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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Penedo - Francinele Valdivino

inverno, 2014

"Mas há sonhos que não podem acontecer e há tempestades que não podemos prever!" (Fantine)

            Houve um tempo em que pensava saber tudo sobre o amor. Significava que compraria flores e me lembraria de datas importantes, como aniversário de casamento, dia dos namorados e coisas do gênero. Também significava que seria eternamente fiel à Júlia e viveríamos juntos. Não seria difícil. Moraríamos numa casa simples em Resende, com jardim de amores-perfeitos e um balanço de madeira. Teríamos um Doblô — Júlia sempre preferiu carros da FIAT — para viagens de férias e idas à Penedo aos fins de semana. Uma filha ou um casal de filhos. Quanto a isso, Júlia nunca fora específica, pois acreditava que o que Deus quisesse seria o melhor. Ela era assim, muito crente, quero dizer, e estou certo que foi essa fé inabalável que me cativou. Mesmo se os nossos sonhos e projetos não fossem realizados, via-me junto a ela, deitado na cama, rindo dos acontecimentos cotidianos.
            Parece simples, não é mesmo?  
            E, na verdade, é simples, mas temos a capacidade incrível de complicar a simplicidade das coisas mais bonitas da vida. E, por mais que eu admita que tenha feito tudo errado, ainda é-me difícil ter de abrir mão. Depois que esse dia acabar, estou certo que nunca mais a verei.
            Mas, por agora, vou-me esconder por entre as árvores que ficam próximas à residência dela: uma casa ao estilo europeu, pintada de vermelho com os umbrais das janelas e da porta pinceladas de branco, um pouco afastada das pousadas e hotéis que enchem o distrito de Penedo, uma antiga colônia finlandesa situada na parte fluminense da Serra da Mantiqueira. Faz frio aqui. Vejo a vegetação branca por causa da geada da noite anterior e recordo-me que Júlia sempre amou o inverno.
            São quase oito horas da manhã e percebo a porta da frente se abrindo, lentamente, e os escassos raios de sol banharem o rosto tenro de Júlia. Uma sensação estranha se apodera de mim. Uma palpitação redescoberta. Ela desce as escadarias da frente da casa e passeia-se pelo jardim. De onde estou, vejo, além dos amores-perfeitos, girassóis e orquídeas-dálmata. As flores parecem estar murchas por causa do frio, mas a presença de Júlia faz tudo retornar à vida. Ela boceja, espreguiça e, por um instante, tenho a sensação de que ela me vê, mas sei que é impossível. Quando você precisa viver escondido, camuflar-se se torna inerente ao seu ser.
            Ouço-a cantarolar e, depois de aprumar meus ouvidos, descubro que a música é “Do you dream of me?”, de Michael W. Smith. Essa mesma música era entoada no meu carro, há tanto tempo atrás, quando, pela primeira vez, peguei-a na mão e disse que a amava. Essa recordação me faz suar, apesar do frio. Júlia entra na casa novamente e, após cinco minutos, retorna para o ar fresco, com uma xícara na mão e um cardigã acinzentado envolvendo o corpo.
            “É tudo sua culpa”, uma voz murmura em meus ouvidos e, apesar de já ter consciência disso, sempre é doloroso. E o único remédio, para mim, é reavivar as memórias que estão guardadas.
            Elas são tudo o que me resta.
            (...)
            Ainda não disse o meu nome. Chamo-me Victor Augusto e sempre gostei da sonoridade, pois me parece imponente. Nasci em Seropédica, perto da cidade do Rio de Janeiro. Costumávamos chamar a cidade, no verão, de SeroHell e a única coisa que realmente fazia o povo se orgulhar era a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Foi lá que me formei em jornalismo e foi lá que a conheci. Era minha primeira semana de aula e eu já estava me sentindo completamente perdido naquela universidade. Em regra, estudantes de Comunicação Social são extrovertidamente loucos, mas eu não sou assim.
Naquela época eu acreditava que quando encontrasse a mulher perfeita, seria amor à primeira vista. Que viveríamos lindas aventuras, que nos casaríamos e pronto, dali em diante seria feliz para sempre. Simples e fácil!
Pois bem meus caros, a grande verdade é que o amor pode ocorrer de várias maneiras e formas. Às vezes ele, sorrateiramente, entra pelas brechas das portas e janelas e se infiltra no seu coração de tal forma que nada mais importará. Seu coração amará e ponto final.
Comigo foi assim. Eu estava sentado de baixo de umas das árvores que cercam o lago da universidade, lendo Les Misérables do meu quase xará Victor Hugo, quando uma sombra surgiu em cima das páginas. Olhei para cima para ver quem era e deparei-me com um par de olhos castanhos, quase pretos, me encarando com ar de deboche.
A garota era minúscula e seu cabelo era de um castanho bem claro, ondulado e cortado nos ombros. Uma boca pequena e vermelha que me lembrava uma cereja. Delicada demais para o meu gosto, mas até que não era de todo feia.
-Você está debaixo da minha árvore, seu “bixo” folgado! - disse a garota.
Era só o que me faltava! Uma veterana chata para me infernizar. Era minha primeira semana e eu já estava com ganas de que fosse a última. Pelo jeito as coisas teriam que ser do jeito difícil.
-Desculpa, mas seu nome não está escrito em nenhum lugar por aqui. Não sabia que era sua. - disse isso encarando-a com o sorriso mais irônico e ácido que encontrei no meu estoque de armas fatais.
- E como você sabe? Você não sabe meu nome…
Aquele rostinho pequeno e rosado estava começando a me irritar, então resolvi que não valia a pena.
-Nem vale a pena descobrir - dito isso, me levantei e saí dali sem olhar para trás.
Procurei esquecer o ocorrido e focar toda a minha atenção nas aulas e em terminar de ler meu livro.
Les Misérables é mesmo uma história incrível. Quanto mais eu lia, mais eu me encantava com a coragem e determinação de Jean Valjean, odiava Javert e sofria por Fantine. Embora tenha um cunho bem social, esta obra traz uma grande lição: uma boa ação pode mudar para sempre a vida de uma outra pessoa.
Eu estava refletindo sobre isso quando vi a garota da árvore sentada do outro lado do refeitório, mordiscando uma rosquinha enquanto lia um livro que eu não conseguia identificar.
Resolvi que era hora de fazer uma boa ação. Fui até lá e, silenciosamente, sentei ao lado dela e fiquei esperando que ela sentisse minha presença. Como eu não tinha certeza se a demora em me notar derivava de sua distração com o livro ou de estar me ignorando mesmo, resolvi arriscar um “oi”.
-Oi, garota da árvore.
Ela sufocou um grito, completamente assustada.
-Você me odeia? Quer me matar? Ou é só um idiota mesmo? - logo em seguida colocou os cabelos atrás da orelha, tentando recuperar a postura.
-Nenhuma das opções. Só queria fazer as pazes, me desculpar pelo outro dia e talvez, quem sabe, dividir uma árvore nos intervalos das aulas.
Ela pensou um pouco e disse:
-Acho que sou eu quem lhe deve desculpas. Eu estava apenas tentando fazer amizade com você, mas acho que escolhi um jeito ruim de começar.
-Tudo bem. Podemos começar de novo, se quiser…
- OK! Meu nome é Júlia, muito prazer Sr. ..?
- Victor - completei. - Victor Augusto de Mesquita, Srta. Júlia…?
- Júlia Caillat!
Eu tinha razão. Um pequeno gesto, uma pequena ação pode mudar tudo. Pode mudar sua vida e a das pessoas próximas para sempre. Aquela amizade iniciada ali, naquele refeitório, mudaria para sempre a minha vida. Meu modo de pensar, de entender e sentir o amor. Júlia se tornaria a razão da minha existência perpetuamente.
Ela estava um ano acima de mim e, durante os três anos que passamos juntos na faculdade, afirmo que foram melhores do que eu imaginava.
Certa vez, uma semana antes da formatura dela, Júlia me perguntou o que eu esperava do futuro. O que eu faria da minha carreira.
-Quero ser jornalista correspondente no Oriente Médio - respondi.
Ela fez uma pausa. Sua expressão estava inquieta e, de alguma forma, eu parecia ter falado algo errado.
-Parece ser um lugar meio longe de tudo, não?!
Sim. Era longe de tudo. Muitos sacrifícios deveriam ser feitos para chegar lá. Deixei de pensar e respondi. - Sim. É longe. - Fiz um silêncio. - Você iria comigo?
(...)
            O sol está mais alto no céu, aquecendo um pouco o ambiente. Júlia não está mais do lado de fora da casa e, enquanto não a posso ver, responderei algo que pode estar martelando na ideia dos que leem.
            Por que a estou observando? É uma pergunta difícil de responder. Não porque seja algo errado, legalmente falando, estar aqui. Mas sim porque a resposta está no passado. Nas minhas pequenas ações e na forma como elas mudaram o rumo do meu “felizes para sempre”.
(...)
Era o último ano dela e eu a ajudei com a monografia e todos os trabalhos acadêmicos. Eu ajudei com os relatórios de estágio, falsifiquei assinaturas de atestados médicos para justificar algumas faltas que poderiam fazê-la reprovar entre outros mil favores. Cuidei de todos os pormenores, exceto o mais importante: dizer o quanto ela era importante para mim.
Eis aí o grande erro das pessoas: elas não dizem o que sentem. Se escondem atrás da muralha do medo e da zona de conforto. A verdade tem um peso esmagador e, quando dita, tem o poder de libertar almas.
Era nítido que Júlia me amara desde o primeiro instante, mas para mim, era algo que não deveria ser levado a sério. Eu tinha uma carreira para construir, lugares para conhecer e naquele momento, não havia espaço para um “nós”. Só muito tempo depois é que fui perceber o quanto a amava. Pena que tarde demais.
Eu poderia ter dito a ela o quanto a amava, mas preferi deixá-la partir. Júlia voltou para Penedo, um povoado pertencente à cidade de Itatiaia, após a festa de formatura. Festa esta que eu não fui porque estava ocupado demais com os preparativos do meu intercâmbio para a Irlanda.
Foi na Irlanda, depois de 2 meses de festas e pegação que eu percebi um pedaço faltando em mim. Era um buraquinho pequeno, sutil no início. Com o passar dos dias descobri uma voçoroca no meu peito. Uma voçoroca chamada Júlia.
Mandei várias mensagens para ela, mas Júlia não movimentava seu Facebook há meses e isso começou a me deixar preocupado. Resolvi voltar ao Brasil e entender o que eu estava sentindo.
Conquistá-la novamente não foi fácil, mas foi a melhor coisa que fiz na vida. Eu terminei minha graduação e decidi que era hora de formar minha própria família. Assim, no dia 03 de novembro, nós nos casamos e os três anos seguintes foram os melhores da minha vida.
Júlia trabalhava como repórter e eu como redator no jornal local de Itatiaia. Era uma vida simples e perfeita. O dia que cheguei em casa e me deparei com um par de sapatinhos de bebê sobre a mesa de centro da sala foi glorioso.
Nesta noite, fomos ao restaurante mais caro da cidade e Júlia escolheu um prato esquisito do qual eu não me recordo. Na volta, eu dirigia tranquilamente pela avenida principal quando meu celular tocou.
Eu reconheci o número do meu chefe. Fiquei com medo de atender. Era tarde da noite e eu havia acabado de saber que seria pai em breve. Não queria estragar aquele momento, mas como Júlia insistiu, atendi. Ele ficara sabendo, por um amigo influente, que estavam precisando de um corresponde na Cisjordânia e havia me indicado!
Eu me desliguei por um minuto, em choque, dominado pela emoção e depois me dirigindo a Júlia, disse:
-Amor, eu consegui! Vou realizar meu sonho. Me fizeram uma proposta para ser correspondente na Cisjordânia!
(...)
Júlia começou a chorar e aquilo, sinceramente, me irritou.
Wanderlust é uma palavra alemã formada pelo verbo "wandern", que significa andar sem rumo específico, perambular e "Lust", que poderia ser traduzido como "drive"ou "craving" em inglês – ou seja, mais que um desejo, uma ânsia profunda. Era o que eu sentia nesse momento: uma ânsia incontrolável de partir.
-Victor, eu estou grávida! Preciso de você. Nosso filho precisa de você. Você terá de dizer não!
- Céus! Como consegue ser tão egoísta?! É meu sonho, nada mais importa. Você terá que entender.
Nossa discussão foi calorosa e tudo aconteceu muito rápido. Lembro de ter perdido o controle do carro e de, no hospital, receber a notícia de que ela havia perdido a criança.
Aquele foi o fim do nosso casamento, claro. Fui para o oriente médio e achei que poderia refazer minha vida e voltar a ser feliz de novo. Ledo engano, prezados, eu não estava pronto ainda.
Quando minha prima Helena me disse que Júlia havia se casado de novo, foi como se aquela voçoroca tomasse conta do meu peito. Como se não houvesse chão para pisar e eu não tivesse asas para voar. Apenas uma queda infinita no nada que a minha vida havia se tornado.
(...)
Mais uma vez, vocês se perguntam: o que você faz aí? Por que está escondido? Eu respondo: vim pedir perdão. Vim dizer que a amo, que nunca deixei de amar e nunca deixarei. Estou escondido porque estou juntando coragem para dizer o que preciso. Tenho feito isso nas últimas duas semanas e meu tempo está se esgotando. Volto para o oriente médio amanhã bem cedo, então, hoje é meu último prazo.
Vejo um cachorro, acho que um filhote de Golden Retriever, saltar do jardim para a calçada, Júlia o está levando para passear. Está mais linda do que nunca. Seus cabelos estão mais curtos que da última vez que a vi e isso deixa seu rosto com uma aparência ainda mais delicada. Meu coração dispara.
Saio do meio das árvores e o pequeno cão corre em minha direção. Começa a morder a barra da minha calça, mas isso não importa porque nesse momento os olhos de Júlia estão fixos nos meus.
-Oi, garota da árvore.
-Olá, bicho folgado.
Ela atravessa a rua e senta na calçada batendo a mão no chão, me convidando a sentar ao seu lado. Eu sento e o pequeno cão deita em seu colo. Sinto uma inveja sufocante daquele cão.
-Ted esperto! - diz ela acariciando a cabeça do mascote.
Percebo então o quão tarde eu cheguei. Já havia me perdoado há muito tempo, disse ela. Havia encontrado a felicidade ao lado de Maurício e o amava com toda a sua alma.
-Sinto muito, Victor!  - uma lágrima escorre de seu rosto, mas a determinação continua lá.
-Eu sou feliz Victor e sei que você também encontrará um novo caminho.
Ela levanta e me oferece a mão em cumprimento e despedida. Eis aí o terrível adeus!
Pego sua mão e a puxo para junto de mim, abracando-a. Ela não resiste e ficamos ali, abraçados. Seu corpo pequeno está colado no meu e seu perfume inebria meus sentidos.
A sensação é poderosa. Eu quero corrigir todos os erros, então volto no tempo, mas apenas em minha mente, para o dia do baile de formatura. Júlia está com um vestido azul marinho que lhe cai muito bem e eu estou lá. Sou seu par. Eu não a deixei sozinha. Nós estamos dançando “Do you dream of me?”, do Michael W. Smith e tudo deu certo… Eu não fui egoísta e covarde e nós estamos juntos.
Abro meu olhos a tempo de ver Júlia pegar o filhote no colo, sorrir para mim e cerrar a porta.
Um vento frio sopra e parece querer congelar meu coração, mas não me importo. Guardo nele o calor daquele último abraço e ele me aquece enquanto desço a rua das Laranjeiras em busca de um novo caminho. Sim, é isso mesmo: um novo caminho!
Alguns podem dizer: insensível! Outros: você não tem alma. Mas a verdade é que a vida é feita de começos e recomeços; embora  nem tudo saia “nos conformes” ou exatamente do jeito que gostaríamos, isso não quer dizer que deu tudo errado. Foi apenas um ciclo que se encerrou para que outro tenha início. Esse é, afinal, o grande “x” da equação.

A vida é simples, nós a complicamos e aí vem a parte mais interessante de todas: porque tornamos a vida embaraçada e insustentável, Deus dá, a cada dia, novas oportunidades, novos recomeços. Sim, Fantine tinha razão: “há sonhos que não podem acontecer e há tempestades que não podemos prever”, mas existe também um pós tempestade e todo um mundo novo, com mil cores e cheiros a serem descobertos. Então, vejamos o que esse mundo novo reserva para mim.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Eponine no século XXI


É um hábito meu fingir que não me importo com o que as pessoas pensam e dizem a meu respeito. A verdade é que me importo um pouquinho. A sociedade em que vivemos é tão medíocre e alienada em seus próprios preconceitos que fica um pouco dificil sobreviver sem abrir mão de parte de sua personalidade.
Um bom exemplo de mediocridade social: amor!


[...]


Eu preciso te esquecer. Preciso seguir em frente. Preciso me sentir bem e feliz de novo, mesmo estando longe de você.
Olhar nos teus olhos e não encontrar a mesma coisa que existe dentro de mim dói muito, dói tanto que chega a doer fisicamente.


[...]


Uma vez você me disse que amar alguém é muito raro, mas, mais raro ainda era haver reciprocidade. Você esqueceu de dizer que essa primeira raridade é capaz de destruir sua alma, caso não venha acompanhado da segunda hipótese. Na minha opinião, entre ficar com a solitária primeira hipótese e a morte, prefiro mil vezes a morte.
Existem muitas teorias sobre o que ocorre depois da morte. Para alguns existe a possibilidade de reencarnação, para outros, apenas o céu e o juízo final. São tantas ideias e divagações que giram em torno do assunto que fico até confusa e perdida.
A verdade é que eu não gosto de nenhuma dessas possibilidades. Gostaria que a morte fosse apenas a morte, ou seja, a interrupção definitiva de um organismo. Sem mais e nem menos. O ponto final da frase em que não cabem mais vírgulas ou qualquer outro tipo de acréscimo. Sem renascimentos, sem recomeços, sem tribunais do júri, sem inquisição!
Outro ponto que me irrita muito em relação à morte é essa crença de que seu controle deva ser indisponível a nós. Não acho justo que tenhamos a obrigação de manter esse fio amarrado a nós.  Sim, a vida tem sua beleza. Uma beleza mágica  para aqueles que sabem degustá-la. No entanto, sinceramente, meu paladar é péssimo!
Você pode estar pensando: nossa, que morbidez inútil! Se quer ver dessa maneira, que assim seja! Mas, tente olhar pela minha janela. A vida é um jogo, tipo aquele do “Super Mário”, sabe?! Ela é composta por diversas fases e situações, assim como no jogo. A diferença entre ambos está no final. No “Mário” você só tem que apertar os botões certos, na hora certa. Movimentos planejados. No final você salva a princesa e é feliz para sempre. A vida, por sua vez, também lança mão de vários níveis e circunstâncias, entretanto, ela não depende apenas da sua vontade e desempenho. Depende da reciprocidade dos seus próximos.
Reciprocidade. Eis o grande objeto de desejo dessa criaturinha asquerosa chamada Amor! Sem esse ponto de equilíbrio, o amor é obrigado a escolher entre dois caminhos distintos: obsessão ou amor verdadeiro (em sua forma pura). Nesse, há sacrifício e renúncia. Deixa-se o objeto amado seguir seu próprio caminho e ser feliz à sua maneira. Naquele, há a constante perseverança, mas, sem a pureza típica do amor. Trata-se de uma sentimento egoísta e ciumento, que põe a si  mesmo no centro do espetáculo.
Refletindo sobre esta última hipótese, deixo claro que nunca me permitirei ficar obcecada por você. Uma vez li em algum site (digo site por não ter a menor noção de onde tenha encontrado essa ideia) que as fragilidades emocionais, de acordo com a intensidade, podem se transformar em dependência em relação a outra pessoa.
Embora a pessoa ainda dê o nome “amor”  para o que  sente pelo outro, deixa de ser amor no momento que a dependência se inicia. O amor é uma troca saudável entre duas pessoas. Quando uma delas passa a se comportar de forma a prejudicar o outro , na verdade, há uma confusão de sentimentos, mas que não pode ser chamada de amor.
Pois bem! Por mais que você não mereça (uma criatura egoísta como você, de fato, não merece), optarei pelo amor em sua forma mais pura. Deixarei que parta, que siga seu caminho.
Antes, tirarei as pedras e espinhos que puderem vir a te ferir, ou que te façam tropeçar. Cuidarei para que nada lhe falte. Não faltará grama macia para seus pés descansarem. Não faltarão flores nas margens do caminho. Não faltarão água fresca. Não faltarão amigos para lhe fazer companhia. Não faltará alimento. Providenciarei para que o caminho daquela a quem você ama cruze com o seu. Acredite, nada lhe faltará.
Quando falei que preferia a morte, falei muito sério! Muitos dizem que antes de optar por se desconectar desse plano material, deva-se pensar na família, nos amigos, enfim, naquelas pessoas que tanto te amam, e que sentirão sua falta. Julgam egoísta quem não escolhe permanecer. Mas aí, penso comigo...egoísta?! Quem é o real egoísta nessa história? Refletiremos juntos sobre algumas questões e depois, você, em seu íntimo, responda essa pergunta a si mesmo.
O professor Peter Cohen, psicólogo e sociólogo pela Universidade de Amsterdam, ao estudar as causas de vícios (não só de drogas, mas, qualquer espécie) demonstrou que os seres humanos possuem uma necessidade profunda de estabelecer laços e conexões, sendo esta a forma como se satisfazem. A incapacidade de se conectar a outra pessoa deixa um vácuo que, em regra, é preenchido por algum vício. Assim, se não conseguem se conectar a pessoas, se conectam às drogas, aos jogos, etc.
Agora, meu querido, imagine que esse vazio que você deixou em mim tenha um formato peculiar. Um formato único. Tão único, que apenas você tenha a capacidade de se amoldar a ele. De me tornar completa. Já imaginou?! Se imaginou, poderá entender minha incapacidade de conexão com qualquer outra pessoa ou coisa.
Pense também na dor dilacerante que sinto na minha alma em todas as tentativas frustradas de completar esse vazio. Reflita em como minha vida se torna insípida e incolor.  Dói mais que a dor física. Não consigo trabalhar, nem ir a faculdade. Estar próxima a outras pessoas é o mesmo que estar gritando sem que ninguém me escute.
Por muito tempo imaginei uma explicação para minha inépcia de conectar, afinal, talvez, fosse apenas frescura minha. Mas, como criar raízes em meio a uma sociedade “líquida”, como diria Mr. Baumam,  onde domina a lei do descartável e dos relacionamentos regidos por interesses mesquinhos?
Se o amor é descartável, imagine o impacto disso sobre essa coisa chamada “família”? A cultura do descartável descarta tudo, inclusive as pessoas, pois para ela nada é durável, nem mesmo as relações humanas. Assim, ao se constituir uma família a ideia é: se der certo, amém, se não der, amém também! A vida segue. As pessoas se conectam e desconectam como o piscar dos olhos!
Me diga: por que manter esse fio amarrado a mim? Apenas para satisfazer pessoas que, em sua maioria, terão preenchido o espaço que ocupo em suas vidas, antes mesmo que chegue a próxima estação?  Se me amam tanto, por que insistem em me manter sofrendo? Sou realmente egoísta? Quem é egoísta afinal?
Se você pensou: como pode ter tanta certeza que seu formato é peculiar? Que jamais voltará a se conectar com o mundo? A resposta é simples: não tenho!
O grande problema é justamente a incerteza. É claro que a vida pode me reservar mil surpresas, mas, a espera e insegurança me causam dor imensurável! Entenda que minha escolha deriva de minha incapacidade de sobreviver em um ambiente oscilante e irresoluto.  Não se relaciona com sua não disposição em se conectar a mim. Não saber o que virá me faz sentir dor e, apenas eu, sei o quanto isso me custa respirar.
A morte tem sua beleza. Existe felicidade no morrer porque nela se extingue toda dor e sofrimento. Junto com ela vai todo o sofrer e angústia existencial. Serei livre!
Não gosto de despedidas. Acho-as tristes por demais. Desnecessárias. Servem apenas para deixar o coração ainda mais aflito com o que há de vir. Já dizia Alexandre Dumas “em amor, não há último adeus, senão aquele que se não diz”. Certinho o Dumas! Talvez seja por isso que as pessoas insistam tanto em se despedir. Talvez o único objetivo seja o de transformá-lo em um “até logo”.
Não há porque me despedir. Não será um até logo. Não pretendo deixar a ferida mais profunda. Mas, não se preocupe, não sentirei dor alguma. Não se preocupe com a chuva que me molha nesse momento, apenas me abrace, pela última vez. Pequenas gotas de chuvas não podem me machucar agora. A chuva fará as flores crescerem.


Breve justificativa.


Não acredito que desistir da vida seja a melhor saída, pelo contrário. Acredito apenas que antes de instituir a inquisição e apedrejamento daqueles que optam por tal caminho, deva-se entender que cada ser humano é único e individual. O tamanho de sua dor não pode ser mensurada, apenas compreendida. Para compreendermos essa dor é necessário que nos coloquemos em seu lugar.
Não critico nenhuma crença/religião, apenas não consigo lançar pedras em quem tenha optado por tal caminho. Prefiro tentar entender sua dor.

A morte é uma experiência única, assim, ela jamais devolverá aquelas pessoas que perdemos. Se não pode tê-los de volta, respeite sua decisão. Em outras palavras, não seja egoísta!

terça-feira, 21 de abril de 2015

Pandora


Ninguém tachou de má a caixa de Pandora por lhe ter ficado a esperança no fundo.
Em algum lugar há de ela ficar.


Nina tinha apenas 5 anos de idade e o mundo ainda tinha gosto de contos de fada. Um piscar de olhos, uma pequena distração e puf! Um mundo negro e ensanguentado se estendia diante dela. Quem é ela?, você se pergunta. Eu respondo: uma criança como tantas que você encontra por aí.
A marca que a menina carrega não pode ser apagada; faz parte de sua alma. Quanto mais ela crescer, mais a mancha escurecerá. Há uma pequena chance de cura, no entanto, de tão pequena que é, quase não há esperança em seu coração. Quase. Há um pontinho branco em meio à negritude.
Embora eu tente pensar naquela garotinha como se não fosse eu, não posso fugir da realidade. Neste momento, em minha mente, ela - ou eu - está passeando embaixo dos pés de tangerina e o cheiro é realmente bom. Ninguém acreditaria se ela contasse como aquela pequena vila do estado de Tocantins é bonita em algumas épocas do ano. Nem todo mundo saberia apreciar os perfumes dos pés de jaca ou mesmo do pé de cacau que crescia imperioso pela propriedade da avó.
As imagens do passado me fazem sentir feliz por ter nascido ali, mas, ao mesmo tempo, estremeço ao voltar àquele lugar, mesmo que apenas através das lembranças.
- Nina? Estou falando com você! - diz George, me fazendo voltar ao mundo real.
- Ok, estou escutando. - respondi, irritada.
Amar George é a coisa mais estranha que já me aconteceu. Às vezes sinto o ponto branco ganhar força dentro de mim e, nestes momentos, o mundo se torna azul e tranquilo. Mas, como explicar-lhe que sou apenas um receptáculo cheio de escuridão? Um dia ele tentará abrir a tampa e, neste dia fatídico, verá o interior da caixa de Pandora.
Você deve estar se pensando: o que aconteceu à Nina para que ficasse assim?
Se realmente estiver pensando isso, peço desculpas por não ter tocado no assunto anteriormente. O fato é que a vida de uma menina inocente e ingênua pode mudar completamente depois de ver o mundo real. Não digo responsabilidades reais. Falo sobre a maldade real. A maldade de um homem que atrai uma criança. Como? Simples. Um doce, um brinquedo ou uma ideia divertida. Quando consegue fisgar sua presa, mostra quem realmente é.
Sim. Aconteceu. Exatamente o que você está pensando.
O mundo que cheirava a frutas e era um caleidoscópio divertido, de repente, se tornou sombrio, com todas as nuances escuras.
Mas Nina é forte. Nina é fogo. É esse o significado do meu nome em Quíchua: fogo. E através dessa força; a força que vem do fogo, eu construí a caixa de Pandora e guardei ali todas as desgraças.

(...)

George está à minha frente. Olhando para ele neste instante, concentrado, tomando seu café e lendo o jornal, percebo o quanto ele merece uma pessoa melhor. George não merece sentir o peso do meu fardo. Eu preciso dizer adeus!
- Nina, veja! A filhinha dos Martins foi encontrada morta. Parece que a menina foi visitar a avó e acabou dando de cara com um assaltante. Foi violentada e estrangulada.
Demonstrei um pouco de espanto para satisfazê-lo, mas, no fundo, nada mais me afeta. As pessoas se surpreendem porque não imaginam que a cada “tic tac” do relógio, o mesmo ocorre com dezenas de garotinhas, por todo o mundo. Morrer, como a pequena Amabelle do jornal havia morrido, era um final feliz. Sobreviver e encarar a realidade de um mundo coberto de cinzas era muito pior. Não sou insensível. Ok. Talvez tenha me tornado um pouco.
O pior de tudo é saber que no final, tanto Amabelle (morta), quanto a garotinha de 5 anos (sobrevivente), não passam de estatística que os jornais anunciam e que a oposição usa como argumento para subir ao poder. Veja: se o tema “Estupro” já escandaliza um país como o Brasil, em que 92,6% da população é religiosa, imagina só o efeito que o tema “Abuso sexual infantil” não causará?! Os votos são garantidos!
George havia desenhado árvores, rios, pontes e um arco-íris em minha vida, mas, o que eu poderia oferecer de volta? Ele com certeza deixaria de me amar no momento em que abrisse a tampa e visse o quão negro era seu conteúdo.
Ele está me encarando de novo, com seus olhos cor de âmbar, tão doces, que fazem meu coração transbordar em todos os tons de branco. Sim, existem vários tons de branco! Embora sejam aparentemente iguais, quando a luz é refletida sobre eles, tudo muda. 
- 1, 13, 1 - 13, 5? - diz George
- 13, 21,9, 20,15! - respondo sem pensar.
Temos nossa própria língua. Nosso jeito próprio de conversar. Ele me enxerga por dentro e eu não preciso explicar nada.
George se levanta e me beija, puxando-me de forma suave. Ele me ergue da cadeira na direção dos seus braços. Não, eu não irei a lugar  nenhum! Estou exatamente onde deveria estar.
Uma mancha negra dilui-se completamente em um pequeno ponto branco e uma garotinha de 5 anos passeia, feliz, debaixo de um velho pé de tangerina que, em flor, exala seu aroma em uma primavera de 1996.
A caixa ainda não foi aberta. E se for? Talvez, somente por hipótese, até lá o conteúdo dela tenha se transformado todo em Esperança.





sexta-feira, 3 de abril de 2015

Por do Sol

Além deste lugar de iras e lágrimas
Avulta-se apenas o Horror das sombras
- William Ernest Henley, Invictus.


Não, o pôr do sol nunca a havia fascinado tanto como hoje. Até mesmo a indestrutível falta de emoção da pequena Sara foi obrigada a ceder lugar á sensação de força que os vários tons de laranja, vermelho com amarelo e mesmo preto lhe impingiam na pele, chegando até a corrente sanguínea.
Recordou de uma outra sensação parecida, a do dia em que Antônio lhe pedira em casamento. Sara havia dormido em seu apartamento, como acontecia em todas as sextas-feiras, após jantares esplêndidos. Não se recordava muito bem de como tinha sido aquela noite, em especial, apenas da voz melodiosa do homem dos olhos cor de whisky lhe acordando para ver o nascer do sol na janela do 13º andar.
Há! Sim, havia sido incrível ver aquela alvorada em seus vários amarelos e vermelhos misturados com cobre iluminando a cidade e o seu coração. Sim! Seu coração se iluminou quando Antônio ajoelhou-se e lhe pediu em casamento naquele iniciar de dia.
- Na aurora, para que a luz do sol ilumine os dias escuros. – dissera-lhe Antônio.
Sara em sua pequena estatura tinha certa delicadeza, mesmo com os enormes olhos cinza, grandes demais para seu rosto e os cabelos sempre soltos e rebeldes fazendo caracol em volta de seu rosto. Ali, sentada na beira da praia pensou que apesar da aparência frágil havia se sentido uma mulher poderosa naquele dia e que independente das atuais circunstancias aquelas eram boas lembranças do passado, boas histórias para se ter na memória, enfim.
Como um turbilhão, outras memórias assaltaram-na. A doçura da lua de mel, o calor da primeira briga e de Josephine, a deslumbrante Josephine que aos poucos se infiltrara na vida do casal e desencadeara os fatos que haviam levado Sara a estar ali sentada na areia da praia, admirando os raios de sol mergulhando calmamente no negro do mar.
Josephine... Ha! Maldita Josephine! A sua maldita irmã adotiva que aos poucos fizera tremer a base de sua maior vaidade, com suas visitas rotineiras e seu sorriso com gosto de ingenuidade sempre estampado no rosto. Aquele sorriso que aos poucos roubara os olhos de seu Antônio. Nada podia atingi-la tão mortalmente quanto aquilo, seu Antônio que era a única coisa boa que tinha em sua alma, aos poucos começar a trata-la com indiferença e frieza sem qualquer motivo, ver toda a alegria do esposo ser desviada para os domingos em que Josephine vinha visita-los.
Tivera certeza da traição no dia em que saíra mais cedo de seu escritório para comprar o presente que daria a ele em comemoração ao primeiro aniversário de casamento. Da janela do carro avistara-os passeando pelas ruas da cidade como dois adolescentes bobos á admirar as vitrines das lojas. È claro que chegando casa fingira de nada saber, pois jamais se permitiria a fraqueza de chorar ou até mesmo pedir explicação. Sua decisão estava tomada!
Mas, pensou Sara, sentindo a brisa do mar em seu rosto, hoje seria o fim de sua angústia. Hoje seria livre para começar uma nova vida e encontrar um novo caminho para trilhar. Um caminho livre de fúria reprimida, livre do ódio que passara a sentir por Antônio, livre de seu desprezo pela estúpida Josephine e principalmente, livre para ser ela mesma, sem nada para controla-la ou faze-la se sentir culpada por ser o que era ou como seu Antônio vivia a lhe dizer: insensível, vaidosa e egoísta.
Lembrou-se das palavras do livro que lera no dia seguinte ao aniversário de casamento "esta solução deposita em poucas horas a maior parte do sal da estricnina em forma de cristais de brometo insolúveis” e de como os dois comprimidos de brometo introduzidos ao vidro cheio do tônico que Antônio tomava toda noite causaram a precipitação perfeitamente, assim como o livro dissera.
No último mês houvera sido gentil com seu esposo servindo-lhe suas doses do remédio ás sete horas de toda noite, tomando é claro, o devido cuidado para que os cristais permanecessem depositados ao fundo do vidro e assim a estricnina pudesse ser deixada para ser consumida quase que totalmente na última dose.
A brisa balançou seus cabelos enquanto ela observava os últimos fios de sol mergulhar no negrume do mar e satisfatoriamente lembrou em como Antônio sempre fora metódico e pontual em todos os seus compromissos e tarefas, enquanto passeava calmamente os dedos pelo colar de pérolas, que o marido lhe dera no aniversário de casamento. Deslizou delicadamente a joia do pescoço e a atirou o mais longe possível nas aguas do mar sem nenhum apego.
O céu agora era um véu negro sobre sua cabeça, hoje não tinha uma única estrela lá e Sara observando as horas em seu relógio de pulso sentiu um largo sorriso rasgar seu pequeno rosto. A agua do mar estava tranquila e da cor de piche preenchendo o interior da pequena mulher de paz e tranquilidade enquanto se levantava e enchia os pulmões com o vento que agora soprava forte e gelado.