Acabo de lançar meu primeiro livro em formato digital. A obra Corsário Solitário trata-se de alguns textos que escrevia anos atrás em um blog e que resolvi unificar e transformar em livro. A arte da capa foi feita pelo meu grande amigo e designer Rafael Maciel. A revisão da obra foi feita de maneira colaborativa por amigos e familiares. O grande mérito da produção do livro foi o aprendizado e a experiência adquirida ao revisar e diagramar todo o material. Devo um enorme agradecimento a todos os envolvidos nesse projeto. A seguir o link para download:
sexta-feira, 17 de maio de 2013
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Um borrão preto percorria aquele marrom intenso - Caio Machado
Não esperava nada além do tédio.
Anualmente nos encontrávamos na casa de Rodolfo para celebrarmos a existência
de nossa família. Ou algo relacionado à união dela, que eu particularmente não
conseguia notar. Rodolfo Couto era o quinto irmão de meu pai. Sete anos mais
novo do que ele, fez carreira militar no Rio de Janeiro e se casou bem moço.
Não fosse pela suposta união da família ele jamais teria retornado para Maringá,
onde o resto todo dos Couto ainda residia. O casarão que ele morava ocupava uma
área nobre da cidade e de comum acordo de todos era o melhor lugar para sediar
a celebração. Chacotas e bajulações à parte, o que mais me agradava nisso tudo era
a comida em abundância e em estrondosa qualidade. As enormes panelas postadas
no forno à lenha davam um ar mineiro. O bucolismo existia pelo fato que a festa
ocorria sempre no enorme quintal do casarão. Infelizmente, o almoço só seria
servido às quatro da tarde e no decorrer do dia beberíamos e comeríamos alguns
petiscos.
Mônica Kaneshiro era a esposa de outro
tio meu. O casal vinha do Japão, de onde não regressavam desde 1997. Mônica entrou
na casa acompanha de Fausto Couto e de uma moça que até o momento eu sequer
sabia sobre sua existência. Aparentando seus dezoito anos, a garota tem o
cabelo negro azulado em um liso irregularmente ondulado. Os traços do rosto são
bem arredondados e orientais. Os olhos eram bastante puxados e grandes,
protegidos por uma estreita e corredia sobrancelha. Os lábios eram curtos e
rosados. Seu corpo tinha curvas sinuosas o bastante para que a moça pudesse ser
confundida com uma típica brasileira formosa. Senti-me estupefato com o ar
indiferente que ela carregava e com sua beleza desnorteante. Dei-me por
convencido de que iria conhecê-la naquela tarde. E não perdi um segundo sequer.
Após todos cumprimenta-los tratei de encaminhá-los pelo casarão arranjando-lhes
um lugar um pouco mais isolado de todos. Sentei-me junto ao trio à mesa. Tio Fausto
estava satisfeito com a atenção que eu prestava a eles. Parecia que eu era o
único ali interessado em conversar com eles, o que de certa forma os agradava
muito. Mônica era mais reservada, limitando-se a apenas responder o que eu
perguntava e a sorrir quando necessário. A garota não deu um pio e olhava para
os lados frequentemente. Seu nome era Clarice e ao nos apresentarmos ela me
fitou de maneira tão fixa que senti um estranho desconforto. Contei para eles
que abandonei a faculdade de Física quando recebi uma proposta de trabalhar
como gerente de uma agência de encomendas e eles ficaram surpresos. Não dei
maiores detalhes, mas a partir daí Clarice não desgrudou mais seus olhos de
mim. Ela disse que iria até a cozinha buscar algo para beber que lhe agradasse
e eu decidi acompanha-la. Novamente a satisfação evidenciou-se no casal e eu de
certa forma senti que isso representava um sinal verde para nos dois.
No caminho até a cozinha, ela não disse
nada. Entrou pegou um copo de limonada na geladeira e misturou com um chá mate
que estava em outra jarra. Limitei-me a segui-la com um copo de refrigerante. A
garota andava de forma majestosa e pausada. Ou eu estava bastante apaixonado ou
seus pés que calçavam um par de sandálias fechadas mal tocavam ao chão. Ao
invés de voltar para a mesa de seus pais ela sentou-se em uma mureta próxima a
área de serviço da casa e me perguntou se eu queria saber por que ninguém a
conhecia. Rapidamente ela se corrigiu dizendo que todos fingiam não a conhecer.
Demonstrei interesse e acenei com a cabeça dizendo que queria saber mais sobre
isso. Ela não me deu um detalhe sequer de sua vida. Disse-me apenas que ninguém
da família tem fotos dela e que alguns prefeririam que ela nunca tivesse
existido. Contou-me que nos anos que passou no Japão desenvolveu uma doutrina
própria onde era necessário estender um lençol lilás por sobre todos os móveis
da cozinha para que sua crença se estabilizasse. Além disso, sete contas feitas
com bordado e conchas do mar deveriam estar ao redor de todos os vasos
sanitários de sua casa. Feito isso ela atingiria seu singular nirvana num transe excêntrico e
solitário, pois claro, só ela seguia sua doutrina. Naquele momento eu estava de
fato fascinado com tudo aquilo que ela me dizia, mas meu interesse maior era
apenas carnal. Ela me prendia pelo seu jeito único e claro, pela sua
inalcançável beleza.
Repentinamente seu olhar se tornou
estático ao notar que um gato caminhava pelo muro da casa. A parede era repleta
de lodo e folhagens, o que sugeria um aspecto bem gótico e assustador. Aquele
gato branco se arrastava suavemente pelas relvas. Como que se recitasse uma
oração Clarice sibilou algumas palavras que remetiam a elegância e discrição do
andar dos gatos. Algo sobre como eles sobreviviam em qualquer situação e
repetia firmemente que viver pensando só em si próprio era a melhor qualidade
que o homem poderia ter para si observando o estilo de vida gatos. Assim que o bichano
pulou para a rua ela saiu de sua súbita hipnose e me disse que no seu bolso se
encontrava a única foto que havia sido feito dela. Com sua pequena mão esquerda
ela retirou um recorte amarelado de jornal e me entregou com um bizarro sorriso
no rosto. Um torcer de lábios de um mistério tão vasto que só se via algo
similar no quadro da Monalisa ou algo que o valha. A notícia do jornal era
sobre o massacre de crianças em uma escola primária no Japão. A assassina era
Clarice Couto Kaneshiro, que na foto carregava uma submetralhadora, trajava um
uniforme escolar escuro e não ilustrava nenhuma feição em seu rosto. As cores
gritantes e o mau gosto evidenciado pela escolha da foto acusava o caráter
sensacionalista do jornal que noticiou o ocorrido. A nota curta não dava muitos
detalhes e limitou-se a comparar a garota com os jovens assassinos do massacre
de Columbine. Aquele foi o único jornal brasileiro a relatar o ocorrido, no
Japão a imprensa foi totalmente barrada. Por incrível que pareça a notícia não
me chocou nem um pouco e o sentimento que ardia em meu peito incrementou-se ao
olhar novamente para Clarice após ler o jornal. Meu coração parecia que iria
explodir, eu nunca havia sentido isso por ninguém. Clarice notou o que eu
estava sentindo e se aproximou de mim. Nossos lábios se tocaram por automatismo
e ela não se mostrou evasiva. Beijamo-nos longamente e ela não hesitou.
(...)
Clarice tomava seu chá gelado. Seus
colegas de classe preferiam café. O gatinho marrom de Clarice se chamava Sembe.
Já era habitual que o felídeo ficasse aos seus pés enquanto ela tomava seu chá.
Por estranhar tanta gente na cozinha o gato deitou-se ao lado de um dos garotos
que tomava café. Katsuhito era um garotinho muito efusivo e adorava
traquinagens. Não se aguentou ao ver o gato bocejando de sono e derramou café
no dorso de Sembe. O gato estremeceu e num berro de dor se jogou janela a fora
num salto imenso. Todas as crianças se esbaldaram em risos de escárnio. Clarice
mirou Katsuhito sem qualquer expressão facial. Espatifou sua xícara no chão e vociferou
para que todos fossem embora dali.
(...)
Clarice contou-me que após o ocorrido
passou sete anos internada em clínicas, submetida a intensas sessões
psicológicas perante ingestão de medicamento pesado. O curioso é que seu
tratamento ocorria em paralelo ao de alguns colegas que sobreviveram e também
com pais de alguns outros que ela havia assassinado. Ela sorriu sem som e disse
que não sabia por que tinha feito aquilo. Disse que encontrou a arma no cofre
da casa de uma colega enquanto brincava de pique-esconde. A garota era filha de
um oficial, que por distração não havia trancado a caixa no dia em questão. Ela
guardou a arma discretamente em sua mochila. Na manha seguinte, entrou na sala
de aula e disparou contra alguns de seus colegas. Detalhou que quando atirava a
pressão que a arma exerceu contra seu corpo à fez ver intensos clarões lilases
e que foi a partir daí que passou a dar vazão a sua própria doutrina. Ela
necessitava de sentir aquilo tudo de novo. Voltamos a nos beijar. Dessa vez por
decisão minha. Clarice pareceu não estar gostando do rumo que isso estava
tomando. Disse-me que assim seria mais fácil e correu para o interior da casa.
O sentimento que passava pela minha cabeça é que eu realmente havia estragado
tudo. Eu devia ter tentado entende-la, questionando-a mais sobre o ocorrido e
sucessivamente mostrando-me interessado. Decidi não ir procura-la por agora e
me juntar aos seus pais.
Novamente conversei com Fausto e afirmei
que sua filha era uma rapariga muito especial. Ele me retribuiu com um riso
sonoro e sincero. Seus olhos realmente brilhavam e assim faziam-se também os de
Mônica. Um calafrio percorreu minha espinha, pois pela primeira vez naquela
tarde passei a suspeitar de algo estranho, já que o casal trajava roupas com os
mesmos tons escuros que os do uniforme usado pela filha na manhã do massacre.
Tornei a mesa onde se encontravam meus pais e recordei-me amargamente do hostil
terreno de “união” no qual me encontrava. Era evidente que todos ali buscavam
apenas a herança de meu avô. O patriarca Dantas Couto já andava com um pé na
cova. Dividir os bens com catorze filhos com certeza não será uma tarefa
simples de resolver. Pra piorar o velho decidiu que sua família não necessitava
de testamento já que todos se amavam por igual. Pudera eu me fazer de bobo de
maneira tão hiperbólica.
O gato branco regressara ao muro e já era
hora do almoço ser servido. O delicioso aroma recendia por todo o jardim. Meu
estomago roncava e minha boca estava inundava de saliva. O mais engraçado é que
o sentimento de paixão intensificava essa fome de uma maneira muito excêntrica.
Eliza Ribeiro Couto, esposa do anfitrião da casa foi quem destampou as desmedidas
panelas. Enquanto isso o marido agradecia a presença da enorme família e salientava
o quanto estava feliz por ter uma família tão harmoniosa. O senil Dantas sentia-se
bastante orgulhoso em sua cadeira de rodas e foi o primeiro a despregar um
prato vazio da mesa para se servir. Ao puxar o pesado prato de porcelana um pedaço
de papel revelou-se na mesa. A seguir, todos que pegaram um prato tiveram a
mesma surpresa. Ao terminar de ler o papelucho, Dantas deixou o prato deslizar
de sua mão e inesperadamente desmaiou causando imediata preocupação em todos os
presentes no casarão. O velho estava morto. Um longo silêncio percorreu o
jardim onde todos agora liam o papel que se encontrava debaixo de cada prato.
Tratava-se de cópias do recorte de jornal que noticiava a chacina na escola de
Clarice. Era evidente que os papeis haviam sido recortados de jornais, mas tudo
soava meio falso, pois não havia nada nas costas dos recortes.
O longo silêncio foi cortado pelo som de
passos vindos à direção da cozinha do casarão. Clarice calçava um sapato preto
bastante lustrado, uma saia preta de brim e uma blusa azul escura. Tratava-se
do mesmo uniforme que a garota usava no incidente da escola e também das mesmas
cores que vestiam seus pais. A submetralhadora em suas delicadas mãos também
parecia ser a mesma. Sua beleza continuava lá, intacta. Superior. Como se um
marcador de livros em um álbum de fotos estivesse sido retirado da última
imagem que tive de Clarice. Seus pais já não se encontravam mais na mesa e
dessa vez três gatos postavam-se ao muro dos fundos. O gato branco, agora
acompanhado de um casal de gatos negros, observava a família Couto por cima da
parede. Clarice entrou repetindo uma frase curta de maneira estática e
automática. Não parou de proclamá-la nem mesmo enquanto puxava o gatilho e
dizimava sua família, que segundos antes a repudiava por provocar a falência de
Dantas Couto. Sabia que sua suave voz seria a última coisa que ouviria e sequer
senti medo. Que fim melhor todos nós poderíamos ter? A garota alvejava um por
um e a assustadora indiferença em seu rosto novamente fazia com que meu coração
chacoalhasse em meu peito. Os gatos assistiam ao banho de sangue com intensos
miados e pareciam extasiados com um febril brilho lilás que refletia o vitral
da cozinha com o clarão dos tiros disparados. Fui poupado pela moça e observava
tremendo, o sangue se misturando por todo o chão do jardim. Os gatos se
aproximaram e para que não se sujassem de sangue saltavam levemente de corpo em
corpo pelo chão. O trio se aproximou de mim, mas logo saíram em disparada
quando fui baleado no estomago por Clarice. Sua voz repetia a mesma coisa desde
que saiu de dentro da cozinha.
(...)
Sembe cortou-se ao pular da janela da
cozinha, pois caiu bruscamente em cima de uma torneira que ficava no jardim da
casa de Clarice. Não resistindo às dores da queimadura e do corte, o bichano
morreu ali mesmo. A garotinha o encontrou enquanto ele solfejava seu último
miado. Sua dor refletia a mesma dor que a de Clarice sofria por perdê-lo. Um
borrão preto percorria aquele marrom intenso.
domingo, 28 de outubro de 2012
Ela será só minha - Caio Machado
Os pingos de chuva coloriam em tons mais escuros do que habituais às calçadas, ruas e pisos por todo o chão. A terra é subitamente umedecida e se torna viscosa, superfícies lisas se tornam escorregadias e perigosas. Meus trajes imundos logo começarão a encharcar e meu vasto e crespo cabelo não absorverá muito da água. A boa notícia é que a tempestade aliviará um pouco do calor e do clima seco deixado em setembro pelo mês de agosto. A má notícia é que eu não tenho teto.
Lembrei-me da ponte situada na avenida que eu saberia o nome se soubesse ler. Pensando bem, ao menos consigo distinguir uma rua de uma avenida. Serão três quadras de um sôfrego caminhar e a probabilidade de meus pertences não molharem e da rua não se inundar é nula. Mais vale um chão seco e duro, do que um chão macio e molhado. Minhas caixas de papelão com meus mantimentos derreterão, mas eu as levarei assim mesmo. Meu cantil já está seguro em meu bolso e um breve gole será um tanto quanto encorajador.
Pés descalços em superfícies alagadas sempre resultam em infortúnios. O primeiro corte foi no calcanhar e o pior de tudo é que eu sempre evitei aquela imperfeição do asfalto. O desespero te confunde e te torna seu pior inimigo, mesmo quando você conhece perfeitamente todo o itinerário a ser seguido. Felizmente meus calos transformaram a sola dos meus pés numa resistente crosta.
Um cão esquelético e ensopado atravessava a rua vagarosamente. A ausência de raciocínio não faz com que a chuva incomode aquele animal errante. Eu provavelmente estou com mais fome do que ele. E olha que minhas costelas nem estavam assim tão expostas. Nem todos os cães conhecem o álcool e seus benefícios relacionados à fome e a dor. Minha luta agora era por um lugar seco para repousar e não por alimentos. Se fosse isso comeria até mesmo aquele magérrimo cachorro.
O sangue do meu calcanhar pintava cada poça que eu pisava. A dor do corte logo foi substituída pela sensação de frio que fazia meu corpo ulcerado tremer. Nas noites frias, as estrelas são como flocos de neve. Naquela noite eu não teria essa singela distração que sempre pulsava congelada no céu. Pior ainda são os banhos que eu sempre tomo por cada carro que cruza meu caminho. Lancei um olhar de desprezo para cada motorista que jorrou água em mim. Praguejei para que seus filhos morressem em uma enchente ou algo que valha.
Queria saber quando foi que o ser humano tomou os mendigos por desalmados e meros objetos de diversão. Garotos que jogam meus pertences em córregos, pessoas que me expulsam de estabelecimentos e já ia me esquecendo dos outros mendigos que roubam minhas moedas na cuia de esmolas. A maldade em si está em qualquer homem, não escolhe a condição em que ele vive. Ao nascer, a sociedade é corrompida pelo homem, e não o contrário.
Minhas únicas aliadas, naquela noite chuvosa eram as marquises de edifícios, que se tornavam praticamente sazonais. Varandas de alvenaria e toldos também são todos bem vindos. Acentuam o frio, mas me deixam menos exposto ao temporal. Árvores são traiçoeiras. Quando não despeja na sua cabeça a água acumulada em suas folhas, estão servindo de para-raios. Evitei todas as possíveis.
Dali já avistava a parte inferior da ponte em que me abrigaria. Ela será só minha. Nenhum dos infelizes que furtavam minha cuia de esmolas estava na área. Aquela ponte era mais suculenta do que um prato feito. Remendava minhas angústias mais do que um trago de conhaque. Superava até o amor materno que nunca tive ao ser abandonado ao nascer. Ela será só minha. Por um instante eu até me esqueci da chuva. Obrigado por me trazer de volta a realidade, trovão.
O maior desafio do trajeto era descer até a ponte. O concreto estava úmido e o lodo se tornou ainda mais pegajoso. Dois passos. Três passos. Ela será só minha. Eu estava quase lá. No quarto passo, o fundo da caixa de papelão cedeu e todos os meus pertences caíram rio abaixo. Dane-se, estou a salvo. Cinco passos, seis passos. Ela será só minha. Já conseguia avistar o local, totalmente seco e mal iluminado. Deitado me imaginava, apenas ouvindo os gritos da chuva martelando o asfalto acima de minha cabeça.
Nem percebi que havia pisado em falso e que agora estava caindo em direção ao córrego. As pedras da barragem me avisaram do ocorrido. A dor na coluna só não é mais gritante do que a dor da fome. Provavelmente quebrei umas sete costelas, quatro dentes e outros inúmeros ossos dos quais eu nunca soube os nomes. E por falar em números, vinte deles serão gastos em minutos para que o nível da água suba e me mate afogado. Nem sequer um velório digno eu terei. Como se algum instante em minha vida paupérrima tivesse sido digna. Amigos e familiares num enterro? Provavelmente a água me enterrará. Permaneço estagnado ao chão contemplado minha última ambição em vida. Ela será só minha.
sábado, 22 de setembro de 2012
O Caso - Henrique Donancio
Parecia um dos casos insolúveis de
seriados norte americano, mas era real. Eu e minha equipe há seis meses
estávamos exclusivamente dedicados ao caso sem ainda uma pista concreta que nos
guiasse a uma resolução, quando então parecíamos próximos de algo, isso se
tornava mais longínquo do que de fato era, andava impaciente. A última vítima
fora o rico Otávio Medeiros, dono da maior rede farmacêutica da região e como
pista apenas um escândalo em 2003 quando então teria sido indiciado por
contrabandear e adulterar antidepressivos, anticoncepcionais e remédios para o
controle cardíaco. Sem justificativas, duas mulheres o processaram por
engravidar quando tomavam do remédio, o problema é que a prova já havia sido
consumida, a população ficara desconfiada durante alguns meses, mas brasileiro
tem memória curta e atualmente os seus negócios fluíam normalmente. Quando foi
encontrado Otávio tinha marcas em suas costas do que parecia ter sido talhado
por um salto agulha, estava sem os sapatos e meias e apenas a calça e a peça
íntima o vestiam, parecia não haver indícios de qualquer espécie de ato sexual,
pedi então que Natasha investigasse coletando amostras de qualquer coisa que
houvesse tocado seu órgão, quem sabe vestígios de saliva, pois do contrário
tratar-se-ia de mais um crime perfeito do nosso procurado, o sexto.
Uma coisa me deixava confiante em
relação ao caso, pois todas as vítimas de certa forma haviam causado algum tipo
de dano à sociedade e eram bem sucedidos. Outra coisa me intrigava... Não
acreditava por mais que tudo me levasse à constatação de que era apenas um
assassino agindo, apesar da brutalidade sempre deixar evidente uma marca
pessoal dele a forma como se davam eram opostas a antecessora. Como o delegado
da nossa jurisdição que teve o couro cabeludo e crânio cortado em círculo
deixando a massa cerebral exposta ou o caso de Otávio, não tinha uma linha a
ser seguida, algo que marca um serial killer, uma assinatura deixada nos seus
crimes.
- Com licença.
-Entre Natahsa, me traz alguma
novidade?
-Analisamos o corpo e o resultado
nos indica que a vítima como imaginávamos não chegou a ter relações sexuais
antes de sua morte.
-Tem alguma suspeita?
-Nenhuma senhor.
-Obrigado, é só por enquanto.
Maldito seja, até quando e quem
estaria a ter tanta necessidade por sangue. Seria uma vingança? Um acerto de
contas doentio? Quando ele iria parar? Maldito seja!
-Com licença senhor, o prefeito
está na linha.
-Pois não senhor.
-Espero Charles que dessa vez me
traga uma solução, já basta seu cretino, é ano de eleições ou será que não
percebes? Todo meu eleitorado está em prantos, a segurança pública está em
risco e o seu maldito departamento está de braços cruzados...
Desligo então, já não mais suporto
esse corrupto me cobrando respostas, ainda mais quando possui certa razão.
-Charles, então, muito ocupado?
-Por favor, entre Natasha, são só
preocupações sobre esse caso.
-É, ando preocupada também, ainda
mais quando se trata de uma sexta-feira treze como esta.
Dou-lhe uma risada. - Então acha
que nosso assassino é um mascarado?
-Quando se trata de psicopatia
tudo é possível não?
-Sim, mas o que tens a mão?
-Apenas papéis e ingressos para
um cinema, que tal?
Eu não deveria, ainda mais quando
minha situação com Paula ainda estava pendente. Estava me separando, deixando
minha casa e meus filhos. Se não fosse por todos os problemas talvez tivesse
recusado o convite.
Parece bom o filme, mas receio que
nem nos seus momentos de folga você esqueça que é uma militar. Disse a Natasha
já na porta do cinema.
-Na verdade sim, mas é que este
tipo de arte me atrai mais que outras, serve-me de inspiração.
-É tudo que necessitamos nesse
momento Natasha, este último caso já requer inspiração, uma vez que já não
encontro razão.
-É melhor deixar isto cair por
hoje, vamos nos divertir e relaxar um pouco.
Natasha era inteligente e uma boa
companhia. Calma e com uma voz serena além de muito atraente. Confesso que por
uma noite me fez esquecer-se de todos os problemas e isso teria aberto um pouco
mais a visão sobre tudo que estava a acontecer. Conversamos bastante logo após
o cinema e pude notar que tínhamos alguns suspeitos em comum numa conversa extraoficial.
Não pude deixar-lhe de convidar para tomar um vinho em casa ao fim da noite.
Ao fim do expediente fui visitar
meus filhos e tomar um pouco de conhecimento do principal suspeito da nossa constatação na noite
interior. Era o padrasto dos meus filhos, o homem com quem Paula estava a
morar.
Ao chegar notei que todos estavam
na sala assistindo TV antes de tomarem seus rumos com a minha chegada. Emanuel
era sobrinho da última vítima e também seu sócio nas redes farmacêuticas, estudara
medicina. Quando que quase sem a intenção, olhei para a TV e me deparei com a
cena em que Lecter retira o couro cabeludo de sua vítima e então prepara seu
cérebro. Aquilo me deixou em choque... Teria sido ele que matara o policial, e
talvez seu próprio tio, já que se tornaria sócio majoritário com sua morte.
-Esses filmes não são apropriados
para as crianças Paula.
-Eu sei o que é apropriado para
eles Charles, agora se não se importa gostaria que as levasse o mais rápido,
suas visitas andam cada vez mais estressantes e Emanuel anda passando por momentos
ruins agora com a morte de seu parente.
Sabia por quais momentos ele
andava a passar, mas tentei disfarçar sendo um tanto educado. Disse-lhe adeus,
mas não pude deixar de sentir que me andava a fitar com certa obsessão.
No dia seguinte, quando deixei as
crianças na escola tomei o rumo da casa de Natasha, tinha de compartilhar
minhas descobertas...
-Oi Charles, que surpresa, não
estava a te esperar.
-Atrapalho?
-Não entre.
Natasha também era um tanto
recatada, cheguei por um instante a achar que não queria minha presença. Foi de
certo isso quando nos deitamos e vi algumas marcas no seu corpo, ela teria
alguém e eu só servira como distração naquela noite. Ao fim contei-lhe tudo que
achava do nosso suspeito e ela pareceu confiante nas minhas descobertas. Cabia
a nós agora colher algumas evidências e terminar logo com tudo isso. Trataria
de ficar com meus filhos enquanto tudo se resolvia e pedir que alguns de nossos
homens rodeassem minha antiga casa a fim de cuidar para que não oferecessemos risco a Paula.
Quando cheguei ao escritório mais
uma vítima havia sido achada, e por incrível que pareça a morte teria sido
talhada com uma serra elétrica, era o fim da minha paciência e de todos os
governantes, agora todos queria a minha cabeça e se não mais pude do que
decretar a prisão preventiva de Emanuel enquanto buscava provas.
Fui até a sala de Natasha para lhe
pedir que procurasse amostras de DNA nas roupas do nosso suspeito...
“Que bom que temos esse assassino
preso”, disse quando noticiei a prisão.
Nos dias seguintes mais vítimas e
Emanuel preso. Além do seu álibi, a Paula, na sexta-feira treze. Por mais que guardasse alguma magoa de si, ainda confiava na sua índole. Além disso tinha a vítima com marcas do que parecia ter sido causado por um salto de sapato feminino, as coisas não se encaixavam.
Voltei à sala de Natasha para
saber se já me trazia alguma resposta, a situação já era insustentável e minha
cabeça já estava por rolar...
Dei-lhe uma carona no fim do
expediente, dormimos juntos mais uma vez, conversamos... Nosso único suspeito
estava sobre nossas asas quando mais crimes aconteceram e não havia provas
nenhuma contra ele. Paula ameaçou entrar na justiça contra mim, talvez por
achar que usei minhas responsabilidades para minar sua relação, e de certa
forma ela tinha suas razões.
Acordei no meio da noite, andei
pela casa de Natasha como um sonâmbulo. Era de certo minha demissão no dia seguinte
e isso me tirava o sono. Bisbilhotei seus livros, seus filmes, tudo que me
distraísse e fizesse as horas passarem, assim o fiz...
-O que está fazendo acordado?
- Notei que gosta de filmes como
aquele que assistimos, os “Homens que não amavam as mulheres”, não era esse?
-Sim, mas não devia mexer nas
minhas coisas sem minha permissão. Notei que ela se alterara bastante.
-Desculpe, não foi minha intenção
lhe incomodar.
-Saía agora.
Por qual motivo Natasha se
incomodara tanto foi o pensamento que me tomou na volta para casa. Parecia ter
algum ciúme possessivo com todos os seus pertences, mas não dei tanta importância,
cada um com suas estranhezas.
-Senhor, o relatório que me pediu
sobre as últimas vítimas...
-Sim, obrigado.
Quando terminei de ler fui até a
sala de Natasha.
-Notou que todas as vítimas são
judias, como no filme que assistimos?
-Não me dei conta disso.
-Sem nenhuma prova todo esse
tempo...
Então ficou em silêncio e quieta,
apenas sorriu. Saquei a arma.
Ponha as mãos sobre a mesa, você está
presa Natasha.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Pena - Caio Machado
O autor se pergunta o tempo todo se vale a pena passar seus últimos dias com animais mais estúpidos do que burros, e mais sujos do que porcos.
O seu sôfrego caminhar determinava a velocidade que seus dias se arrastavam. Pés descalços e extremamente calejados. Um mirrado galo garnisé e quinze aves distribuídas e amontoadas em um pequeno cercado com folhas secas forradas, no meio de suas próprias fezes e dejetos.
Noventa e três anos. Viúva há uma década e exilada de tudo: família e possivelmente civilização. A solidão e as lembranças da fazenda remetia ela a momentos felizes com seu falecido marido. Uma maneira de se manter fiel à solidão e infiel ao seu estimado esposo.
Milho pelas manhãs. Ração sempre à tarde. Água trocada de dois em dois dias.
As galinhas mordiscavam suas pernas abarrotadas de varizes como uma maneira de expressarem suas fomes. Um desabafo faminto e por parte da senhora tido como forma de afeto.
O autor não sabe nada sobre raças de galinhas e, portanto, utilizará recursos darwinistas (formatos de bicos e cores de penugens) para uma breve descrição.
Penas marrons, brancas e pretas. Bicos de um tom amarelo fosco, curtos e achatados. Cristas bastante avermelhadas de formatos que variam entre ondas perfeitas a meros chicletes mastigados. Muito ruído por parte dos pios. Aves gordas e repletas de penas engorduradas e empoeiradas.
A vida daquela senhora estava acabando e a única coisa que ela ainda fazia era alimentar suas galinhas, recolher ovos, lavar seus vestidos e cozinhar mingau de fubá. Seus dias correndo pelo avesso e nenhum Homo sapiens ao seu redor.
(...)
Ela morreu no meio da porta do galinheiro, que ainda estava entreaberta e caiu de costas com sua face voltada para o céu. Felizmente ela tinha acabado de servir os animais com ração. Nenhuma ave percebeu. A porteira ficou bloqueada com seu corpo sem vida.
Inicialmente as galináceas ciscavam o chão em busca de minhocas e também destruíam todas as plantas a disposição no cercado. Depois de certo período não havia mais nada para ser ingerido pelas paupérrimas aves.
As aves agora passavam por cima do corpo da mulher e invadiam o casebre onde a pobre alma residia de maneira parca. Barras de sabão foram seus primeiros alimentos. Em seguida, os sacos de arroz empilhados ao lado do fogão à lenha.
Fezes estampavam agora todo o chão do casebre. A fome estampava também a face das aves agora desesperadas.
O corpo da senhora começava agora a decompor paulatinamente e o odor desvanecia rápido devido aos constantes temporais e ventanias. A reserva de arroz e sabonete já estava chegando ao seu fim.
Os ovos que anteriormente eram recolhidos agora chocavam e os primeiros filhotes faleciam, por falta de recursos alimentares, e serviam de alimento para as aves veteranas. Um excêntrico canibalismo, mas de extrema urgência para a sobrevivência delas.
Animais que se apegam a você pelo simples fatos de alimentá-los. Animais que traem você pelo simples fato de não alimentá-los.
O cheiro fétido daquele corpo não poderia incomodar mais do que a fome das galinhas. A primeira bicada cortou seu braço direito. Já não havia mais sangue naquele corpo, mas aquela abundante carne roxa serviria por ora.
A mutilação ocular assistida no filme de Buñuel com repulsa em sua juventude se assemelhava ao estrago feito naquela bicada desferida pelo galo garnisé. Acelerava-se assim o processo de deterioração de seu corpo. Os olhos eram saboreados de melhor grado para as aves e não tardaria que as galinhas encontrassem algum vestígio cerebral.
Quanto tempo aquilo as alimentaria? Se aquela cena era mais horripilante do que a própria fome em graus extremos?
O tempo transformaria todas elas em carrascos de si próprias.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Monologando sobre a solidão - Henrique Donancio
Não me lembro qual foi a última
vez que fiquei um dia sem mandar-lhe mensagens ao celular. Talvez nunca o fiz,
pela necessidade de estar presente de alguma forma e também de me acalmar. A
falta de notícias, de contato, carregam-me para uma imensidade de suposições
que me atordoam. Aonde e com quem você está agora? Apenas sacio esta necessidade
doentia quando insisto e descubro que você está no sofá da sala conversando com
seus pais.
Já se fazem duas semanas que não
nos vemos e toda viagem que temos que nos ausentar por determinados dias me
trazem a crença que voltaremos novos, com vontade do outro, mas pelo que parece
essa não será diferente de outras idas. Por hoje resolvi fingir não existir, ver
se você notava minha ausência, mas já fazem algumas horas de um novo dia e
provavelmente já está deitada em sua cama, descansando para tomar o rumo de
nossa casa outra vez, e de novo ter que ouvir você talhar desculpas e engolir
todas como um filho alimentado por sua mãe. Em alguns momentos perco-me, sinto
vontade de jogar tudo que construímos e passamos juntos fora, ver-me livre,
noutras apenas a sensação de perca já me basta para desistir.
Me consome um pensamento covarde,
como imagino que você o seria. Pedir que não me procure, que preciso de um
pouco de paz, que estou cansado de tudo isso, tudo num simples adeus por SMS,
pois pessoalmente sempre que tentei lhe reivindicar um pouco mais de atenção ou
dizer-lhe que estava de partida, você me fez parecer um idiota, sei que também
faltou por minha parte certa convicção, mas esperava que apenas fingisse.
O telefone soa...
“Me ligue, estou com
saudades...” – Faço o que me pede.
-Oi, onde você está?
-Oi.
-Onde você está? Pergunto-lhe
insipidamente.
-Nossa! Como sempre né
Guilherme! Olha eu ligo, mando mensagens, faço questão e você ainda me trata
assim, nunca está bom, nunca... Eu estava lá embaixo com as gurias e deixei o
celular no meu quarto, quando voltei vi suas ligações... – Então desligo.
Mais uma vez meus ciúmes
doentios... Tento ligar os fatos, as pessoas, tudo que havia contado nos
últimos dias e parece tudo fazer sentido até que minha insistência faça parecer
que algo está errado. Fico abatido então, sei que errei e por isso você vai se
isolar, outra vez pareci não confiar, não acreditar...
Nas semanas seguintes parecia
conversar comigo quase por obrigação, como sempre fazia, e isso me atordoava mais ainda, essa
incessante ideia de que tudo deveria ser intenso e sempre intenso, talvez por
de certa forma tentar alçar isso, por querer sempre melhorar coisas que só
funcionam com seus defeitos, como aquele liquidificador que trouxe de minha
antiga casa, que só ligava quando o cabo de energia ficava enrolado em sua base.
Decidi então que precisava de um
tempo para mim, ou acabaria por te perder.Liguei para o Daniel e perguntei-lhe
de seu avô, que há tempos atrás viera me falar de sua solidão, peguei todas
minhas economias e fui rumo ao Uruguai, para o sítio do velho que apenas vira
uma vez na vida, através do amigo que
conhecera assim que chegará ao sul. Dizia ele que o velho gostava de uma boa
companhia, pois alguns anos atrás sua parceira de quase uma vida falecera de um
câncer que lhe tomara os pulmões.
Quando cheguei ao sítio o velho
me mirava com uma espingarda que mais tarde me contou ser lembrança sua de
caçadas noutros tempos. Só a abaixou quando consegui falar-lhe com meu portunhol
muito mal elaborado que era amigo de seu neto. Era uma figura exótica dos quais
me habituara durante os anos de vida, simples e sempre sorridente. Ainda tinha
muitos de seus fios que um dia creio que foram negros sobre o couro de sua
cabeça, também um bigode e uma cicatriz ainda de um vermelho vívido no supercílio. Perguntei-o onde a adquiriu e ele me disse que foi numa pescaria. Tive a
impressão que não a conquistou lidando com a pesca.
Duas semanas se passaram...
O velho se chamava Abelardo e em
pouco tempo lhe confidenciei muito ao meu respeito como também o fez.
Contou-me sobre a perca de um dos filhos e como sua esposa morreu. Abelardo
esteve por um tempo em Cuba pois era um aspirante comunista e queria ver de perto
como funcionava o regime da família Castro, logo após a estabilização dos
rebeldes no poder. Gostava de tragar alguns cigarros e então despertara o
interesse pelos charutos cubanos que dizia ele se envergonhar pois aquilo não
tinha a alma caribenha e sim o suor. Fumou demasiadamente por muitos anos,
algo que compartilhou com a esposa até o fim da sua vida, após isso largou o
vício e dizia arrependido de um dia ter oferecido a amada o primeiro trago.
Contou-me sobre o que aprendeu da vida e como estava a desperdiça-la no seu
restante. Parecia ter retirado com suas mão manchadas pela idade todos os meus
devaneios, algo que consegui me desapegar somente dois meses após.
Quando tornei a cidade que
passara os últimos anos mais felizes de minha vida ao lado da mulher que
julgava ser capaz de estar ao lado até o fim da minha existência, soube que
ela se cansou da espera e falta de notícias minhas, em tão curto tempo. Havia desistido, sofreu com meu desaparecimento, se perdeu em algumas noites entre copos e outros
corpos, mas que ainda assim andava a voltar para casa sozinha, ainda guardava o
lado esquerdo da cama a espera que eu voltasse, cinco meses haviam se passados desde
a última vez que lhe pusera os olhos. Aquilo tudo me tomara em angustia, talvez
o melhor seria deixar tudo como estava, pensei então em ficar e continuar com
minhas ambições mais singulares, talvez esquecê-la...
Quando amanheceu tomei o
primeiro ônibus para Porto Alegre, afim de seguir em outro para uma pequena
cidade em meio as Serras, trataria de trazê-la, ou mesmo ficar se isso lhe
fizesse mais feliz, e se ainda me quisesse.
domingo, 17 de junho de 2012
Um dia e nada mais - Caio Machado
Disseram-me que aquela era a única pessoa na cidade capaz de realmente lançar um mal olhado em alguém. Recorrer para macumba para dar um fim no amante de minha mulher. Em que ponto foi chegar essa situação? Eu poderia tentar outros métodos, aliás, já tentei, mas nada funcionou. O pequeno escritório daquela mãe de santo ficava dentro da galeria central e cheirava a incenso barato e sabão em barra. Seus cabelos negros eram encaracolados e desgrenhados. Sua fala era longa e arrastada. Após nos cumprimentarmos disse sem rodeios para que ela desse um sumiço daquele rapaz na vida de minha esposa. Ela paulatinamente disse ser impossível conseguir que ele se afastasse dela por algo mais do que um dia e eu reclamei dizendo que um dia não mudaria em absolutamente nada. Por trás daqueles olhos castanhos escuros eu percebia de que algo ali estava bem errado. Ou ela conseguia sim se livrar do amante de minha mulher ou ela não passava de uma charlatã tentando me convencer de que é capaz de tal feito para apenas extorquir meu dinheiro. Mesmo tendo sido extremamente recomendada por pessoas de minha confiança, não conseguia entrar em um consentimento com a bruxa.
Ela insistia na ideia de que poderia afastar a pessoa por apenas um dia e que nesse curto período de tempo minhas atitudes sim, seriam definitivas para que mudanças a respeito da infidelidade de minha esposa fossem tomadas. Discordei novamente dizendo que se só isso resolvesse eu mesmo daria um sumiço naquele infeliz por vinte e quatro horas. Pedi para que ela o mandasse para o Recife ou mesmo a China. Só bastava que ele desaparecesse por completo, não se tratava de tirar a vida daquele homem. Meu amor por minha mulher já aceitou a traição, não custaria muito perdoá-la após ele partir. A macumbeira não se deu por vencida e continuou na mesma ladainha. Aquela saliva grossa que saltava de sua boca ao dizer sílabas carregadas me enojava cada vez mais.
Não me dei conta de que havia perdido toda à tarde naquele lugar sem nada ter resolvido e decidi largar mão disso tudo e partir para minha casa. A senhora me jogou um sorriso de lado bastante pejorativo e disse que no dia seguinte ela resolveria meu problema. Novamente a sensação de estar sendo passado para trás me ocorreu, mas agora eu já não tinha mais nada a perder. Ao chegar em casa, notei que minha esposa se encontrava em nosso quarto arrumando os lençóis da cama e conversando ao telefone. Sorrateiramente pude ouvir bem enquanto ela agradecia a mãe de santo por me manter afastado de casa bem no dia da folga de seu amante e como a sua tarde havia sido maravilhosa. Segui para o sofá da sala e afundei em minha poltrona. Era quarta-feira e o Jornal Nacional trataria de me distrair ou confortar meus mansos chifres.
Ela insistia na ideia de que poderia afastar a pessoa por apenas um dia e que nesse curto período de tempo minhas atitudes sim, seriam definitivas para que mudanças a respeito da infidelidade de minha esposa fossem tomadas. Discordei novamente dizendo que se só isso resolvesse eu mesmo daria um sumiço naquele infeliz por vinte e quatro horas. Pedi para que ela o mandasse para o Recife ou mesmo a China. Só bastava que ele desaparecesse por completo, não se tratava de tirar a vida daquele homem. Meu amor por minha mulher já aceitou a traição, não custaria muito perdoá-la após ele partir. A macumbeira não se deu por vencida e continuou na mesma ladainha. Aquela saliva grossa que saltava de sua boca ao dizer sílabas carregadas me enojava cada vez mais.
Não me dei conta de que havia perdido toda à tarde naquele lugar sem nada ter resolvido e decidi largar mão disso tudo e partir para minha casa. A senhora me jogou um sorriso de lado bastante pejorativo e disse que no dia seguinte ela resolveria meu problema. Novamente a sensação de estar sendo passado para trás me ocorreu, mas agora eu já não tinha mais nada a perder. Ao chegar em casa, notei que minha esposa se encontrava em nosso quarto arrumando os lençóis da cama e conversando ao telefone. Sorrateiramente pude ouvir bem enquanto ela agradecia a mãe de santo por me manter afastado de casa bem no dia da folga de seu amante e como a sua tarde havia sido maravilhosa. Segui para o sofá da sala e afundei em minha poltrona. Era quarta-feira e o Jornal Nacional trataria de me distrair ou confortar meus mansos chifres.
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