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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Xis Bacon

A cidade está iluminada por luzes amarelas, vermelhas e verdes, que piscam alternadamente ou deixam ecoar ininterruptamente seu brilho no vago escuro da noite. Bonecos do Papai Noel, renas e bolas ornamentais de diversas cores completam a decoração aqui e ali, um clima de paz toma as pessoas, que se abraçam carinhosamente com esperança de que amanhã tudo será muito melhor do que hoje.
Sempre carreguei esse estranho costume de isolar-me nas horas mais impróprias. Deveria estar junto aos outros da minha família, tilintando taças de vinhos, cingindo-lhes em abraços afetuosos, contando-lhes segredos dessa nada fascinante existência. Mas seria estranho a eles e a mim, reunir-me quando encontro despedaçado por todos os cantos, espalhado por todos os lados desse apartamento que lembra algum resquício de Camila. 
Eu deveria ter a esquecido tão logo bateu aquela porta, uma vez que pouco nos restava de afeto. Mas suas reminiscências teimam em pestanejar, teimam em deixar-me e minha fuga se faz nessa solidão. Seria incomodo se alguém fizesse algum comentário sobre ela, e reuniões familiares são lugares oportunos a isso. Muitos ficaram longe da cidade durante todo o ano, e agora no natal tentam absorver o máximo da vida de cada um; não é um desabafo pejorativo, essa preocupação é saudável, revela que existem no mundo pessoas que se importam conosco, mas nesse caso tudo isso tem como consequência a estranha sensação de um vazio.
Mudamo-nos para esse apartamento nos subúrbios mais exclusos da cidade a fim de poder ter um espaço para chamar de nosso, e desde que partiu não me visto decentemente, ando pelas ruas trajando bermuda de times de futebol, amassada por uma noite bem dormida, chinelos e camisas de festividades do meu antigo trabalho. Desfiz-me da ideia de qualquer móvel inútil, trouxe para cá somente o que há de necessário. A cama de casal toma quase todo o quarto, era uma de minhas prioridades pois passávamos noites assistindo filmes no laptop deitados. Camila sempre o colocava no colo para poder ficar defronte à tela e assim eu me agarrava a ela, encurvado para poder ver alguma coisa.
Na sala de estar, um sofá velho de tom amarronzado, uma estante onde guardo meus livros, a TV e um quadro mosaico que sobrepõe boa parte da parede. Na cozinha a geladeira, o micro-ondas e um fogão, por sorte já havia um armário embutido. Além desses móveis somente uma escrivaninha que uso para me dedicar a literatura e um baú onde guardo meus pertences.
O apartamento é pequeno, mas tem uma vista espetacular ao pôr do sol. Os raios entram por uma acanhada janela de vidro e quase tocam os pés da escrivaninha, o efeito que dão junto ao piso de madeira tecem uma rusticidade convidativa a reflexões que agora se estendem até o anoitecer.
Nós alimentamos o sonho de ter um lugar para chamar de “nossa casa” durante todos os anos que cursávamos nossas graduações. Começamos a namorar no segundo semestre de faculdade, formamos e ao fim do primeiro mês de trabalho decidimos viver juntos, um teste a nós mesmos para uma relação mais consolidada. Acontece que quando brigávamos não tínhamos mais lugar para fugir, a roupa suja ainda estaria lá, alguém teria de fazer a comida, ir ao mercado fazer compras, pagar as contas no fim do mês.... No início, essas obrigações até nos aproximavam quando estávamos brigados, mas com o passar do tempo um copo sujo era a terceira guerra mundial anunciada.
Estou com fome, meu estômago anseia por algo sólido, minha alimentação anda desregrada, abro a geladeira e o que encontro são garrafas de cerveja e azeitonas, além de uma infinidade de recipientes plásticos com alimentos mofados e apodrecidos. Há de haver alguma lanchonete aberta nessa cidade, ou um supermercado talvez, sempre existem aqueles que esquecem algo na véspera do natal.
Visto uma das camisas que ela havia me dado, é uma das poucas peças limpas. É um tanto comprida, listrada alternando o verde e o branco, de ombros largos, talvez destinada a vestir alguém com ombros muito mais extensos que os meus. Camila tinha bom gosto, mas sempre errava na numeração. Por determinado tempo as usava para agradá-la, mas gradativamente com a distância da data crescendo, o uso da peça também se tornava esporádico.
Na Avenida das Américas encontro alguns estabelecimentos abertos e pequenas famílias comemorando o natal. No Bella Italia servem as melhores pizzas da cidade, porém o ambiente é bastante familiar e parece estar acirrada a disputa por uma mesa, há gente dentro dos carros aguardando. Nos botequins que se arriscaram a abrir, uma porção de solteiros bêbados xavecando os opostos ao gênero, mais à frente algumas lanchonetes com comidas um tanto exóticas e outra com os tradicionais hambúrgueres. 
Decido por um xis do Sandão Lanches, o único lanche que a alface parece ter sido colhida a menos de uma semana e o pão comprado a menos de um mês na rua que faz esquina as Américas. Está um pouco vazio, e tudo o que quero é comer com um pouco de silêncio longe daquele apartamento fétido. Há três mesas ocupadas apenas. Um casal jovem que espera sem se falar, com ela a olhar para telenovela enquanto ele procura seu reflexo no piso fosco do estabelecimento, na outra um músico acompanhado de seu contrabaixo visto o tamanho da case que carrega e por último o que parece um casal de homens, esses os mais descontraídos se alimentam felizes e se olham sorridentes, por um momento pude ver a mão de um deslizar sobre a coxa do outro.
Os funcionários pela falta de obrigações estão escorados no balcão entediados, um deles vem ao meu encontro, deixa sobre a mesa o cardápio e coloca-se a esperar, é uma mulher, parece bonita, está de cabeça baixa e o boné encobre boa parte de sua face, no restante visível mostra traços delicados, tem lábios pouco espessos cobertos por um batom sensivelmente rosado, de pele alva, queixo fino, tem cabelos loiros encaracolados que saem da parte de trás do boné, um corpo magro de poucas curvas. Percebe que estou a olhar demasiadamente, e por um instante interrompe o olhar que estava voltado para seu pequeno bloco de anotações, vagarosamente levanta o rosto, são olhos cor de mel – posso ajudar? – Diz isso com voz insípida, causa-me fadiga instantânea, e brutamente digo-lhe que desejo o “Nº 4”, peço para não colocarem ovos e adicionarem bacon, bastante bacon e malpassado.
- O seu pedido sairá em instantes... Senhor – a pausa e ênfase que ela coloca para pronunciar o “senhor” deixa explícita sua ironia, aquilo alimenta certa antipatia que creio ser mútua.
Pego o celular, uma ligação diminuiria o desagrado de minha mãe, o constrangimento em meio aos familiares que certamente devem ter perguntado sobre mim inúmeras vezes e ela, ora, se bem a conheço deve ter criado uma falsa história que os satisfaça sem desmerecê-la e nem a mim.
 -Alô mãe.
- Filho, espere um segundo.... Pronto, pode falar, onde você se meteu, está em casa?  
- Estou bem mãe, saí um pouco e estou agora na Avenida das Américas, vou comer algo e volto para casa.
- Meu filho, porque não vem para cá? Estão todos aqui, seus primos perguntaram por você, a Camila me ligou, não está com você?
- Escute, eu e Camila terminamos e bem... preciso ficar um pouco só, não é nada demais.
- Filho você está bem mesmo? Quando é que terminaram? Onde está Cami...
- Mãe está tudo bem, mais tarde passarei aí para cumprimentar todos, preciso desligar...
-Tchau meu filho, e se cuide tá? Nada de sair bebendo e dirigindo, a mãe te ama.
Ora, era o que me faltava, Camila por essa me paga... veja só que atrevimento, ligar para minha mãe mesmo estando tudo acabado, já não bastava o sofrimento que me causara?!
Ameaço ligar para ela, tirar satisfações, mas não, é melhor não.... Que idiota!  É tudo o que ela quer, de certo já esperava que eu não contasse a ninguém e tratou de cuidar que eles soubessem.
As pessoas das outras mesas estão a me olhar curiosas, menos o músico que devora apressadamente o seu lanche como se não comesse há dias. Devem se perguntar o que alguém está fazendo sozinho. Imagine se estivesse com minhas bermudas!
O casal começa uma discussão curta. Olhando-a mais detalhadamente vi que estava grávida, talvez de uns cinco meses no máximo, como a única coisa que fazia barulho naquele ambiente era a TV pude ouvir que ela cobrava o rapaz, entendi que estava desempregado e parecia não fazer nada para mudar isso. O músico punha-se a levantar logo após sua carona chegar, deixou parte do lanche por comer, e o outro casal parecia não ter pressa alguma de ir, comiam e namoravam num compassado ritmo.
A desagradável e bela atendente torna a minha mesa, traz minha refeição – mais alguma coisa? – Fica imóvel a olhar-me, um olhar interrogativo e irônico, franzi a sobrancelha esquerda; agradeço e a despeço.
- Porra, o maldito bacon... Atendente, atendente!
- Diga, há algo errado com o pedido?!
- Qual parte do bacon malpassado e “sem ovos” você não entendeu?
-Como? Como assim?!
- Veja essa porcaria, está torrada nas bordas e essa gosma branca tomou conta do lanche!
- Senhor, não vejo motivo para estar exaltado!
- Diga-me então qual a sensação de comer estes pedaços de carvão! – Nesse instante já me punha de pé com as mãos fechadas sobre a mesa...
- Olhe aqui seu babaca, eu não estou na noite de natal, trabalhando para ouvir desaforos vindos de pessoas como você – temi que ela soubesse quem eu era, e senti-me como um fracassado.
- Eu só queria um sanduíche de bacon, bastante bacon e malpassado.
O rosto dela ao ver-me sentado novamente e certo arrependimento em minha voz nessa última resposta aflorou em sua raiva algo completamente avesso, era como se sentisse compaixão por mim, então abriu um sorriso.
- Senhor – ela voltou a me chamar de senhor, e agora isso não me incomodava – trabalho há alguns anos em lanchonetes e nunca vi bacons diferentes desses que lhe servi.
- Nunca?! – O tom infantil que lhe pergunto faz seus lábios contraírem num sorriso tão meigo, tão meigo que um pouco menos de sobriedade faria dar-lhe um beijo...
- Nunca, em todos os anos – ela responde.
- Então lhe convido para experimentar o primeiro sanduíche de bacon, sem bordas torradas e com o verdadeiro paladar de bacon. - Ela sorri, fecha os olhos, procura algo que os desviassem da face interrogativa, presa no anseio de uma resposta que talhava agora.
- Claro, podemos marcar algum dia. 
- Agora! – E pegando-lhe a mão tento conduzi-la, ela em movimento, completamente desajeitada tira o avental, o boné, e veja que bela mulher tenho em minha frente, por um instante paramos e ficamos a olhar um para o outro.
- Não, cara, não posso ir seu louco!
Outro atendente se aproxima rápido – O que você está fazendo?! Tire a mão dela!
- Está tudo bem Marcos, ele não está fazendo nada – ela o responde.
- Nada?! Estava te levando para comer o melhor lanche da sua vida inteira e isso pode não parecer nada agora, mas pode ter certeza que não irá se arrepender. 
- Ficou louca? Não dê assunto para esse cara, a gente chama a polícia pra ele se não der o fora agora!
Todos os clientes estavam em silêncio com seus lanches na mão a olhar a cena atônitos. Ela me olha, senti que toda sua noção de responsabilidade se esvaia à medida que um sorriso desabrochava...
- Não posso ir, tenho de trabalhar, deixamos para a próxima?! - Me dê um número que consiga te encontrar.
- Está tudo bem, vão, isso aqui está as moscas mesmo. E você fica me devendo o Réveillon – disse Marcos ao ver que a vontade era mútua.
Enquanto caminhávamos rumo ao supermercado deliciava-me com os detalhes menos relevantes que ela contara. Chamava-se Jordana, tinha seus vinte e um anos, estudava nutrição numa faculdade particular e para manter seus estudos trabalhava a noite em algumas lanchonetes. Nas segundas, terças e quartas labutava no Sandão Lanches, quintas e sextas em uma churrascaria na zona sul, aos sábados e domingos ocupava-se com trabalhos e ao aprendizado de seu curso.
Ela parecia não acreditar na imprudência que cometera, suas mãos tremiam, tentava não me encarar e perdia-se, parecia não saber o que fazer com os braços, os passos eram passos descompassados, mas sorria, um sorriso que revela seu próprio zelo em se fazer agradável aos olhos alheios. Por várias vezes ela repetia a mesma frase: “Não acredito no que acabei de fazer! ”, então lhe fitava, abria um sorriso discreto e dizia-lhe que ademais não havia volta, estava feito. Éramos agora um casal de boas-vidas.
Adentrei ao supermercado, enquanto comprava os ingredientes, ela me aguardava do lado de fora do estabelecimento. Cuidei para que não nos faltasse nada, coisas como cebolas e ovos que nunca adicionava ao meu caseiro sanduíche, comprei. Escolhi um bom vinho, apesar de não vir acanhar com a refeição, algumas cervejas de trigo e uma caixa com chocolates, além de um pacote de preservativos. E pronto, lá se foram meus últimos reais do seguro daquele mês.
Saí atulhado de sacolas e ela... onde está ela?! Maldita seja! Deixou-me como um estúpido. Perguntei a um senhor que passava se a havia visto, ele balançou a cabeça negativamente, maldita seja mil vezes! Creio que voltara para o trabalho e me deixou a ver navios. Como posso ser tão tolo, por um momento pensei ter encontrado alguém que compartilhasse todas minhas esquisitices, e bem... O quão tolo me sentia agora!
Carrego as sacolas até o canteiro de uma árvore, e começo esfregar as mãos no rosto desesperadamente - como pude ser tão imbecil?! Por um instante, por um mísero instante esqueci-me de todos meus problemas, Camila, o emprego, minha família, tudo! Como pude ser tão imbecil?
Flagro uma gota escorrendo de meu rosto, que se abaixa em direção ao chão, fico a olhar meu próprio par de sapatos, a última coisa relevante que comprei visando somente a mim antes de mudar-me para o apartamento. Meu corpo padece, não posso ir para casa, seria deprimente depois de uma noite como essa pôr-me a comer só, ver TV só, dormir só.
Uma mão macia toca meu ombro – Demorei muito?! – Meu rosto se abre como uma flor que necessita absorver ao máximo o brilho do sol, então a abraço com toda minha força, corro a mão sobre seus cabelos...
- Nunca me deixe! – Minha própria aflição causa-me constrangimento quando a solto e a encaro nos olhos.
- Relaxe, você estava demorando um bocado, então aproveitei para ir ao banheiro. – Percebo que o brilho do seu batom está mais reluzente, os olhos contornados por lápis agora estão mergulhados num preto mais vívido.
- Vamos!
Pelo caminho ela continua a tecer detalhes de sua vida, contento-me em tempos em tempos dizer-lhe um “uhum” para mostrar que minha atenção continua presa a tudo que diz.
No apartamento sirvo-lhe um pouco de vinho enquanto preparo os hambúrgueres. A vida de solteiro dos últimos dias ensinou-me a preparar os mais saborosos macarrões e os melhores hambúrgueres. O meu segredo é misturar uma carne macia com outra um tanto mais gordurosa e adicionar molho para churrasco e assar lentamente, deixando a carne a uma altura que o fogo a toque levemente. Camada por camada os monto, primeiro a alface, o queijo cheddar, tomate, a carne, mais uma fatia de tomate e outra camada de alface e pronto, só falta embutir o bacon. Pergunto-lhe se há algo que ela não come, então ela me diz que quer ovos.
Com a frigideira já quente coloco os ovos que tomam uma grotesca forma de farofa e o bacon, bem, o bacon têm as bordas torradas. Droga! Os ovos grudaram na frigideira e quando coloquei o bacon as sobras dos ovos aderiram-no fazendo tostar tudo.
- Senti um cheirinho de queimado, tá tudo bem aí?
- Não como ovos – a respondi.
- São esses os bacons que você tanto se gabou?! Onde estão as cervejas? Ela era forte, passou imponente por mim, abriu a geladeira e pegou duas cervejas voltando ao sofá, mudou do canal de esportes para um sobre animais, tão naturalmente que temesse ser Camila.
Sirvo Jordana e ela retribui-me com uma carícia nos cabelos, apanho uma garrafa de cerveja e me sirvo, ela elogia o sanduíche, e nada comenta sobre o bacon torrado...
- Tem uma camisa velha? Está calor, quero terminar de comer, tirar essa roupa e tomar um banho.
Quando saiu do banheiro parecia ainda mais linda. Havia soltado os cabelos que agora estavam a cair lhe sobre os ombros. O cheiro que exalava era inebriante, não há perfume melhor que o cheiro de um banho tomado. Sua pele, tão perfeitamente lisa, alva e macia fazia que minhas mãos se perdessem por seus caminhos.
Assistimos uma comédia que passava na TV, um besteirol qualquer, depois lhe dei uma escova de dente como convite para que ficasse aquela noite, coisa que ela não hesitou em aceitar, dormimos juntos, pensei em não abraça-la naquela noite como forma de impor a mim mesmo um pouco de autoestima, mas ela o fez e se entregou me dando de todo o seu carinho sem medo.
Na manhã seguinte vi que se levantava, mas não a acompanhei, que fizesse o que bem entendesse, se tivesse de partir que fosse assim. Pude ouvir a porta se abrir, mas logo retornou e eu já estava de pé, havia trago o nosso café da manhã e o mesmo sorriso da noite anterior.

Meus Queridos Livros

   "Desculpe-me por isso, a chave está em sua cômoda, sobre os livros...”


    Hoje ao alvorecer fui até sua casa, e pela primeira vez desde que lhe pus os olhos tracei o roteiro inverso do qual já me acostumara. Era bem cedo, a neblina encobria a cidade, os trabalhadores se dirigiam para seus trabalhos, os jornaleiros entregavam os primeiros jornais, este lado do mundo abria sua face para os primeiros raios de sol, que o tocavam de um jeito sutil. Como disse, tracei o sentido inverso, saí de minha casa até a padaria da Gameleira, onde sempre somos recebidos com aquele maravilhoso pão francês quentinho, tão macio e alvo, da exata maneira que os nossos estômagos em jejum suplicavam todas as manhãs. Peço que me desculpe, mas pela força do hábito acabei esquecendo de levar algumas moedas para pagar pela refeição, assim evitando algum constrangimento coloquei em sua conta, como de costume. Quando cheguei em seu apartamento, para minha surpresa você não estava, a cama estava feita e suponho que não tenhas passado a última noite por lá; reparei também que havia alguns discos espalhados pela casa, então liguei o aparelho de som e ele tocou, tocou um de meus preferidos. Confesso que fiquei um pouco triste, você não sentia mais a falta de música quando nos encontrávamos, e por isso aquele aparelho ficou por meses estragado e encontrá-lo funcionando, bem, eu prefiro pensar que era apenas saudades e por isso colocou o nosso disco. Deixei tocando aquela música, “Joining You”, se lembra? – minha preferida. Aposto que se lembra, eu a repetia várias vezes. Por um momento senti que aquela casa ainda pertencia um pouco a mim, tomei a liberdade de vestir seu roupão, impregnado com seu cheiro, então deitei em sua cama, fumei um de seus cigarros, bebi um pouco do seu vinho... A essa hora já deve ter encontrado o bilhete que deixei na porta da geladeira.

23h15min. Mensagem enviada por e-mail.

    “É uma pena chegarmos a esse ponto, tudo poderia ser diferente, mas a rotina até do que é aprazível cansa, e tudo se torna questão de tempo até um ímpeto nos conduzir a um erro, que magoa, traz saudades e nos deixa exatamente no ponto que nos encontramos; o ponto final. Peço apenas que devolva o livro que lhe emprestei, sabe, é algo maior que material, é sentimental, fora o primeiro de todos que ostento em minha estante, e trata-se de um romance que você nunca irá compreender; é amor utópico, de um homem que tem natureza idealizadora e inconcebível para a maioria, sentimento que receio que você jamais sinta. Ademais não quero estender isso com uma lição de moral, como tantas outras vezes sujeitou-me. Sinto muito.”
    Se encontraram algumas vezes pelas ruas, se olharam ressentidos, ao mesmo com uma vontade quase incontrolável de se falarem, de se tocarem. A mensagem de e-mail jamais fora respondida por Carolina, e quanto ao livro ela nunca o devolvera, pois metade tratava-se de orgulho e a outra de desafiá-lo a tomar-lhe, de conduzi-lo.
    Eduardo mudou-se de cidade após algumas semanas. Os seus amigos eram os mesmos de Carolina, assim como a comida, os lugares que frequentava, tudo remetia ao que viveram juntos. Decidiu por fim aquilo, iria conhecer novas pessoas, experimentaria novos temperos, beberia bebidas ao som de outras músicas.

Um anos depois...

    Eduardo tornara a cidade e reivindicava o livro insuportavelmente, até que certo dia farta de fingir não dar importância por aquele capricho, Carolina resolveu entregar-lhe aquele objeto que durante muito tempo fora seu maior apego, sua recordação materializada daquela relação. Deixou debaixo da porta da casa de sua mãe um pacote, já que o antigo apartamento estava ocupado por novos inquilinos. Ele ao recebê-lo deparou-se com o seguinte escrito na face interior da contracapa – “Jamais compreenderias meu instinto desapegado de ser, de amar, de viver cada dia. Temo que nunca tornes a gostar de mim, mas saiba que remoo essa angustia, essa culpa, mesmo não me sentido culpada...” – além de algumas marcas de fogo nos rodapés, e no seu interior algumas páginas faltavam, outras com vestígios de brasas que deveriam ter caído sobre a folha e rapidamente abrandadas. Notou também que seu trecho preferido estava borrado, com o papel agora repleto de trepidações além de um outro exemplar do mesmo, novo.

12h04min. Mensagem enviada por e-mail.

    “Espero que me desculpe, não por qualquer outra coisa que não seja as avarias que causei ao seu livro. Acho que as coisas na vida duram o tempo que devem durar, e espero que entenda isso. Deve ter notado que enviei um novo exemplar junto ao antigo. Torço para que tenhas alguém para emprestá-lo e que esse alguém faça uso tão intensamente quanto eu um dia fiz.
    Um grande abraço meu amigo, C.”

sábado, 3 de dezembro de 2016

Arranha-céu




“O passado é como estar defronte a um arranha-céu. Quando pouco distante, têm-se pouca visão de seu todo, mas enxerga-se detalhadamente sua estrutura. Alguns passos para trás, nos afastando, conseguimos enxergá-lo com uma visão mais ampla, mas os detalhes se perdem numa visão míope”.


A primeira vez que me recordo de ter a visto foi descendo as escadas do corredor que levava ao pátio da escola. Seu cabelo vermelho fazia-a destoar da multidão que descia para o intervalo entre as aulas. O prédio da escola era antigo, construído nos anos 30, possuía dois andares de salas de aulas e no andar superior os corredores que levavam às salas eram abertos de forma que era possível ter uma visão panorâmica de todo o pátio abaixo. Os alunos desciam por uma escada em espiral escondida entre as paredes do prédio do segundo andar para o pátio ao soar dos sinos como um enxame de formigas guiados por feromônio. Nesse dia em que a vi, a maior parte das pessoas já havia descido, e ela veio vagarosamente, como se diferente de todos os outros não tivesse pressa alguma, eu estava nos corredores do segundo andar e quando lhe pus os olhos ela voltou seu olhar para cima, um olhar que me ofegou por um instante, interrompeu a conversa que levava, olhos tão verdes e reluzentes, emoldurados por seu cabelo vermelho estonteante, que por um breve instante me perguntei porque não antes a havia notado se a tanto tempo estudava na mesma escola e a tanta gente conhecia, ainda sim o semestre estava  quase por acabar e em nenhum de seus dias havia lhe colocado os olhos. Seu olhar ainda que breve pareceu uma eternidade.

No outro dia eu estava lá, escorado nas cercas que circundavam o segundo andar na esperança de a ver novamente, e ela no mesmo compasso desceu, logo após toda a multidão se dispersar, olhou novamente, e agora a segui, quis saber para onde ia pois estava a andar sozinha novamente, até que um amigo interrompe: “essa menina aí é muito gata”, disse, fitei-o concordando, mesmo não lhe dizendo nenhuma palavra, mas a perdi quando voltei o olhar para o pátio.

-Quem é ela? – Perguntei.

-Cara não sei, mas ela é nova aqui.

-Como assim nova? Não a havia visto antes.

-Parece que veio do turno da noite.

Suas palavras me incomodaram, senti que esse detalhe sórdido tirava do meu imaginário aquilo que parecia perfeito até então. O turno da noite era outro mundo para nós que estudávamos no turno diurno, eram pessoas mais maduras que já trabalhavam ou voltaram a estudar, já namoravam e tudo o mais que uma vida adulta parece ser, e eu, no auge dos meus quatorze anos temia que ela carregasse todo esse amadurecimento que não possuía, e isso me fez desistir de qualquer ideia de conhecê-la instantaneamente.

Talvez pelo medo eu tivesse desistido de conhecê-la, mas a vontade de pôr os olhos nela todos os dias não diminuiu. Aos poucos ela já passou a não descer mais sozinha, e durante um mês seu círculo social pareceu aumentar, até que um dia desceu com um rapaz e a sensação de perca eruptou em mim, e talvez por coincidência ou não, esse foi único dia que meu olhar não foi retribuído.

Um dia ao chegar na escola me deparei com ela no mesmo corredor onde me punha todos os dias e pela primeira vez pude a olhar bem de perto, e bem mais vermelho parecia seu cabelo assim como o verde de seus olhos pareciam mergulhados num brilho oceânico.  Seu rosto era de uma seriedade tamanha, os olhos pareciam estar sempre cerrados, o nariz grande e estreito vinha de encontra a lábios tão sutis que duvidei que pudesse sair ali qualquer som. Ela e todos os que havia notado em sua companhia nas últimas semanas estavam por perto, sua sala de estudos passaria do primeiro andar para outra defronte a minha a partir daquele dia. Que sorte a minha!

Nos dias seguintes já não me punha a olhar para baixo se não que agora dava de costas para o pátio e sua multidão. Ela tão pouco descia religiosamente como antes e logo fez amizade com alguns colegas meus de sala. Com o passar dos dias mais pessoas próximas a mim a conheciam, e falavam de suas tatuagens, o que me fez temer ainda mais sua maturidade pois talvez ela fosse a única em todo aquele corredor a possuir tatuagens, algo impensável para um adolescente de quatorze anos naquela época, seja pelo preconceito, seja pela submissão aos pais e o dinheiro dispendido para eternizar um desenho na pele.

-Grilo, ela mostra as tatuagens se você pedir. Cara, ela tem uma aqui na cintura que a calcinha atrapalha a ver, daí ela abaixa a calça e você vê a marca da calcinha. Nossa velho do céu, ela é muito gata!

A essa altura eu já sabia seu nome, Amanda, assim como havia me acostumado com sua presença nos corredores. Todos usavam uniformes na escola, e as únicas peças que diferenciavam os alunos era algum adereço e o calçado. Me lembro bem do seu adereço, eram duas pulseiras que jogadores de futebol usavam como símbolo do combate ao racismo, uma branca e outra preta, em alta naqueles tempos. Amanda era um tanto masculina, andava desengonçada a balançar desordenadamente os braços, com o tronco e a cabeça compassados por um movimento homogêneo, não havia muita sutileza no seu caminhar de poucos movimentos, exceto o dos braços que pareciam perdidos. Numa das vezes que decidi descer para o pátio, ao retornar ela estava brincando com um amigo, aplicando-lhe uma “gravata” ao chão, ele era um tanto pequeno, então quando passei e vi os dois ele disse:

-Por que você não bate no Grilo que é do seu tamanho? – Nos encaramos, como se ali tivéssemos que nos provar, ela que era capaz de fazer o mesmo a mim, eu de que em nada me sujeitaria a uma cena como aquela, mas nada aconteceu, nos olhamos mais uma vez, e ela sorriu. No dia seguinte estava lá eu, mais uma vez escorado, no mesmo lugar que me acostumara a ficar e ela veio, quase que como um aviso de que era capaz de me derrubar, enquanto conversava com meus amigos ela me apontou um arame retorcido e me espetou com ele, eu senti, mas fingi não, talvez o medo daquele suposto amadurecimento para o qual não estava preparado me fez a ignorar no primeiro instante, mas depois da terceira “espetada” e ela ali, de frente para mim, foi impossível ignorá-la, afastei o arame com a mão, ela não se contentou e tentou espetá-lo novamente,  afastei de novo, e ela de novo e de novo, até que tomei o arame e ele estava agora parte nas minhas mãos, parte nas mãos dela, e se retorceu até se perder e a nossa disputa passou a ser somente usando as mãos.

Ela queria me derrubar, o podia sentir, era um desafio! Leonardo, o amigo que o propôs agora chegava e agitava: “Agora você achou alguém do seu tamanho! Faça isso que você fez comigo com ele, faça! Agora eu quero ver! ”, e ela tentava e eu assumi um desafio também, tomar-lhe as pulseiras! E assim num jogo de mãos terminamos aquele intervalo.

No dia seguinte assim que passei ela me retribui com um olhar e um sorriso, como se dissesse que o assunto ainda não estava por acabado. Ao soar os sinos lá estava eu, na mesma grade, com os mesmos amigos ao redor, mas ela só foi ter comigo ao fim do intervalo, e parecia tímida, mas ao mesmo tempo impulsiva, me deu um empurrão e foi só. Com o passar dos dias inexplicavelmente voltamos a nos encontrar, simplesmente acontecia, procurávamos inconscientemente o outro e quando nos dávamos por conta estávamos novamente em uma batalha.

Durante algumas semanas isso foi acontecendo, até que a minha turma foi transferida de sala e não mais estaria defronte à sala de aula dela, mas do outro lado do prédio, ainda no segundo andar. Essas mudanças ocorriam frequentemente naquele ano já que a escola estava em reforma. Eu pensei que essa distância nos afastaria pois agora a escada em espiral estaria entre nós, e novamente teria que me contentar em a fitar de longe. No dia seguinte ao primeiro dia da mudança lá estava ela, do outro lado do prédio antes da aula começar, do “meu lado do prédio”, conversando com um amigo, “Andy”, era o apelido que eu mesmo dei a ele. Nessa época eu havia comprado meu primeiro skate e estava fascinado com o esporte, e foi quando eu “estourei” o primeiro rolamento, peguei o anel e coloquei no dedo. É claro que ela notaria e tratou de zoar comigo:

-O que é que é isso meu filho?! Você está namorando? Isso é um rolamento no seu dedo?! Ficou estiloso hein?! – Disse num tom tão irônico que ali mesmo tratei de tirar o anel, quase que desesperadamente para que cessasse suas ironias. Quando por fim consegui tirar, já vermelho de constrangimento ela voltou a falar:

-Você ficou vermelho tal como um pimentão, esse anel é de namoro?

A pergunta novamente veio só que num tom diferente, ela não sorriu quando a olhei sério, expliquei que era um rolamento e que andava de skate, ela se interessou pelo assunto, ficou séria, talvez esperando uma resposta, ou talvez o assunto a tocasse, e certamente tocava a mim.

No intervalo ela estava à minha espera na porta da sala de aula. A aula era de Geografia e estava no fim, os sinos estavam prestes a ressoar, mas para mim já havia acabado, naquela época eu já havia desistido de ser um bom aluno, obter boas notas e tudo o mais que se espera de um estudante. Havia sido reprovado no anterior e por isso não dividia a sala com ela que estava um ano à frente. Eu queria mostrar algo reprimido em mim mesmo e a forma mais fácil naquela época era parecer ao mundo que eu estava pouco me “fodendo” para ele.

Ela se aproximou um pouco mais da porta que estava aberta. Nos olhávamos fixamente, até que a professora se incomodou com sua proximidade e pediu para que ela se retirasse dali, eu ri bastante, pouco depois a aula acabou e fui lhe encontrar rindo daquela situação, todos saíram e voltamos a sala de aula e começamos mais um capítulo das nossas batalhas, desconfiguramos toda a sala, os materiais escolares dos meus colegas caíam a medida que nos empurrávamos, lápis, borrachas, cadernos e fichários estavam aos montes no chão, consegui dominá-la e caímos, abracei-a como uma camisa de força, era a primeira vez que segurava uma mulher em meus braços, seu cheiro era inebriante, seu cabelo tão macio, ela beliscava minha barriga com os poucos movimentos que lhe restavam, o tempo passou muito rápido naquele abraço, tanto que não nos demos conta quando o intervalo havia acabado, até que o professor da aula seguinte nos pegou jogados ao chão abraçados, eu a soltei de súbito e ela tão rápido quanto se levantou e saiu.

“O que aconteceu nessa sala? Parece até que passou um furacão por aqui! ” – Disse a professora ao se deparar com a bagunça que havíamos feito. Não sei ao certo se ela nos viu agarrados e acredito que nem mesmo ela tinha certeza se a cena era mesmo o que parecia.

Com o passar do tempo nossas batalhas eram tão comuns quanto populares, e a diretora da escola já havia nos “marcado” e o ódio entre Amanda e ela era latente. Nas quintas, logo após o intervalo era minha aula de educação física, e nunca deixei de fazer parte do time de futebol, mas as nossas brigas estavam me tirando as forças até para coisas que não abria mão. Numa dessas quintas havíamos tido uma luta daquelas! Adentramos numa das salas desocupadas que iriam ser as próximas a serem reformadas, aos solavancos e empurrões, consegui segurar-lhes os braços a minha frente, nos olhamos, esquecemos a briga naquele instante, senti que era a chance de beijá-la, não que estivesse a buscar essa situação, e não que a não quisesse, mas quando se é jovem e tímido como eu as coisas simplesmente não acontecem. Eu pude sentir desde o primeiro dia que era uma vontade mútua, sentia sua ausência quando falhava a aula e ela a minha, sempre nos cobrávamos de alguma forma, como se um dos dois estivesse faltado a um compromisso. Os feriados eram terríveis! Quando prolongados um martírio... E o ano lá ia se acabando e a frustração creio que nos consumia e ela nesse dia nunca esteve tão perto e eu nunca tão confiante, algo instintivo brotou em mim e quando dei o primeiro passo e afrouxei a pressão que fazia em suas mãos ela tomou minha camiseta pela gola e a rasgou! Sim, ela conseguiu rasgar minha camiseta e saiu rindo e contando a todos que encontrava. Saí da sala cabisbaixo, pela frustração e pela camiseta.

Nessa época eu trabalhava numa vídeo locadora fazia exatamente um mês. O “salário” era simbólico, mas a possibilidade de poder jogar games o dia todo era o que me atraía. A locadora era situada num bairro de classe baixa e por isso não raro tinha de aturar alguns marginais, traficantes, brigões, viciados em games e todo o tipo que aparecesse. Mas na maior parte dos dias meus amigos também estavam por lá, até para poderem compartilhar da minha jogatina gratuitamente, sem que o dono que trabalhava na sua mercearia ao lado da locadora percebesse, e por isso não raro anotava registros fantasmas para poder nos justificar. Minha mãe no dia que Amanda rasgou minha camisa foi levar um lanche para mim até a locadora e perguntou aos meus amigos “quem era ela”. Quando fui dar a camisa para que costurasse viu marcas por todo o meu corpo, seus beliscões e tapas haviam deixado hematomas por todo o meu tronco. Senti que minha mãe estava preocupada, afinal, isso estava a acontecer na escola, mas ao mesmo tempo sentia se feliz por ver seu filho supostamente dando seus primeiros passos junto a alguém, mesmo que esses passos parecessem um tanto violentos.

No dia seguinte, quando acordei vi que minha mãe ainda não havia consertado a camisa e teria de ir com ela para a aula. Assim que cheguei Amanda me recepcionou rindo, ela sempre chegava antes que eu apesar de morar a uma distância consideravelmente maior. Vinha de bicicleta e por isso talvez conseguisse ser mais rápida que o meu despreocupado caminhar. Ela riu quando viu a camiseta e disse:

- Uai fi, cê num tem outra camiseta não?

Eu realmente não tinha outra camiseta e aquela de certo estava velha demais e por isso rasgou. Senti vergonha quando ela disse isso pois nunca dava atenção a certas coisas como roupas, ainda mais se tratando de um uniforme. Quando cheguei em casa pedi para minha mãe que comprasse outra camisa e ela assentiu vendo que a minha estava velha. Foi ao Centro da cidade, comprou-me uma nova camisa de uniforme e costurou a antiga.

Amanda era uma das garotas mais bonitas do colégio e eu de fato nunca entendi o motivo de ter me escolhido. A minha segurança era tamanha que nunca lhe tive ciúmes, bastava por me os olhos para vir a ter comigo. Nos gostávamos, tenho certeza, como em poucas vezes na minha vida tive sobre o assunto. Quando a reciprocidade é tamanha não há espaço para incertezas e nunca temi perdê-la, o que me angustiava era o tempo passar e o fim do ano se aproximar e então viria as férias e ficaríamos distantes. No ápice da minha imaturidade, não via saída para isso, nem meios pareciam existir. Naquela época, as pessoas começavam a usar o celular e era comum a troca de mensagens, ou curtas ligações que duravam não mais que três segundos, não tarifadas neste caso. As pessoas se falavam, ainda que um pensamento demorasse um acumulado de parcela de apenas três segundos. Eu não possuía celular, mas ela sim, e mesmo que tivesse, minha timidez seria uma barreira de modo que acredito que nunca ligaria. Ainda sim tomei nota do seu número e guardei o pedaço de papel como nunca havia guardado uma informação antes.

Os dias passavam, e seu cheiro era como o perfume de uma roupa enxague em amaciante nos meus uniformes. Como era bom abraça-la e proporcionalmente difícil beijá-la! Nossas brigas ainda continuavam, e ela passou a abaixar minhas calças. Quando fazia saía todo desconcertado tentando me reestabelecer o mais rápido. Numa dessas a fiz limpar o quadro esfregando-a na lousa, noutra também abaixei suas calças. Nesse dia nunca a vi tão séria, quando me abaixei temi levar um chute, minha cabeça ficou à altura do seu joelho e por mais que tivesse intimidade, abaixar suas calças extrapolava-a. Tenho de fazer notar que era uma calcinha vermelha e suas pernas brancas, uniformemente brancas como todo o seu corpo. Ela se abaixou muito calma, reergueu as calças que eram calças de uniforme suspensas apenas por um elástico, por isso eram tão fáceis de se abaixar, me olhou firme como se avisasse que aquilo era permitido apenas a ela que o fizesse, deu de costas e não quis ter mais comigo durante o intervalo.

No outro dia não veio até mim, como se esperasse um pedido de desculpa, mas de certa forma eu sabia que as coisas se acertariam. Eu me senti mal pela brincadeira, tinha consciência que havia trespassado os limites de nossas batalhas, mas ao mesmo tempo a imagem resultante era inexplicável, fruto da minha ingenuidade. Eu nunca havia beijado alguém, quanto mais visto uma peça íntima vestida. Queria que soubesse disso, que ela seria a primeira, e quão bem eu começaria. Me disseram que ela talvez não tivesse tocado os lábios de uma outra pessoa, mas não quis perguntá-la, e uma dúvida ao mesmo que uma esperança de que aquilo fosse verdade enchia meu peito.

As provas finais haviam chegado... me lembro que foi num dia chuvoso que ela me disse:

-No ano que vem não vou mais estudar aqui.

- Por que? - Disse, tomado de uma sensação de vazio, olhando-a enquanto sem ânimo se desviava numa brincadeira com o guarda-chuva.

- Minha mãe acha muito longe eu vir para cá todos os dias para estudar e eu vou voltar para a minha antiga escola que é mais perto.

Aquilo de certo era o fim de algo que eu não sei ao certo o quanto duraria, mas parecia infinito até então. Não havia outra saída, se tratando de decisão de mãe, nada eu poderia fazer e nem ela para mudar. Ela parecia não querer, estava chateada mas sabia que seria feito. Ainda ficamos em recuperação com a mesma professora, Cátia que lecionava álgebra. Naquele ano eu havia sido um bom aluno, talvez por ter me dado conta do tempo perdido devido a reprovação, ou mesmo numa esperança infundada de que me esforçando quem sabe podia dividir uma sala de aula com ela.

No último dia de aula era realizado o amigo secreto. Eu havia levado meu skate para desfrutar do relaxamento da direção nesse dia devido as festividades de fim de ano. Era proibido andar de skate na escola, bem como se apresentar trajando algo que não fosse o uniforme, mas ambas as regras nesse dia sofriam um relaxamento e eram revogadas. Foi a única vez no ano inteiro que pus os olhos nela sem uniforme. Ela desceu a escada em espiral trajando uma blusa preta de alças que lhe caiu perfeitamente bem, acompanhado de uma calça jeans que definiam bem suas curvas. Foi a primeira vez que a vi maquiada também, com um leve lápis preto que emoldurou ainda mais seus olhos verdes, um toque sutil de rosa nas maçãs do rosto e um batom que reavivou a cor dos seus lábios, tudo tão sutilmente posto naquela face, sem que perdesse o ar sério que lhe caracterizava. Em suas mãos carregava seu presente de amigo secreto, uma flor artificial com seu nome, mexia naquilo cabisbaixa, senti que estava triste, nunca antes havia falado tão pouco.

- Onde você vai? – Me perguntou.

- Vou andar de skate.

- Então você anda mesmo.

- Sim, achou que era mentira?

Ela me esperava, como nunca me havia esperado antes. Não quis brincar, não quis sorrir, nem sequer tocou em mim, não antes que pudesse sentir meus lábios e eu não me dei conta, não percebi, nem que estava tão linda nesse dia, não como deveria tê-lo notado, nem que estava ali para que aquilo não se transformasse num adeus. Eu não conseguiria, mesmo que tivesse coragem, estragaria tudo de alguma forma, bastava um passo à frente, pegar-lhe as mãos carinhosamente que notaria que não se tratava de uma última briga, levaria ela a praça e lá podíamos transformar aquele semestre numa lembrança perfeita, ao menos não em um adeus. Eu sabia, senti, mas mesmo assim disse apenas que voltasse quando pudesse a escola, não me dei conta que não a veria mais, não nos próximos três anos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Me ADD?


Sábado a noite

Parecia receosa quando me aproximei, diferente de alguns minutos antes...

- Posso? – disse, apontando para a cadeira ao seu lado.

Fez uma expressão como que a decisão dependesse somente de minha vontade. Estava sentada de costas para o balcão do bar. Pedi ao barman que me trouxesse duas garrafas verdes de cerveja, a mesma que ela segurava quase vazia.

- Qual curso você faz?

- Química, respondeu assim que o homem retornou com a bebida.

Sobre a cerveja, eu não pagaria nenhuma outra exceto aquela que lhe dava agora, poderia parecer que desejava somente sexo depois da segunda garrafa, ou mesmo que ela aproveitasse disso e ao fim, quando reivindicasse meu tempo e dinheiro gastos, a sua carruagem se transformaria em uma carona de última hora e seu sapato de cristal seria um número de telefone aleatório.

Já sobre o curso, apenas uma mera formalidade! Pelas redes sociais sabia seu nome, curso, animal de estimação e inclusive que estaria hoje aqui, estava a lhe observar a algum tempo nos corredores da Universidade.

- E você?

- Ciências da computação.

Uma amiga nos interrompe e cochicha algo no seu ouvido, ela sorri, responde algo também aos ouvidos da amiga.

- Foster the People! Curte? – Sim, tocava a música da banda que sabia que ela gostava, havia postado uma música em sua timeline, e era justamente aquela que vinha aos nossos ouvidos agora.

- Sim, adoro essa música! Qual o seu nome?

Durante os anos de minha vida quase que inteiramente por tentativa e erro, fui aprendendo que algumas coisas não funcionavam, simplesmente. A maior lição é que as mulheres enxergam tanto quanto os homens, a diferença talvez seja uma questão de sinapses. Os homens precisam se prestar a olhar e a olhar por minutos, talvez horas, enquanto o cérebro delas é capaz de tomar decisões no rápido intervalo de uma jogada de cabelo, se muito um cruzar de pernas, ou mesmo o cruzar já seja a decisão tomada.

- Guilherme.

- Guilherme... Eu gosto desse nome!

- Você puxa o “r” quando fala, de onde você é?

- São Paulo e você?

- Patos de Minas.

- Como?! – e riu.

- Patos, cuá, cuá... de Minas.

O mal de todo paulista é achar que vai induzir a pensar quem pergunta que São Paulo se trata da capital e não do estado...

- São Paulo, capital?

- Não, do interior. – respondeu arrastando ainda mais o “r”.

Posso dizer que foi uma noite que correspondeu as minhas expectativas. Não era uma das mais bonita da Universidade sendo honesto, mas possuía o jeito que me cativava e isso me fez persegui-la, mesmo que não tenha notado. Aliás, aí está o segredo da sociedade virtualizada.

Todo mecanismo tem um algoritmo e a chave está em conhecer tal. Antes, me lembro que o Orkut entregava quem visitou seu perfil, e nesse caso ela já teria me reconhecido como um “perseguidor”.Já no moderno Facebook, talvez tenha visitado tanto seu perfil que o mecanismo tenha me sugerido como um possível conhecido, e se ela talvez não se importasse tanto em descartar tais sugestões infundadas, provavelmente tenha visto minha cara sorridente pela fotografia.

Antes da noite anterior terminar, me ofereci para acompanhá-la até a sua casa num táxi, mas ela recusou.

No dia seguinte restava saber se o número não era um número aleatório. Mandei um simples SMS, que obteve respostas horas depois. Se tudo ocorresse como planejado, algumas visitas ao seu perfil virtual bastaria para que o algoritmo me trouxesse novamente a sua lista de potenciais amigos.

Quinta a tarde

Já desesperadamente visitava seu perfil, vi que o atualizava mas nada de me adicionar, talvez a ela tivesse muitos potenciais amigos, ou mesmo que não ligasse para tal informação, mas estranhamente respondia com interesse minhas mensagens ao celular.

Não resisti e a convidei para sair, precisava vê-la mesmo que isso não seguisse a estratégia inicial de fazer com que isso viesse de forma natural numa conversa online. Ela aceitou.

Sexta a noite

- Preciso lhe contar algo.

- Diga.

- Olha, eu gostei de você, me parece um cara legal...

Eu sabia que não era o fim, apenas medo...

- Eu também gostei de você.

- Pois é, então não me leve a mal mas é que não gostaria de me envolver muito sabe.

Fitei-a interrogativamente...

- É que eu tenho uma filha.

Sófia carregava os mesmos olhos da mãe e adorava a Galinha Pintadinha, nada que me surpreendesse, cantavam juntas em vídeos disponíveis em sua conta no YouTube.

domingo, 8 de março de 2015

Tampa com manteiga.

“Eu odeio ter que ir a padaria de manhã”.

Odeio, mais que tudo que odeio. Para mim, o mundo regrediu. A minha avó contava que nos seus tempos o padeiro levava os pães e o leite a porta de cada cliente, todos os dias, a mesma quantidade. Também confessou que se alguém viesse lhe visitar e pernoitasse, era preciso lembrar de deixar um bilhete no dia anterior, para que a quantidade viesse maior no dia seguinte, do contrário, faltaria.

Tenho tanta preguiça de ir a padaria que desde que me mudei para cá, ando a comprar pães de forma. Além da indisposição, gosto do pão do dia, um paradoxo que já apresentei a solução.

Desde que me mudei para cá, o maldito ás vezes me deixa com as “tampas”. Me refiro a primeira e a última fatia do pão de forma. Eu não como as tampas, e nem ele.

Espero que ele desconfie antes que minha paciência se esgote. Tentei algumas estratégias, exceto esconder a comida. Não! Isso seria demais para mim, me sentiria tão mesquinho quanto ele. Já pensei em consumir menos, tentando achar um padrão de sua mediocridade em roubar-me os pães, em vão, já que sua gula é inversamente proporcional a minha tolerância. Por vezes, acordei mais cedo, afim de diminuir minha indisposição e pegar-lhe cometendo o “crime”, mas sua astúcia era tanta que a primeira vez que o fiz não se arriscou e permaneceu em jejum, assim, passou a comer tudo a noite.

Era um jogo interminável, um xadrez sem xeque-mate. Eu então tentei a última das opções que me ocorreu: pensei em acordar e ir a padaria pela manhã. E assim o fiz, acordei e ofereci que lhe buscasse algo também, ele rejeitou obviamente, disse que não tomava café da manhã. Busquei o pão e tomei o meu café, a questão é que seus estudos eram a noite e ele sempre ia se deitar depois de mim, e o pão que havia comprado naquela manhã já não existia na manhã seguinte, exceto as tampas.

Haviam dois quartos no apartamento, e mesmo com um quarto a disposição, ele decidiu-se instalar no mesmo que havia escolhido. Escolhi acreditar que isso era devido ao espaço maior.

Ainda não havíamos comprados sequer os moveis mais básicos, inclusive uma cama. De todas as minhas preocupações a última seria uma TV. Não tenho o hábito de assistir, principalmente depois que a internet havia proporcionado tanta coisa, não fazia sentido em não escolher o que consumir, mesmo com todas as opções de uma assinatura, mas para ele era uma necessidade tão fundamental quanto ter uma privada no banheiro.

Tenho de dizer que esse fato me deixou um tanto malicioso. Todas as minhas necessidades eram tão básicas e jamais poderiam ser negligenciadas, tais como uma geladeira, uma mesa e um fogão, nem sequer uma cama era preciso, somente um colchão, já a TV... bom, a TV era tão superficial quanto um jarro de flores artificiais decorativo e sei que fiz muito bem em decidir que era algo para o futuro, mesmo que esse futuro nunca se realizasse. Ele mesmo assim insistiu, mas fiz o sentir que era uma necessidade individual (o que de fato era), no entanto um erro meu, pois ele comprou-a sozinho e tínhamos uma saída pronta para ser usada, do antigo morador, com canais a cabo mesmo que ele só assistisse um, com seu reality preferido.

Com um quarto grande e outro a disposição, ainda procurávamos outro morador e logo encontramos e ele se mudou para o outro quarto. As noites eram preenchidas com conversas até a madrugada, jogadas fora por três pseudo intelectuais teólogos filosóficos. Eu sempre era o primeiro a abandoná-los e ir deitar-me, o que ainda me deixava com as tampas pela manhã. E todas as noites durantes as primeiras duas semanas assim se seguiram. Ele assistia seu reality, junto as bolachas e o refrigerante que havíamos comprado, depois desligava a TV e começávamos a conversa. Ás vezes o assunto era o quanto São Paulo era melhor que todos os outros estados da federação: o mais rico, a melhor infraestrutura, os maiores aeroportos, as maior malha rodoviária, as melhores festas, a maior diversidade cultural... eu inocente, ainda guiado pela mídia dos anos 90 era um torcedor palmeirense, diante a dois corintianos paulistas.

Em outras noites a conversa puxava para religião. Eu, um batizado pela igreja católica mas agnóstico, ele um praticante de alguma igreja protestante distinguida por alguma forma geométrica, e o outro um indeciso que pendia pela dúvida. Numa dessas conversas ele enrolou sua toalha e fez uma linha que dividia a sala de estar ao meio. Me explicou que se ele seguisse o catolicismo, que não restringia e nem alertava seus crentes aos males da vida, negligenciando a vida libidinosa, ele estava se afastando daquela linha rumo ao inferno, que era retradado pela porta da sala, a extrema esquerda da minha visão da sala. Já se ele participasse dos cultos na igreja, e seguisse os conselhos do pastor e de sua fé, ele rumaria junto a Deus e ao céu, que era retratado pela janela, na extrema direita do cômodo. Foi então que o outro paulista o perguntou aonde ele estava e ele se postou ao parapeito da janela.

Para por fim as “tampas” numa conversa com o paulista recém chegado, que já a essa altura havia sobrado com elas também, decidimos criar uma caderneta onde tudo que se consumia era anotado. Se eu comprasse um pão que fosse e alguém consumisse mesmo que uma fatia, era dado a contribuição fosse dividida entre dois ou mesmo entre os três, proporcionalmente aos “clientes”. Quando propomos a medida a ele, seus olhos não poderiam tê-lo entregado tanto. De certo esperaria uma briga, uma discussão que fosse, mas aquilo era cruel a sua atitude e lhe restou aceitar, não antes de um breve questionamento se aquilo era necessário.

Creio que já me odiava em tão poucas semanas. Antes de me mudar, tomei algumas breves lições de culinária, o que me trouxe a habilidade de fazer um macarrão bastante ruim. Com o tempo, todas as minhas atitudes, quaisquer que fossem eram questionadas. Aos sábados, saíamos as compras pois todos estavam em casa. O meu macarrão eram um dos dois pratos que tínhamos conhecimento, além de frituras.

- Gosto de azeitonas, o que acham? – eu disse.

- Pegue essa, que está sem caroço, daí não temos o trabalho de tirar.

“Qual o maldito trabalho de tirar o caroço de uma azeitona e pagar quase o dobro por essa facilidade? “-pensei. Nesse mesmo dia, enquanto ele fritava steaks, disse que devia aprender a me virar. Talvez seja a hora de revelar o segundo prato que sabíamos fazer: era arroz, e não era ele quem detinha o conhecimento.

Em algumas semanas, o assunto era exclusivamente religião e o quanto São Paulo era melhor que todos os outros estados. A sua alienação era tanta que chegava a interferir nas suas escolhas amorosas. Mas tenho de dizer que isso o tocava mais que a mim, e parecia enclausurado na sua própria crença. Me senti o próprio diabo perseguindo Cristo no deserto. Era inconcebível a ideia de ter de escolher alguém dentro da própria igreja para ser feliz e continuar no bom caminho, pois essa pessoa certamente era melhor que qualquer outra que não fizesse parte daquilo. Como doentio isso soava! Não podia alguém em sã consciência dar ouvidos a isso!

Eu o testei, o questionei e diferente do que tentou, não o impus uma ideia, até pela carência delas. Ele me ouvia, tenho certeza, mas odiava-me a proporcionalmente. Sentiu-se fraco, talvez questionasse agora e tratou de arrumar uma igreja que pudesse ir. Passou a tarde a procura, e o que encontrou foi uma figura geométrica próxima a que frequentava, talvez como um triângulo de ângulo reto está próximo a um retângulo.

E nos sábados seguintes ele foi, punha a bíblia debaixo do braço e assim que colocava a mão na maçaneta me convidava:

- Vamos no culto Guilherme?

- Quem sabe na próxima! – eu o respondia.

Isso durou tanto que já nos dávamos melhor. A única discussão séria foi quando me contou do surgimento do próprio Lúcifer. Um traidor, que invejara o reino do próprio Criador.

- Mas se Deus criou o arcanjo que o traiu, então Deus criou o Diabo? – perguntei.

- Isso é blasfêmia! Tome cuidado com isso, você está blasfemando contra Deus!

Um silêncio tomou conta da sala enquanto seu dedo apontava em minha direção. Foi a única vez que o fiz perder a cabeça, que nos encontramos pela manhã receosos da conversa da noite anterior.

Nas semanas seguintes parecia que nossa convivência estava atada a um fio que sustentava o enorme peso de nossa autoafirmação. Creio eu que pessoas como nós nunca poderíamos conviver num mesmo ambiente, somos como animais que brigam pela supremacia de seu território, vamos lapidando um ao outro em busca da real natureza humana tal como uma pedra preciosa, e pouco a pouco retiramos os resíduos que nos reveste de bom senso e cordialidade.


Numa terça feira disse que precisava conversar. Estávamos os três sentados a sala quando disse que havia decidido se mudar. De fato estava a se isolar cada vez mais, e me pareceu ter tomado uma decisão acertada. Na manhã seguintes levou algumas panelas que havia trago, tapetes e sua TV.