quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Casca de Noz - Henrique Donancio

      Rodrigo estava atrasado mais uma vez...
      Pacientemente andava de um lado ao outro da calçada frente a sua casa. Já havia mandado uma mensagem ao seu celular para que se adiantasse, havia certo receio de tocar a campainha, e acreditava que não influenciaria muito para adiantar seu retardamento. Trajava uma camisa azul que tinhas manchas nas costas, e impresso a sua frente uma mulher com headphones sensualmente pintada em tons pretos, sedutora em traços rápidos. Abaixo do olho direto uma pincelada cor de rosa. Fazia-se um dia quente, raros em tal posição geográfica, a barba já começava a me incomodar, nunca lhe fui um apreciador, esteticamente até achava que me caía bem, mas me agoniava, os pelos grossos atritavam com minha pele causando-me gastura.

     Ouço os primeiros acordes de No Rain soar, é meu aparelho telefônico que vibra e canta, vejo no display outro nome insistente, e desisto. Quando me viro para avenida dou-me com sua imagem embaçada pela minha miopia. Já havia aprendido a conhecer seus passos, percebo que sua cabeça de repente pende para baixo, deixando cair duas mechas, e desconcertadamente, cheia de receios num ato impetuoso você se põe ereta novamente, passa as mãos sobre o cabelo, conserta-o e volta a andar, mas quando chega mais perto de novo acontece, você nunca conseguiria disfarçar...
     - Olá Humberto.
     -Bem? Então aceno com a cabeça.
     -Meu irmão ainda não saiu? Já tocou a campainha? Bah, ele sempre se atrasa!
     Explano que já havia lhe mandado uma mensagem e que ele não tardaria muito a chegar.
     -Você está bem? – A pergunta me constrange, fixo os olhos nos seus e confiantemente quase silencioso digo-lhe um singelo "sim". Também pára, põe se a olhar, deixa as sacolas que carregava caírem de suas mãos, me abraça como senti em outra ocasião quando nos despedíamos na praia, escorre uma lágrima de seu olho, chego a não acreditar que tanto orgulho despencaria sobre meus ombros dessa maneira, de um jeito que se mede em metade compaixão, outra metade num sentimento mais forte lhe envolvendo num abraço caloroso.
     -Volta, eu já não consigo mais...
     -Eu também não, mas não dá, acabou!
     A porta se abre, Rodrigo aparece sobre a luz da sala, faz sua graça, tira sarro da situação de um jeito peculiar. Você seca sua pele, agarra as sacolas rapidamente e diz um “tchau” ríspido pondo-se para dentro. Rodrigo ainda diz mais algumas asneiras, bobagens que intrinsecamente tem o coro de uma enorme torcida. Tomamos o rumo do bar.

     A música estava demasiadamente alta e "suja". Quando todos estavam entretidos pus-me em mais um momento particular de reflexão, parado, olhando para o nada quietamente. Deixarei vago tudo que me passou naquele instante singular da minha existência afim de que nunca se descubra quais idéias perambulam pela minha mente no meu silencio. Tomei o celular em mãos e lhe mandei uma mensagem, talvez a primeira em dois meses.
     “Precisamos reaver a situação da Nina”, então sorri. Queria lhe provocar, não que a cachorra não fosse importante para mim, o era, me sentia responsável por sua irresponsabilidade, mas no fundo um ímpeto que me levava a aguçar sua raiva me conduzia a isso.
    Rodrigo me contara algumas vezes que o seu novo namorado havia tentado frustradamente tomar meu lugar de “pai” do cão, e que a dócil Nina agora estava raivosa, e ladrava contra o rapaz. Imaginei que você dava-lhe uns tapas por causa da impetuosidade, me aborreci, ao mesmo que tomado por uma satisfação maldosa. Ele tentava tomar meu lugar de pai?! Tudo ainda devia ter meu cheiro, os lençóis, o travesseiro, as paredes a ecoar minha voz, os ponteiros do relógio a esperar minha chegada. Você deverás estaria arrependida.
     Mais algumas cervejas então tomo coragem para ligar, já se fazia 1 hora e meia de um novo dia, pela sua voz ao atender ele devia estar ao seu lado, mas como você certa vez foi estúpida o suficiente para atender ligações de outro sob meus olhos, não faria diferente agora. Ríspido reclamo da cachorra, digo que me pertence, e você só ouve, e depois desliga. Se não te conhecesse tão bem agora ficaria mais tranqüilo, mas entendo o turbilhão de problemas que esse telefonema causaria. Você tentaria dar insignificância, menosprezar, me odiar, mas de nada adiantaria.
     Logo pela manhã recebo uma mensagem do Rodrigo me dizendo que Nina iria há uma consulta no veterinário. Retorno com uma ligação e peço lhe o endereço da clínica e tomo uma condução para o local.
     -Você ainda o chama para vir aqui? Ríspido seu namorado aponta o dedo para sua face.
    -Eu não o chamei.
    -Fui eu homem, diz Rodrigo. Então silencia, fita-me com raiva.
    O veterinário parece interpretar a situação e com uma voz grave chama a atenção de todos. Explana que pela falta de alimentação o cão acabou adoecendo, seria causa da depressão que estava a sofrer. Ele tem certeza do seu diagnóstico quando me aproximo do Cofap desengonçado sobre a mesa.
     -O senhor é dono do cão?
     Constrangido digo-lhe que sim e o tomo nos braços, pago a consulta e dou de costas para todos.
     A noite recebo outra mensagem de Rodrigo: “A mana acaba de terminar o namoro com o almofadinha, kkk”.
     Leio e suspiro... assovio para Nina que pousa ao meu lado no sofá. Teria sido melhor se tivesse lhe comprado uma tartaruga de presente.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Artista Itinerante - Caio Machado

Para Gabriel e Caroline Soares

Faltará lirismo no caso em que relatarei. Mas quem se importa? Aquela cidade ainda era uma grande incógnita para mim. A rodoviária não era muito amigável e estava num processo de reforma, que a meu ver ainda iria bem devagar. O que dava uma primeira impressão de atraso e retrocesso a quem chegava naquela cidade não muito receptiva. Antes de me dirigir ao meu destino resolvi consultar o mapa da cidade para que eu me orientasse melhor. Havia um enorme cartaz fixado em uma das paredes do local. Não existiam muitos bairros e pelo que calculei não gastariam mais que algumas horas pra se circular por toda a cidade. Enquanto eu pousava os olhos no mapa um jovem engraxate se aproximou de mim e perguntou de maneira bastante coloquial se eu queria “dar um trato” em meus tênis. Habitualmente ele só deveria fazer a seguinte proposta a senhores trajando sapatos, mas a evidente fome em que ele se encontrava, acompanhada de um possível desespero induziu o rapaz a me propor o serviço. Eu não precisava necessariamente do serviço, mas acabei aceitando. Sentamos no banco mais próximo e ele se postou aos meus pés e começamos a trocar algumas palavras durante uns instantes. O rapaz que perdeu a mãe recentemente se viu forçado a trabalhar, mas a falta de estudos não lhe proporcionou muitas oportunidades. E já que o ganha pão de seu pai é todo investido em exploração etílica não lhe restou muito que se fazer senão seguir o ofício ensinado humildemente pelo seu falecido avô. O rapaz não se dava muito bem com o português, mas era bastante loquaz. Contou-me que quando era mais novo não agia de maneira muito correta e que até preso já foi, por um envolvimento em uma briga. Fez uma singela e grotesca comparação ao dizer que durante o tempo que permaneceu enjaulado ficou tão branco por não tomar sol que estava até parecendo um europeu. Perguntava-me sobre meus interesses e parecia não saber muito bem o que fazia em meu tênis. Ele usava uma mistura que provavelmente não passava de água e sabonete e o serviço dele não me custaria mais do que três reais, mas preferi pagar-lhe dez para que ele se se alimentasse melhor ou o que quer que seja que ele fosse fazer com o dinheiro. Ele agradeceu-me repetitivamente e apresentou-se como simplesmente Gil. Disse que não se esqueceria facilmente de mim e pediu que eu voltasse depois com algum sapato para que ele engraxasse para mim. Aproveitando a ocasião disse também algo sobre doação de roupas e mais coisas das quais não me recordam bem. Para um recém chegado eu agora já ostentava minha primeira amizade.
A rodoviária ficava localizada na orla de uma enorme lagoa que se não fosse pelo visível descaso seria linda. Provavelmente aquele era um dos únicos cartões postais da cidade e para mim já estava ficando claro que a cidade em questão era meio abandonada pelas autoridades políticas. Tanto que em poucos minutos presenciei inúmeras infrações de trânsito que pareciam passar despercebidas por todos ali. Ironicamente isso me deixou satisfeito, pois eu estava ali justamente para escrever um artigo sobre o espalhafatoso trânsito. Ao sair da rodoviária me deparei com um simpático senhor que trajava uma boina cinza e carregava uma pasta de desenhos. Eu com meus vinte e poucos anos não conseguia emanar tanta vida como aquela alma conseguia transbordar. Uma estranha curiosidade se encheu em mim e resolvi perguntar as horas ou mesmo alguma informação qualquer só para poder verificar do que se tratavam as figuras ilustradas em questão. E bem, o senhor se mostrou bastante acessível e carismático. Informou-me as horas, iniciou uma conversa trivial e logo me contou sobre as aulas de desenho que estava tomando e me mostrou quase todos os seus trabalhos que abrangiam em sua maioria objetos e cenários bucólicos. A grande dificuldade dele se mostrava em ilustras rostos humanos. Aqueles punhados de figuras coloridas e monocromáticas me deixaram muito feliz repentinamente. Lembrei-me de outrora quando o primo de minha namorada (que por sinal nunca se mostrava com essas minhas viagens a trabalho) dava aulas de desenho e os expunha em festivais musicais. Isso bem antes dele se formar em Artes Visuais e embarcar para a França. O senhor, que por sinal se chamava Erasmo me contou que era formado em História e que mastigou também alguns anos do curso de Filosofia, mas sem se formar. Acrescentou que aos oitenta e seis anos sua vida apenas começava e que independente do que eu fazia Deus me ajudaria no meu destino. E claro que não existe mais em mim essa crença em Deus com a mesma força que em tempos anteriores, mas mesmo assim agradeci as palavras e lhe desejei o mesmo. Fantástico como essa cidade feia carregava almas tão curiosas e expressáveis. Erasmo aproveitou da ocasião e se pos a desenhar um pássaro e reparei que ele não tinha muita destreza em segurar o lápis com a mão esquerda e antes mesmo que eu perguntasse me contou que estava trabalhando o lado esquerdo do corpo e que na sua juventude o pessoal dizia que quem nascia canhoto era ignorado por Deus. Incrível como na mesma proporção que a fé diminuía absurdos de coisas mundanas ela também os aumentava. Contei para ele que eu sofria o “mal” de ser canhoto e contei também minha curiosa história das aulas de violão que tive como destro e sobre como tive que inverter as cordas e o lado do violão para também me oficializar como canhoto musicalmente. Jimi Hendrix, Tony Iommy e recentemente meu último herói Kurt Cobain também eram canhotos e eu não conseguia me orgulhar muito dessa situação, já que só encarecia e reduzia a possibilidade de encontrar instrumentos musicais para canhotos. Às vezes me perguntou se alguém já ouviu falar em algum piano para canhotos? Mas de fato eu conseguia me enxergar naquele senhor e parecia também que ele sentia o mesmo em mim. Como se estivéssemos naqueles filmes de ficção cientifica da década de oitenta em que as pessoas se personificam em nós através de maquinas do tempo ou buracos de minhoca. De súbito o senhor se despediu apressadamente de mim e entrou em um ônibus de transporte público. Não entendi a pressa dele, mas minha admiração por idosos era tanta que eu achava injusto poucos privilégios como filas especiais ou transporte público gratuito. Eles merecem muito mais do que isso e, aliás, esse é futuro esperado para todos que são jovens agora. Reparei que sua pasta de desenhos tinha sido esquecida no banco da praça e que eu agora me sentia extraordinariamente destinado a entregá-la para ele. Informei-me sobre a linha em que o senhor tomou e sobre os bairros em que o ônibus percorria em seu trajeto. Com as poucas informações já obtidas declarei meu infortúnio que se daria ao perceber que eu não saberia sequer por onde começar e que eu não sabia ao certo para onde ele estaria indo. Encontrei um catálogo telefônico na rodoviária e procurei por todos os Erasmos da cidade. Dos cinco listados nenhum era ele. Minha busca se daria de forma exasperada agora. Pensei em pegar o primeiro ônibus que viesse e ir a alguns pontos referenciais do itinerário que me foi informado, mas não me parecia uma idéia sã e nem de longe sensata. Quase desisti da idéia, me dirigi a padaria mais próxima e fui me alimentar. A cidade tinha um delicioso refrigerante com nome indígena e durante meu lanche me veio a idéia de verificar o que havia na pasta. Além de dezenas de desenhos que já tinha visto havia também alguns poemas com uma marcante e perceptível influencia simbolista. Fiquei fascinado com alguns deles e inclusive entremeio aos papéis encontrei o cartão de visitas da escola de desenho onde o senhor estava matriculado e de imediato soube que eu o encontraria no local.
Antes que eu fosse até lá resolvi me hospedar em um dos hotéis que cercavam a rodoviária. Curiosamente todos tinham letreiros luminosos e seus aspectos deploráveis me remetiam a motéis baratos de Los Angeles. Não que eu já tivesse ido para L.A., mas o cinema os retrata bem assim. Quase todos eles tinham nomes de mulheres o que engrandecia ainda mais o iminente estereotipo de espelunca. Escolhi o hotel com a fachada menos velha e com o nome feminino menos grosseiro e me hospedei naquela mesma tarde nublada. Minha primeira exigência no Hotel Lucíola foi que me colocassem em um quarto com muitas janelas e sem ar condicionado. A segunda logo foi que me emprestassem o catálogo telefônico. Obviamente o deles estava desatualizado e faltando diversas páginas toscamente arrancadas, mas felizmente na minha consulta percebi que a escola de desenho ficava a poucas quadras dali e que seria muito fácil encontra-la. Decidi-me por ir até lá na manhã seguinte para a devolução dos desenhos. Sem me esquecer é claro, que eu me encontrava na cidade para escrever sobre as calamidades que estavam acontecendo nas reformas do transito e sobre o confuso e desrespeitoso tráfego. Deixei minha mala em cima da velha mesa que havia no flat. Fora isso os únicos móveis que haviam por ali eram a cama e a estante improvisada para o televisor. Durante o resto da tarde fiz algumas anotações sobre os semáforos furados, calçadas sem acessibilidade para deficientes, ultrapassagens perigosas e limites de velocidades excedidas que eu já havia presenciado durante minhas poucas horas na cidade. Ao dormir deixei a TV ligada e uma das duas janelas entreabertas. É natural que eu só consiga pegar no sono com alguma coisa me deixando sempre alerta, não suporto silêncios absolutos.
Na manhã seguinte tomei café na mesma padaria e o saboroso pão de queijo era ainda melhor recém saído do forno. Dessa vez deixei o refrigerante local de lado e me deliciei com um café expresso com bastante açúcar. De lá mesmo me dirigi até a escola de desenhos. Pensei na possibilidade de alugar um carro, mas a urgência por encontrar Erasmo e os ares de interior daquela cidade me deixava instigado a caminhar e desbravar tudo o que fosse possível por ali. Sempre adorei essa sensação de reconhecer território. Quatro quarteirões depois e lá estava eu de frente a escola de desenho, que por sua vez era um duplex azulado e sem dúvida era mais bem tratada do que a rodoviária, a lagoa e claro, todos os hotéis sujos que havia me deparado ontem. Para minha surpresa ou mesmo sorte o próprio senhor Erasmo já se encontrava na recepção conversando veemente com a secretaria. Sua leve expressão de desolação deu lugar a um largo sorriso ao me ver e ele logo me perguntou se a nossa conversa havia me deixado interessado nas aulas de desenho. Respondi que não, mas logo em seguida voltei atrás e disse que sim e que até tinha trago uns desenhos meus para mostrar na escola para ver se eu mostrava alguma vocação. Outro sorriso se abriu e o senhor Erasmo mal reparou que o que eu segurava era sua própria pasta de desenhos. Ao notar que se tratava de seus desenhos ficou um pouco surpreso e frustrado e me agradeceu dizendo que ele tinha o estranho hábito de fingir que esquecia seus desenhos para presentear pessoas especiais que conhecesse por aí. Especialmente turistas recém-chegados. Disse que fez isso durante sua vida toda e que durante todo esse tempo eu havia sido a primeira pessoa que o procurou para devolvê-los. Fiquei extasiado com aquela história e perguntei se ele não se preocupava em perder todas as artes e poemas. Ele me respondeu astutamente que não possuía mais parentes e nem herdeiros para serem presenteados e que se livrando de seu legado se via sempre obrigado a recomeçar e produzir cada vez mais e com isso iria sempre se aperfeiçoar. Senti-me comovido com aquela lição e o abracei vigorosamente. Ele notou as lágrimas que estavam se formando em meus olhos e disse para que eu fosse embora e que levasse tudo comigo. Ele insistia por isso. Além de tudo, ressaltou ainda a importância de não se apegar muito a coisas materiais e de sempre aproveitar cada situação como uma maneira de se engrandecer como pessoa. Agradeci por tudo e sai da escola sem olhar para trás. Que se dane esse trânsito patético. Um grande artigo ou crônica sobre um artista itinerante estava prestes a ser redigido por mim!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Os Saqueadores de Valas Comuns - Caio Machado

Para Moniza Borges

Indigentes, assassinos em vida, esquecidos ou mesmo abandonados por famílias que sequer ousaram reclamar seus corpos. Restos mortais emaranhados de terra, numa iminente escavação feita com bastante escárnio e descaso. Homúnculos agora frios e moribundos que jazeriam em esquecimento para sempre. Por que agora resolveriam desrespeita-los e saqueá-los? Ou mesmo por que não considerar essa forma de “vandalismo” como uma maneira de punição pela vida imprópria que eles levaram um dia? Desenterrados de maneira tosca e urgente, várias valas comuns estavam sendo violadas e saqueadas semanalmente naquele desolado cemitério e nenhum coveiro, funcionário ou entidade responsável do local conseguia explicar tamanha irracionalidade. Décadas e gerações mesmo que desconhecidas, sofrendo uma severa desconsideração. A ausência de lápides e caixões somados a rasa profundidade daquelas grosseiras covas ajudariam a facilitar o atentado à paz daqueles corpos agora totalmente desmantelados, como se ainda já não bastassem estarem todos desalmados. Não que algum dia eles tivessem tido paz uma vez em vida, mas o desrespeito por aqueles vis cadáveres começava a crescer. O maior agravante daquela questão se dava por ninguém se preocupar com todos aqueles desconhecidos, porque obviamente não haveria a quem todos aqueles desconhecidos recorrerem, mas o conflito não poderia passar em branco já que ele começava a incomodar a outra parte do cemitério que por sua vez era diariamente visitado e agora tinha suas vias subterrâneas sangrando devido a essa bizarra depredação.
Famílias mais prestigiadas, honradas ou mesmo mais freqüentadoras do insalubre parque de jazigos resolveram investigar por si próprias o que estava causando todo esse tumulto mórbido. Pais, irmãos e até primos distantes se puseram de guarda em turnos diurnos por todo o cemitério. O tumulto foi tanto que ao passo dos primeiros dias de vigília, os saques logo pararam de ocorrer de forma súbita e silenciosa, de maneira que nada foi descoberto, ocasionando na desistência das mesmas pessoas que iniciaram as inquirições. Fato esse que não evitou que em poucos meses mais valas voltassem a ser violadas e que dessa vez as sobras das ossadas saqueadas fossem espalhadas por todo o local, com isso um odor visceral putrefato passou a preencher todo aquele parque de almas perdidas, que em sua maioria das vezes é inodoro, tirando claro, o odor das flores deixadas diariamente nos túmulos e todo o aroma bucólico do extenso e melancólico gramado do cemitério. Não tardou que medidas radicais fossem novamente tomadas e agora as famílias alheias mesmo assustadas, se organizaram para que pernoitassem no local. Dessa vez turnos mais longos e discretos foram necessários para que depois de dois meses de zelo a matilha faminta de cães retornasse de madrugada ao local e que fossem enfim descobertos. As famílias desconformadas não acreditaram ao ver que não passavam apenas de cães decadentes, que de uma maneira um tanto quanto inusitada estavam apenas buscando uma maneira de sobreviver. A fome agora latejava no estomago daqueles cães que antes evitavam o local devido a toda aquela agitação e mesmo agora com aquela guarda armada os mesmos não se privaram de se revelarem e se postarem a cavar mais uma das diversas covas espalhadas. Como se as almas daqueles vis cadáveres estivessem agora apossadas dos corpos dos seus próprios violadores. Dezenas de caninos imundos e esqueléticos, submetidos a roerem ossos humanos em busca de uma sustentação alimentar, evitando que se juntem ao estado atual de suas refeições.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sonho Oriental - Caio Machado

Para Mariana Takagui e Nádia Lúcia

O corte era imenso e profundo, abrangendo a região entre as axilas e a cintura. Se fosse um pouco mais estreito se assemelharia ao Z que o Zorro deixa em suas vítimas, mas nem de longe o anti-herói conseguiria um feito tão preciso daquela maneira. A vítima era uma mulher de aproximadamente trinta e cinco anos, pesando sessenta e oito quilos, de feições indígenas e que trabalhava como atendente em uma biblioteca da universidade federal da cidade. Não possuía antecedentes criminais, levava uma vida normal e tranqüila em um casamento que já durava quase seis anos. Ainda não tinha filhos e planejava conhecer a Bélgica no próximo semestre. Seu marido era um cozinheiro muito renomado e respeitado. Um homem com uma estatura alta e deveria estar, senão obeso, com sobrepeso. Encontrava-se aflito em suas lágrimas e repetia incansavelmente sobre as tão sonhadas férias na Bélgica, que por sinal nunca mais ocorreriam. O corpo foi encontrado por ele ao chegar a sua casa após um árduo expediente. O corpo dela estava estirado no sofá, curiosamente deveria estar mais ensangüentado e aos seus pés se encontrava a edição da revista Caras daquela semana. O legista não conseguiu identificar que tipo de arma ou objeto fez o corte em seu abdome, que por sua vez seria algo extremamente cortante já que até os ossos da costela também foram serrados. Descartaram a possibilidade do uso de um bisturi ou qualquer objeto cortante de origem médica. As devidas investigações começaram, mas era visível que o caso seria arquivado pois não haviam mais suspeitos além de seu próprio marido.
Não bastaram três dias para que encontrassem na saída sul da cidade, outra vítima com o mesmo tipo de corte e tamanha fatalidade. O infeliz dessa vez era um rapaz de vinte e dois anos que residia na cidade a estudos e que entregava sanduíches para uma lanchonete nos finais de semana. Alias o assassinato aconteceu durante seu expediente, após o rapaz ser chamado para uma entrega, que de maneira extremamente amadora não foi anotada pela secretaria da lanchonete, sendo apenas repassada verbalmente. A moça certamente seria demitida e a lanchonete também sofreria uma visita da vigilância sanitária que provavelmente fecharia o estabelecimento por tamanho descaso e falta de higiene. O lugar estava entregue as moscas, mas mesmo assim mantinha uma boa clientela e após vários interrogatórios ninguém encontrou nenhuma pista ou prova contra o estudante de Artes Cênicas que ainda mal tinha feito amizades na cidade. A secretaria foi tida como possível cúmplice, mas novamente pela falta de pistas o inspetor da polícia se via obrigado a esperar por um próximo assassinato, já que não conseguia se encontrar relações entre os dois assassinatos e tampouco algum fundamento para eles.
Nas duas semanas seguintes nada ocorreu e a polícia já se via obrigada a engavetar os dois assassinatos, uma vez em que não ocorriam mais avanços nas investigações e que o triste fato de os dois crimes não possuírem testemunhas só empacava todo o processo. A ansiedade dos investigadores só foi cessada após o único jornaleiro daquela pequena cidade, ser encontrado assassinado numa fria manhã e que de maneira bem grotesca o orvalho tenha coagulado seu sangue sobre o corte criando umas bolhas de sangue extremamente repugnantes. Dessa vez bem mais preciso do que antes. O assassino era tão profissional que nunca deixava impressões digitais ou pegadas e parecia que as vítimas nem se dariam conta de suas iminentes mortes. Assim como as vítimas anteriores o jornaleiro também levava uma vida tranqüila de viúvo e mantinha a banda de revistas no Parque Central só para dar uma engordada financeira na sua aposentadoria e para ajudar no financiamento de sua ONG a favor de pássaros silvestres em extinção. Já não dava mais para entender se o assassino serial fazia isso de maneira pessoal ou de maneira aleatória, pois nunca existia uma correlação entre os fatos e os legistas continuavam sem entender a origem dos cortes letais.
Um fato curioso se deu um dia depois, quando um rapaz foi contratado para afixar um cartaz de outdoor na Praça dos Coronéis. Possivelmente o mesmo assassino das vítimas anteriores tentou açoitá-lo com a misteriosa faca, mas errou porque o rapaz percebeu a presença do assassino no outdoor e se jogou da escada se esquivando do golpe letal. O assassino frustrado e desesperado saltou do outdoor e pôs-se a correr de maneira lenta e desengonçada. O rapaz o perseguiu, mas a dor nas costas causada pelo tombo o fez delirar de dor e ele desistiu de alcançá-lo. Após registrar a queixa do crime o rapaz foi encaminhado para a clínica geral e infelizmente acabou com uma costela quebrada. Pelo menos ele estava vivo e o ocorrido serviu para que uma descrição detalhada do assassino fosse feita e o detetive já interado do assunto não tinha mais dúvidas de quem seria o assassino.
Quatro policiais armados acompanhavam o detetive e ao chegarem à casa do cozinheiro tiveram o desprazer de encontrarem o próprio degolado na cama onde ele dormia com sua falecida esposa. Em sua mão esquerda havia uma carta de despedida e na mão direita estava a estranha faca que por sinal quase arrancara sua cabeça. Para a surpresa de todos não passava de uma faca japonesa Deba Botyo que havia chegado para sua esposa junto com a coleção Sonho Oriental da Revista Caras no dia do seu assassinato. E se ainda associarmos o jornaleiro e o rapaz que fixava um anúncio da mesma revista no outdoor entenderíamos que o cozinheiro não morria de amores pela revista. Tamanha foi a sorte do rapaz que afixava o anúncio da Caras, pois o mesmo não havia tido conhecimento da morte do jornaleiro e não faria mais sentido divulgar a revista, já que não haveria mais outra banca de revistas para vender a revista na cidade. Mas onde é que a esposa do cozinheiro e o entregador de sanduíches entrariam nessa história? A carta de despedida esclarecia tudo. A primeira pessoa que o estudante conheceu foi a mulher do cozinheiro, que de maneira extremamente simpática o orientou para que conseguisse chegar ao prédio de seu curso na faculdade. A partir desse dia o contato dos dois passou a ser freqüente e logo se constatou um affair entre os dois. O cozinheiro notou certa distância de sua esposa e após segui-la descobriu o ocorrido. Enciumado acabou liquidando-a e como a faca japonesa escolhida como arma por puro acaso se tornou tão eficaz e irreconhecível resolveu matar o entregador também a usando. Seu único descuido foi tentar limpar as possíveis pistas assassinando a todos que divulgavam a revista pela cidade. Acabou custando-lhe a própria vida, mas rendeu um artigo policial nunca publicado antes em uma edição da Revista Caras e o encerramento e suspensão da coleção Sonho Oriental.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Inspiração - Uma mistura afrodisíaca, intrigante e insone... - Maele Finger

...Certamente com efeitos colaterais.
Uma madrugada bem habitual. Na calada da noite atravessando ruas, éramos muitos e caminhávamos para um encontro, uma infinidade de pessoas semi-nuas, subindo ao topo do mesmo morro. Completamente cativados, absorvidos pelo encanto das duas luas. Só o que não havia era sossego, tudo o que aquela gente não queria. Queriam movimento, ação, e eu desejando a calmaria. De súbito desperto do sonho, já em pé, suspiro ao lado da cama desarrumada, era a pura matemática do sono mais uma vez não resolvida.
Era a rotina do sono, dando trégua ao indesejável e absoluto mundo da insônia. Um lugar cheio de lilás e nuvens, de aroma levemente adocicado, que nessa sinestesia suave faz salivar ligeiramente. A saliva que antecede a sede, a sede pelo desconhecido, a curiosidade e inquietação vem trazendo aquela vontade de abrir uma porta que não existe, mas que ao mesmo tempo está sempre ali, esperando que você faça a si o desafio.
Na intimidade do ser, por instantes aguçam-se os sentidos. E o que por pré-conceito é indesejável, logo torna-se uma situação mágica e e­­­­m relação a todas as noites subseqüentes, única, estimulante e insubstituível.
Uma situação da qual deve-se aproveitar e sugar o que mais se puder descobrir de interessante. O fascínio da noite, e sedução característica das madrugadas de insônia, que por inumeráveis que possam ser, são intransferíveis em sua individualidade. A partir disso a questão é de escolha, provar da intensidade é por conta e risco – aceitar ou não o prazer da inspiração.
Deliciar-se nessa sensação, com as luzes apagadas, para não atrair atenção, raros são os momentos em que ela vem a tona, mas quando vem, com ímpeto me toma, cabe a mim aproveitar. No escuro, folhas de papel em branco, iluminadas pela brasa de um cigarro mentolado, tomo certo cuidado para não ateá-las fogo.
As linhas se tornam borradas pela fumaça, minha escrita se embaraça, tenho minhas dúvidas sobre às conseguir decifrar amanhã. Entre tossidelas e pigarro alheio, tento prestar atenção ao silêncio, sapatos de salto tocam o chão, não há quietude bastante para a minha inquietação. Mas nesses momentos de liberdade e solidão, os poucos minutos que sempre me restam, até hoje nunca foram em vão.
Um fugitivo ansiosamente procurado, em geladeiras, em cigarros, num copo de leite morno, num calmante, ou em filmes com temáticas chatas o suficiente para lhe projetar tão logo de volta à cama, sem defesas, rendido,no lugar onde deveria estar.
Se a estratégia do tédio não funcionar, cabe tentar algo mais ousado, desafio para os experientes, consiste em experimentar algo excitante o bastante para esquecer-se do estado de insônia. Normalmente tento a segunda opção - movo-me até a sacada, sento-me em uma cadeira de praia qualquer e no escuro permaneço, com uma xícara de vidro generosa, chá quente de capim-limão.
As linhas já não estão tão escuras mais. Meus olhos acostumados à pouca luz, já não precisam da brasa dos meus cigarros. Foi em vão o cuidado para não deixar-me notar, percebo que alguém me observa, um vizinho ao lado numa infeliz curiosidade, e pelo jeito não vai parar. Tenta esconder-se atrás de seus cigarros, arruinando meu momento íntimo e raro. Entre a folha de papel e a caneta, um vácuo já tratou de se criar. O turbilhão de idéias e pensamentos que mal começara, estava prestes a esvair-se das minhas mãos. Mal sabe ele como o odeio, por afugentar meu raro sopro de inspiração.
Como se não bastasse a presença humana para afastá-la, o sereno frio começa a arrepiar-me os pêlos finos dos braços, e a fagulha de inspiração se apaga sem deixar fumaça. Vou-me embora daqui, entregar-me ao mundo dos sonhos, ao tão sonhado sono, e ai de mim que desafio o sol, que impiedoso e pontual logo virá carregando o dia.
Um barulho estridente me assusta, a caneta rola até um par de pés frios, prendendo-se a minhas solas branquelas, que logo estariam molhadas pelo chá quente de capim limão. A xícara de vidro vai ao chão, os estilhaços rompem a pele no momento do atrito. A pele que era branquela agora parece avermelhada e ferida, a insônia que era só minha, agora estava dividida.
Uma ladra de noites, embriagada de inquietação. Como se não me bastasse engolir o próprio sono, bebo goles generosos do sono alheio sem querer. Noites de sono que talvez já haviam se perdido, como o meu, a uma porção de horas atrás.
A luz da lua refletia-se nos estilhaços, paro por aqui com minhas letrinhas feias de tinta azul em itálico. A cama desfeita nunca me pareceu tão convidativa, um ser humano vivendo ao contrário, e lá fora nascia mais um dia, atribulado enquanto eu dormia. A sedução da madrugada, o fascínio da meia luz, ou algo desconhecido que atraí para o nada. O nada em que encontro tudo, o tudo de um mundo que ninguém mais vê, mas traduzido através das minhas linhas se pode sentir pelo que se lê.
E os efeitos colaterais? Já dizia um velho amigo, que a inquietude é a essência da obra-prima...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Gaúcha Chimarrão - Henrique Donancio

Era noite de carnaval. Corria sobre as feições de meu rosto um vento frio, vindos das correntes de ar das águas geladas do Atlântico. As ruas estavam demasiadamente iluminadas, com pisca-pisca de cores alegres. Havia muita gente se dirigindo para a avenida principal do balneário, onde todos festejavam. Ainda me adaptava a um novo estilo de vida, fazia amigos, deixava alastrar os primeiros nódulos de minhas raízes num lugar até então desconhecido. A blusa de frio condenava tudo isso. Era um dos poucos agasalhados, não que o tempo estivesse gelado, pelo contrário, estava agradável, o vento era o que me causava certo incomodo. Estudava todos aqueles rostos novos, com a esperança de reconhecer algum, mas era inútil, a mais de dois mil quilômetros de casa ninguém me era familiar. Zombava dos hábitos estranhos daquela gente com alguns amigos que também compartilhavam do mesmo sentimento, quando um grupo de garotas parou por detrás de nós três (não que tivesse reparado a princípio) e então uma delas, que trazia preso a cabeça uma bandana cor de rosa desapegou do grupo, e correndo enquanto dava lhe de costas veio em minha direção e deu me um tapa nas nádegas. Dei-lhe um olhar frustramente pouco exaltado, fitei para os que me acompanhavam, e todos me olhavam com a mesma expressão interrogativa talhada em seus rostos, então bati a mão no bolso de trás. A carteira! Minha carteira, que guardava algum dinheiro e todos os documentos essenciais para viver na vida socializada e burocrática do mundo moderno estava intacta.
- A carteira, sua carteira está ai?
- Está, ela está no meu bolso, me esperem aqui. E subitamente, e creio que até involuntariamente coloquei-me a correr atrás da garota.
Quando a avistei ela ria, provavelmente do seu feito, estava junto as mesmas pessoas que pararam por detrás de nós a pouco. Quando notaram que me aproximava alguém disse: “corre, corre”, ela arregalou os olhos, sorriu e pôs-se a correr dando gargalhadas.
Atalhava entre os corpos que andavam vagarosamente a olhar a festividade dos blocos carnavalescos. Tinha certo jeito de entrecortá-los, diferentemente de mim, que grotescamente os trombava com esbarrões. Apesar da sua agilidade, tinha pernas curtas e grossas, que pesaram na sua fuga, tanto que não tardou muito para os meus passos espaçados a alcançassem. Agarrei a pela braço e voltando a para mim disse:
- Me solte, me solte! Quem és tu para me agarrar assim!
Soltei-a pois suas palavras me fizeram por um curto espaço de tempo pensar que eu estivesse a agarrando, como um bêbado pegajoso que flerta, se é que pode assim ser considerado, pelas forças de suas mãos e pela insistência de trazer a mulher desejada por força bruta.
- Você é louca! Dá-me um tapa e quer que fique por assim mesmo?
Ela riu e então disse: -Então não gostastes de tapas?!. Sua vulgaridade começava desabrochar certo encanto em mim, pelo sorriso, pelo jeito atrevido de falar, me fitava com olhos reluzentes. Um olhar infantil dentro de uma mulher promíscua.
- É, não sei, enfim, acho que me equivoquei, ando bastante perturbado.
-Perturbado?! Em pleno carnaval? Bah, vamos lá! Tenho certeza que não és daqui, nunca o vi antes, e o modo como tu fala és estranho.
- Certamente, vim de Minas, e ainda estou me adaptando.
- Tu te adaptas fácil guri, fácil!
O grupo de amigas nos alcançou, mas perceberam que a situação já não tinha um clima hostil. Ela apalpava meu rosto delicadamente, quando então me convidou para beber algo.
Os bares da cidade vendiam poucas bebidas das quais gostava. Tinha certa preferência pela cerveja da garrafa verde, mas a última tinha sido vendida a pouco, argumentou a garçonete. Peguei uma garrafa longneck de Stela Artois, quando a menina voltou do grupo de amigos trazendo uma cuia transbordando mate.
Aquilo era para mim como um chá (adianto já que realmente se tratava de uma espécie), e jovens como nós, em minha terra não andam bebendo chás pelas ruas, aliás, se quer bebem. Então zombei:
- Se andasse com isso por onde eu moro, pensariam que estava bebendo maconha.
Ela riu da minha grosseria. De fato tal pensamento tinha certa hilaridade.
- Nunca bebestes chimarrão antes?
- Não, não vendem disso na minha região, e bem, o aspecto não é dos melhores.
- É, entendo, não é tão bom assim, mas é que se acostuma, então acabando viciando. Prove deste.
Quando estendeu a bomba rumo a minha boca retribui com repugnância, quando levantei os olhos e os pousei sobre seu rosto cedi, desci afim de encontrar a extremidade do canudo quando o tirou a do meu rumo e me deu um beijo. Era um beijo quente, e tinha o frescor de erva.
Sobre a garota dessa noite, bem, nunca mais a vi. Trocamos contato naquela noite, telefone, redes sociais... Mas creio que ela também não teve disposição para correr atrás de algo tão repentino e fugaz. Quanto a mim, todas as noites antes de sair, tomo uma cuia de mate para disseminar o beijo da gaúcha chimarrão.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Éden ao Avesso - Caio Machado

Aquele lugar se assemelhava a um jogo que eu costumava jogar no Playstation na época da faculdade. Havia construções nada convencionais e muita névoa e nuvens acinzentadas ou esverdeadas para todos os lados. Eu me sentia literalmente em uma fase de Silent Hill, com o adendo de que tudo também me lembrava um enorme celeiro. Várias pessoas caminhavam pelo lugar, cada qual caracterizada de maneira diferente, me parecia um grande carnaval de zumbis, mas de maneira alguma aquilo se mostrava assustador. Meu pai foi a primeira pessoa que eu reconheci naquela multidão toda.
- Pai, eu não me lembro de como foi que te encontrei por aqui, alias não me lembro de muita coisa, a última coisa de que me recordo foi de vê-lo no altar... Alias, por que você agora está tão jovem e que roupas descoladas são essas? Qual o motivo de todo esse bucolismo em forma de nuvens...
- Filho – ele disse isso numa voz tão suave que eu quase não a reconheci - Nós morremos no dia do seu casamento, na verdade eu faleci algumas horas antes de você, sofri meu segundo AVC a caminho do altar e você já tomado pela ansiedade do matrimônio enfartou ao saber que eu havia morrido durante a cerimônia. Curiosamente logo que cheguei, encontrei as pessoas certas para me guiarem por aqui e logo entendi tudo que se passava nesse lugar indubitavelmente esplêndido! Este é o paraíso e esse nome nunca fez tanto jus ao seu significado. As coisas por aqui não funcionam da maneira convencional e nem tudo é politicamente correto da forma que imaginávamos, mas é isso que o torna literalmente um paraíso! O melhor de tudo é que aqui é tudo totalmente personalizável, você escolhe o que quer ser e o que quer ver, estou me perguntando nesse momento por que eu não tinha morrido antes?! Você está pálido e um pouco assustado, mas ainda vai se acostumar com a idéia...
- O que?! Eu estou morto? E o senhor também? E por que eu não me chateei com isso ainda? Isso é um sonho...?
- Sim, estamos mortos e pra piorar você ainda largou a Cecília no altar! Quem diria que isso soaria tão trágico assim!
As coisas começaram a se clarear, o local ia se tornando mais agradável de maneira involuntária e o ar agora parecia até estar menos rarefeito. Na medida em que caminhávamos meu pai ia me explicando sobre o funcionamento do paraíso e por todo o caminho nos deparávamos com pessoas e situações no mínimo curiosas. Chegamos em frente de um gigantesco edifício cinzento, onde nem com grande esforço se conseguia avistar seu topo e por mais estranho que isso fosse ele ainda possuía uma estética totalmente celestial e moderna ao mesmo tempo.
- É aqui que praticamente todo mundo vive, os andares e apartamentos são renováveis na mesma proporção em que novas almas aparecem por aqui. Dá pra acreditar que o Lênin agora divide seu apartamento com ninguém menos do que Hitler? Ou que o Syd Barrett e o Richard Wright aguardam ansiosos que os outros três membros do Pink Floyd morram para eles celebrarem no salão de eventos um show de reunião que nunca aconteceria na Terra. É muito fácil presenciar essas estranhas questões de orgulho que esses porcos nunca teriam coragem de admitir ou fazer em vida! Por mais estranho que pareça nem o Renato Russo e nem o Jim Morrison morreram, dizem que o dois abriram um cassino na Tailândia... Tanta coisa bizarra acontece por aqui e eu ainda fico me perguntando por onde andam as pessoas humildes e sofredoras que sequer tiveram tempo em vida para se entregarem aos prazeres do pecado... Só mesmo essa corja vem parar aqui!
- Ei! Aquele ali não é o Dom Pedro II indo esquiar?
- É sobre isso que me referi agora! Quem encarava a vida como uma grande injustiça e preferia viver de maneira justa e honesta não entendia que essa era a pior maneira de se viver. Levando-se em conta claro, que as pessoas que estavam em destaque ou mesmo em posições de poder jamais agiriam de maneira honesta para alcançarem tais posições! Não é fácil discernir essas coisas em vida, ninguém imagina que dor e sofrimento alheio alimentem forças para se chegar até aqui. Acredito eu que o inferno seja uma grande fábrica de dor, onde as pessoas que já sofriam e eram passadas para trás acreditando estar fazendo o bem continuam assim e passarão o resto de seus dias sofrendo o triplo ou quádruplo de tudo até compreenderem que não agiam da maneira certa! Isso se essas pessoas não apenas sumiram e o inferno sequer exista também, uma vez em que não conheci ninguém aqui que se lembrasse ou referisse algo a respeito da existência do mesmo!
Já não dava para entender quase nada e por sinal eu teria apenas duas escolhas: ou eu passaria o resto de minha existência tentando compreender tudo ou eu apenas me conformaria com o fato e desfrutaria de tudo o que tenho direito por aqui! Essa última opção com certeza tem sido a mais preferida por quem já habita esse lugar, inclusive meu próprio pai já era adepto da mesma... Dirigimos-nos até o grande lobby do edifício e nos sentamos em um confortável sofá.
- E sobre Jesus? Eu gostaria muito de conhecê-lo, com certeza muita coisa nos seria esclarecida!
- Você já o conheceu...
- Já? Eu não lembro em qual ocasião!
- Ah, lembra sim, ninguém se esquece! Lembra-se de quando você era apenas um garoto e após a saída da aula esperava o ônibus para casa junto de seus amigos e um cara te perguntou de maneira nada inteligível sobre como chegar até um determinado lugar? Você de maneira impaciente o rejeitou apenas julgando o aspecto deplorável ao qual ele se encontrava, se lembra? Seus amigos acharam aquilo um grande barato, mas na verdade aquele era Jesus e você desperdiçou sua provável única chance de se dar bem com ele... Olha, é muita sorte que você tenha conseguido parar aqui! Ele quase nunca aparece por aqui e ninguém sabe a forma real dele, pois ele está sempre a mudando. Ele não é parecido com o John Frusciante que nem nos filmes, alias esse guitarrista já esteve bem perto de morrer e com certeza o destino dele não seria aqui... Voltando ao assunto, Hollywood tem essa mania de distorcer as coisas, aquele lance de olhos verdes, cabelos longos e barba... De fato a gente nunca vai saber bem quando encontrá-lo...
- Você só pode estar brincando né? Pai e se...
- Eu queria, mas não estou. Por sorte você agiu como um verdadeiro político corrupto celestial, sé é que podemos colocar isso dessa maneira, mas as coisas funcionam mais ou menos assim por aqui. Às vezes a proporção de hipocrisia encontrada aqui é ainda maior do que lá em baixo. A maioria de quem se encontra por aqui foram uns grandes merdas em vida, mas bajularam e blasfemaram tanto o nosso Senhor que acabaram vindos pra cá... O Cara gosta muito de uma bajulação pra enriquecer o ego onisciente dele... É muito fácil subornar Deus, você mesmo era muito bom nisso. Vivia rezando e colaborando na igreja, isso quando vez ou outra não estava trabalhando com seus projetinhos ecológicos ou mesmo ajudando instituições que tratam de deficientes físicos. Aquele bando de miseráveis asquerosos...
- Pai, se bem me lembro estamos no paraíso...! Vê se controla esse seu vocabulário!
- Depois que já estamos aqui não acontece mais nada, não haverá um segundo julgamento no purgatório ou algo que o valha, estamos livres para falarmos e fazermos o que quisermos por aqui! Ninguém sabe, mas as coisas por aqui são bem diferentes do que imaginávamos quando estávamos vivos... Há de se entender porque há mais homens solteiros do que casados por aqui? Casamento enlouquece a qualquer um! Boa parte das mulheres que vem parar aqui foram assassinadas por seus maridos tomados pelo seu ciúme doentio que elas lhe causavam e elas não precisavam nem estar necessariamente erradas. Aquela falsa sensação de que o casamento é como se fosse uma propriedade adquirida ou de que você ter que pensar por duas cabeças tira qualquer um do sério! Aposto que você só está aqui porque não chegou a se casar. Adultério, ataque de nervos e essas coisas são menos eventuais e destrutivas do que a angústia e a depressão que ocasionalmente atacam as pessoas mais solitárias, falando nisso, venha comigo. Vamos procurar umas garotas!
No fundo do edifício havia pelo menos umas trinta piscinas repletas das mais diversas pessoas e todo mundo por ali não parecia se importar com nada. Não existia racismo e nem preconceito e as pessoas aparentavam ser incrívelmente liberais. Uma grande orgia ocorria nas piscinas e aquilo nada feria o pudor de ninguém e sequer aparentavam incomodados ou afetados.
- Audous Huxley foi à única pessoa além de Jesus Cristo que teve a oportunidade de ressuscitar. Não é de se estranhar que tudo por aqui seja que nem em seu romance Admirável Mundo Novo. De maneira subliminar ou mesmo apocalíptica ele nos contou sobre como as coisas acontecem livres e descompromissadas por aqui e mesmo sabendo que ele seria castigado por isso, não se importou com as consequências. Tudo que ele buscava era um certo reconhecimento na história e sua única exigência por aqui foi que ele fosse exilado em uma ilha, assim como também ocorre com os personagens questionadores no livro. Quem acreditava que não se podia vender a alma para Deus estava completamente enganado... Também não dá pra se duvidar completamente da venda de indulgencias que ocorria na idade média ou de coisas semelhantes que víamos constantemente por aí... Filho? FILHO, O QUE ESTÁ ACONTECENDO?
De maneira rápida e inexplicada o edifício começou a desmoronar e um grande clarão invadiu todo o lugar. As pessoas desesperadas corriam feito formigas tontas e enquanto algumas delas explodiam, outras apenas desapareciam. Parecia que eu agora estava a ponto de conhecer o inferno também. Meu pai se transformava em um enorme gigante e parecia que eu e ele iríamos logo explodir também...!
(...)
- Querido, você estava cochilando?
- Eu? Ahn? Não, não! Só estou um pouco anestesiado com a emoção de estar aqui!
- Aceita Cecília como sua legítima esposa prometendo amá-la e respeitá-la, na saúde..?
O Padre por sinal já repetia a mesma pergunta feita durante meu leve cochilo. Os olhos de Cecília brilhavam muito e davam a impressão de que lágrimas poderiam saltar deles a qualquer instante, seu vestido acentuava suas curvas e a deixava estúpidamente esplêndida. Meu velho agora me fitava com aquele olhar de negação que ele sempre emitia, ato contínuo piscou seu olho direito para mim soltando assim uma gostosa gargalhada que ecoou pela catedral. Eu já não tinha mais escolha...
- Sim, aceito!