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domingo, 30 de outubro de 2016

Eloquência - Caio Machado



- Maurício, a minha amiga ali quer te conhecer.
- Bonitinha. Que que eu tenho que fazer?
- Chega junto.
- Tem muito tempo que não saio. Tô meio enferrujado...
- Beleza, vou chamar ela pra vir aqui, pode ficar sentado aí mesmo. Quando ela vier eu saio.
- Valeu.
- Oi.
- Oi, eu sou o Maurício.
- Ah.
- Como você se chama?
- Clarice.
- Bonito nome. Quantos anos você tem?
- Vinte.
- Ah, eu tenho vinte e três.
- Hmm.
- É... de onde você conhece o Pedro?
- Acho que minha amiga Luiza foi colega dele.
- A Luiza da Engenharia Química?
- Sim.
- Putz, conheço ela demais. Deixa eu adivinhar, você é a caloura que tá morando com ela né?
- Não.
- Mas então é do curso também?
- Não.
- Você faz qual curso? Nunca te vi no campus.
- Não faço faculdade não.
- Tá estudando pro vestibular né? Semana que vem eu vou fazer o ENEM de novo.
- Nem me inscrevi.
- Eita.
- É...
- Vou pegar outra cerveja. Clarice, você me espera? Quer alguma coisa?
- Não precisa não. Eu espero.
- Desculpe a demora, a fila tava grande. Pedi pro Pedro ficar no meu lugar, aproveitei e fui ao banheiro.
- Ah.
- Podia ter Kaiser aqui. Não gosto muito de Skol.
- Ah sim.
- Amanhã vai ter segundo turno né?
- Ahn?
- Segundo turno das eleições municipais. Em qual candidato você vai votar?
- Eu não voto aqui, sou de Linhares. Meu título é de lá.
- Tenho um primo que trabalhou lá. Você vai viajar pra lá pra votar?
- Sei lá. Como chama aquilo que se faz quando não vota?
- Irá justificar o voto?
- Sim.
- Mas qual dos candidatos te agrada mais?
- Não sei.
- Eu vou votar no Campos. Ele tem umas pautas sociais interessantes. Fora que ele apoia sempre a ONG das Meninas em luta. Você curte feminismo?
- Ah, uma amiga minha me enche às vezes com isso. Ela quase foi estuprada uma vez. Aí ela fala muito disso.
- Entendi. Tá gostando da festa?
- Não muito.
- Tô ansioso pra ver a banda, apesar de se cover e tal. Você gosta de qual música deles?
- Acho que não conheço nenhuma. Não gosto muito de música.
- Hmm. Vai postar essa foto no Instagram?
- Sim.
- Eu não gosto muito de bebidas quentes.
- Eu não bebo.
- Então porque tá com esse copo e publicando no Insta?
- Sei lá, é open bar né. Paguei...
- Hmm. Me segue lá. Não publico muito, mas pra mantermos contato mesmo.
- Pega aqui meu celular e coloca pra eu te seguir.
- Nossa, é o novo Galaxy? Não vai explodir na minha mão?
- Ahn?
- Nada, foi só uma piada. Você não viu que alguns explodiram?
- Não.
- Pronto. Vou colocar pra te seguir aqui.
- Tá bom.
- Você também gosta de Queen?
- Não.
- É que você acabou de curtir minha foto da camiseta que tenho deles.
- Ah tá, é que eu gostei do desenho.
- Que que você gosta de fazer hein?
- Como assim?
- Você malha? Pinta? Sei lá, estuda francês.
- Gosto de ficar em casa.
- Entendi. Sou mais caseiro também, mas resolvi dar uma saída. Tava ficando meio encanado.
- Não gosto muito de sair.
- O show vai começar.
- Uhum.
- Clarice, você vai ver o show né?
- Se as meninas forem, sim.
- Não é muito a praia da Luiza não...
- Ah.
- Você gosta de ler?
- As vezes leio a bíblia.
- Sério?
- Sim.
- Achei que você curtisse um Nietzsche.
- Quem?
- Cé tá de sacanagem né? Você é a guria mais niilista que eu já conheci.
- O que é nillista?
- Clarice, sua mão tá gelada.
- Achei que a gente fosse ficar.
- Sem mais nem menos? Sem conversar?
- Isso é uma festa. Pra que conversar?
- O Pedro disse que você queria me conhecer.
- Eu falei pra ele que queria te beijar, mas você fala demais.
- Hmm.
- A Luiza tá indo lá pra frente. Vou ver o show com ela.
- Vai indo que eu vou depois.
- Tá.
- Poxa vida.

domingo, 4 de outubro de 2015

Mirada Leve - Caio Machado

“Por que apenas voar, se posso ter o prazer de conseguir a atenção de todos os olhares noturnos?”. Amanda calçou seu sapato de salto alto número 36. O vestido estampado se preenche com suas curvas, mais ressaltadas, devido a inclinação resultante do sapato. Pensou melhor e abandonou a vestimenta de cores berrantes. Preferiu logo trajar um vestido de tubinho preto. Perderia pela discrição e ganharia pelo melhor entalhe de seus desvios simétricos corporais. Em sua penteadeira, uma pilha de adereços comprados semanalmente no AliExpress. As quinquilharias orientais não poderiam substituir todos os adereços femininos, mas já seria uma mão na roda. O nome do perfume francês só é agora corretamente pronunciado porque ouviu a lojista do shopping o repetir exaustivamente, nas três vezes em que comprou um novo frasco. “Toucher Cristallin”. Era o movimento de lábios exato para verificar se o batom carmesim não estava exagerado.

Olhou-se rapidamente no espelho. Sempre que se sentia magra demais se lembrava do apelido dado pelo seu pai quando era criança. Magrolina, era assim que a finada figura paterna carinhosamente a nomeava. Arrepiou-se com a lufada de ar frio entrando pela janela e esgueirou-se para fechá-la. Sentiu a inércia abandonando os fios de cabelo levitados pela corrente. Lamentou que o cheiro que recendia de seu belo corpo fosse artificial. Aquilo que a identificava não passava de combinações químicas e mistas de aromas de procedência biológica um tanto quanto duvidosas. Estaria pronta para sair em poucos instantes. Na manhã seguinte encontrar-se-ia na cama de um estranho de seu agrado. Descabelada, com a maquiagem borrada e com odores físicos despontando e sobressaindo o seu aclamado Toucher Cristallin. Estaria também exalando ressaca e toques de vodka em seu hálito seco. Em seguida, observaria os pertences e a decoração do local em que estiver. Provavelmente lamentaria este estilo de vida e iria embora com a dolosa promessa de retornar quaisquer ligações.

O ato de acossar de Amanda nunca é realizado sozinho. Bia era sua fiel escudeira nas noitadas. Escudeira por ter sido escolhida a dedo em sua seleta e nem sempre disponível lista de amizades. Alta propensão ao álcool, indiscreta e desleixada. Sempre cabulava os treinos de spin, o que via de regra, tornava seu corpo levemente flácido. Tinha o rosto com feições duras e animalescas que tornavam-se mais gritantes devido ao uso de uma maquiagem muito carregada. Mesmo assim era atraente. Ao lado de Bia, Amanda era estonteante. A escudeira não deve se tornar parte da concorrência. Amanda preferia manter Beatriz em rédeas curtas. Apesar disso, gradava de sua companhia e por algumas vezes, não conseguiu disfarçar tal apreço que sentia por sua amizade.

As opções de locomoção da noite seriam duas: dividir um táxi ou se aventurar na Honda Biz velha de guerra de Bia. O grande entrave era sempre o de guardar os capacetes da dupla. Bia conseguia manter o seu elmo no interior da motocicleta e o de Amanda ela prendia de forma sábia no clipe de trava do banco. Por sorte, nunca foram roubadas. Naquela noite, a produção não permitia que os capacetes baratos moldassem de forma grotesca os tão elaborados penteados das duas moças. O próprio serviço realizado no salão de beleza teria sido mais caro do que a gasolina que alimentava o veículo e os capacetes surrados da moto. Nem sequer o preço da corrida do táxi, numa gananciosa bandeira dois, faria alguma diferença na exorbitante soma do make-up de Amanda e Beatriz.

Na entrada do clube noturno, as vastas inimizades das garotas já as avistavam com ódio, repulsa e inveja. O sentimento era recíproco. Os olhares se ocupavam de imediato em descobrir quais eram os novos modelítos de roupas, e de identificar onde foram comprados para então, estipularem em suas mentalidades aracnídeas qual quantia havia sido investida. Nem mesmo acionistas da bolsa de valores conseguiriam tamanha precisão. A possibilidade de descobrir que as peças haviam sido adquiridas em liquidações alimentaria os pequenos prazeres daquelas mulheres. A pequenez sentimental prosseguiria no ato de perceber avarias na pele, cabelo e quilos adquiridos ou perdidos durante a semana. Ou até mesmo no ato de desejar que os saltos alheios se quebrem e que as alças das caríssimas bolsas Louis Vitton e Prada se arrebentem no banheiro, na fila do bar ou na pista. Por último, os olhares destas moças se dirigiriam para as figuras masculinas. Para cada homem acompanhado por uma de suas rivais, as olhadelas ganhariam muito mais peso.

Bia de top verde musgo talhado ao tórax, repleto de madre pérolas e um short curto. Amanda em seu perigoso tubinho preto. Bia tomando Martini em grandes golfadas. Amanda na marcha leve e sutil de pequenos golinhos em seu Bloody Mary. Bia soltando-se ao som entusiasmante de Calvin Harris. Amanda jogando o cabelo para trás na levada insinunante da batida de M.I.A. Os pequenos contrastes da dupla de amigas era analisado e perseguido por várias perspectivas ópticas distintas e peculiares. Objetivas e flashes de fotógrafos freelancers, desesperados por reconhecimento e uma futura procura para produções fotográficas de enfadonhas festas de casamentos; Parcas e óbvias capturas advindas das selfies efetuadas em smartphones caríssimos em suas câmeras nada convincentes; Neons e globos de luzes frenéticos e mal sincronizados; Astigmáticos, estrábicos, míopes e perfeitos flertes oriundos de globos oculares das mais diversas cores e simetrias.

No banheiro, Bia beijou Rita em troca de um tiro. O barato animaria sua noite. Amanda na pista rejeitou alguns rapazes pífios e trocou o multi-saboroso Bloody Mary, por um scotch de valor razoável. 2:35 da manhã era o prazo idealizado pelas moças para se separarem de vez e darem um rumo para o fim de noite. O número carregaria para as duas amigas, diversos signos dos mais distintos credos e precauções. Era quase um ritual, e que pelo menos para a Amanda, nunca havia falhado. O jogo sujo na sedução nunca foi um problema em suas jogatinas noturnais. Beatriz estava ali mais pelo movimento, pela falsa sensação de liberdade adquirida em goles nas taças mal polidas e em seus infindáveis cigarros de filtro amarelo sujos de batom. Em um determinado momento, as luzes da pista de dança alinham-se em um pragmático formato de cela. Um cárcere luminoso e metafórico que representaria praticamente todos no interior daquele lucrativo recinto, um simulacro massivo e incognoscível.

Bia conhece um engenheiro agrônomo de uma cidade vizinha. Hospedado no Plaza, chaves do Dodge Ram expostas na cintura. Amanda conhece um estudante de Direito. Jogador de polo aquático, ombro largo estufando a camisa polo de cor esverdeada. Daniel Miranda, garrafa de Blue Label combinando com a pulseira azul da área vip. Leandro Moura, dose nada ríspida de Absolut combinando com o sorriso claro, cerrado e cativante. As pretensões de Daniel não iriam muito além das sexuais e para o futuro, a companhia deveria valer a pena. Leandro sempre cauteloso em seus relacionamentos buscava companhia, risadas e porque não, algo mais. Ambos despretensiosos quanto a alguma seriedade, mas nenhum descartava a possibilidade de um investimento compensatório.

O matchup imperfeito aos olhos de Amanda e, bem, tanto faz para Beatriz. Amanda queria trocar de par. Aliás, que se dane a barganha. Ela só queria tomar o lugar de Bia e cair nos braços de Daniel. Arrancou o iPhone da bolsa Dior e “folheou” qualquer coisa na linha do tempo do Facebook. Elucidou desdém e sorria paulatinamente para a luminosa tela. Leandro não quis desperdiçar sua eloquência para reverter a situação. E olha que o rapaz era bom de discurso. Não via tanta dificuldade na aura feminina como costuma ver em sua área de estudo. Aproveitou a deixa e arrancou o celular da mão de Amanda para cadastrar seu número. Os olhos de Amanda brilhavam numa mistura de susto e inocência. Um raro registro em sua feição. Após ligar para seu próprio número, Leandro beijou a face gélida do lado direito do rosto da moça. Saiu sem dizer nenhuma palavra. Um problema a menos para Amanda.

Para fisgar Daniel bastou dançar ao lado da amiga e de seu desígnio masculino. Ao bailar, fazia um rabo de cavalo em seus cabelos usando as pontas dos dedos e deitava o olhar para a altura do queixo de Daniel. Quando ele percebia, Amanda fitava seus olhos, sorria com o canto esquerdo da boca e desviava o olhar. Bia entendeu a jogada e quis permanecer em cena pelo menos para implicar. Daniel deu o último trago no copo de uísque. 53ml para quase engasgar e criar coragem para despachar Beatriz, que saiu sem pestanejar. A garota caminhou em direção ao bar e investiu um pouco de seus níquéis em uma bebida fumegante.

Amanda sentiu os dedos calejados do robusto homem tateando com firmeza sua cintura esguia. Sequer titubearam e já se beijaram. Daniel sentia que sairia de sua zona de conforto ao estabelecer relação com uma moça que havia o abordado de tal maneira. Admirou a forma com que Amanda abreviou o processo do flerte e de azaração. Mas temeu se daria conta ou não do recado. A curiosidade foi sempre um grande aliado e inimigo. O recém formado casal quitou as bebidas no caixa e abandonaram o recinto.

O ronco vibrante da 4x4 de Daniel. O house desatualizado que preenchia os alto-falantes da caminhonete vinha do pendrive emperrado no player do carro. Pelo menos não era sertanejo universitário que Amanda havia deduzido erroneamente tratar-se das preferências musicais de Daniel. O check-in no hotel duraria uma eternidade e a cabeça de Amanda não parava de girar devido a mistura irresponsável das bebibas no clube. Era um esforço que valeria a pena.

Os primeiros raios de sol já invadiam a janela e reluziam nas opacas paredes do quarto. Amanda não conseguiu dormir bem. Entediada buscava um mote para evadir. Tateou o LCD do celular por alguns minutos. Encontrou o nome de Leandro no registro de chamadas recentes. A recompensa justa para sua desdita. “Bom dia ;)”, escreveu e enviou na breve mensagem do Whatsapp. O celular vibrou com um sms de resposta apenas setenta e cinco segundos depois. Calçou o salto, fechou o zíper do vestido e esticou as asas para alçar voo novamente.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Dove - Caio Machado

Mauricinho caminhava pelo bairro após regressar da padaria e se deparou com um gatinho marrom claro miando sem parar. Largou a sacola de pão de queijo próxima ao meio fio e correu em direção ao bichano. O animalzinho não recuou e a carência fez com que ele logo se entregasse ao garoto. O filhotinho havia sido abandonado no bairro por um pai de família que mal conseguia tolerar a gata de sua filha, quando soube que ela daria a luz tratou logo de se livrar de suas crias. Por sorte, o até então amável garotinho Maurício, cruzou a vida do pobre felídeo. De tanto acaricia-lo o gato logo começou a ronronar e aquele tremor seguido de um ruído estranho, provocou risadas no garotinho. Sem pensar, ele largou os pães no caminho e saltitou até sua casa com o bichano.

César havia acabado de se divorciar. Havia ganhado a guarda de Mauricinho por unanimidade. Sua ex-namorada era completamente louca. Larissa foi pega duas vezes com lança-perfume em uma mesma balada. Tudo estaria bem se ela apenas estivesse consumindo, mas da primeira vez ela foi pega vendendo. Da segunda vez, ela estava quase ingerindo aquele líquido fornecido por um amigo farmacêutico. César entra na história por ter sido seu namorado no período em que cursavam Engenharia Aeronáutica. Mauricinho surge como resultado de tal conturbada relação. A mãe nunca trabalhou e os pais a abandonaram de vez após a gravidez. O resultado foi que ela não aceitou a dureza de ter que se sustentar e acabou se entregando a uma vida noturna regada de drogas e de tudo mais o que lhe era proposto.

O garoto já havia sofrido traumas demais para que César lhe proibisse de manter o gatinho em casa. A única admoestação que o garoto levou foi por ter deixado a sacola com os pães pelo caminho. César refez o trajeto, mas encontrou apenas um mendigo sujo dando cabo dos pães de queijo. Aquilo não o comoveu, mas pelo menos o fez lembrar que os sabonetes do banheiro estavam acabando. Voltou no mercadinho do qual seu filho havia retornado, comprou mais pães de queijo e uns quatro sabonetes Dove. Ao voltar para casa, observou Mauricinho enquanto ele alimentava o bichano com leite em um prato azul transparente. César reparou que na testa do gato havia uma pelagem escura com um desenho bem semelhante à pombinha da Dove. Perguntou se Mauricinho concordava em nomear o bichinho de Dove. Mauricinho estava tão feliz que sequer percebeu que acabará de batizar um gato com um termo que traduzido do inglês, significaria pomba.

Os dias passavam e Mauricinho se apegava cada vez mais ao gatinho Dove, e vice e versa. O animalzinho já respondia pelo nome e se mostrava extremamente esperto ao se tratar de respostas sonoras. Quando ouvia um latido, de longe já se postava numa posição de guarda e nenhum cão sequer se aproximava dele. O lado selvagem do felino falava sempre mais alto e certa vez, retrucou com arranhões as brincadeiras de mau gosto que Mauricinho fazia com ele. O garotinho de seis anos começava a enjoar de Dove. Quando ganhou um piano elétrico de seu pai sua desilusão pelo gato só cresceu. Por sorte o gato já se acostumara à vida doméstica e a ser alimentado em horários corretos diariamente. No fim das contas, Dove sempre dormia em cima das teclas do piano recém-tocado. O calorzinho que a energia elétrica deixava no instrumento, eletrizava sua pelagem.

César era fanático por futebol. Em período de fim de campeonato sempre abastecia a casa com fogos de artifício. Sempre advertiu que Mauricinho não brincasse com isso, mas sempre o deixava acender um pavio ou outro. Os primeiros estouros deixavam Dove bastante assustado. Do quinto foguete adiante, ele já não sentia mais medo, apesar de que sua sensibilidade auditiva já começava a se tornar bastante abalada. Mauricinho percebeu o comportamento estranho do bichano e por sabe se lá qual motivo, decidiu amarrar o rabo do gato em um dos foguetes. O gato não reagiu por acreditar que se tratava de um afago comum. O estrondo do foguete fez com que Dove se arremessasse contra uma das paredes do quintal e que tragicamente perdesse sua audição.

A situação era bastante infeliz. Um gato não é praticamente nada sem seus radares naturais. César ficou contrariadíssimo com a atitude negativa de seu filho. Entendia que aquilo se tratava de uma parvoíce infantil, porém sua ira fez com que ele comparasse a inconsequência de Mauricinho com o comportamento arredio de sua mãe. O garotinho passou dias sem proferir uma palavra sequer e quando Dove voltou do veterinário quase o sufocava de tanto o abraçar. A situação fez com que sua sensibilidade para as coisas simples da vida, aumentasse. A surdez do gato fez com ele passasse a valorizar sua audição. Dedicando-se aos estudos do piano conheceu a história de Ludwig Van Beethoven e sobre como, também de forma trágica, o alemão havia perdido sua audição.

Logo nos primeiros dias após o acidente Mauricinho percebeu que Dove conseguia responder ao chamado de seu nome. Não entendia bem como, acreditava que a vibração do ar pudesse ser o catalisador disso, mas ao dizer outras coisas o animal não respondia por igual. Os espasmos da criaturinha fora a pior sequela do incidente. Num certa quarta-feira, dia ao qual estava habituado a receber aulas particulares de piano, percebeu que o gato se dirigia ao seu professor sempre que ele mencionava o nome de Beethoven. Dove também se postava estranhamente sobre o corpo do piano quando ele tocava qualquer peça do compositor e de certa forma, aquilo deixava o felino em um estranho transe. Naquela noite, Mauricinho estava pensativo e repetia Beethoven diversas vezes em sua cama, quando de repente Dove saltou sobre sua cabeça. Mauricinho cuspiu alguns pelos e percebeu que o gato adormeceu ao seu lado.

No dia seguinte, logo ao acordar procurou por Dove e começou a repetir novamente o nome de Beethoven. O gato respondia roçando por suas pernas e saltando em seu colo. Não entendia mais o que acontecia e foi contar o curioso fato para seu pai. César proferiu Bee-tho-ven paulatinamente e separando suas silabas. Percebeu que Dove só respondia ao seu chamado nas últimas duas sílabas. Num súbito de raciocínio certificou-se também que o animal não lhe dava atenção se não estivesse olhando diretamente para seus lábios. Mauricinho e César chegaram juntos a conclusão de que Dove fazia leitura labial de tudo que estavam dizendo. A semelhança sonora entre Dove e Beethoven, e a maneira de como seus lábios moviam os fez acreditar que se renomeassem o gato para Beethoven, não seria de toda forma ruim. Ambos perderam a audição em um trágico e acidente e ambos possuíam bastante sensibilidade auditiva. Como numa sinfonia, pai e filho chamaram o gatinho simultaneamente de Beethoven. O gato confuso, não sabia a quem atender primeiro. Deu as costas, saltou em cima do piano elétrico e repousou nas teclas, bem ao lado da partitura de Sonata ao Luar.

Patos de Minas, 16 de abril de 2014.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Choque - Caio Machado

Tomava banho avidamente e vangloriava-se da última noitada que teve com Sofia. Segurava seu membro veemente e com a mão esquerda girou a torneira para desligar o chuveiro. Uma corrente elétrica atravessou seu corpo. O chuveiro não era aterrado e ele já não se lembrava. Sentiu um fio elétrico cortar sua barriga e percorrer toda sua região peniana. Soltou o pênis de súbito e quase escorregou no chão do banheiro.

Recuperou-se do susto e desligou o fluxo da água segurando a torneira com sua toalha. Enxugou-se desacertadamente e se vestiu com o corpo ainda úmido. Foi urinar e o membro flácido retorceu-se fazendo com que ele molhasse toda sua calça jeans. Já não sentia mais o pênis entre as pernas. Tateou-se desesperadamente e não conseguiu sentir nada além da pele que seus dedos tocavam. Trocou de calças e correu até a junta de saúde do quarteirão de baixo.

O urologista disse que a sensibilidade foi perdida pela descarga elétrica e que por sorte o canal urinário não havia sido deteriorado. O tratamento de reversão lhe custaria cerca de cinquenta mil reais, e apenas um de dois pacientes havia sobrevivido ao procedimento, considerado altamente arriscado. Ele não conseguiria pagar. Recomendou-lhe que tivesse paciência com a situação e até indicou um grupo de apoio da igreja protestante.

Recorreu à pornografia pesada por várias horas a fio. Assistiu aos vídeos caseiros feitos com suas colegas de trabalho em festas da firma. Tentou pornô gay, necrofilia, scat, tortura, zoofilia. Nada feito. Na farmácia cantou a atendente e nem isso o estimulou. Ingeriu uma cartela inteira de Viagra. Lembrou-se de sua primeira vez com sua prima caçula na fazenda. Nada funcionou.

Acendia um cigarro e o esmagava contra o cinzeiro. Não sentia mais vontade de fumar. Estava ciente de ter destruído a sua única razão de existir. Sentia-se um eunuco deprimido. Imaginava seu pênis sendo guilhotinado por um cortador de charutos enferrujado a todo o instante. Tentava dormir, mas não pregava os olhos. Enfiava a mão dentro do zíper e sentia novamente sua mão tateando aquele membro lânguido e gelado.

Ligou pra Sofia e aos prantos criou coragem para contar. Ela gargalhou bastante e entendeu aquilo como uma nova fantasia dele. Aos soluços ele só conseguia dizer para que ela viesse até sua casa. Ingeriu todo o resto da garrafa de conhaque e afundou-se no sofá. Aguardou de luzes apagadas e parecia para ele que cada segundo estava perdurando por vários anos.

Viu o corpo despido de Sofia e percebeu que uma enorme excitação preenchia todo seu corpo. Suava frio, pois a única parte essencialmente necessária estava intacta e estática. Apertou seus dedos contra as nádegas de Sofia e a puxou para perto de si. Nada aconteceu. Sofia abaixou-se pelo seu corpo e colocou o membro dele em sua boca. Insistiu muito até salivar e levantou-se da cama vestindo-se constrangidamente. Ele estava arruinado.

Ainda nu, enfiou o pênis dentro do aquário de seu peixinho betta. Esperava de verdade que fosse atacado e mordido. A criaturazinha azulada reduziu-se a esconder no fundo rochoso e falso do vidro cheio d’água fétida. Esmurrou o aquário espatifando-o e assistiu com desdém o pobre animalzinho se debater até morrer no imenso carpete da sala.

Acendeu o isqueiro embaixo de seu saco e viu as gotas de sangue pingar e sentiu o forte cheiro de pele queimada. O odor não lhe parecia tão ruim. Não havia mais nada a fazer, ele já não sentia absolutamente nada ao redor de sua virilha. Pensou em fazer um empréstimo. Pensou em se matar.

Atirou-se do terceiro andar do prédio de seus pais. Quebrou três costelas e não morreu. Regozijando-se conseguiu colocar a mão dentro de sua calça. Sentia novamente o sangue quente fluindo e percorrendo o interior de seu pênis. O choque em sua costela havia reanimado seu falo desfalecido. Desmaiou de dor e não se sabe ao certo se ele acordou.

Frutal, 04/05/2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Download do Livro Corsário Solitário

Acabo de lançar meu primeiro livro em formato digital. A obra Corsário Solitário trata-se de alguns textos que escrevia anos atrás em um blog e que resolvi unificar e transformar em livro. A arte da capa foi feita pelo meu grande amigo e designer Rafael Maciel. A revisão da obra foi feita de maneira colaborativa por amigos e familiares. O grande mérito da produção do livro foi o aprendizado e a experiência adquirida ao revisar e diagramar todo o material. Devo um enorme agradecimento a todos os envolvidos nesse projeto. A seguir o link para download:

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Um borrão preto percorria aquele marrom intenso - Caio Machado



Não esperava nada além do tédio. Anualmente nos encontrávamos na casa de Rodolfo para celebrarmos a existência de nossa família. Ou algo relacionado à união dela, que eu particularmente não conseguia notar. Rodolfo Couto era o quinto irmão de meu pai. Sete anos mais novo do que ele, fez carreira militar no Rio de Janeiro e se casou bem moço. Não fosse pela suposta união da família ele jamais teria retornado para Maringá, onde o resto todo dos Couto ainda residia. O casarão que ele morava ocupava uma área nobre da cidade e de comum acordo de todos era o melhor lugar para sediar a celebração. Chacotas e bajulações à parte, o que mais me agradava nisso tudo era a comida em abundância e em estrondosa qualidade. As enormes panelas postadas no forno à lenha davam um ar mineiro. O bucolismo existia pelo fato que a festa ocorria sempre no enorme quintal do casarão. Infelizmente, o almoço só seria servido às quatro da tarde e no decorrer do dia beberíamos e comeríamos alguns petiscos.
Mônica Kaneshiro era a esposa de outro tio meu. O casal vinha do Japão, de onde não regressavam desde 1997. Mônica entrou na casa acompanha de Fausto Couto e de uma moça que até o momento eu sequer sabia sobre sua existência. Aparentando seus dezoito anos, a garota tem o cabelo negro azulado em um liso irregularmente ondulado. Os traços do rosto são bem arredondados e orientais. Os olhos eram bastante puxados e grandes, protegidos por uma estreita e corredia sobrancelha. Os lábios eram curtos e rosados. Seu corpo tinha curvas sinuosas o bastante para que a moça pudesse ser confundida com uma típica brasileira formosa. Senti-me estupefato com o ar indiferente que ela carregava e com sua beleza desnorteante. Dei-me por convencido de que iria conhecê-la naquela tarde. E não perdi um segundo sequer. Após todos cumprimenta-los tratei de encaminhá-los pelo casarão arranjando-lhes um lugar um pouco mais isolado de todos. Sentei-me junto ao trio à mesa. Tio Fausto estava satisfeito com a atenção que eu prestava a eles. Parecia que eu era o único ali interessado em conversar com eles, o que de certa forma os agradava muito. Mônica era mais reservada, limitando-se a apenas responder o que eu perguntava e a sorrir quando necessário. A garota não deu um pio e olhava para os lados frequentemente. Seu nome era Clarice e ao nos apresentarmos ela me fitou de maneira tão fixa que senti um estranho desconforto. Contei para eles que abandonei a faculdade de Física quando recebi uma proposta de trabalhar como gerente de uma agência de encomendas e eles ficaram surpresos. Não dei maiores detalhes, mas a partir daí Clarice não desgrudou mais seus olhos de mim. Ela disse que iria até a cozinha buscar algo para beber que lhe agradasse e eu decidi acompanha-la. Novamente a satisfação evidenciou-se no casal e eu de certa forma senti que isso representava um sinal verde para nos dois.
No caminho até a cozinha, ela não disse nada. Entrou pegou um copo de limonada na geladeira e misturou com um chá mate que estava em outra jarra. Limitei-me a segui-la com um copo de refrigerante. A garota andava de forma majestosa e pausada. Ou eu estava bastante apaixonado ou seus pés que calçavam um par de sandálias fechadas mal tocavam ao chão. Ao invés de voltar para a mesa de seus pais ela sentou-se em uma mureta próxima a área de serviço da casa e me perguntou se eu queria saber por que ninguém a conhecia. Rapidamente ela se corrigiu dizendo que todos fingiam não a conhecer. Demonstrei interesse e acenei com a cabeça dizendo que queria saber mais sobre isso. Ela não me deu um detalhe sequer de sua vida. Disse-me apenas que ninguém da família tem fotos dela e que alguns prefeririam que ela nunca tivesse existido. Contou-me que nos anos que passou no Japão desenvolveu uma doutrina própria onde era necessário estender um lençol lilás por sobre todos os móveis da cozinha para que sua crença se estabilizasse. Além disso, sete contas feitas com bordado e conchas do mar deveriam estar ao redor de todos os vasos sanitários de sua casa. Feito isso ela atingiria seu singular nirvana num transe excêntrico e solitário, pois claro, só ela seguia sua doutrina. Naquele momento eu estava de fato fascinado com tudo aquilo que ela me dizia, mas meu interesse maior era apenas carnal. Ela me prendia pelo seu jeito único e claro, pela sua inalcançável beleza.
Repentinamente seu olhar se tornou estático ao notar que um gato caminhava pelo muro da casa. A parede era repleta de lodo e folhagens, o que sugeria um aspecto bem gótico e assustador. Aquele gato branco se arrastava suavemente pelas relvas. Como que se recitasse uma oração Clarice sibilou algumas palavras que remetiam a elegância e discrição do andar dos gatos. Algo sobre como eles sobreviviam em qualquer situação e repetia firmemente que viver pensando só em si próprio era a melhor qualidade que o homem poderia ter para si observando o estilo de vida gatos. Assim que o bichano pulou para a rua ela saiu de sua súbita hipnose e me disse que no seu bolso se encontrava a única foto que havia sido feito dela. Com sua pequena mão esquerda ela retirou um recorte amarelado de jornal e me entregou com um bizarro sorriso no rosto. Um torcer de lábios de um mistério tão vasto que só se via algo similar no quadro da Monalisa ou algo que o valha. A notícia do jornal era sobre o massacre de crianças em uma escola primária no Japão. A assassina era Clarice Couto Kaneshiro, que na foto carregava uma submetralhadora, trajava um uniforme escolar escuro e não ilustrava nenhuma feição em seu rosto. As cores gritantes e o mau gosto evidenciado pela escolha da foto acusava o caráter sensacionalista do jornal que noticiou o ocorrido. A nota curta não dava muitos detalhes e limitou-se a comparar a garota com os jovens assassinos do massacre de Columbine. Aquele foi o único jornal brasileiro a relatar o ocorrido, no Japão a imprensa foi totalmente barrada. Por incrível que pareça a notícia não me chocou nem um pouco e o sentimento que ardia em meu peito incrementou-se ao olhar novamente para Clarice após ler o jornal. Meu coração parecia que iria explodir, eu nunca havia sentido isso por ninguém. Clarice notou o que eu estava sentindo e se aproximou de mim. Nossos lábios se tocaram por automatismo e ela não se mostrou evasiva. Beijamo-nos longamente e ela não hesitou.

            (...)

Clarice tomava seu chá gelado. Seus colegas de classe preferiam café. O gatinho marrom de Clarice se chamava Sembe. Já era habitual que o felídeo ficasse aos seus pés enquanto ela tomava seu chá. Por estranhar tanta gente na cozinha o gato deitou-se ao lado de um dos garotos que tomava café. Katsuhito era um garotinho muito efusivo e adorava traquinagens. Não se aguentou ao ver o gato bocejando de sono e derramou café no dorso de Sembe. O gato estremeceu e num berro de dor se jogou janela a fora num salto imenso. Todas as crianças se esbaldaram em risos de escárnio. Clarice mirou Katsuhito sem qualquer expressão facial. Espatifou sua xícara no chão e vociferou para que todos fossem embora dali.

 (...)

Clarice contou-me que após o ocorrido passou sete anos internada em clínicas, submetida a intensas sessões psicológicas perante ingestão de medicamento pesado. O curioso é que seu tratamento ocorria em paralelo ao de alguns colegas que sobreviveram e também com pais de alguns outros que ela havia assassinado. Ela sorriu sem som e disse que não sabia por que tinha feito aquilo. Disse que encontrou a arma no cofre da casa de uma colega enquanto brincava de pique-esconde. A garota era filha de um oficial, que por distração não havia trancado a caixa no dia em questão. Ela guardou a arma discretamente em sua mochila. Na manha seguinte, entrou na sala de aula e disparou contra alguns de seus colegas. Detalhou que quando atirava a pressão que a arma exerceu contra seu corpo à fez ver intensos clarões lilases e que foi a partir daí que passou a dar vazão a sua própria doutrina. Ela necessitava de sentir aquilo tudo de novo. Voltamos a nos beijar. Dessa vez por decisão minha. Clarice pareceu não estar gostando do rumo que isso estava tomando. Disse-me que assim seria mais fácil e correu para o interior da casa. O sentimento que passava pela minha cabeça é que eu realmente havia estragado tudo. Eu devia ter tentado entende-la, questionando-a mais sobre o ocorrido e sucessivamente mostrando-me interessado. Decidi não ir procura-la por agora e me juntar aos seus pais.
Novamente conversei com Fausto e afirmei que sua filha era uma rapariga muito especial. Ele me retribuiu com um riso sonoro e sincero. Seus olhos realmente brilhavam e assim faziam-se também os de Mônica. Um calafrio percorreu minha espinha, pois pela primeira vez naquela tarde passei a suspeitar de algo estranho, já que o casal trajava roupas com os mesmos tons escuros que os do uniforme usado pela filha na manhã do massacre. Tornei a mesa onde se encontravam meus pais e recordei-me amargamente do hostil terreno de “união” no qual me encontrava. Era evidente que todos ali buscavam apenas a herança de meu avô. O patriarca Dantas Couto já andava com um pé na cova. Dividir os bens com catorze filhos com certeza não será uma tarefa simples de resolver. Pra piorar o velho decidiu que sua família não necessitava de testamento já que todos se amavam por igual. Pudera eu me fazer de bobo de maneira tão hiperbólica.
O gato branco regressara ao muro e já era hora do almoço ser servido. O delicioso aroma recendia por todo o jardim. Meu estomago roncava e minha boca estava inundava de saliva. O mais engraçado é que o sentimento de paixão intensificava essa fome de uma maneira muito excêntrica. Eliza Ribeiro Couto, esposa do anfitrião da casa foi quem destampou as desmedidas panelas. Enquanto isso o marido agradecia a presença da enorme família e salientava o quanto estava feliz por ter uma família tão harmoniosa. O senil Dantas sentia-se bastante orgulhoso em sua cadeira de rodas e foi o primeiro a despregar um prato vazio da mesa para se servir. Ao puxar o pesado prato de porcelana um pedaço de papel revelou-se na mesa. A seguir, todos que pegaram um prato tiveram a mesma surpresa. Ao terminar de ler o papelucho, Dantas deixou o prato deslizar de sua mão e inesperadamente desmaiou causando imediata preocupação em todos os presentes no casarão. O velho estava morto. Um longo silêncio percorreu o jardim onde todos agora liam o papel que se encontrava debaixo de cada prato. Tratava-se de cópias do recorte de jornal que noticiava a chacina na escola de Clarice. Era evidente que os papeis haviam sido recortados de jornais, mas tudo soava meio falso, pois não havia nada nas costas dos recortes.
O longo silêncio foi cortado pelo som de passos vindos à direção da cozinha do casarão. Clarice calçava um sapato preto bastante lustrado, uma saia preta de brim e uma blusa azul escura. Tratava-se do mesmo uniforme que a garota usava no incidente da escola e também das mesmas cores que vestiam seus pais. A submetralhadora em suas delicadas mãos também parecia ser a mesma. Sua beleza continuava lá, intacta. Superior. Como se um marcador de livros em um álbum de fotos estivesse sido retirado da última imagem que tive de Clarice. Seus pais já não se encontravam mais na mesa e dessa vez três gatos postavam-se ao muro dos fundos. O gato branco, agora acompanhado de um casal de gatos negros, observava a família Couto por cima da parede. Clarice entrou repetindo uma frase curta de maneira estática e automática. Não parou de proclamá-la nem mesmo enquanto puxava o gatilho e dizimava sua família, que segundos antes a repudiava por provocar a falência de Dantas Couto. Sabia que sua suave voz seria a última coisa que ouviria e sequer senti medo. Que fim melhor todos nós poderíamos ter? A garota alvejava um por um e a assustadora indiferença em seu rosto novamente fazia com que meu coração chacoalhasse em meu peito. Os gatos assistiam ao banho de sangue com intensos miados e pareciam extasiados com um febril brilho lilás que refletia o vitral da cozinha com o clarão dos tiros disparados. Fui poupado pela moça e observava tremendo, o sangue se misturando por todo o chão do jardim. Os gatos se aproximaram e para que não se sujassem de sangue saltavam levemente de corpo em corpo pelo chão. O trio se aproximou de mim, mas logo saíram em disparada quando fui baleado no estomago por Clarice. Sua voz repetia a mesma coisa desde que saiu de dentro da cozinha.

            (...)

Sembe cortou-se ao pular da janela da cozinha, pois caiu bruscamente em cima de uma torneira que ficava no jardim da casa de Clarice. Não resistindo às dores da queimadura e do corte, o bichano morreu ali mesmo. A garotinha o encontrou enquanto ele solfejava seu último miado. Sua dor refletia a mesma dor que a de Clarice sofria por perdê-lo. Um borrão preto percorria aquele marrom intenso.

domingo, 28 de outubro de 2012

Ela será só minha - Caio Machado

Os pingos de chuva coloriam em tons mais escuros do que habituais às calçadas, ruas e pisos por todo o chão. A terra é subitamente umedecida e se torna viscosa, superfícies lisas se tornam escorregadias e perigosas. Meus trajes imundos logo começarão a encharcar e meu vasto e crespo cabelo não absorverá muito da água. A boa notícia é que a tempestade aliviará um pouco do calor e do clima seco deixado em setembro pelo mês de agosto. A má notícia é que eu não tenho teto.
Lembrei-me da ponte situada na avenida que eu saberia o nome se soubesse ler. Pensando bem, ao menos consigo distinguir uma rua de uma avenida. Serão três quadras de um sôfrego caminhar e a probabilidade de meus pertences não molharem e da rua não se inundar é nula. Mais vale um chão seco e duro, do que um chão macio e molhado. Minhas caixas de papelão com meus mantimentos derreterão, mas eu as levarei assim mesmo. Meu cantil já está seguro em meu bolso e um breve gole será um tanto quanto encorajador.
Pés descalços em superfícies alagadas sempre resultam em infortúnios. O primeiro corte foi no calcanhar e o pior de tudo é que eu sempre evitei aquela imperfeição do asfalto. O desespero te confunde e te torna seu pior inimigo, mesmo quando você conhece perfeitamente todo o itinerário a ser seguido. Felizmente meus calos transformaram a sola dos meus pés numa resistente crosta.
Um cão esquelético e ensopado atravessava a rua vagarosamente. A ausência de raciocínio não faz com que a chuva incomode aquele animal errante. Eu provavelmente estou com mais fome do que ele. E olha que minhas costelas nem estavam assim tão expostas. Nem todos os cães conhecem o álcool e seus benefícios relacionados à fome e a dor. Minha luta agora era por um lugar seco para repousar e não por alimentos. Se fosse isso comeria até mesmo aquele magérrimo cachorro.
O sangue do meu calcanhar pintava cada poça que eu pisava. A dor do corte logo foi substituída pela sensação de frio que fazia meu corpo ulcerado tremer. Nas noites frias, as estrelas são como flocos de neve. Naquela noite eu não teria essa singela distração que sempre pulsava congelada no céu. Pior ainda são os banhos que eu sempre tomo por cada carro que cruza meu caminho. Lancei um olhar de desprezo para cada motorista que jorrou água em mim. Praguejei para que seus filhos morressem em uma enchente ou algo que valha.
Queria saber quando foi que o ser humano tomou os mendigos por desalmados e meros objetos de diversão. Garotos que jogam meus pertences em córregos, pessoas que me expulsam de estabelecimentos e já ia me esquecendo dos outros mendigos que roubam minhas moedas na cuia de esmolas. A maldade em si está em qualquer homem, não escolhe a condição em que ele vive. Ao nascer, a sociedade é corrompida pelo homem, e não o contrário.
Minhas únicas aliadas, naquela noite chuvosa eram as marquises de edifícios, que se tornavam praticamente sazonais. Varandas de alvenaria e toldos também são todos bem vindos. Acentuam o frio, mas me deixam menos exposto ao temporal. Árvores são traiçoeiras. Quando não despeja na sua cabeça a água acumulada em suas folhas, estão servindo de para-raios. Evitei todas as possíveis.
Dali já avistava a parte inferior da ponte em que me abrigaria. Ela será só minha. Nenhum dos infelizes que furtavam minha cuia de esmolas estava na área. Aquela ponte era mais suculenta do que um prato feito. Remendava minhas angústias mais do que um trago de conhaque. Superava até o amor materno que nunca tive ao ser abandonado ao nascer. Ela será só minha. Por um instante eu até me esqueci da chuva. Obrigado por me trazer de volta a realidade, trovão.
O maior desafio do trajeto era descer até a ponte. O concreto estava úmido e o lodo se tornou ainda mais pegajoso. Dois passos. Três passos. Ela será só minha. Eu estava quase lá. No quarto passo, o fundo da caixa de papelão cedeu e todos os meus pertences caíram rio abaixo. Dane-se, estou a salvo. Cinco passos, seis passos. Ela será só minha. Já conseguia avistar o local, totalmente seco e mal iluminado. Deitado me imaginava, apenas ouvindo os gritos da chuva martelando o asfalto acima de minha cabeça.
Nem percebi que havia pisado em falso e que agora estava caindo em direção ao córrego. As pedras da barragem me avisaram do ocorrido. A dor na coluna só não é mais gritante do que a dor da fome. Provavelmente quebrei umas sete costelas, quatro dentes e outros inúmeros ossos dos quais eu nunca soube os nomes. E por falar em números, vinte deles serão gastos em minutos para que o nível da água suba e me mate afogado. Nem sequer um velório digno eu terei. Como se algum instante em minha vida paupérrima tivesse sido digna. Amigos e familiares num enterro? Provavelmente a água me enterrará. Permaneço estagnado ao chão contemplado minha última ambição em vida. Ela será só minha.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Pena - Caio Machado


O autor se pergunta o tempo todo se vale a pena passar seus últimos dias com animais mais estúpidos do que burros, e mais sujos do que porcos.

O seu sôfrego caminhar determinava a velocidade que seus dias se arrastavam. Pés descalços e extremamente calejados. Um mirrado galo garnisé e quinze aves distribuídas e amontoadas em um pequeno cercado com folhas secas forradas, no meio de suas próprias fezes e dejetos.

Noventa e três anos. Viúva há uma década e exilada de tudo: família e possivelmente civilização. A solidão e as lembranças da fazenda remetia ela a momentos felizes com seu falecido marido. Uma maneira de se manter fiel à solidão e infiel ao seu estimado esposo.

Milho pelas manhãs. Ração sempre à tarde. Água trocada de dois em dois dias.

As galinhas mordiscavam suas pernas abarrotadas de varizes como uma maneira de expressarem suas fomes. Um desabafo faminto e por parte da senhora tido como forma de afeto.

O autor não sabe nada sobre raças de galinhas e, portanto, utilizará recursos darwinistas (formatos de bicos e cores de penugens) para uma breve descrição.

Penas marrons, brancas e pretas. Bicos de um tom amarelo fosco, curtos e achatados. Cristas bastante avermelhadas de formatos que variam entre ondas perfeitas a meros chicletes mastigados. Muito ruído por parte dos pios. Aves gordas e repletas de penas engorduradas e empoeiradas.

A vida daquela senhora estava acabando e a única coisa que ela ainda fazia era alimentar suas galinhas, recolher ovos, lavar seus vestidos e cozinhar mingau de fubá. Seus dias correndo pelo avesso e nenhum Homo sapiens ao seu redor.

(...)

Ela morreu no meio da porta do galinheiro, que ainda estava entreaberta e caiu de costas com sua face voltada para o céu. Felizmente ela tinha acabado de servir os animais com ração. Nenhuma ave percebeu. A porteira ficou bloqueada com seu corpo sem vida.

Inicialmente as galináceas ciscavam o chão em busca de minhocas e também destruíam todas as plantas a disposição no cercado. Depois de certo período não havia mais nada para ser ingerido pelas paupérrimas aves.

As aves agora passavam por cima do corpo da mulher e invadiam o casebre onde a pobre alma residia de maneira parca. Barras de sabão foram seus primeiros alimentos. Em seguida, os sacos de arroz empilhados ao lado do fogão à lenha.

Fezes estampavam agora todo o chão do casebre. A fome estampava também a face das aves agora desesperadas.

O corpo da senhora começava agora a decompor paulatinamente e o odor desvanecia rápido devido aos constantes temporais e ventanias. A reserva de arroz e sabonete já estava chegando ao seu fim.

Os ovos que anteriormente eram recolhidos agora chocavam e os primeiros filhotes faleciam, por falta de recursos alimentares, e serviam de alimento para as aves veteranas. Um excêntrico canibalismo, mas de extrema urgência para a sobrevivência delas.

Animais que se apegam a você pelo simples fatos de alimentá-los. Animais que traem você pelo simples fato de não alimentá-los.

O cheiro fétido daquele corpo não poderia incomodar mais do que a fome das galinhas. A primeira bicada cortou seu braço direito. Já não havia mais sangue naquele corpo, mas aquela abundante carne roxa serviria por ora.

A mutilação ocular assistida no filme de Buñuel com repulsa em sua juventude se assemelhava ao estrago feito naquela bicada desferida pelo galo garnisé. Acelerava-se assim o processo de deterioração de seu corpo. Os olhos eram saboreados de melhor grado para as aves e não tardaria que as galinhas encontrassem algum vestígio cerebral.

Quanto tempo aquilo as alimentaria? Se aquela cena era mais horripilante do que a própria fome em graus extremos?

O tempo transformaria todas elas em carrascos de si próprias.

domingo, 17 de junho de 2012

Um dia e nada mais - Caio Machado

Disseram-me que aquela era a única pessoa na cidade capaz de realmente lançar um mal olhado em alguém. Recorrer para macumba para dar um fim no amante de minha mulher. Em que ponto foi chegar essa situação? Eu poderia tentar outros métodos, aliás, já tentei, mas nada funcionou. O pequeno escritório daquela mãe de santo ficava dentro da galeria central e cheirava a incenso barato e sabão em barra. Seus cabelos negros eram encaracolados e desgrenhados. Sua fala era longa e arrastada. Após nos cumprimentarmos disse sem rodeios para que ela desse um sumiço daquele rapaz na vida de minha esposa. Ela paulatinamente disse ser impossível conseguir que ele se afastasse dela por algo mais do que um dia e eu reclamei dizendo que um dia não mudaria em absolutamente nada. Por trás daqueles olhos castanhos escuros eu percebia de que algo ali estava bem errado. Ou ela conseguia sim se livrar do amante de minha mulher ou ela não passava de uma charlatã tentando me convencer de que é capaz de tal feito para apenas extorquir meu dinheiro. Mesmo tendo sido extremamente recomendada por pessoas de minha confiança, não conseguia entrar em um consentimento com a bruxa.
Ela insistia na ideia de que poderia afastar a pessoa por apenas um dia e que nesse curto período de tempo minhas atitudes sim, seriam definitivas para que mudanças a respeito da infidelidade de minha esposa fossem tomadas. Discordei novamente dizendo que se só isso resolvesse eu mesmo daria um sumiço naquele infeliz por vinte e quatro horas. Pedi para que ela o mandasse para o Recife ou mesmo a China. Só bastava que ele desaparecesse por completo, não se tratava de tirar a vida daquele homem. Meu amor por minha mulher já aceitou a traição, não custaria muito perdoá-la após ele partir. A macumbeira não se deu por vencida e continuou na mesma ladainha. Aquela saliva grossa que saltava de sua boca ao dizer sílabas carregadas me enojava cada vez mais.
Não me dei conta de que havia perdido toda à tarde naquele lugar sem nada ter resolvido e decidi largar mão disso tudo e partir para minha casa. A senhora me jogou um sorriso de lado bastante pejorativo e disse que no dia seguinte ela resolveria meu problema. Novamente a sensação de estar sendo passado para trás me ocorreu, mas agora eu já não tinha mais nada a perder. Ao chegar em casa, notei que minha esposa se encontrava em nosso quarto arrumando os lençóis da cama e conversando ao telefone. Sorrateiramente pude ouvir bem enquanto ela agradecia a mãe de santo por me manter afastado de casa bem no dia da folga de seu amante e como a sua tarde havia sido maravilhosa. Segui para o sofá da sala e afundei em minha poltrona. Era quarta-feira e o Jornal Nacional trataria de me distrair ou confortar meus mansos chifres.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Dupla Descoberta - Caio Machado


Naquela manhã a última coisa que eu precisava era de ter que me levantar. O sol já preenchia com luz todo o meu quarto e os clarões já não ofuscavam mais minha visão. O perfeccionismo de meu pai ao projetar a planta de nossa casa, fez com que todas as janelas dos quartos iluminassem as camas assim que o sol nascesse. A luz incide do começo da cintura até os pés, de maneira com que os primeiros raios não incomodem os olhos e nem que esquentem demais a cama. Toda aquela paixão que eu estava sentindo desaparecia e em seu lugar uma aflição bombardeava meus anseios para que tudo aquilo fosse esclarecido. Na verdade eu nunca demonstrei que estava me sentindo apaixonada ou algo do tipo. Definitivamente isso é algo que eu geralmente nunca deixo transparecer, mas que de todo jeito ainda me deixa numa posição confortável perante tudo, pois sempre houve quem pensasse e agisse por mim nessas situações. Como se isso de alguma maneira segurasse a pessoa que estivesse interessada em mim. Mas dessa vez é algo maior e toda essa minha demora e errônea impressão de desinteresse pode resultar em algo trágico e eu deveria evitar.
No caminho até o colégio eu não tirava isso da cabeça e nem mesmo mudando de trajeto duas vezes consegui me desvencilhar disso. Eu deveria relaxar, pois já havia tomado meu banho que em cada manhã servia para que eu realmente despertasse e me sentisse disposta para o resto do dia. O que geralmente sempre funcionava e, além disso, eu havia usado até o perfume novo que ganhei de presente dele e acertado no meu penteado. Nada sairia errado.
Parecia até que os horários escolares se arrastavam como lesmas de uma tonelada ou mesmo que o tempo tivesse me escolhido pra me chatear naquela manhã... O fato de estudarmos em colégios diferentes também colocava minha ansiedade a toda prova, mas finalmente nos encontramos e já estávamos fazendo o percurso de volta para minha casa.
- Laura, eu consigo ver que você está nervosa. Seu pai é tão severo assim? Porque eu estou muito tranqüilo quanto a tudo e até...
- Não se trata dele ser severo... – respirei fundo - O problema não é ele te aceitar e sim você aceitar ele – Foi a coisa mais séria que eu já tinha dito em toda minha vida e eu não queria mesmo que isso fosse um problema para nosso namoro.
- Escuta. Eu gosto de você e sei que vou aceitar ele. – Notava-se que ele não entendia o que era pra ser aceito... - Confia em mim!
Como eu queria que só a confiança dele resolvesse isso. Seria a terceira vez que eu me sentiria insegura com a idéia de alguém ir conhecer meu pai. Ao chegarmos em minha casa encontramos o jardim recém tratado e o regador jogado ao chão, que por sinal ainda estava molhado e bem próximo das tulipas. Mamãe nem chegou a vê-las tão lindas assim e provavelmente que Leonardo nem tenha as notado. Claro que o cheiro do Ravióli que meu pai preparava desviaria a atenção até da mais bela e perfumada tulipa do planeta e o aroma que agora invadia todo o jardim. Além de invejar o vizinho e instigar o paladar também aflorou os tremores de Leonardo que agora começavam a desapontar freneticamente desordenados. Sabia que ele cederia e isso utopicamente começava a me animar.
Ao entrarmos notei que havia uma mala ao lado das escadas. Aquele cheiro esplendido estava por toda a casa e nesse momento nota-se que a tão bem elaborada arquitetura da casa apresentava um pequeno probleminha em dissipar o cheiro de alimentos pelos outros cômodos da casa. Nessa situação foi um erro bem cabível, já que o aroma era agradável, salvo algumas vezes em que eu queimava algo nas minhas frustradas tentativas em prepara algo! Meu pai estava na cozinha e vestia um avental de uma cerveja belga desconhecida, trajava aquelas luvas engraçadas de cozinheiros e um par de sandálias um tanto quanto “mitológicas”. A mesa na copa estava estupenda e havia até mesmo taças de cristal que geralmente meu pai usava para ocasiões especiais em que ele servia o vinho chileno que ele tanto adorava. Acho que a euforia do preparo do almoço fez ele se esquecer de que seus convidados não haviam feito sequer dezesseis anos. Leonardo permitiu que eu os apresentasse:
- Pai, esse é o...
- ...garoto que vai cuidar muito bem da minha filhinha! E eu espero que suas mãos não estejam tremendo assim quando a Laura estiver em alguma encrenca!
Meu pai conseguia ser sempre adorável. Até mesmo com meu primeiro namorado que agora já se sentia mais aliviado e confortável ao ouvir essas palavras.
- ...a propósito, meu nome é Alberto. E não me trate por sogro! Vocês ainda não têm idade para se casarem. – Papai soltou uma enorme gargalhada e todos os tremores de Leonardo despareceram!
O almoço ocorreu perfeito e parecia agora que os dois já se conheciam a anos. Obviamente o vinho deu lugar a um delicioso suco de uva que para quem não degustasse ousaria dizer que se tratava mesmo de vinho, por estar tão bem translúcido naquelas luxuosas taças. Meu pai percebeu que eu tinha encontrado uma boa companhia e se sentia bastante orgulhoso de mim e acima de tudo se sentia satisfeito por ter cozinhado um Ravióli tão suculento. De longe devia ser o melhor que ele já havia preparado! Claro que Leonardo começava a notar que meu pai era um tanto quanto perfeccionista e afeminado, mas preferiu continuar na dele...
Ao terminarmos Leonardo se levantou e foi até a cozinha onde paulatinamente começou a lavar os pratos e talheres que havíamos sujado no almoço. Corri até ele apavorada e disse:
- Olha não precisa se preocupar...
- Laura, eu tenho esse hábito desde garoto e não...
- A nossa empregada sempre limpa tudo...
- Eu nunca tive empregada! Você pode aprender muito sem uma. Dá pra ver que seu pai faz de tudo pra vo...
O tilintar da campainha interrompeu a nossa conversa. Meu pai que nos observava instigado da copa se levantou serenamente e foi até a sala atender a porta. Era seu namorado Cícero e papai não economizou folego naquele ardente beijo ao recebê-lo. Os dois deram as mãos e foram até a cozinha. Senti um frio passando pela espinha seguido de um arrepio breve.
- Leonardo, eu quero que você conheça...
- Tio Cícero?
O espanto foi com todos. Cícero corou e com o impasse não proferiu uma palavra sequer. Meu pai iminente do constrangimento dos dois postou se apenas a observar. Eu que antes me sentia preocupada sobre o aceitamento do homossexualismo de meu pai me via agora forçada a torcer para que uma família não fosse destruída. Quiçá duas. Os olhos de Leonardo lacrimejavam e Cícero já pálido esfaqueou todo aquele silêncio:
- Leonardo? O que você faz aqui...?
- Eu deveria te fazer a mesma pergunta se já não tivesse entendido tudo! Eu estava a conhecer o pai de minha namorada que por sinal parece ser o seu namorado! Disseram-me que você tinha fugido de casa há alguns dias? E o seu noivado com a Carmen, o que vai ser?
- Eu consigo explicar! Já não encontrava mais o que eu queria na Carmen. Aliás, nem em mulher alguma. Você me entende... Eu sempre tentei dizer isso pra ela, mas ela não conseguia ou não queria entender! – Cicero agora parecia mais aliviado ao contrário de mim que estava com as pernas tremulas e suando frio. O único aspecto positivo em tudo é que eu não detectava nenhum sentimento preconceituoso sendo proferido de Leonardo - Olha estou indo agora viajar com o Alberto e ficarei fora por duas semanas...
- De fato tio, você fugiu!
- Não é isso garoto! Você ainda não sabe nada sobre como conseguir felicidade plena! Vai querer abrir mão de muitas coisas quando souber, é muito imprevisível...
- Eu não sei se quero entender! Mas por que fugir assim da Carmen? Isso é covardia... – não conhecia esse lado desequilibrado de Leonardo, mas confesso que ele ficava bem charmoso com essa expressão fechada.
- Covardia ou não estamos de saída! Desculpe-me Leonardo.
Meu pai olhava para baixo e eu o fitei um tanto decepcionada. Será que ele tinha conhecimento que Cícero havia abandonado mesmo essa tal de Carmen? Os dois viraram de costas e meu pai se resumiu apenas em nos dar um olhar que serviria tanto para repreendimento de Cícero ou mesmo de vergonha própria. Leonardo ao contrário mostrava uma visível ânsia de choro e tudo que eu fiz foi o abraçar.
- Eu só queria que você aceitasse meu pai e não que isso tudo acontecesse!
Agora nos dois é que chorávamos e sem nenhum pudor ou censura de ninguém. Senti que aquele abraço carregado de lágrimas seria um dos mais intensos que já tive em toda a minha vida.
Ouvimos o ronco do motor do carro de Cícero e eles nem se deram ao luxo de se despedirem. Espero que essa viagem da qual eu mesma nem tinha conhecimento sirva de reflexão sobre esse conturbado reconhecimento ou algo que o valha.
Meu quarto com certeza não seria o refúgio ideal para nós. Minha bagunça já se acumulava sobre minha cama e o dia estava límpido e ensolarado demais para ser desperdiçado em apenas em uma janela. Fomos para o jardim dos fundos e sentamos nas velhas gangorras azuis. Embaixo de nossos pés não havia mais grama devido ao atrito dos pés para movimentar as gangorras, mas ao redor tudo se mantinha impecável.
- Olha Leonardo, me desculpe pelo papai... Ele não conseguiu se interessar por nenhuma mulher depois a mamãe faleceu e agora opta por esse tipo de vida só pra se saciar, eu não sei te explicar bem como são as coisas. – Comecei novamente a chorar – Eu sinto muita a falta dela. Nos a amávamos tanto! Não imaginava que o Cícero fosse seu tio, se eu soubesse eu nem teria te chamado para almoçar aqui hoje e nem...
- Laura, eu não me importo com isso. De verdade. Não tenho nem preconceitos! Meu único susto foi com meu tio Cícero que abandonou a Carmen de uma maneira meio bruta. Muito da minha personalidade foi formada por ele... Não esperava que ele abandonasse tudo assim! Mas pelo que me parece foi tudo por uma boa causa... Eu não entendo o porquê das pessoas se interessarem por pessoas do mesmo sexo. Aceito tudo numa boa. Mas assim como ele mesmo disse: eles só estão buscando essa tal felicidade plena. Por Deus, eu entendi bem o que ele quis dizer! Eu sempre sinto isso quando estou com você!
Como eu me sentia apaixonada. Não dava mais pra fingir. Seria besteira deixar que esse garoto passar direto por minha vida. Ele se levantou do balanço e secou minhas lágrimas com a manga de seu moletom. Aquele gesto e aquelas palavras me davam tanta segurança que parecia até que meu coração rodava.
- Eu só quero o seu bem e se você quiser continuar comigo, se levante daí, esqueça tudo e venha já comigo lavar o resto daquelas louças na cozinha!
Eu tinha apenas quinze anos e já me sentia totalmente completa.