segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A Fotografia - Paulo Cesar Corrêa

    Começo dizendo que este é um pequeno relato sobre a minha vida. Talvez seja algo muito pessoal, mas tenho de escrever, nem que seja para que as memórias se materializem em letras numa tela de computador.
    Sobre o criado mudo, ao lado da minha cama, tenho um pequeno suvenir de um pedaço da minha história que deduzo ter sido o mais feliz.
    É uma fotografia...
    De Letícia.
    Ela está de costas, um forte ao fundo, a água da praia roçando-lhe nos quadris, o cabelo esvoaçando ao vento. Não posso ver, mas sei que ela tem um sorriso no rosto. Primeiramente tímido, depois uma curva meiga — até mesmo sensual — que lhe empresta uma beleza radiante à face. É uma foto antiga e quando a examino de perto, vejo uma mancha marrom-escura no canto superior direito, cortesia de uma espanhola louca que tentou tacar fogo na foto, muitos anos atrás.
    Seguro a foto, só por um instante, e lembro-me de tudo, nos mínimos detalhes:
    (...)
    Quando eu tinha 15 anos, sonhava em ser fotógrafo e viajar pelo mundo.
    Estávamos nas férias de dezembro, em Cabo Frio, eu e minha família. O sol ardia, inclemente, e o vento litorâneo trazia o cheiro de sal para o continente.
    Todos estavam sob guarda-sóis, esparramados em cadeiras de praia, tomando água de coco ou comendo camarões. Meus pais e meu irmão não pareciam se mover, alheios a tudo o que acontecia ao redor.
    Aquilo tudo parecia chato para mim. Eu havia visto uma loja de máquinas fotográficas perto de onde estávamos e não perdi tempo. Fui até lá, a passos largos, indo ao encontro do meu sonho. A máquina da vitrine que eu nem sabia a marca. A máquina que eu não fazia ideia do preço, nem de como se usava. Ela estava lá, me seduzindo, chantageando-me, chamando-me e, aos poucos, minha testa foi-se apoiando ao vidro e comecei a sonhar acordado.
    Não sei por quanto tempo eu fiquei neste devaneio. O que sei foi que escutei uma voz feminina, bem suave e melodiosa, perguntando-me:
    — Você sabe qual é a máquina?
    Afastei minha cabeça e vi o reflexo da menina na vitrine. Ela tinha cabelos negros, lisos em cima e cascateavam, encaracolados, abaixo dos ombros. Os olhos eram como o céu noturno e a pele, leitosa e lisa, refletia a luz do sol. A menina parecia ter a minha idade.
    — Não sei. — Disse, desviando o olhar.
    — Parece uma Nikon D3100 — ela disse.
    — Como você sabe?
    A menina abriu uma bolsa que parecia grande demais para o tamanho dela. Tirou de lá a máquina e me mostrou. Parecia pesar como um tijolo. Mas era bonita.
    — Gosta de fotos? — Ela me perguntou com uma sobrancelha arqueada.
    Simplesmente meneei a cabeça. Nunca fui bom em falar perto de meninas bonitas e minhas bochechas enrubesceram. Mal consigo olhá-la, mas vejo um lampejo de um sorriso, os dentes perfeitamente encaixados.
    Ela suspirou. — Quer que eu te mostre como usar?
    Lembro-me que meus olhos adquiriram um brilho travesso e disse que sim. Que era tudo o que eu mais queria. Ela deu uma risada e disse que se chamava Letícia. Cumprimentei-a, dizendo o meu nome: Douglas. Ela tem as mãos macias, aveludadas e um calor confortável.
    — Você já tirou alguma foto antes?
    — Não — eu disse — Não com uma câmera dessas.
    Letícia resolveu que seria bom que eu tirasse a minha foto na Praia do Forte. Ela me mostrou todas as ferramentas da câmera, dizendo sobre o ajuste da abertura da lente, da velocidade e do ISO. Também me disse que era bom eu ter um ponto de apoio, para que a foto não ficasse tremida.
    — Vai ficar uma foto perfeita — Ela comentou. — Com essa paisagem e tudo o mais.
    — Quase perfeita. — Eu disse. — Precisamos de um tema.
    Fiquei surpreso comigo mesmo quando disse aquilo e vi um leve rubor nas bochechas de Letícia. Um tom de vermelho que me fazia lembrar o blush que minha mãe usava.
    Ela contestou, dizendo que não podia fazer isso e ficamos argumentando por algum tempo e a menina, finalmente, acabou cedendo. Letícia tirou as sandálias, pondo os pés delicados na areia compacta. Depois, tirou o pequeno short e a camiseta, revelando um biquíni branco, como o leite. Seguiu em direção ao mar, lentamente. As ondas rebentavam contra algumas pedras. Vários surfistas estavam levando “caldos” vergonhosos e, ao horizonte, o céu se encontrava com a terra num abraço infinito. Ela tentou, em vão, arrumar os cabelos, pois o vento os fazia balançar. Era perfeita, para mim, aquela imagem. Então, ela se virou para trás e me disse:
    — Conte até 35, ok?!
    Virou-se outra vez para o mar. Eu não havia entendido o porquê de contar até 35, mas supus que ela quisesse tempo para arrumar a melhor pose. Ajoelhei-me, fazendo de um dos meus joelhos o meu ponto de apoio.
    Um... dois... três... quatro...
    (...)
    Estou deitado na cama, as persianas fechadas, mas consigo ver o rosto de Alejandra. Uma caixa de pizza está no chão e alguns copos sujos, jogados pelo quarto do hotel. Eu a havia conhecido no dia anterior, num pub em Zaragoza. Espalhadas pelos lençóis da cama estão as fotos de minhas viagens que mostrei para Alejandra. Fotos de Varanasi, Sidney, Montevidéu, Buenos Aires e Paris. Mostro as fotos de um congresso que fui, em Zurique. Outra que tirei de vários skinheads, em Viena. Alejandra observa que não estou em nenhuma das fotos.
    — Eu prefiro ficar atrás das lentes — explico e é verdade.
    Oito... nove... dez... onze...
    Alejandra apoia-se nos cotovelos em cima da cama e encosta-se a mim. Estende a mão até um maço de cigarros Marlboro, pega um e acende. Eu estava cansado e disse que, se ela quisesse, podia olhar as fotos enquanto eu descansava.
    Depois de meia hora, sinto uma cutucada nas costelas. Abro os olhos, atordoado, sentindo o cheiro forte do cigarro.
    — ¿ Esta chica es tu novia, hã? — pergunta, em espanhol. Ela havia encontrado a foto de Letícia na praia. Alejandra queria saber se a menina da foto era minha namorada.
    — No. — Respondo.
    — ¿ Su cohabitación o hermana? — Perguntou se era a minha amasiada ou irmã.
    Simplesmente nego com a cabeça. Alejandra fica a olhar para a foto e para mim. — Creo que ella es tu esposa! — E, depois de falar isso, pega o isqueiro e começa atear fogo na foto. Entro em desespero. Pego as fotos, minhas coisas e saio.
    Quinze... Dezesseis... Dezessete... Dezoito...
    De repente, mando o motorista do ônibus parar e dar meia volta, pois tinha esquecido algo em Jerusalém. Ele murmura qualquer coisa em hebraico, mas não consigo entender. Depois, em inglês, diz que é inviável, pois o risco de ataques dos palestinos é muito grande.
    — It’s really important!— Digo que é muito importante, mas ele nega com a cabeça. Desço do ônibus, determinado a não deixar nada para trás.
    — What is so important? — Ele me questiona enquanto pego minhas malas.
    — Uma fotografia.
    Eu a tinha esquecido na recepção do hotel, pois havia tirado da minha carteira, para olhar e, por alguma razão, não devolvera ao lugar. Quando cheguei, a fotografia ainda estava sobre a poltrona de couro. Fiquei aliviado. 
    Vinte e sete... vinte e oito... vinte e nove... trinta...
    Em Pequim, durmo sob viadutos. Amsterdã, num albergue junto com viciados em LSD. Às vezes, esbanjo um pouco e vou para um hotel, tomar banho e fazer a barba. A fotografia sempre comigo.
    No Minato Mirai, em Yokohama, vejo o sol se por, deixando um reflexo chamejante nas águas do Pacífico. Conheço dois alpinistas que escalaram o Everest, no Nepal. Recuso uma refeição de insetos, na Tailândia.
    Em Los Angeles, vejo as estrelas brilharem. Em Montreal, tremo com o frio da noite, mas o pensamento daquele dia ensolarado numa praia de Cabo Frio me aquece e consigo dormir.
    Trinta e um... trinta e dois... trinta e três...
    Acordo num lugar que me parece ser um hospital. O ar está pesado e cheirando a remédios. Um ventilador de teto mal refresca o ambiente e, pelos murmúrios ao redor, sei que muitas pessoas estão esperando para serem atendidas. Pergunto para um enfermeiro onde estou e ele diz, em urdu, que estou na Somália. Pela sua vestimenta, sei que ele é um muçulmano e, depois de um tempo, pergunto o que estou fazendo naquele hospital.
    — Malária. — Ele respondeu. — Mas se Deus quiser o senhor ficará bem. Allah u Akbar. — Ele diz que Alá é grande, em urdu.
    Pergunto sobre as minhas coisas. Que coisas?, pergunta o muçulmano. Todas as minhas coisas sumiram. Minhas roupas, máquina fotográfica, meu dinheiro. Tateio o meu bolso e suspiro. A foto ainda está lá.
    — Quando eu vou sair daqui?
    Ele olha para baixo e diz que, provavelmente, eu não saia.
    Pego a foto. Letícia, seu cabelo esvoaçado, os pés descalços, o biquíni branco. O Atlântico furioso, lançando ondas espumantes contra as pedras. O forte. Sinto um nó na garganta. “Não quero morrer aqui”, pensei, “longe dela”.
    Passa-se uma semana e melhoro. Os remédios respondem bem e recebo alta.
    Vou à Irlanda, Noruega e Dinamarca. Ando nos belos ônibus avermelhados de Londres e nos riquixás coloridos de Nova Délhi.
    Só então, finalmente, volto para casa.
    Trinta e quatro... trinta e cinco.
    Clico no botão e a foto é tirada.
    (...)
    Não sei o que dizer dos meus sentimentos sobre a menina da foto. Nunca mais a encontrei depois daquelas férias de verão e admito que foi minha culpa. Eu devia ter dito alguma coisa, qualquer coisa que a fizesse saber que ela era importante para mim. Mas não fiz.
    A história está chegando ao fim. Desligo o meu notebook e me levanto da escrivaninha. Minhas costas doem. Como doem!Deito-me na cama e passo os lençóis por cima de mim. Neste momento — sempre neste momento — tudo vem para mim com uma força colossal: eu estou com a máquina nas mãos, Letícia está tirando as sandálias, lentamente, como se fosse numa slow motion. Tira o short, a camiseta. Seu andar é sublime. Ela põe os pés na água. Um pelicano voa ao horizonte e vários pássaros marinhos alçam voo ao mesmo tempo, formando um imenso V no céu. O biquíni branco parece ser algo celestial, os cabelos de Letícia se agitam. O farfalhar do vento é como uma música. Sim. Uma música. E lá em cima, perto das nuvens, uma pipa plaina, suavemente. As águas já batem nos quadris dela e, então, estagna. Letícia se vira e me pede para contar até 35. Eu conto, tiro a foto e ela volta para mim. Sorri. Põe a mão direita na minha face e, inclinando-se um pouco, me dá um beijo agridoce.
    É com esta sensação que fecho os olhos, vagarosamente, e durmo.







sexta-feira, 17 de maio de 2013

Download do Livro Corsário Solitário

Acabo de lançar meu primeiro livro em formato digital. A obra Corsário Solitário trata-se de alguns textos que escrevia anos atrás em um blog e que resolvi unificar e transformar em livro. A arte da capa foi feita pelo meu grande amigo e designer Rafael Maciel. A revisão da obra foi feita de maneira colaborativa por amigos e familiares. O grande mérito da produção do livro foi o aprendizado e a experiência adquirida ao revisar e diagramar todo o material. Devo um enorme agradecimento a todos os envolvidos nesse projeto. A seguir o link para download:

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Um borrão preto percorria aquele marrom intenso - Caio Machado



Não esperava nada além do tédio. Anualmente nos encontrávamos na casa de Rodolfo para celebrarmos a existência de nossa família. Ou algo relacionado à união dela, que eu particularmente não conseguia notar. Rodolfo Couto era o quinto irmão de meu pai. Sete anos mais novo do que ele, fez carreira militar no Rio de Janeiro e se casou bem moço. Não fosse pela suposta união da família ele jamais teria retornado para Maringá, onde o resto todo dos Couto ainda residia. O casarão que ele morava ocupava uma área nobre da cidade e de comum acordo de todos era o melhor lugar para sediar a celebração. Chacotas e bajulações à parte, o que mais me agradava nisso tudo era a comida em abundância e em estrondosa qualidade. As enormes panelas postadas no forno à lenha davam um ar mineiro. O bucolismo existia pelo fato que a festa ocorria sempre no enorme quintal do casarão. Infelizmente, o almoço só seria servido às quatro da tarde e no decorrer do dia beberíamos e comeríamos alguns petiscos.
Mônica Kaneshiro era a esposa de outro tio meu. O casal vinha do Japão, de onde não regressavam desde 1997. Mônica entrou na casa acompanha de Fausto Couto e de uma moça que até o momento eu sequer sabia sobre sua existência. Aparentando seus dezoito anos, a garota tem o cabelo negro azulado em um liso irregularmente ondulado. Os traços do rosto são bem arredondados e orientais. Os olhos eram bastante puxados e grandes, protegidos por uma estreita e corredia sobrancelha. Os lábios eram curtos e rosados. Seu corpo tinha curvas sinuosas o bastante para que a moça pudesse ser confundida com uma típica brasileira formosa. Senti-me estupefato com o ar indiferente que ela carregava e com sua beleza desnorteante. Dei-me por convencido de que iria conhecê-la naquela tarde. E não perdi um segundo sequer. Após todos cumprimenta-los tratei de encaminhá-los pelo casarão arranjando-lhes um lugar um pouco mais isolado de todos. Sentei-me junto ao trio à mesa. Tio Fausto estava satisfeito com a atenção que eu prestava a eles. Parecia que eu era o único ali interessado em conversar com eles, o que de certa forma os agradava muito. Mônica era mais reservada, limitando-se a apenas responder o que eu perguntava e a sorrir quando necessário. A garota não deu um pio e olhava para os lados frequentemente. Seu nome era Clarice e ao nos apresentarmos ela me fitou de maneira tão fixa que senti um estranho desconforto. Contei para eles que abandonei a faculdade de Física quando recebi uma proposta de trabalhar como gerente de uma agência de encomendas e eles ficaram surpresos. Não dei maiores detalhes, mas a partir daí Clarice não desgrudou mais seus olhos de mim. Ela disse que iria até a cozinha buscar algo para beber que lhe agradasse e eu decidi acompanha-la. Novamente a satisfação evidenciou-se no casal e eu de certa forma senti que isso representava um sinal verde para nos dois.
No caminho até a cozinha, ela não disse nada. Entrou pegou um copo de limonada na geladeira e misturou com um chá mate que estava em outra jarra. Limitei-me a segui-la com um copo de refrigerante. A garota andava de forma majestosa e pausada. Ou eu estava bastante apaixonado ou seus pés que calçavam um par de sandálias fechadas mal tocavam ao chão. Ao invés de voltar para a mesa de seus pais ela sentou-se em uma mureta próxima a área de serviço da casa e me perguntou se eu queria saber por que ninguém a conhecia. Rapidamente ela se corrigiu dizendo que todos fingiam não a conhecer. Demonstrei interesse e acenei com a cabeça dizendo que queria saber mais sobre isso. Ela não me deu um detalhe sequer de sua vida. Disse-me apenas que ninguém da família tem fotos dela e que alguns prefeririam que ela nunca tivesse existido. Contou-me que nos anos que passou no Japão desenvolveu uma doutrina própria onde era necessário estender um lençol lilás por sobre todos os móveis da cozinha para que sua crença se estabilizasse. Além disso, sete contas feitas com bordado e conchas do mar deveriam estar ao redor de todos os vasos sanitários de sua casa. Feito isso ela atingiria seu singular nirvana num transe excêntrico e solitário, pois claro, só ela seguia sua doutrina. Naquele momento eu estava de fato fascinado com tudo aquilo que ela me dizia, mas meu interesse maior era apenas carnal. Ela me prendia pelo seu jeito único e claro, pela sua inalcançável beleza.
Repentinamente seu olhar se tornou estático ao notar que um gato caminhava pelo muro da casa. A parede era repleta de lodo e folhagens, o que sugeria um aspecto bem gótico e assustador. Aquele gato branco se arrastava suavemente pelas relvas. Como que se recitasse uma oração Clarice sibilou algumas palavras que remetiam a elegância e discrição do andar dos gatos. Algo sobre como eles sobreviviam em qualquer situação e repetia firmemente que viver pensando só em si próprio era a melhor qualidade que o homem poderia ter para si observando o estilo de vida gatos. Assim que o bichano pulou para a rua ela saiu de sua súbita hipnose e me disse que no seu bolso se encontrava a única foto que havia sido feito dela. Com sua pequena mão esquerda ela retirou um recorte amarelado de jornal e me entregou com um bizarro sorriso no rosto. Um torcer de lábios de um mistério tão vasto que só se via algo similar no quadro da Monalisa ou algo que o valha. A notícia do jornal era sobre o massacre de crianças em uma escola primária no Japão. A assassina era Clarice Couto Kaneshiro, que na foto carregava uma submetralhadora, trajava um uniforme escolar escuro e não ilustrava nenhuma feição em seu rosto. As cores gritantes e o mau gosto evidenciado pela escolha da foto acusava o caráter sensacionalista do jornal que noticiou o ocorrido. A nota curta não dava muitos detalhes e limitou-se a comparar a garota com os jovens assassinos do massacre de Columbine. Aquele foi o único jornal brasileiro a relatar o ocorrido, no Japão a imprensa foi totalmente barrada. Por incrível que pareça a notícia não me chocou nem um pouco e o sentimento que ardia em meu peito incrementou-se ao olhar novamente para Clarice após ler o jornal. Meu coração parecia que iria explodir, eu nunca havia sentido isso por ninguém. Clarice notou o que eu estava sentindo e se aproximou de mim. Nossos lábios se tocaram por automatismo e ela não se mostrou evasiva. Beijamo-nos longamente e ela não hesitou.

            (...)

Clarice tomava seu chá gelado. Seus colegas de classe preferiam café. O gatinho marrom de Clarice se chamava Sembe. Já era habitual que o felídeo ficasse aos seus pés enquanto ela tomava seu chá. Por estranhar tanta gente na cozinha o gato deitou-se ao lado de um dos garotos que tomava café. Katsuhito era um garotinho muito efusivo e adorava traquinagens. Não se aguentou ao ver o gato bocejando de sono e derramou café no dorso de Sembe. O gato estremeceu e num berro de dor se jogou janela a fora num salto imenso. Todas as crianças se esbaldaram em risos de escárnio. Clarice mirou Katsuhito sem qualquer expressão facial. Espatifou sua xícara no chão e vociferou para que todos fossem embora dali.

 (...)

Clarice contou-me que após o ocorrido passou sete anos internada em clínicas, submetida a intensas sessões psicológicas perante ingestão de medicamento pesado. O curioso é que seu tratamento ocorria em paralelo ao de alguns colegas que sobreviveram e também com pais de alguns outros que ela havia assassinado. Ela sorriu sem som e disse que não sabia por que tinha feito aquilo. Disse que encontrou a arma no cofre da casa de uma colega enquanto brincava de pique-esconde. A garota era filha de um oficial, que por distração não havia trancado a caixa no dia em questão. Ela guardou a arma discretamente em sua mochila. Na manha seguinte, entrou na sala de aula e disparou contra alguns de seus colegas. Detalhou que quando atirava a pressão que a arma exerceu contra seu corpo à fez ver intensos clarões lilases e que foi a partir daí que passou a dar vazão a sua própria doutrina. Ela necessitava de sentir aquilo tudo de novo. Voltamos a nos beijar. Dessa vez por decisão minha. Clarice pareceu não estar gostando do rumo que isso estava tomando. Disse-me que assim seria mais fácil e correu para o interior da casa. O sentimento que passava pela minha cabeça é que eu realmente havia estragado tudo. Eu devia ter tentado entende-la, questionando-a mais sobre o ocorrido e sucessivamente mostrando-me interessado. Decidi não ir procura-la por agora e me juntar aos seus pais.
Novamente conversei com Fausto e afirmei que sua filha era uma rapariga muito especial. Ele me retribuiu com um riso sonoro e sincero. Seus olhos realmente brilhavam e assim faziam-se também os de Mônica. Um calafrio percorreu minha espinha, pois pela primeira vez naquela tarde passei a suspeitar de algo estranho, já que o casal trajava roupas com os mesmos tons escuros que os do uniforme usado pela filha na manhã do massacre. Tornei a mesa onde se encontravam meus pais e recordei-me amargamente do hostil terreno de “união” no qual me encontrava. Era evidente que todos ali buscavam apenas a herança de meu avô. O patriarca Dantas Couto já andava com um pé na cova. Dividir os bens com catorze filhos com certeza não será uma tarefa simples de resolver. Pra piorar o velho decidiu que sua família não necessitava de testamento já que todos se amavam por igual. Pudera eu me fazer de bobo de maneira tão hiperbólica.
O gato branco regressara ao muro e já era hora do almoço ser servido. O delicioso aroma recendia por todo o jardim. Meu estomago roncava e minha boca estava inundava de saliva. O mais engraçado é que o sentimento de paixão intensificava essa fome de uma maneira muito excêntrica. Eliza Ribeiro Couto, esposa do anfitrião da casa foi quem destampou as desmedidas panelas. Enquanto isso o marido agradecia a presença da enorme família e salientava o quanto estava feliz por ter uma família tão harmoniosa. O senil Dantas sentia-se bastante orgulhoso em sua cadeira de rodas e foi o primeiro a despregar um prato vazio da mesa para se servir. Ao puxar o pesado prato de porcelana um pedaço de papel revelou-se na mesa. A seguir, todos que pegaram um prato tiveram a mesma surpresa. Ao terminar de ler o papelucho, Dantas deixou o prato deslizar de sua mão e inesperadamente desmaiou causando imediata preocupação em todos os presentes no casarão. O velho estava morto. Um longo silêncio percorreu o jardim onde todos agora liam o papel que se encontrava debaixo de cada prato. Tratava-se de cópias do recorte de jornal que noticiava a chacina na escola de Clarice. Era evidente que os papeis haviam sido recortados de jornais, mas tudo soava meio falso, pois não havia nada nas costas dos recortes.
O longo silêncio foi cortado pelo som de passos vindos à direção da cozinha do casarão. Clarice calçava um sapato preto bastante lustrado, uma saia preta de brim e uma blusa azul escura. Tratava-se do mesmo uniforme que a garota usava no incidente da escola e também das mesmas cores que vestiam seus pais. A submetralhadora em suas delicadas mãos também parecia ser a mesma. Sua beleza continuava lá, intacta. Superior. Como se um marcador de livros em um álbum de fotos estivesse sido retirado da última imagem que tive de Clarice. Seus pais já não se encontravam mais na mesa e dessa vez três gatos postavam-se ao muro dos fundos. O gato branco, agora acompanhado de um casal de gatos negros, observava a família Couto por cima da parede. Clarice entrou repetindo uma frase curta de maneira estática e automática. Não parou de proclamá-la nem mesmo enquanto puxava o gatilho e dizimava sua família, que segundos antes a repudiava por provocar a falência de Dantas Couto. Sabia que sua suave voz seria a última coisa que ouviria e sequer senti medo. Que fim melhor todos nós poderíamos ter? A garota alvejava um por um e a assustadora indiferença em seu rosto novamente fazia com que meu coração chacoalhasse em meu peito. Os gatos assistiam ao banho de sangue com intensos miados e pareciam extasiados com um febril brilho lilás que refletia o vitral da cozinha com o clarão dos tiros disparados. Fui poupado pela moça e observava tremendo, o sangue se misturando por todo o chão do jardim. Os gatos se aproximaram e para que não se sujassem de sangue saltavam levemente de corpo em corpo pelo chão. O trio se aproximou de mim, mas logo saíram em disparada quando fui baleado no estomago por Clarice. Sua voz repetia a mesma coisa desde que saiu de dentro da cozinha.

            (...)

Sembe cortou-se ao pular da janela da cozinha, pois caiu bruscamente em cima de uma torneira que ficava no jardim da casa de Clarice. Não resistindo às dores da queimadura e do corte, o bichano morreu ali mesmo. A garotinha o encontrou enquanto ele solfejava seu último miado. Sua dor refletia a mesma dor que a de Clarice sofria por perdê-lo. Um borrão preto percorria aquele marrom intenso.

domingo, 28 de outubro de 2012

Ela será só minha - Caio Machado

Os pingos de chuva coloriam em tons mais escuros do que habituais às calçadas, ruas e pisos por todo o chão. A terra é subitamente umedecida e se torna viscosa, superfícies lisas se tornam escorregadias e perigosas. Meus trajes imundos logo começarão a encharcar e meu vasto e crespo cabelo não absorverá muito da água. A boa notícia é que a tempestade aliviará um pouco do calor e do clima seco deixado em setembro pelo mês de agosto. A má notícia é que eu não tenho teto.
Lembrei-me da ponte situada na avenida que eu saberia o nome se soubesse ler. Pensando bem, ao menos consigo distinguir uma rua de uma avenida. Serão três quadras de um sôfrego caminhar e a probabilidade de meus pertences não molharem e da rua não se inundar é nula. Mais vale um chão seco e duro, do que um chão macio e molhado. Minhas caixas de papelão com meus mantimentos derreterão, mas eu as levarei assim mesmo. Meu cantil já está seguro em meu bolso e um breve gole será um tanto quanto encorajador.
Pés descalços em superfícies alagadas sempre resultam em infortúnios. O primeiro corte foi no calcanhar e o pior de tudo é que eu sempre evitei aquela imperfeição do asfalto. O desespero te confunde e te torna seu pior inimigo, mesmo quando você conhece perfeitamente todo o itinerário a ser seguido. Felizmente meus calos transformaram a sola dos meus pés numa resistente crosta.
Um cão esquelético e ensopado atravessava a rua vagarosamente. A ausência de raciocínio não faz com que a chuva incomode aquele animal errante. Eu provavelmente estou com mais fome do que ele. E olha que minhas costelas nem estavam assim tão expostas. Nem todos os cães conhecem o álcool e seus benefícios relacionados à fome e a dor. Minha luta agora era por um lugar seco para repousar e não por alimentos. Se fosse isso comeria até mesmo aquele magérrimo cachorro.
O sangue do meu calcanhar pintava cada poça que eu pisava. A dor do corte logo foi substituída pela sensação de frio que fazia meu corpo ulcerado tremer. Nas noites frias, as estrelas são como flocos de neve. Naquela noite eu não teria essa singela distração que sempre pulsava congelada no céu. Pior ainda são os banhos que eu sempre tomo por cada carro que cruza meu caminho. Lancei um olhar de desprezo para cada motorista que jorrou água em mim. Praguejei para que seus filhos morressem em uma enchente ou algo que valha.
Queria saber quando foi que o ser humano tomou os mendigos por desalmados e meros objetos de diversão. Garotos que jogam meus pertences em córregos, pessoas que me expulsam de estabelecimentos e já ia me esquecendo dos outros mendigos que roubam minhas moedas na cuia de esmolas. A maldade em si está em qualquer homem, não escolhe a condição em que ele vive. Ao nascer, a sociedade é corrompida pelo homem, e não o contrário.
Minhas únicas aliadas, naquela noite chuvosa eram as marquises de edifícios, que se tornavam praticamente sazonais. Varandas de alvenaria e toldos também são todos bem vindos. Acentuam o frio, mas me deixam menos exposto ao temporal. Árvores são traiçoeiras. Quando não despeja na sua cabeça a água acumulada em suas folhas, estão servindo de para-raios. Evitei todas as possíveis.
Dali já avistava a parte inferior da ponte em que me abrigaria. Ela será só minha. Nenhum dos infelizes que furtavam minha cuia de esmolas estava na área. Aquela ponte era mais suculenta do que um prato feito. Remendava minhas angústias mais do que um trago de conhaque. Superava até o amor materno que nunca tive ao ser abandonado ao nascer. Ela será só minha. Por um instante eu até me esqueci da chuva. Obrigado por me trazer de volta a realidade, trovão.
O maior desafio do trajeto era descer até a ponte. O concreto estava úmido e o lodo se tornou ainda mais pegajoso. Dois passos. Três passos. Ela será só minha. Eu estava quase lá. No quarto passo, o fundo da caixa de papelão cedeu e todos os meus pertences caíram rio abaixo. Dane-se, estou a salvo. Cinco passos, seis passos. Ela será só minha. Já conseguia avistar o local, totalmente seco e mal iluminado. Deitado me imaginava, apenas ouvindo os gritos da chuva martelando o asfalto acima de minha cabeça.
Nem percebi que havia pisado em falso e que agora estava caindo em direção ao córrego. As pedras da barragem me avisaram do ocorrido. A dor na coluna só não é mais gritante do que a dor da fome. Provavelmente quebrei umas sete costelas, quatro dentes e outros inúmeros ossos dos quais eu nunca soube os nomes. E por falar em números, vinte deles serão gastos em minutos para que o nível da água suba e me mate afogado. Nem sequer um velório digno eu terei. Como se algum instante em minha vida paupérrima tivesse sido digna. Amigos e familiares num enterro? Provavelmente a água me enterrará. Permaneço estagnado ao chão contemplado minha última ambição em vida. Ela será só minha.

sábado, 22 de setembro de 2012

O Caso - Henrique Donancio


Parecia um dos casos insolúveis de seriados norte americano, mas era real. Eu e minha equipe há seis meses estávamos exclusivamente dedicados ao caso sem ainda uma pista concreta que nos guiasse a uma resolução, quando então parecíamos próximos de algo, isso se tornava mais longínquo do que de fato era, andava impaciente. A última vítima fora o rico Otávio Medeiros, dono da maior rede farmacêutica da região e como pista apenas um escândalo em 2003 quando então teria sido indiciado por contrabandear e adulterar antidepressivos, anticoncepcionais e remédios para o controle cardíaco. Sem justificativas, duas mulheres o processaram por engravidar quando tomavam do remédio, o problema é que a prova já havia sido consumida, a população ficara desconfiada durante alguns meses, mas brasileiro tem memória curta e atualmente os seus negócios fluíam normalmente. Quando foi encontrado Otávio tinha marcas em suas costas do que parecia ter sido talhado por um salto agulha, estava sem os sapatos e meias e apenas a calça e a peça íntima o vestiam, parecia não haver indícios de qualquer espécie de ato sexual, pedi então que Natasha investigasse coletando amostras de qualquer coisa que houvesse tocado seu órgão, quem sabe vestígios de saliva, pois do contrário tratar-se-ia de mais um crime perfeito do nosso procurado, o sexto.
Uma coisa me deixava confiante em relação ao caso, pois todas as vítimas de certa forma haviam causado algum tipo de dano à sociedade e eram bem sucedidos. Outra coisa me intrigava... Não acreditava por mais que tudo me levasse à constatação de que era apenas um assassino agindo, apesar da brutalidade sempre deixar evidente uma marca pessoal dele a forma como se davam eram opostas a antecessora. Como o delegado da nossa jurisdição que teve o couro cabeludo e crânio cortado em círculo deixando a massa cerebral exposta ou o caso de Otávio, não tinha uma linha a ser seguida, algo que marca um serial killer, uma assinatura deixada nos seus crimes.
- Com licença.
-Entre Natahsa, me traz alguma novidade?
-Analisamos o corpo e o resultado nos indica que a vítima como imaginávamos não chegou a ter relações sexuais antes de sua morte.
-Tem alguma suspeita?
-Nenhuma senhor.
-Obrigado, é só por enquanto.
Maldito seja, até quando e quem estaria a ter tanta necessidade por sangue. Seria uma vingança? Um acerto de contas doentio? Quando ele iria parar? Maldito seja!
-Com licença senhor, o prefeito está na linha.
-Pois não senhor.
-Espero Charles que dessa vez me traga uma solução, já basta seu cretino, é ano de eleições ou será que não percebes? Todo meu eleitorado está em prantos, a segurança pública está em risco e o seu maldito departamento está de braços cruzados...
Desligo então, já não mais suporto esse corrupto me cobrando respostas, ainda mais quando possui certa razão.
-Charles, então, muito ocupado?
-Por favor, entre Natasha, são só preocupações sobre esse caso.
-É, ando preocupada também, ainda mais quando se trata de uma sexta-feira treze como esta.
Dou-lhe uma risada. - Então acha que nosso assassino é um mascarado?
-Quando se trata de psicopatia tudo é possível não?
-Sim, mas o que tens a mão?
-Apenas papéis e ingressos para um cinema, que tal?
Eu não deveria, ainda mais quando minha situação com Paula ainda estava pendente. Estava me separando, deixando minha casa e meus filhos. Se não fosse por todos os problemas talvez tivesse recusado o convite.
Parece bom o filme, mas receio que nem nos seus momentos de folga você esqueça que é uma militar. Disse a Natasha já na porta do cinema.
-Na verdade sim, mas é que este tipo de arte me atrai mais que outras, serve-me de inspiração.
-É tudo que necessitamos nesse momento Natasha, este último caso já requer inspiração, uma vez que já não encontro razão.
-É melhor deixar isto cair por hoje, vamos nos divertir e relaxar um pouco.
Natasha era inteligente e uma boa companhia. Calma e com uma voz serena além de muito atraente. Confesso que por uma noite me fez esquecer-se de todos os problemas e isso teria aberto um pouco mais a visão sobre tudo que estava a acontecer. Conversamos bastante logo após o cinema e pude notar que tínhamos alguns suspeitos em comum numa conversa extraoficial. Não pude deixar-lhe de convidar para tomar um vinho em casa ao fim da noite.
Ao fim do expediente fui visitar meus filhos e tomar um pouco de conhecimento do principal suspeito da nossa constatação na noite interior. Era o padrasto dos meus filhos, o homem com quem Paula estava a morar.
Ao chegar notei que todos estavam na sala assistindo TV antes de tomarem seus rumos com a minha chegada. Emanuel era sobrinho da última vítima e também seu sócio nas redes farmacêuticas, estudara medicina. Quando que quase sem a intenção, olhei para a TV e me deparei com a cena em que Lecter retira o couro cabeludo de sua vítima e então prepara seu cérebro. Aquilo me deixou em choque... Teria sido ele que matara o policial, e talvez seu próprio tio, já que se tornaria sócio majoritário com sua morte.
-Esses filmes não são apropriados para as crianças Paula.
-Eu sei o que é apropriado para eles Charles, agora se não se importa gostaria que as levasse o mais rápido, suas visitas andam cada vez mais estressantes e Emanuel anda passando por momentos ruins agora com a morte de seu parente.
Sabia por quais momentos ele andava a passar, mas tentei disfarçar sendo um tanto educado. Disse-lhe adeus, mas não pude deixar de sentir que me andava a fitar com certa obsessão.
No dia seguinte, quando deixei as crianças na escola tomei o rumo da casa de Natasha, tinha de compartilhar minhas descobertas...
-Oi Charles, que surpresa, não estava a te esperar.
-Atrapalho?
-Não entre.
Natasha também era um tanto recatada, cheguei por um instante a achar que não queria minha presença. Foi de certo isso quando nos deitamos e vi algumas marcas no seu corpo, ela teria alguém e eu só servira como distração naquela noite. Ao fim contei-lhe tudo que achava do nosso suspeito e ela pareceu confiante nas minhas descobertas. Cabia a nós agora colher algumas evidências e terminar logo com tudo isso. Trataria de ficar com meus filhos enquanto tudo se resolvia e pedir que alguns de nossos homens rodeassem minha antiga casa a fim de cuidar para que não oferecessemos risco a Paula.
Quando cheguei ao escritório mais uma vítima havia sido achada, e por incrível que pareça a morte teria sido talhada com uma serra elétrica, era o fim da minha paciência e de todos os governantes, agora todos queria a minha cabeça e se não mais pude do que decretar a prisão preventiva de Emanuel enquanto buscava provas.
Fui até a sala de Natasha para lhe pedir que procurasse amostras de DNA nas roupas do nosso suspeito...
“Que bom que temos esse assassino preso”, disse quando noticiei a prisão.
Nos dias seguintes mais vítimas e Emanuel preso. Além do seu álibi, a Paula, na sexta-feira treze. Por mais que guardasse alguma magoa de si, ainda confiava na sua índole. Além disso tinha a vítima com marcas do que parecia ter sido causado por um salto de sapato feminino, as coisas não se encaixavam.
Voltei à sala de Natasha para saber se já me trazia alguma resposta, a situação já era insustentável e minha cabeça já estava por rolar...
Dei-lhe uma carona no fim do expediente, dormimos juntos mais uma vez, conversamos... Nosso único suspeito estava sobre nossas asas quando mais crimes aconteceram e não havia provas nenhuma contra ele. Paula ameaçou entrar na justiça contra mim, talvez por achar que usei minhas responsabilidades para minar sua relação, e de certa forma ela tinha suas razões.
Acordei no meio da noite, andei pela casa de Natasha como um sonâmbulo. Era de certo minha demissão no dia seguinte e isso me tirava o sono. Bisbilhotei seus livros, seus filmes, tudo que me distraísse e fizesse as horas passarem, assim o fiz...
-O que está fazendo acordado?
- Notei que gosta de filmes como aquele que assistimos, os “Homens que não amavam as mulheres”, não era esse?
-Sim, mas não devia mexer nas minhas coisas sem minha permissão. Notei que ela se alterara bastante.
-Desculpe, não foi minha intenção lhe incomodar.
-Saía agora.
Por qual motivo Natasha se incomodara tanto foi o pensamento que me tomou na volta para casa. Parecia ter algum ciúme possessivo com todos os seus pertences, mas não dei tanta importância, cada um com suas estranhezas.
-Senhor, o relatório que me pediu sobre as últimas vítimas...
-Sim, obrigado.
Quando terminei de ler fui até a sala de Natasha.
-Notou que todas as vítimas são judias, como no filme que assistimos?
-Não me dei conta disso.
-Sem nenhuma prova todo esse tempo...
Então ficou em silêncio e quieta, apenas sorriu. Saquei a arma.
Ponha as mãos sobre a mesa, você está presa Natasha.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Pena - Caio Machado


O autor se pergunta o tempo todo se vale a pena passar seus últimos dias com animais mais estúpidos do que burros, e mais sujos do que porcos.

O seu sôfrego caminhar determinava a velocidade que seus dias se arrastavam. Pés descalços e extremamente calejados. Um mirrado galo garnisé e quinze aves distribuídas e amontoadas em um pequeno cercado com folhas secas forradas, no meio de suas próprias fezes e dejetos.

Noventa e três anos. Viúva há uma década e exilada de tudo: família e possivelmente civilização. A solidão e as lembranças da fazenda remetia ela a momentos felizes com seu falecido marido. Uma maneira de se manter fiel à solidão e infiel ao seu estimado esposo.

Milho pelas manhãs. Ração sempre à tarde. Água trocada de dois em dois dias.

As galinhas mordiscavam suas pernas abarrotadas de varizes como uma maneira de expressarem suas fomes. Um desabafo faminto e por parte da senhora tido como forma de afeto.

O autor não sabe nada sobre raças de galinhas e, portanto, utilizará recursos darwinistas (formatos de bicos e cores de penugens) para uma breve descrição.

Penas marrons, brancas e pretas. Bicos de um tom amarelo fosco, curtos e achatados. Cristas bastante avermelhadas de formatos que variam entre ondas perfeitas a meros chicletes mastigados. Muito ruído por parte dos pios. Aves gordas e repletas de penas engorduradas e empoeiradas.

A vida daquela senhora estava acabando e a única coisa que ela ainda fazia era alimentar suas galinhas, recolher ovos, lavar seus vestidos e cozinhar mingau de fubá. Seus dias correndo pelo avesso e nenhum Homo sapiens ao seu redor.

(...)

Ela morreu no meio da porta do galinheiro, que ainda estava entreaberta e caiu de costas com sua face voltada para o céu. Felizmente ela tinha acabado de servir os animais com ração. Nenhuma ave percebeu. A porteira ficou bloqueada com seu corpo sem vida.

Inicialmente as galináceas ciscavam o chão em busca de minhocas e também destruíam todas as plantas a disposição no cercado. Depois de certo período não havia mais nada para ser ingerido pelas paupérrimas aves.

As aves agora passavam por cima do corpo da mulher e invadiam o casebre onde a pobre alma residia de maneira parca. Barras de sabão foram seus primeiros alimentos. Em seguida, os sacos de arroz empilhados ao lado do fogão à lenha.

Fezes estampavam agora todo o chão do casebre. A fome estampava também a face das aves agora desesperadas.

O corpo da senhora começava agora a decompor paulatinamente e o odor desvanecia rápido devido aos constantes temporais e ventanias. A reserva de arroz e sabonete já estava chegando ao seu fim.

Os ovos que anteriormente eram recolhidos agora chocavam e os primeiros filhotes faleciam, por falta de recursos alimentares, e serviam de alimento para as aves veteranas. Um excêntrico canibalismo, mas de extrema urgência para a sobrevivência delas.

Animais que se apegam a você pelo simples fatos de alimentá-los. Animais que traem você pelo simples fato de não alimentá-los.

O cheiro fétido daquele corpo não poderia incomodar mais do que a fome das galinhas. A primeira bicada cortou seu braço direito. Já não havia mais sangue naquele corpo, mas aquela abundante carne roxa serviria por ora.

A mutilação ocular assistida no filme de Buñuel com repulsa em sua juventude se assemelhava ao estrago feito naquela bicada desferida pelo galo garnisé. Acelerava-se assim o processo de deterioração de seu corpo. Os olhos eram saboreados de melhor grado para as aves e não tardaria que as galinhas encontrassem algum vestígio cerebral.

Quanto tempo aquilo as alimentaria? Se aquela cena era mais horripilante do que a própria fome em graus extremos?

O tempo transformaria todas elas em carrascos de si próprias.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Monologando sobre a solidão - Henrique Donancio

Não me lembro qual foi a última vez que fiquei um dia sem mandar-lhe mensagens ao celular. Talvez nunca o fiz, pela necessidade de estar presente de alguma forma e também de me acalmar. A falta de notícias, de contato, carregam-me para uma imensidade de suposições que me atordoam. Aonde e com quem você está agora? Apenas sacio esta necessidade doentia quando insisto e descubro que você está no sofá da sala conversando com seus pais.
Já se fazem duas semanas que não nos vemos e toda viagem que temos que nos ausentar por determinados dias me trazem a crença que voltaremos novos, com vontade do outro, mas pelo que parece essa não será diferente de outras idas. Por hoje resolvi fingir não existir, ver se você notava minha ausência, mas já fazem algumas horas de um novo dia e provavelmente já está deitada em sua cama, descansando para tomar o rumo de nossa casa outra vez, e de novo ter que ouvir você talhar desculpas e engolir todas como um filho alimentado por sua mãe. Em alguns momentos perco-me, sinto vontade de jogar tudo que construímos e passamos juntos fora, ver-me livre, noutras apenas a sensação de perca já me basta para desistir.
Me consome um pensamento covarde, como imagino que você o seria. Pedir que não me procure, que preciso de um pouco de paz, que estou cansado de tudo isso, tudo num simples adeus por SMS, pois pessoalmente sempre que tentei lhe reivindicar um pouco mais de atenção ou dizer-lhe que estava de partida, você me fez parecer um idiota, sei que também faltou por minha parte certa convicção, mas esperava que apenas fingisse.
O telefone soa...
“Me ligue, estou com saudades...” – Faço o que me pede.
-Oi, onde você está?
-Oi.
-Onde você está? Pergunto-lhe insipidamente.
-Nossa! Como sempre né Guilherme! Olha eu ligo, mando mensagens, faço questão e você ainda me trata assim, nunca está bom, nunca... Eu estava lá embaixo com as gurias e deixei o celular no meu quarto, quando voltei vi suas ligações... – Então desligo.
Mais uma vez meus ciúmes doentios... Tento ligar os fatos, as pessoas, tudo que havia contado nos últimos dias e parece tudo fazer sentido até que minha insistência faça parecer que algo está errado. Fico abatido então, sei que errei e por isso você vai se isolar, outra vez pareci não confiar, não acreditar...
Nas semanas seguintes parecia conversar comigo quase por obrigação, como sempre fazia, e isso me atordoava mais ainda, essa incessante ideia de que tudo deveria ser intenso e sempre intenso, talvez por de certa forma tentar alçar isso, por querer sempre melhorar coisas que só funcionam com seus defeitos, como aquele liquidificador que trouxe de minha antiga casa, que só ligava quando o cabo de energia ficava enrolado em sua base.
Decidi então que precisava de um tempo para mim, ou acabaria por te perder.Liguei para o Daniel e perguntei-lhe de seu avô, que há tempos atrás viera me falar de sua solidão, peguei todas minhas economias e fui rumo ao Uruguai, para o sítio do velho que apenas vira uma vez na vida, através  do amigo que conhecera assim que chegará ao sul. Dizia ele que o velho gostava de uma boa companhia, pois alguns anos atrás sua parceira de quase uma vida falecera de um câncer que lhe tomara os pulmões.
Quando cheguei ao sítio o velho me mirava com uma espingarda que mais tarde me contou ser lembrança sua de caçadas noutros tempos. Só a abaixou quando consegui falar-lhe com meu portunhol muito mal elaborado que era amigo de seu neto. Era uma figura exótica dos quais me habituara durante os anos de vida, simples e sempre sorridente. Ainda tinha muitos de seus fios que um dia creio que foram negros sobre o couro de sua cabeça, também um bigode e uma cicatriz ainda de um vermelho vívido no supercílio. Perguntei-o onde a adquiriu e ele me disse que foi numa pescaria. Tive a impressão que não a conquistou lidando com a pesca.
Duas semanas se passaram...
O velho se chamava Abelardo e em pouco tempo lhe confidenciei muito ao meu respeito como também o fez. Contou-me sobre a perca de um dos filhos e como sua esposa morreu. Abelardo esteve por um tempo em Cuba pois era um aspirante comunista e queria ver de perto como funcionava o regime da família Castro, logo após a estabilização dos rebeldes no poder. Gostava de tragar alguns cigarros e então despertara o interesse pelos charutos cubanos que dizia ele se envergonhar pois aquilo não tinha a alma caribenha e sim o suor. Fumou demasiadamente por muitos anos, algo que compartilhou com a esposa até o fim da sua vida, após isso largou o vício e dizia arrependido de um dia ter oferecido a amada o primeiro trago. Contou-me sobre o que aprendeu da vida e como estava a desperdiça-la no seu restante. Parecia ter retirado com suas mão manchadas pela idade todos os meus devaneios, algo que consegui me desapegar somente dois meses após.
Quando tornei a cidade que passara os últimos anos mais felizes de minha vida ao lado da mulher que julgava ser capaz de estar ao lado até o fim da minha existência, soube que ela se cansou da espera e falta de notícias minhas, em tão curto tempo. Havia desistido, sofreu com meu desaparecimento, se perdeu em algumas noites entre copos e outros corpos, mas que ainda assim andava a voltar para casa sozinha, ainda guardava o lado esquerdo da cama a espera que eu voltasse, cinco meses haviam se passados desde a última vez que lhe pusera os olhos. Aquilo tudo me tomara em angustia, talvez o melhor seria deixar tudo como estava, pensei então em ficar e continuar com minhas ambições mais singulares, talvez esquecê-la...
Quando amanheceu tomei o primeiro ônibus para Porto Alegre, afim de seguir em outro para uma pequena cidade em meio as Serras, trataria de trazê-la, ou mesmo ficar se isso lhe fizesse mais feliz, e se ainda me quisesse.