sábado, 13 de agosto de 2016

Quatro passos até ela - Paulo Cesar Corrêa

Álvaro relia, cada vez mais atento, o excerto de um poema de Pablo Neruda que estava escrito à caneta na contracapa de um livro que ganhara de presente. Normalmente, as pessoas escrevem declarações que vão te deixar animado ou feliz, afinal de contas, os presentes são para isso.
Recordava-se perfeitamente bem da cena: era sua despedida de solteiro. Algumas bebidas, música alta, conversa fiada. Ariel estava ao seu lado, um embrulho na mão. Disse que era um presente valioso para o futuro. “Para quando te deixe aquela zorra”, falou com um forte sotaque andaluz, entregando sua origem sevillana e depois, desatou-se a rir.
Todos ao redor riam. Tinham por certo que aquele matrimônio estava destinado ao fracasso mesmo antes de começar. Mas Álvaro não cria assim. Era crente demais no amor. Ou talvez cego demais. Abriu o embrulho, descobrindo um livro. “Que idiota”, pensou. Quem dá um livro de presente numa festa de despedida de solteiro? Passou os olhos no título: 4 passos para se reerguer depois dos chifres.
Que droga de livro era aquele?
Leu mais uma vez a citação na contracapa. “É tão curto o amor, tão longo o esquecimento”. Ariel deve ter passado horas na internet buscando essa frase. Ele não fazia o tipo que lia Neruda.
Deixou o livro na mesa de centro da sala e se levantou. Olhando ao redor,  podia perceber o quanto a casa havia mudado; a ausência de Daniele enchia os cômodos. Ao se pegar desta forma, Álvaro se lembrou de uma pequena crônica – mais para uma prosa poética – em que Dalton Trevisan narra a falta de sua “senhora”. O vaso de plantas que ornamentava uma esquina da sala já não existe mais. O frescor de uma casa limpa havia dado lugar a um cheiro de murrinha. A geladeira, que antes vivia cheia de legumes e frutas, transbordava de hambúrgueres Hot Pocket da Sadia. Talvez comesse um antes de dormir.
Por que ela o havia traído? Tinham construído uma boa vida juntos ao longo dos cinco anos de casamento. Um apartamento, carro, viagens caras de férias, plano de saúde. Os filhos não vieram por culpa de um nódulo no útero de Daniele, mas há algum tempo vinham discutindo a opção da adoção. Era como se a história deles fosse uma declaração de amor escrita na areia da praia, que logo desaparece quando sobe a maré.
Mas também tinha sua parcela na culpa. Gastava horas na agência de publicidade e, vez ou outra, levava trabalho para casa. Ademais, havia relaxado na aparência: não estava gordo, pelo contrário, parecia um esqueleto. Estava careca, a barba já com pontos grisalhos. Seu guarda-roupa havia parado nos anos 90, com raras mudas modernas.
Álvaro foi à geladeira, pegou uma Schweppes e, após dar um gole, voltou à sala, ao sofá, à mesa de centro, ao livro. Lembrou-se de Ariel. Aquele andaluz o havia avisado. Todos o haviam, mas, como disse Rubem Alves, todo apaixonado é tolo, sempre dizendo “o meu caso é diferente”.
Abriu o livro, lendo, pela enésima vez, o trecho de Neruda. Aquela frase era verdadeira na sua vida. O amor entre eles havia sido curto, mas o período de esquecimento estava se tornando fastidioso, mais longo do que ele gostaria que fosse. Já se haviam passado seis meses de luto e melancolia e algo deveria ser feito. No momento, a única ideia que o veio à cabeça foi ler o livro.
Mas não…
Ele não podia se entregar a tal coisa, a um livro de autoajuda. Porém, ao lembrar que, a essa hora, Daniele podia estar se divertindo com aquele desgraçado, Álvaro decidiu que a recuperação seria sua vingança.
Ao virar a página para começar a ler, Álvaro pensou: “Que seja!”
(...)
Passo 1: Extravase sua raiva com um grito
“A catarse. A liberação das emoções e tensões reprimidas.”
Assim começava o primeiro passo. A Álvaro, tal ideia o pareceu uma tonteria. Havia sido ensinado a engolir a raiva, a sorrir mesmo quando estivesse prestes a explodir.
Mas não podia recusar uma chance de, por fim, por para fora aquele nó que estava preso em sua garganta. E era algo simples. Mais fácil do que mergulhar sete vezes no Rio Jordão para ser purificado da lepra, como teve de fazer Naamã, comandante do exército sírio.
Álvaro foi à sacada. Percebeu que o céu carregava uma nesga de lua e que estava pintado com uma aquarela de cores com várias nuances de azul. Ficou ali um tempo, a contemplar; a se preparar para o grito, para a catarse. Mas antes, algo o pareceu deter, a boca entreaberta. Fechando os olhos, Álvaro sussurrou algo, como se estivesse jogando versos ao ar, esperando que o vento levasse seu sussurro. “Posso escrever os versos mais tristes essa noite: eu a quis e ela, às vezes, também me quis a mim”. E ao terminar essa frase, gritou com todo o seu ser, deixando jorrar a raiva e a melancolia que afogavam sua alma.   
(...)
Passo 2: Deixe de ser o idiota que era e dê uma reciclada

Álvaro parecia ter 25 anos sem barba. Nada mal, pensou. Enquanto tomava banho para ir ao trabalho, fez uma nota mental das coisas que teria de mudar para deixar de ser idiota. Suas roupas, logicamente, estavam no topo da lista. E se não quisesse ser um magrelo com barriga, teria de largar mão de comer esses Hot Pockets e ingerir coisas mais saudáveis.
Vestiu o blazer mais arrumado que tinha sobre uma blusa cinza. Pôs-se uma calça jeans semi-desbotada e um par de mocassins pretos. Olhando-se no espelho, não parecia tão mal assim.
Já no carro, em direção à agência, se pôs a lembrar da noite anterior e do grito de liberdade. De fato, um peso havia sido tirado dele e, se soubesse que seria tão simples se livrar daquele incômodo, já o haveria feito antes.
Ligou o rádio. Músicas aleatórias eram tocadas, passando por vários estilos, desde blues até sertanejo universitário. O trânsito estava lento, mas, por sorte, o dia não estava abafado e Álvaro ainda tinha tempo de sobra até chegar ao trabalho.
Começou a observar os detalhes da cidade: calçadas desuniformes, carros de todas as cores e marcas. Uma senhora andava com uma sombrinha aberta, protegendo-se do sol. Mais à frente, um viaduto se mostrava, também cheio de carros buzinantes, impacientes com o engarrafamento. Há muitos muros pichados também; a maioria das pichações são de teor anti policial ou declarações de amor adolescentes. Havia até uma citação de De Musset: “Qualquer que haja amado, possui cicatrizes”. Álvaro se riu por um tempo, voltando sua atenção para o trânsito.  Lembrava-se dos poemas de De Musset; lia-os, vez ou outra, para Daniele, no início do relacionamento.
“Cicatrizes”, ele pensou. Existe algo de interessante nelas. São como um sinal de alerta de que algo mal aconteceu. Mas o mais bonito de tudo é que, por mais que haja doído muito, no final de tudo, fica apenas uma marca indolor que faz com que se pense duas vezes antes de se arriscar.
Álvaro sentiu o celular tremendo em seu bolso, fazendo-o sair de seus devaneios. Se atrapalhou um pouco ao tentar pegá-lo. Era Ariel.
— Fala… sim. Claro. Sério? Bom, fico feliz. Inês deve estar animada. Quem sabe não os visito um dia lá?! Sim, tudo bem. Obrigado por compartilhar... Ah, a propósito, você tem algo programado para hoje à noite? Estava pensando em dar uma reciclada no guarda roupa. Quer tomar uma cerveja hoje depois que eu voltar das lojas? Assim elimino dois passos daquele livro. Sim, o li.... Você é um idiota.
(...)
Passo 3:  Largue o sofá e saia com um “bro”

— Então vai voltar mesmo para Sevilha?
Após terminar de comprar roupas que fossem do século XXI, Álvaro se encontrou com Ariel no Aloha’s para conversar e tomar umas latas. O bar ficava numa avenida movimentada. O seu interior era mal iluminado e, naquela penumbra, a visão ficava descansada, dando uma sensação de relaxamento. Havia duas mesas de pool no canto. Universitários apostavam cem reais para ver quem ganhava uma partida.
— Bom...só se você me prometer que não vai chorar. — Ariel riu.
— Você é um id...
— À propósito, na próxima vez que quiser me insultar, pense em algo mais criativo que “idiota”. Você fala demais essa palavra. — Tomou um gole, esperando Álvaro absorver seu conselho. — Escuta, vou te ensinar uma nova. Toda vez que eu for um imbecil, me diga: tu eres un gilipollas. Assim você não fala palavrão e está me insultando ao mesmo tempo. Genial, não? — Ariel mostrou seu sorriso amarelado e depois, esvaziou seu copo.  
— Não vou chorar. Mesmo que você seja um gilipollas, vai fazer falta aqui.
Conversaram por mais meia hora, falando sobre o trabalho, a tabela de classificação do campeonato nacional de futebol, a mudança de Ariel, como levaria seus pertences para a Espanha, e outras tonterias que não valem a pena serem escritas.
— Quer jogar contra aqueles riquinhos que estão na mesa de pool? — Ariel perguntou, apontando para dois jovens vestidos com camisa da Lacoste e relógios Rolex.
— Faz mais de cinco anos que não jogo e esses caras só jogam apostando. Certamente vamos perder e você é quem vai pagar.
— Deixa de ser marica e vamos. — Ariel já se levantava da mesa onde estavam sentados, puxando  Álvaro.
— Te falei. Se perdemos, quem paga é você. Tenho certeza que Inês não vai ficar feliz com a notícia de que você desperdiçou grana nessa aposta.
Ariel se aproximou dos universitários, propondo-lhes o jogo: estilo americano, uma partida seca, trezentos reais apostados. Os dois jovens se entreolharam. Contra esses “trintões” com ar de cansados e bêbados seria fácil demais. Aceitaram sem titubear.
As bolas já estavam postas sobre o feltro verde. Um dos jovens as organizou em uma forma triangular enquanto o outro se punha ao fundo, preparado para tacar.
Tac
Bolas de várias cores se moveram pelo feltro, deslizando silenciosas. Algumas se bateram, fazendo sons secos para depois, lentamente, se pararem. Começaram a jogar. Primeiro, tacadas simples, calibradas; depois, cada vez mais fortes, pretensiosas e difíceis. A Ariel e Álvaro, os restou ficar com as ímpares. Ariel meteu a primeira na caçapa. Os dois jovens derrubaram duas bolas, tendo mais sorte. Quando chegou a vez de Álvaro, tentou acertar uma bola que estava longe. Sem treinamento, a tacada saiu fraca, não conseguindo acertar na bola alvejada. Os jovens se olharam, sorridentes. Já sentiam os trezentos contos no bolso. Álvaro bebeu um gole da sua lata. Notou que naquele bar só existiam garçonetes — o que o pareceu estranho. Pouco depois chegou de novo a sua vez. A segunda bola foi melhor. Derrubou duas de uma vez.
— Uma dupla caída! — Ariel o deu um soco nas costas, comemorando. — Boa tacada.
Álvaro o olhou sorrindo, depois mandou outro gole da cerveja e se dobrou sobre a mesa. Estava concentrado. Tacou a bola branca ligeiramente para a esquerda, vendo-a ser docemente levada pela borda da mesa até chegar numa bola que estava perto da caçapa. Uma tacada perfeita. Os dois jovens se olham mais preocupados. Haveriam se enganado acerca daqueles trintões?
O jogo foi passando. Aos riquinhos, restava uma bola, enquanto a Ariel e Álvaro, duas. Era a vez de Álvaro. Respirando lentamente para não se afobar, pôs-se em posição para tacar. Não podia ser forte demais, senão a bola branca, no rebote, ultrapassaria o ponto certo para poder tacar na outra que restasse. Tacou. A bola foi em direção ao buraco. Álvaro não conseguiu respirar até ver a pelota sendo encaçapada. Yahoo! Havia conseguido, mas…
Mas…
A tacada tinha sido forte demais e a bola branca ultrapassara do ponto perfeito para a tacada final, ficando entre a última bola par e a onze. Os jovens, respirando aliviados, pensaram que, por fim, não perderiam aquela partida. Dessa posição era verdadeiramente um tiro impossível. Álvaro deu a volta na mesa. Estudou todas as distâncias. Difícil. Precisaria dar três golpes nas bordas da mesa com a bola branca antes de acertar a onze. Ademais, precisaria torcer para que a tacada fosse precisa a ponto de derrubá-la.
— Manda, mi amigo.
— Mas com três tabelas com as bordas?
— E daí? Se perdemos quem paga sou eu mesmo. — Ariel sorriu.
Álvaro segurou o taco com firmeza, ajustando-o. Inspirou, expirou. Tacou. A bola branca parecia voar sobre o feltro verde. Uma tabela. Lembrou-se de todas as vezes que jogou bilhar na adolescência. Duas tabelas. Ainda era possível se divertir; uma separação não era o fim de tudo. Três. Aqueles trezentos reais teriam de ser dele.... e nesse momento, a bola branca golpeou em cheio a onze, derrubando-a no buraco central.
— Centro! — Gritou Ariel. — Você é sortudo. Agora mandem a grana. — Olhou para os garotos derrotados.
Pegaram o dinheiro da aposta e pediram mais duas latas em comemoração. Riram-se da cara de espantados dos mauricinhos, sempre brindando em voz alta. Por fim, pagaram a conta e saíram.
— Só uma curiosidade... — Já estavam na porta do bar quando Álvaro quis fazer uma pergunta. — Onde você arrumou aquele livro? Quando você me deu, me senti ofendido, sabe… — Parou para respirar. — Achei até maldoso. Mesmo depois da separação me recusava a ler. Mas, ontem à noite, depois de mais uma imersão na depressão profunda, decidi dar uma lida.
— E aí?
— Admito que me ajudou, mas tem uma coisa que me está deixando curioso. — Pausou para coçar o nariz. — Quem é o autor desse livro? Busquei na internet e não tive nenhuma resposta nas pesquisas do Google. Quem é esse tal de A.R Cervantes?
Ariel sorriu mais uma vez, como se já esperasse aquela pergunta.
— Simples. Chegue em casa, olhe para a foto do autor. Imagine-o sem óculos e barba. Assim que o fizer, saberá quem é.
Após dizer isso, seguiu em direção ao seu Civic azul, mas no meio do caminho, algo o fez parar. Deu meia volta e gritou:
— Álvaro, espera. Quase me esqueço. Toma, pegue isso. — Entregou-o um envelope. — Só o abra quando chegar em casa, dale?
Dale.
Álvaro voltou para o seu apartamento, sentindo-se um pouco ébrio. Deixou as sacolas com as roupas novas em cima do sofá e se deitou. Pegou o livro que estava no criado mudo ao lado da cama, buscando a foto do autor. O que Ariel o havia pedido para fazer mesmo? Imaginar a pessoa da foto sem óculos e barba. No início foi difícil, talvez pelo efeito do álcool, mas depois, a imagem começou a ficar clara. Aqueles olhos sarcásticos...aqueles dentes amarelados.
Custou a acreditar naquilo. Devia estar deveras bêbado. Lembrou-se do envelope que Ariel lhe entregara à porta do bar. Abriu-o. Uma carta se mostrou.

“Mi amigo,
Talvez você vá me odiar ao descobrir que eu sou o autor desse livro que você tanto desprezou quando o recebeu — devo dizer que isso me magoou profundamente hahaha.
Peço desculpas desde já.
Porém, essa carta não é um pedido de desculpas, mas sim um presente meu e da Inês para você. Aqui deixo o localizador de uma passagem de ida e volta para Sevilha para nos ajudar com a mudança e a montar os armários. Achou que iria fugir dessas chatices? Pois se enganou. Partimos em cinco dias.
Um abraço.
Localizador: B6YVVY
P.S: Pense nesse presente como uma forma de fazer o passo 4 desse livro.”

Fechou a carta, guardando-a no envelope. Álvaro se deitou e, antes de fechar os olhos disse: tu eres un gilipollas.
(...)
Passo 4: Faça uma Viagem

A janela estava aberta. Nuvens tingidas de laranja se viam abaixo, brandas e infinitas. O sol se punha ao oeste. Deviam estar sobrevoando o Atlântico há horas. Não podia crer. Estava indo para a Espanha. C-27, esse era o seu assento no avião, fila da direita, do lado do corredor. Uma bela aeromoça o sorriu enquanto passava perto dele. Perto demais. Parecia enviada por uma citação de um poema da conclusão de As Mil e uma Noites: “Ela vem como a lua cheia em noites felizes…”  Ela tem um leve perfume adocicado, um uniforme perfeito. Caminha de cima a baixo no avião, sem problemas e preocupações.
“Ela vem como a lua cheia…”
Mas ele deveria tirar esses pensamentos da cabeça. Quais as chances de se encontrarem de novo fora daquele avião? Mínimas, para não se dizer nulas. Voltou os olhos para a janela, mesmo que estivesse um pouco longe dela, tentando tirar a aeromoça da cabeça. Era impossível. Ariel e Inês estavam nos bancos ao lado. Pareciam dormir. Um voo de mais de dez horas era, certamente, entediante. Se não fosse pela pequena tela, onde podia ver alguns filmes, teria se jogado do avião.
A aeromoça passou mais uma vez.
¿Quieres algo más para beber, señor?
Un jugo de durazno, por favor. — Falou, olhando os lábios pintados com um vermelho forte. Ela percebeu e, sorrindo, saiu com um andar rebolante.
— Um verdadeiro nhoque essa aí, não? — Uma voz grogue saiu do banco do lado. Ariel estava despertando.
— Nhoque?
— É assim que se diz na Itália.
— E o que você sabe da Itália se é espanhol?
Ariel riu. Sorte que Inês não o havia escutado. Voltou a fechar os olhos, deixando Álvaro sozinho com os pensamentos soltos. Deveriam estar chegando. Suas nádegas já não tinham mais posição para ficar no assento. Verificou o relógio. Eram 6:30 da tarde. Tinham mais quarenta minutos de voo, segundo o cronograma.
Aquí está el jugo, señor.
Agradeceu, evitando olhá-la no rosto. Enquanto bebia do suco, buscava algum filme interessante na tela que estava na parte de trás do banco da frente. 500 dias com ela. Não, já havia visto. Um dia. Também já tinha assistido — e odiado o final, ainda por cima. Por que a Anne Hathaway tinha de morrer? Continuou buscando: Bahubali. Era filme indiano e não tinha legenda e nem dublagem. O Ilusionista. O Dia Depois de Amanhã. 2012. Meia Noite em Paris. Por Deus, tinha mais filmes que no Netflix ali e todos ele já havia visto. Depois de buscar incansavelmente, decidiu assistir a um episódio de Grey’s Anatomy.
Pouco tempo depois, o avião se preparava para pousar.
(...)
O clima era agradável em Sevilha. O negro céu noturno estava limpo, anunciando que a manhã seguinte seria de sol.
Os familiares de Ariel os esperavam no desembarque, animados e sorridentes. Abraços saudosos e beijos na bochecha foram distribuídos. Álvaro foi apresentado a eles e, enquanto saíam do aeroporto, a bela aeromoça acenava para um táxi. Um bom presságio, pensou Álvaro. Gostava de pensar que poderia ser possível encontrá-la em algum lugar. Talvez até conversar com ela.
Chegaram à casa dos pais de Inês, onde estariam hospedados. Um apartamento próximo ao Parque del Alamillo. Ariel e a esposa haviam alugado o apartamento do andar de baixo.
Era um lugar espaçoso: três quartos, sendo duas suítes. A sala dava para uma sacada com vista para o parque. Álvaro conseguia imaginar aquele lugar aos domingos, com famílias fazendo piqueniques, namorados de mãos dadas, animais de estimação brincando. Seria bom morar ali. Os quartos estavam arrumados e, após rolar algumas vezes na cama, Álvaro pegou no sono.
A manhã seguinte foi destinada para a mudança. Os móveis da casa no Brasil haviam sido vendidos e, com o dinheiro que conseguiram, Ariel e Inês compraram mobiliário novo. Uma cama de casal, dois criados mudos, uma estante, uma mesa, um sofá e várias outras pequenas coisas foram enchendo o apartamento.
Não pararam para nada. Aos poucos, aquela bagunça de móveis foi se arrumando, dando um ar de “lar, doce lar” para aquele lugar. Álvaro se animou ao saber que à noite iriam a um pub para relaxar após o dia de mudança.
Ele não havia percebido, mas já não pensava em Daniele há uma semana. Talvez estivesse se curando; talvez fosse só porque estava longe. O fato é que Álvaro parecia renovado, um homem totalmente diferente do que vinha sendo nos últimos seis meses.
O que ele não sabia era que estava prestes a se encontrar com algo que o livraria, de vez, da depressão de haver sido deixado.
(...)
Merchant’s Malt House. O pub tinha dois andares e era diferente de todos os pubs que já havia ido. Tinha uma personalidade própria, fugindo daquele estilo irlandês, típico desses bares. As paredes eram vermelhas e verdes e mesas de madeira estavam distribuídas pelo local. Uma música tocava num volume agradável enquanto pessoas conversavam, intercalando as palavras entre os goles de Guinness e mastigadas em azeitonas.
Álvaro passava os olhos pelo local, quando sentiu uma cotovelada de leve nas costelas.
— Diagonal esquerda, junto a duas adolescentes que fumam. Nhoque.
De início ele não havia entendido, mas ao olhar na direção em que Ariel falara, viu uma bela moça. Ela parecia diferente com os cabelos soltos. E, com toda certeza, estava muito melhor sem o uniforme.
— Hoje é o teu dia de sorte, mi amigo. Quem diria que a gente veria essa mulher de novo? Quero dizer, quais são as chances de…
Ariel tagarelava, no entanto, Álvaro já não prestava mais atenção. Falaria com ela? Tinha algo a perder? Era lógico que não. E no final das contas, só seria uma conversa. Charlariam um pouco, bebericando seus drinks e inalando a fumaça dos cigarros alheios.
Deu um passo na direção dela. As suas mãos suavam frio. Dois passos. Reparou que ela tinha os cabelos aloirados. Como não o percebera antes? Três passos. Uma saia de tule branca combinava com a camisa estampada com flores cor de laranja. Quatro passos. Ela o viu. Mostrou os belos dentes brancos, perfeitamente encaixados. Retribuiu o sorriso, terminando o caminho em direção a ela.
Cumprimentou-a, estendendo a mão. “Hola, soy Álvaro”, disse, puxando assunto. Ela devolveu o cumprimento. “Hola, me puedes llamar ‘Ñoque’” e, piscando o olho, riu agradavelmente. Álvaro demorou a entender, mas, quando finalmente compreendeu, seu rosto enrubesceu.
Merda! Ela havia ouvido.
A moça, percebendo que ele ficara sem jeito, tranquilizou-o, dizendo que estava brincando e que já estava acostumada com tais apelidos dados a ela. Puxou assunto. Pelo menos ela havia simpatizado com ele. Gostou de saber que Álvaro trabalhava com publicidade. Contou-o que já tinha estado em mais de cento e cinquenta aeroportos ao redor do mundo e que passava menos de uma semana em casa. Quando perguntada de onde era, respondeu que era de Málaga, mas que a família estava morando em Sevilha mesmo.
Passaram três quartos de hora assim, rindo e conversando. Já estavam, ambos, na quarta rodada de Guinness e sentiam a ebriedade. Vez ou outra, Ariel e Inês passavam por lá, dando piscadelas que diziam mais do que palavras.
Ela fez menção de ir embora. Álvaro, com a ajuda do álcool, criou coragem e a pediu o telefone. A moça, pegando uma caneta, escreveu-o no punho dele. A sensação do toque dela era reconfortante. Agradeceu-a pela companhia e, enquanto a via ir embora, lembrou-se de que não sabia o nome dela.
Correu atrás dela, gritando-a. Ela se deteve, olhando para trás.
Perdona, pero no sé tu nombre. — Respira, arquejando. — ¿Me lo puedes decir?
Sí, por supuesto. Mis amigos me llaman Dani.
Um sorriso se desfez na cara de Álvaro. Inacreditável. Aquilo não podia ser verdade. Lembrou-se da Daniele que fora sua, mas que o traíra. Imagens de um passado destruído começaram a se remontar em sua mente. Eu não a quero, é certo, mas talvez a queira. É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. Neruda estava certo. O esquecimento é um processo longo, mas que um dia, chega ao fim. E o epílogo desse esquecer dependia só dele. Sim. Dependia dele.
Voltando o sorriso ao rosto, ele perguntou.
Pero, dime ¿Cómo se escribe tu nombre?
Ela, sem entender o porquê, soletra: D-a-n-i-e-l-l-e.
¿Con dos L’s?
Álvaro sorriu. Havia um L a mais. Talvez essa letra sobressalente fosse equivalente à lealdade. Ele queria crer nisso.
Vale, muchas gracias.

E, enquanto ela entrava em um táxi, Álvaro percebeu que havia tido êxito nos passos para se reerguer dos chifres.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Penedo - Francinele Valdivino

inverno, 2014

"Mas há sonhos que não podem acontecer e há tempestades que não podemos prever!" (Fantine)

            Houve um tempo em que pensava saber tudo sobre o amor. Significava que compraria flores e me lembraria de datas importantes, como aniversário de casamento, dia dos namorados e coisas do gênero. Também significava que seria eternamente fiel à Júlia e viveríamos juntos. Não seria difícil. Moraríamos numa casa simples em Resende, com jardim de amores-perfeitos e um balanço de madeira. Teríamos um Doblô — Júlia sempre preferiu carros da FIAT — para viagens de férias e idas à Penedo aos fins de semana. Uma filha ou um casal de filhos. Quanto a isso, Júlia nunca fora específica, pois acreditava que o que Deus quisesse seria o melhor. Ela era assim, muito crente, quero dizer, e estou certo que foi essa fé inabalável que me cativou. Mesmo se os nossos sonhos e projetos não fossem realizados, via-me junto a ela, deitado na cama, rindo dos acontecimentos cotidianos.
            Parece simples, não é mesmo?  
            E, na verdade, é simples, mas temos a capacidade incrível de complicar a simplicidade das coisas mais bonitas da vida. E, por mais que eu admita que tenha feito tudo errado, ainda é-me difícil ter de abrir mão. Depois que esse dia acabar, estou certo que nunca mais a verei.
            Mas, por agora, vou-me esconder por entre as árvores que ficam próximas à residência dela: uma casa ao estilo europeu, pintada de vermelho com os umbrais das janelas e da porta pinceladas de branco, um pouco afastada das pousadas e hotéis que enchem o distrito de Penedo, uma antiga colônia finlandesa situada na parte fluminense da Serra da Mantiqueira. Faz frio aqui. Vejo a vegetação branca por causa da geada da noite anterior e recordo-me que Júlia sempre amou o inverno.
            São quase oito horas da manhã e percebo a porta da frente se abrindo, lentamente, e os escassos raios de sol banharem o rosto tenro de Júlia. Uma sensação estranha se apodera de mim. Uma palpitação redescoberta. Ela desce as escadarias da frente da casa e passeia-se pelo jardim. De onde estou, vejo, além dos amores-perfeitos, girassóis e orquídeas-dálmata. As flores parecem estar murchas por causa do frio, mas a presença de Júlia faz tudo retornar à vida. Ela boceja, espreguiça e, por um instante, tenho a sensação de que ela me vê, mas sei que é impossível. Quando você precisa viver escondido, camuflar-se se torna inerente ao seu ser.
            Ouço-a cantarolar e, depois de aprumar meus ouvidos, descubro que a música é “Do you dream of me?”, de Michael W. Smith. Essa mesma música era entoada no meu carro, há tanto tempo atrás, quando, pela primeira vez, peguei-a na mão e disse que a amava. Essa recordação me faz suar, apesar do frio. Júlia entra na casa novamente e, após cinco minutos, retorna para o ar fresco, com uma xícara na mão e um cardigã acinzentado envolvendo o corpo.
            “É tudo sua culpa”, uma voz murmura em meus ouvidos e, apesar de já ter consciência disso, sempre é doloroso. E o único remédio, para mim, é reavivar as memórias que estão guardadas.
            Elas são tudo o que me resta.
            (...)
            Ainda não disse o meu nome. Chamo-me Victor Augusto e sempre gostei da sonoridade, pois me parece imponente. Nasci em Seropédica, perto da cidade do Rio de Janeiro. Costumávamos chamar a cidade, no verão, de SeroHell e a única coisa que realmente fazia o povo se orgulhar era a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Foi lá que me formei em jornalismo e foi lá que a conheci. Era minha primeira semana de aula e eu já estava me sentindo completamente perdido naquela universidade. Em regra, estudantes de Comunicação Social são extrovertidamente loucos, mas eu não sou assim.
Naquela época eu acreditava que quando encontrasse a mulher perfeita, seria amor à primeira vista. Que viveríamos lindas aventuras, que nos casaríamos e pronto, dali em diante seria feliz para sempre. Simples e fácil!
Pois bem meus caros, a grande verdade é que o amor pode ocorrer de várias maneiras e formas. Às vezes ele, sorrateiramente, entra pelas brechas das portas e janelas e se infiltra no seu coração de tal forma que nada mais importará. Seu coração amará e ponto final.
Comigo foi assim. Eu estava sentado de baixo de umas das árvores que cercam o lago da universidade, lendo Les Misérables do meu quase xará Victor Hugo, quando uma sombra surgiu em cima das páginas. Olhei para cima para ver quem era e deparei-me com um par de olhos castanhos, quase pretos, me encarando com ar de deboche.
A garota era minúscula e seu cabelo era de um castanho bem claro, ondulado e cortado nos ombros. Uma boca pequena e vermelha que me lembrava uma cereja. Delicada demais para o meu gosto, mas até que não era de todo feia.
-Você está debaixo da minha árvore, seu “bixo” folgado! - disse a garota.
Era só o que me faltava! Uma veterana chata para me infernizar. Era minha primeira semana e eu já estava com ganas de que fosse a última. Pelo jeito as coisas teriam que ser do jeito difícil.
-Desculpa, mas seu nome não está escrito em nenhum lugar por aqui. Não sabia que era sua. - disse isso encarando-a com o sorriso mais irônico e ácido que encontrei no meu estoque de armas fatais.
- E como você sabe? Você não sabe meu nome…
Aquele rostinho pequeno e rosado estava começando a me irritar, então resolvi que não valia a pena.
-Nem vale a pena descobrir - dito isso, me levantei e saí dali sem olhar para trás.
Procurei esquecer o ocorrido e focar toda a minha atenção nas aulas e em terminar de ler meu livro.
Les Misérables é mesmo uma história incrível. Quanto mais eu lia, mais eu me encantava com a coragem e determinação de Jean Valjean, odiava Javert e sofria por Fantine. Embora tenha um cunho bem social, esta obra traz uma grande lição: uma boa ação pode mudar para sempre a vida de uma outra pessoa.
Eu estava refletindo sobre isso quando vi a garota da árvore sentada do outro lado do refeitório, mordiscando uma rosquinha enquanto lia um livro que eu não conseguia identificar.
Resolvi que era hora de fazer uma boa ação. Fui até lá e, silenciosamente, sentei ao lado dela e fiquei esperando que ela sentisse minha presença. Como eu não tinha certeza se a demora em me notar derivava de sua distração com o livro ou de estar me ignorando mesmo, resolvi arriscar um “oi”.
-Oi, garota da árvore.
Ela sufocou um grito, completamente assustada.
-Você me odeia? Quer me matar? Ou é só um idiota mesmo? - logo em seguida colocou os cabelos atrás da orelha, tentando recuperar a postura.
-Nenhuma das opções. Só queria fazer as pazes, me desculpar pelo outro dia e talvez, quem sabe, dividir uma árvore nos intervalos das aulas.
Ela pensou um pouco e disse:
-Acho que sou eu quem lhe deve desculpas. Eu estava apenas tentando fazer amizade com você, mas acho que escolhi um jeito ruim de começar.
-Tudo bem. Podemos começar de novo, se quiser…
- OK! Meu nome é Júlia, muito prazer Sr. ..?
- Victor - completei. - Victor Augusto de Mesquita, Srta. Júlia…?
- Júlia Caillat!
Eu tinha razão. Um pequeno gesto, uma pequena ação pode mudar tudo. Pode mudar sua vida e a das pessoas próximas para sempre. Aquela amizade iniciada ali, naquele refeitório, mudaria para sempre a minha vida. Meu modo de pensar, de entender e sentir o amor. Júlia se tornaria a razão da minha existência perpetuamente.
Ela estava um ano acima de mim e, durante os três anos que passamos juntos na faculdade, afirmo que foram melhores do que eu imaginava.
Certa vez, uma semana antes da formatura dela, Júlia me perguntou o que eu esperava do futuro. O que eu faria da minha carreira.
-Quero ser jornalista correspondente no Oriente Médio - respondi.
Ela fez uma pausa. Sua expressão estava inquieta e, de alguma forma, eu parecia ter falado algo errado.
-Parece ser um lugar meio longe de tudo, não?!
Sim. Era longe de tudo. Muitos sacrifícios deveriam ser feitos para chegar lá. Deixei de pensar e respondi. - Sim. É longe. - Fiz um silêncio. - Você iria comigo?
(...)
            O sol está mais alto no céu, aquecendo um pouco o ambiente. Júlia não está mais do lado de fora da casa e, enquanto não a posso ver, responderei algo que pode estar martelando na ideia dos que leem.
            Por que a estou observando? É uma pergunta difícil de responder. Não porque seja algo errado, legalmente falando, estar aqui. Mas sim porque a resposta está no passado. Nas minhas pequenas ações e na forma como elas mudaram o rumo do meu “felizes para sempre”.
(...)
Era o último ano dela e eu a ajudei com a monografia e todos os trabalhos acadêmicos. Eu ajudei com os relatórios de estágio, falsifiquei assinaturas de atestados médicos para justificar algumas faltas que poderiam fazê-la reprovar entre outros mil favores. Cuidei de todos os pormenores, exceto o mais importante: dizer o quanto ela era importante para mim.
Eis aí o grande erro das pessoas: elas não dizem o que sentem. Se escondem atrás da muralha do medo e da zona de conforto. A verdade tem um peso esmagador e, quando dita, tem o poder de libertar almas.
Era nítido que Júlia me amara desde o primeiro instante, mas para mim, era algo que não deveria ser levado a sério. Eu tinha uma carreira para construir, lugares para conhecer e naquele momento, não havia espaço para um “nós”. Só muito tempo depois é que fui perceber o quanto a amava. Pena que tarde demais.
Eu poderia ter dito a ela o quanto a amava, mas preferi deixá-la partir. Júlia voltou para Penedo, um povoado pertencente à cidade de Itatiaia, após a festa de formatura. Festa esta que eu não fui porque estava ocupado demais com os preparativos do meu intercâmbio para a Irlanda.
Foi na Irlanda, depois de 2 meses de festas e pegação que eu percebi um pedaço faltando em mim. Era um buraquinho pequeno, sutil no início. Com o passar dos dias descobri uma voçoroca no meu peito. Uma voçoroca chamada Júlia.
Mandei várias mensagens para ela, mas Júlia não movimentava seu Facebook há meses e isso começou a me deixar preocupado. Resolvi voltar ao Brasil e entender o que eu estava sentindo.
Conquistá-la novamente não foi fácil, mas foi a melhor coisa que fiz na vida. Eu terminei minha graduação e decidi que era hora de formar minha própria família. Assim, no dia 03 de novembro, nós nos casamos e os três anos seguintes foram os melhores da minha vida.
Júlia trabalhava como repórter e eu como redator no jornal local de Itatiaia. Era uma vida simples e perfeita. O dia que cheguei em casa e me deparei com um par de sapatinhos de bebê sobre a mesa de centro da sala foi glorioso.
Nesta noite, fomos ao restaurante mais caro da cidade e Júlia escolheu um prato esquisito do qual eu não me recordo. Na volta, eu dirigia tranquilamente pela avenida principal quando meu celular tocou.
Eu reconheci o número do meu chefe. Fiquei com medo de atender. Era tarde da noite e eu havia acabado de saber que seria pai em breve. Não queria estragar aquele momento, mas como Júlia insistiu, atendi. Ele ficara sabendo, por um amigo influente, que estavam precisando de um corresponde na Cisjordânia e havia me indicado!
Eu me desliguei por um minuto, em choque, dominado pela emoção e depois me dirigindo a Júlia, disse:
-Amor, eu consegui! Vou realizar meu sonho. Me fizeram uma proposta para ser correspondente na Cisjordânia!
(...)
Júlia começou a chorar e aquilo, sinceramente, me irritou.
Wanderlust é uma palavra alemã formada pelo verbo "wandern", que significa andar sem rumo específico, perambular e "Lust", que poderia ser traduzido como "drive"ou "craving" em inglês – ou seja, mais que um desejo, uma ânsia profunda. Era o que eu sentia nesse momento: uma ânsia incontrolável de partir.
-Victor, eu estou grávida! Preciso de você. Nosso filho precisa de você. Você terá de dizer não!
- Céus! Como consegue ser tão egoísta?! É meu sonho, nada mais importa. Você terá que entender.
Nossa discussão foi calorosa e tudo aconteceu muito rápido. Lembro de ter perdido o controle do carro e de, no hospital, receber a notícia de que ela havia perdido a criança.
Aquele foi o fim do nosso casamento, claro. Fui para o oriente médio e achei que poderia refazer minha vida e voltar a ser feliz de novo. Ledo engano, prezados, eu não estava pronto ainda.
Quando minha prima Helena me disse que Júlia havia se casado de novo, foi como se aquela voçoroca tomasse conta do meu peito. Como se não houvesse chão para pisar e eu não tivesse asas para voar. Apenas uma queda infinita no nada que a minha vida havia se tornado.
(...)
Mais uma vez, vocês se perguntam: o que você faz aí? Por que está escondido? Eu respondo: vim pedir perdão. Vim dizer que a amo, que nunca deixei de amar e nunca deixarei. Estou escondido porque estou juntando coragem para dizer o que preciso. Tenho feito isso nas últimas duas semanas e meu tempo está se esgotando. Volto para o oriente médio amanhã bem cedo, então, hoje é meu último prazo.
Vejo um cachorro, acho que um filhote de Golden Retriever, saltar do jardim para a calçada, Júlia o está levando para passear. Está mais linda do que nunca. Seus cabelos estão mais curtos que da última vez que a vi e isso deixa seu rosto com uma aparência ainda mais delicada. Meu coração dispara.
Saio do meio das árvores e o pequeno cão corre em minha direção. Começa a morder a barra da minha calça, mas isso não importa porque nesse momento os olhos de Júlia estão fixos nos meus.
-Oi, garota da árvore.
-Olá, bicho folgado.
Ela atravessa a rua e senta na calçada batendo a mão no chão, me convidando a sentar ao seu lado. Eu sento e o pequeno cão deita em seu colo. Sinto uma inveja sufocante daquele cão.
-Ted esperto! - diz ela acariciando a cabeça do mascote.
Percebo então o quão tarde eu cheguei. Já havia me perdoado há muito tempo, disse ela. Havia encontrado a felicidade ao lado de Maurício e o amava com toda a sua alma.
-Sinto muito, Victor!  - uma lágrima escorre de seu rosto, mas a determinação continua lá.
-Eu sou feliz Victor e sei que você também encontrará um novo caminho.
Ela levanta e me oferece a mão em cumprimento e despedida. Eis aí o terrível adeus!
Pego sua mão e a puxo para junto de mim, abracando-a. Ela não resiste e ficamos ali, abraçados. Seu corpo pequeno está colado no meu e seu perfume inebria meus sentidos.
A sensação é poderosa. Eu quero corrigir todos os erros, então volto no tempo, mas apenas em minha mente, para o dia do baile de formatura. Júlia está com um vestido azul marinho que lhe cai muito bem e eu estou lá. Sou seu par. Eu não a deixei sozinha. Nós estamos dançando “Do you dream of me?”, do Michael W. Smith e tudo deu certo… Eu não fui egoísta e covarde e nós estamos juntos.
Abro meu olhos a tempo de ver Júlia pegar o filhote no colo, sorrir para mim e cerrar a porta.
Um vento frio sopra e parece querer congelar meu coração, mas não me importo. Guardo nele o calor daquele último abraço e ele me aquece enquanto desço a rua das Laranjeiras em busca de um novo caminho. Sim, é isso mesmo: um novo caminho!
Alguns podem dizer: insensível! Outros: você não tem alma. Mas a verdade é que a vida é feita de começos e recomeços; embora  nem tudo saia “nos conformes” ou exatamente do jeito que gostaríamos, isso não quer dizer que deu tudo errado. Foi apenas um ciclo que se encerrou para que outro tenha início. Esse é, afinal, o grande “x” da equação.

A vida é simples, nós a complicamos e aí vem a parte mais interessante de todas: porque tornamos a vida embaraçada e insustentável, Deus dá, a cada dia, novas oportunidades, novos recomeços. Sim, Fantine tinha razão: “há sonhos que não podem acontecer e há tempestades que não podemos prever”, mas existe também um pós tempestade e todo um mundo novo, com mil cores e cheiros a serem descobertos. Então, vejamos o que esse mundo novo reserva para mim.