado essa ideia) que as fragilidades emocionais, de acordo com a intensidade, podem se transformar em dependência em relação a outra pessoa.
Embora a pessoa ainda dê o nome “amor”  para o que  sente pelo outro, deixa de ser amor no momento que a dependência se inicia. O amor é uma troca saudável entre duas pessoas. Quando uma delas passa a se comportar de forma a prejudicar o outro , na verdade, há uma confusão de sentimentos, mas que não pode ser chamada de amor.
Pois bem! Por mais que você não mereça (uma criatura egoísta como você, de fato, não merece), optarei pelo amor em sua forma mais pura. Deixarei que parta, que siga seu caminho.
Antes, tirarei as pedras e espinhos que puderem vir a te ferir, ou que te façam tropeçar. Cuidarei para que nada lhe falte. Não faltará grama macia para seus pés descansarem. Não faltarão flores nas margens do caminho. Não faltarão água fresca. Não faltarão amigos para lhe fazer companhia. Não faltará alimento. Providenciarei para que o caminho daquela a quem você ama cruze com o seu. Acredite, nada lhe faltará.
Quando falei que preferia a morte, falei muito sério! Muitos dizem que antes de optar por se desconectar desse plano material, deva-se pensar na família, nos amigos, enfim, naquelas pessoas que tanto te amam, e que sentirão sua falta. Julgam egoísta quem não escolhe permanecer. Mas aí, penso comigo...egoísta?! Quem é o real egoísta nessa história? Refletiremos juntos sobre algumas questões e depois, você, em seu íntimo, responda essa pergunta a si mesmo.
O professor Peter Cohen, psicólogo e sociólogo pela Universidade de Amsterdam, ao estudar as causas de vícios (não só de drogas, mas, qualquer espécie) demonstrou que os seres humanos possuem uma necessidade profunda de estabelecer laços e conexões, sendo esta a forma como se satisfazem. A incapacidade de se conectar a outra pessoa deixa um vácuo que, em regra, é preenchido por algum vício. Assim, se não conseguem se conectar a pessoas, se conectam às drogas, aos jogos, etc.
Agora, meu querido, imagine que esse vazio que você deixou em mim tenha um formato peculiar. Um formato único. Tão único, que apenas você tenha a capacidade de se amoldar a ele. De me tornar completa. Já imaginou?! Se imaginou, poderá entender minha incapacidade de conexão com qualquer outra pessoa ou coisa.
Pense também na dor dilacerante que sinto na minha alma em todas as tentativas frustradas de completar esse vazio. Reflita em como minha vida se torna insípida e incolor.  Dói mais que a dor física. Não consigo trabalhar, nem ir a faculdade. Estar próxima a outras pessoas é o mesmo que estar gritando sem que ninguém me escute.
Por muito tempo imaginei uma explicação para minha inépcia de conectar, afinal, talvez, fosse apenas frescura minha. Mas, como criar raízes em meio a uma sociedade “líquida”, como diria Mr. Baumam,  onde domina a lei do descartável e dos relacionamentos regidos por interesses mesquinhos?
Se o amor é descartável, imagine o impacto disso sobre essa coisa chamada “família”? A cultura do descartável descarta tudo, inclusive as pessoas, pois para ela nada é durável, nem mesmo as relações humanas. Assim, ao se constituir uma família a ideia é: se der certo, amém, se não der, amém também! A vida segue. As pessoas se conectam e desconectam como o piscar dos olhos!
Me diga: por que manter esse fio amarrado a mim? Apenas para satisfazer pessoas que, em sua maioria, terão preenchido o espaço que ocupo em suas vidas, antes mesmo que chegue a próxima estação?  Se me amam tanto, por que insistem em me manter sofrendo? Sou realmente egoísta? Quem é egoísta afinal?
Se você pensou: como pode ter tanta certeza que seu formato é peculiar? Que jamais voltará a se conectar com o mundo? A resposta é simples: não tenho!
O grande problema é justamente a incerteza. É claro que a vida pode me reservar mil surpresas, mas, a espera e insegurança me causam dor imensurável! Entenda que minha escolha deriva de minha incapacidade de sobreviver em um ambiente oscilante e irresoluto.  Não se relaciona com sua não disposição em se conectar a mim. Não saber o que virá me faz sentir dor e, apenas eu, sei o quanto isso me custa respirar.
A morte tem sua beleza. Existe felicidade no morrer porque nela se extingue toda dor e sofrimento. Junto com ela vai todo o sofrer e angústia existencial. Serei livre!
Não gosto de despedidas. Acho-as tristes por demais. Desnecessárias. Servem apenas para deixar o coração ainda mais aflito com o que há de vir. Já dizia Alexandre Dumas “em amor, não há último adeus, senão aquele que se não diz”. Certinho o Dumas! Talvez seja por isso que as pessoas insistam tanto em se despedir. Talvez o único objetivo seja o de transformá-lo em um “até logo”.
Não há porque me despedir. Não será um até logo. Não pretendo deixar a ferida mais profunda. Mas, não se preocupe, não sentirei dor alguma. Não se preocupe com a chuva que me molha nesse momento, apenas me abrace, pela última vez. Pequenas gotas de chuvas não podem me machucar agora. A chuva fará as flores crescerem.


Breve justificativa.


Não acredito que desistir da vida seja a melhor saída, pelo contrário. Acredito apenas que antes de instituir a inquisição e apedrejamento daqueles que optam por tal caminho, deva-se entender que cada ser humano é único e individual. O tamanho de sua dor não pode ser mensurada, apenas compreendida. Para compreendermos essa dor é necessário que nos coloquemos em seu lugar.
Não critico nenhuma crença/religião, apenas não consigo lançar pedras em quem tenha optado por tal caminho. Prefiro tentar entender sua dor.

A morte é uma experiência única, assim, ela jamais devolverá aquelas pessoas que perdemos. Se não pode tê-los de volta, respeite sua decisão. Em outras palavras, não seja egoísta!

segunda-feira, 11 de maio de 2015

O Problema de Wendy

            Todas as crianças crescem – menos uma. Wendy Darling daria tudo para ser essa uma.
A terceira idade já chegara há anos, trazendo consigo os cabelos brancos, o cansaço e os arrependimentos. Sentia falta de tudo o que sua vida poderia ter sido simplesmente por não ter dado uma resposta diferente àquela pergunta, tendo assim dispensado a vida adulta, as decepções e as inevitáveis lágrimas que por vezes pareciam infindáveis.
A sensação lhe era estranha, inexplicável, ter saudade de algo que sequer aconteceu. Sentada em sua cadeira de balanço, olhava para aquele gorro verde sobre o parapeito da janela, o único vestígio daquela noite fria na qual Peter Pan havia lhe feito uma última visita. E, quanto mais pensava na tormenta que vivera nas três últimas décadas, mais convicta ficava de que o responsável por tudo aquilo era ninguém menos que o próprio menino da Terra do Nunca.
Sempre soube que deixar de ser criança não seria boa coisa. A todo o momento seu pai estava ali para lhe reforçar essa ideia.
A garotinha era muitíssimo feliz contando histórias aos irmãos, vendo os sorrisos em seus rostos, brincando com eles, cuidando-os. Durante uma madrugada como outra qualquer, o menino que havia perdido a sombra apareceu pela primeira vez, e Wendy o ajudou com seu problema, mas apenas isso não o satisfez: este lhe propôs uma aventura.
Por que é que lhe dei ouvidos? Para ele era fácil falar, não cresceria nunca.
Quando voltou de sua jornada, no entanto, carregava consigo o agora desperto lado adulto. Chegava até ansiar a maturidade, deslumbrada pelas experiências com os meninos perdidos: não conseguindo ver o quão cega estava, deixou-se crescer. Casou-se, teve uma filha, e por anos a fio tudo estava bem. Jane, a filha, era apenas um bebê e o marido, dedicado, as dava atenção e carinho.
Quando Jane cresceu, Wendy contou-lhe as mesmas histórias que dividira com os irmãos, agora já casados, cada um tocando a própria vida. Acordava cedo, organizava a casa, sentava um pouco para ler ou escrever as histórias que tanto amava, mas logo em seguida se via em pé, preparando o almoço, para então buscar a filha na escola.
Numa outra noite, o garotinho magricela mais uma vez deu o ar de sua graça, dessa vez levando Jane consigo: como ocorrera com a mãe, a garotinha voltou de lá mudada, mais feliz, até falando em ter filhos!
E cada vez mais o marido estava ausente, augúrio que veio quando as primeiras rugas se fizeram presentes, e assim, a previsão foi confirmada poucos meses depois: o divórcio.


— Foi melhor assim. – tentou lhe dizer a filha, num sussurro pouco seguro. — Ao menos não haverão mais brigas, mãe, e a ferida há de cicatrizar com o tempo. Talvez ele não a merecesse...


Talvez, pensou Wendy, ainda a balançar. Eu poderia ter me virado sozinha. Teria escrito um romance se não houvesse perdido meus melhores anos cuidando da casa ou fazendo a comida para aquele porco egoísta.

Quando chegou aos sessenta, viu a filha se casar. Havia encontrado um bom rapaz, um professor com grande futuro. Mudaram-se dali, e Wendy se viu sozinha novamente, tendo apenas suas histórias, as memórias e a raiva guardada da vida que nunca quis ter. O choro ainda lhe vinha, não somente por tristeza,mas por diversos motivos. Dentre todos o mais palpável era a inveja.
Como eu queria ter o poder de Peter... Ser criança pra sempre. Ele estragou minha vida... -Lamentava-se diariamente.
  Ele tem tudo o que quer, e eu, tive tudo o que não quis.
“Você não pode mais voltar, Wendy. Sabe disso. Apenas as crianças conseguem.”, disse-lhe o garoto, antes de partir, dessa vez em definitivo. Tirou o gorro e o deixou ali mesmo, enquanto sua antiga companheira lhe suplicava ajuda. O frio da noite adentrava o quarto escuro, onde o único barulho presente provinha do balançar ininterrupto.
Afundada no próprio oceano de aborrecimento, a velha senhora que sonhava em mais uma vez ser jovem chorou, levantando-se. Dando alguns passos, pegou nas mãos o gorro esverdeado e o fitou.
É tão injusto que ele viva eternamente a infância enquanto todos vivem a vida uma vez apenas, sem segundas chances. Sentiu o coração bater mais forte ao saber que não usufruiu nem da própria. Ao contrário disso, viveu as dos outros.
Wendy colocou o gorro de Peter e, com dificuldade, subiu na janela. Suas pernas doíam e tremiam, talvez um pouco pelo frio. Observou o céu, estrelado.



  Respirou profundamente pela vez e permitiu-se um último voo.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Pandora


Ninguém tachou de má a caixa de Pandora por lhe ter ficado a esperança no fundo.
Em algum lugar há de ela ficar.


Nina tinha apenas 5 anos de idade e o mundo ainda tinha gosto de contos de fada. Um piscar de olhos, uma pequena distração e puf! Um mundo negro e ensanguentado se estendia diante dela. Quem é ela?, você se pergunta. Eu respondo: uma criança como tantas que você encontra por aí.
A marca que a menina carrega não pode ser apagada; faz parte de sua alma. Quanto mais ela crescer, mais a mancha escurecerá. Há uma pequena chance de cura, no entanto, de tão pequena que é, quase não há esperança em seu coração. Quase. Há um pontinho branco em meio à negritude.
Embora eu tente pensar naquela garotinha como se não fosse eu, não posso fugir da realidade. Neste momento, em minha mente, ela - ou eu - está passeando embaixo dos pés de tangerina e o cheiro é realmente bom. Ninguém acreditaria se ela contasse como aquela pequena vila do estado de Tocantins é bonita em algumas épocas do ano. Nem todo mundo saberia apreciar os perfumes dos pés de jaca ou mesmo do pé de cacau que crescia imperioso pela propriedade da avó.
As imagens do passado me fazem sentir feliz por ter nascido ali, mas, ao mesmo tempo, estremeço ao voltar àquele lugar, mesmo que apenas através das lembranças.
- Nina? Estou falando com você! - diz George, me fazendo voltar ao mundo real.
- Ok, estou escutando. - respondi, irritada.
Amar George é a coisa mais estranha que já me aconteceu. Às vezes sinto o ponto branco ganhar força dentro de mim e, nestes momentos, o mundo se torna azul e tranquilo. Mas, como explicar-lhe que sou apenas um receptáculo cheio de escuridão? Um dia ele tentará abrir a tampa e, neste dia fatídico, verá o interior da caixa de Pandora.
Você deve estar se pensando: o que aconteceu à Nina para que ficasse assim?
Se realmente estiver pensando isso, peço desculpas por não ter tocado no assunto anteriormente. O fato é que a vida de uma menina inocente e ingênua pode mudar completamente depois de ver o mundo real. Não digo responsabilidades reais. Falo sobre a maldade real. A maldade de um homem que atrai uma criança. Como? Simples. Um doce, um brinquedo ou uma ideia divertida. Quando consegue fisgar sua presa, mostra quem realmente é.
Sim. Aconteceu. Exatamente o que você está pensando.
O mundo que cheirava a frutas e era um caleidoscópio divertido, de repente, se tornou sombrio, com todas as nuances escuras.
Mas Nina é forte. Nina é fogo. É esse o significado do meu nome em Quíchua: fogo. E através dessa força; a força que vem do fogo, eu construí a caixa de Pandora e guardei ali todas as desgraças.

(...)

George está à minha frente. Olhando para ele neste instante, concentrado, tomando seu café e lendo o jornal, percebo o quanto ele merece uma pessoa melhor. George não merece sentir o peso do meu fardo. Eu preciso dizer adeus!
- Nina, veja! A filhinha dos Martins foi encontrada morta. Parece que a menina foi visitar a avó e acabou dando de cara com um assaltante. Foi violentada e estrangulada.
Demonstrei um pouco de espanto para satisfazê-lo, mas, no fundo, nada mais me afeta. As pessoas se surpreendem porque não imaginam que a cada “tic tac” do relógio, o mesmo ocorre com dezenas de garotinhas, por todo o mundo. Morrer, como a pequena Amabelle do jornal havia morrido, era um final feliz. Sobreviver e encarar a realidade de um mundo coberto de cinzas era muito pior. Não sou insensível. Ok. Talvez tenha me tornado um pouco.
O pior de tudo é saber que no final, tanto Amabelle (morta), quanto a garotinha de 5 anos (sobrevivente), não passam de estatística que os jornais anunciam e que a oposição usa como argumento para subir ao poder. Veja: se o tema “Estupro” já escandaliza um país como o Brasil, em que 92,6% da população é religiosa, imagina só o efeito que o tema “Abuso sexual infantil” não causará?! Os votos são garantidos!
George havia desenhado árvores, rios, pontes e um arco-íris em minha vida, mas, o que eu poderia oferecer de volta? Ele com certeza deixaria de me amar no momento em que abrisse a tampa e visse o quão negro era seu conteúdo.
Ele está me encarando de novo, com seus olhos cor de âmbar, tão doces, que fazem meu coração transbordar em todos os tons de branco. Sim, existem vários tons de branco! Embora sejam aparentemente iguais, quando a luz é refletida sobre eles, tudo muda. 
- 1, 13, 1 - 13, 5? - diz George
- 13, 21,9, 20,15! - respondo sem pensar.
Temos nossa própria língua. Nosso jeito próprio de conversar. Ele me enxerga por dentro e eu não preciso explicar nada.
George se levanta e me beija, puxando-me de forma suave. Ele me ergue da cadeira na direção dos seus braços. Não, eu não irei a lugar  nenhum! Estou exatamente onde deveria estar.
Uma mancha negra dilui-se completamente em um pequeno ponto branco e uma garotinha de 5 anos passeia, feliz, debaixo de um velho pé de tangerina que, em flor, exala seu aroma em uma primavera de 1996.
A caixa ainda não foi aberta. E se for? Talvez, somente por hipótese, até lá o conteúdo dela tenha se transformado todo em Esperança.





sexta-feira, 3 de abril de 2015

Por do Sol

Além deste lugar de iras e lágrimas
Avulta-se apenas o Horror das sombras
- William Ernest Henley, Invictus.


Não, o pôr do sol nunca a havia fascinado tanto como hoje. Até mesmo a indestrutível falta de emoção da pequena Sara foi obrigada a ceder lugar á sensação de força que os vários tons de laranja, vermelho com amarelo e mesmo preto lhe impingiam na pele, chegando até a corrente sanguínea.
Recordou de uma outra sensação parecida, a do dia em que Antônio lhe pedira em casamento. Sara havia dormido em seu apartamento, como acontecia em todas as sextas-feiras, após jantares esplêndidos. Não se recordava muito bem de como tinha sido aquela noite, em especial, apenas da voz melodiosa do homem dos olhos cor de whisky lhe acordando para ver o nascer do sol na janela do 13º andar.
Há! Sim, havia sido incrível ver aquela alvorada em seus vários amarelos e vermelhos misturados com cobre iluminando a cidade e o seu coração. Sim! Seu coração se iluminou quando Antônio ajoelhou-se e lhe pediu em casamento naquele iniciar de dia.
- Na aurora, para que a luz do sol ilumine os dias escuros. – dissera-lhe Antônio.
Sara em sua pequena estatura tinha certa delicadeza, mesmo com os enormes olhos cinza, grandes demais para seu rosto e os cabelos sempre soltos e rebeldes fazendo caracol em volta de seu rosto. Ali, sentada na beira da praia pensou que apesar da aparência frágil havia se sentido uma mulher poderosa naquele dia e que independente das atuais circunstancias aquelas eram boas lembranças do passado, boas histórias para se ter na memória, enfim.
Como um turbilhão, outras memórias assaltaram-na. A doçura da lua de mel, o calor da primeira briga e de Josephine, a deslumbrante Josephine que aos poucos se infiltrara na vida do casal e desencadeara os fatos que haviam levado Sara a estar ali sentada na areia da praia, admirando os raios de sol mergulhando calmamente no negro do mar.
Josephine... Ha! Maldita Josephine! A sua maldita irmã adotiva que aos poucos fizera tremer a base de sua maior vaidade, com suas visitas rotineiras e seu sorriso com gosto de ingenuidade sempre estampado no rosto. Aquele sorriso que aos poucos roubara os olhos de seu Antônio. Nada podia atingi-la tão mortalmente quanto aquilo, seu Antônio que era a única coisa boa que tinha em sua alma, aos poucos começar a trata-la com indiferença e frieza sem qualquer motivo, ver toda a alegria do esposo ser desviada para os domingos em que Josephine vinha visita-los.
Tivera certeza da traição no dia em que saíra mais cedo de seu escritório para comprar o presente que daria a ele em comemoração ao primeiro aniversário de casamento. Da janela do carro avistara-os passeando pelas ruas da cidade como dois adolescentes bobos á admirar as vitrines das lojas. È claro que chegando casa fingira de nada saber, pois jamais se permitiria a fraqueza de chorar ou até mesmo pedir explicação. Sua decisão estava tomada!
Mas, pensou Sara, sentindo a brisa do mar em seu rosto, hoje seria o fim de sua angústia. Hoje seria livre para começar uma nova vida e encontrar um novo caminho para trilhar. Um caminho livre de fúria reprimida, livre do ódio que passara a sentir por Antônio, livre de seu desprezo pela estúpida Josephine e principalmente, livre para ser ela mesma, sem nada para controla-la ou faze-la se sentir culpada por ser o que era ou como seu Antônio vivia a lhe dizer: insensível, vaidosa e egoísta.
Lembrou-se das palavras do livro que lera no dia seguinte ao aniversário de casamento "esta solução deposita em poucas horas a maior parte do sal da estricnina em forma de cristais de brometo insolúveis” e de como os dois comprimidos de brometo introduzidos ao vidro cheio do tônico que Antônio tomava toda noite causaram a precipitação perfeitamente, assim como o livro dissera.
No último mês houvera sido gentil com seu esposo servindo-lhe suas doses do remédio ás sete horas de toda noite, tomando é claro, o devido cuidado para que os cristais permanecessem depositados ao fundo do vidro e assim a estricnina pudesse ser deixada para ser consumida quase que totalmente na última dose.
A brisa balançou seus cabelos enquanto ela observava os últimos fios de sol mergulhar no negrume do mar e satisfatoriamente lembrou em como Antônio sempre fora metódico e pontual em todos os seus compromissos e tarefas, enquanto passeava calmamente os dedos pelo colar de pérolas, que o marido lhe dera no aniversário de casamento. Deslizou delicadamente a joia do pescoço e a atirou o mais longe possível nas aguas do mar sem nenhum apego.
O céu agora era um véu negro sobre sua cabeça, hoje não tinha uma única estrela lá e Sara observando as horas em seu relógio de pulso sentiu um largo sorriso rasgar seu pequeno rosto. A agua do mar estava tranquila e da cor de piche preenchendo o interior da pequena mulher de paz e tranquilidade enquanto se levantava e enchia os pulmões com o vento que agora soprava forte e gelado.