quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Luas Negras - Paulo Cesar Corrêa

Noite 1
    Era uma daquelas noites em que não se podia enxergar nada; uma dessas bem escuras, caro leitor, em que a lua é nova e as estrelas insistem em não brilhar.
    A maioria das pessoas de Frutal tem medo de andar pelas ruas em noites assim. Mas eu não. Sinto uma necessidade de caminhar, pois são nesses momentos em que revelo quem realmente sou: um devaneador.
    Saio do meu cubículo quando todos voltam de seus trabalhos com a expectativa de encontrarem seus entes em casa, tomar uma ducha ou fazer qualquer besteira que lhes venha à cabeça. Ponho meu chapéu e sigo o caminho que faço todos os dias. Já moro nesta cidade há nove anos e não mantive relações de amizade com ninguém, mas começo a me preocupar com isso. Minha vida parece medíocre e os únicos diálogos que tive nesta última década foram com casas.
Sim, casas. Alguns anos atrás, uma delas me chamou a atenção na esquina da Avenida Cel. Delfino Nunes com uma ruela que agora não me recordo o nome. Estava toda pichada e me reclamava de como as pessoas eram más e sem juízo. Mês passado, quando passei por esse mesmo lugar, ela estava pintada de azul, com o portão branco.
    — Hoje estou feliz! — Exclamou.
    Não lembro o que respondi, mas deve ter sido algo como “Que bom!” e segui meu caminho.
   Ontem, outra casa, próxima à Biblioteca Municipal, disse-me que hoje começariam a reformá-la. Seriam dois quartos e uma suíte. Fariam também um jardim de inverno e, antes de despedir-me, convidou-me para tomar uma xícara de café quando a reforma estivesse finda.  
   Parece bobo, eu sei, talvez até estranho. Porém, para mim, isto é belo; e prefiro minha bela estranheza que a estranha beleza ditada por este mundo. Mas, não sou completamente antissocial. Todas as noites, durante minhas caminhadas, encontro sempre um senhor de braços dados à sua senhora. Cumprimento-os com um sorriso amigável, porque acho que é disso que as pessoas mais precisam na nossa época. Pelas minhas contas, daqui a cinco minutos passarei por eles. Existe certo conforto na previsibilidade e na rotina. Talvez todos sejamos um pouco Aspergers. 
   Ouço o vento chacoalhar as folhas das árvores e caminho assobiando, com as mãos nos bolsos. Devo parecer um vulto assustador para as pessoas que olham de dentro de suas casas para fora. Como disse, é noite de lua nova e tudo está escuro, pois a iluminação pública da cidade é precária.
    O casal de senhores passa por mim, como o previsto, e sorrio-lhes. Até este momento, tudo ocorria perfeitamente normal. Mas acho que as estrelas (que nesta noite pareciam estar adormecidas) tinham preparado algo novo para mim. O que você pensa quando falo “algo novo”, amigo leitor? Para mim, essa novidade está relacionada a moças, diante das quais sempre fui tímido e muitas vezes fiz papel de bobo.
   Ela estava sentada num dos bancos da Praça Presidente Vargas ― que eu costumava chamar de praça do capeta ―, enquanto eu seguia meu rumo de volta para casa. Como de costume, passei por ela sem prestar muita atenção, até ouvi-la falando comigo.
    — São muito tristes as noites em que a lua não é cheia, não acha, senhor?
    Fui pego de surpresa. Nunca nenhuma moça havia puxado assunto comigo e admito que, dentro de mim, meu coração sorriu.
    — Talvez. — Me virei em sua direção. — Eu gosto das noites tranquilas. Ou seja, todas, menos as de sexta e sábado.
    A minha nova companheira deu uma risadinha e disse: — Tenho pena do senhor. Amanhã é sexta-feira. — E afastou-se para o canto do banco, convidando-me para sentar.
   — Eu gosto da lua cheia. — Ela continuou. — Me faz pensar que posso tocar nela. — A moça olhou para mim como se me conhecesse há muito tempo. — Mas em noites como essa tudo fica triste. As pessoas têm medo de sair de casa por causa da violência ou, talvez, porque tenham pavor do escuro. O fato é que gosto de ver as pessoas caminhando, sei lá... jovens casais namorando, pais levando filhos para passear. Coisas do gênero. E o senhor? — Ela fez uma pausa — Suponho que seja diferente dos outros.
   — Depende do que você define como “diferente”. Eu gosto de ficar sozinho para pensar. Ou costumava gostar. Moro aqui há muito tempo e não tenho amigos, a não ser algumas casas.  
    — Eu tenho reparado o senhor há alguns dias. Sempre taciturno e sério. — E desatou a rir, como se tivesse contado uma piada.
   Fiquei surpreso com o que ela me disse. “Eu tenho reparado o senhor...”. Nunca a tinha visto antes. E as qualidades que ela me deu? Taciturno e sério! Faz com que eu me sinta velho, embora tenha somente 27 anos.
    — A propósito, pode me chamar de Atalaia.
    — Atalaia?
    — Sim. Porque eu observo as pessoas.
    — Bom, é Atalaia e só isso? Sem sobrenome? — Perguntei.
    — Sim. E isso basta por enquanto. Mal o conheço.
  — Me desculpe se fui intrometido. É que não sou acostumado a conversar com mulheres. — Revisei o que falei e achei melhor corrigir. — Na verdade, não costumo conversar muito.
    — Não se preocupe. Está indo muito bem. — Ela sorriu para mim. — Exceto por um detalhe.
    — Qual?
    — Ainda não me disse o seu nome.
    — Ah! — Suspirei, aliviado. — Pode me chamar de Devaneador.
  — Interessante. Você me faz lembrar o personagem principal do livro que estou lendo. Noites Brancas, de Fiódor Dostoievski. Conhece?
   — Conheço. Mas não acho que pareço com ele. Não precisei te salvar de um estuprador nem algo do tipo. E também não sou o herói da minha própria história.
   Atalaia suspirou. — Você me salvou do tédio de ficar sozinha aqui. — Ela deu uma risadinha. — E sobre ser herói, não se preocupe. Ainda vai chegar a ocasião. É isso o que dizem, não é? “A ocasião faz o herói”.
   — Eu nunca ouvi essa expressão. Acho que você a inventou.
   — Talvez, amigo Devaneador. — Ela fez algo estranho com a boca, tipo um muxoxo. — Preciso ir. Meu avô deve estar preocupado.
   Meu semblante deve ter desvanecido. Estava gostando da companhia de Atalaia. Nesses poucos minutos de diálogo, pude perceber o quanto perdi escondendo-me em meu cubículo.  
   — Gostaria de conversar mais. — Eu disse, surpreendendo-me de tal forma que tive medo do que ela pensaria de mim e de qual seria sua resposta.
   Mesmo com o breu dominando tudo ao redor, consegui ver seus dentes quando ela sorriu. Eram belos e tão alvos como a neve que cai do céu.
   — Eu também gostaria. Amanhã — ela respondeu —, nesse banco, à mesma hora. — E estendeu-me a mão para que a cumprimentasse. Não me lembro da última vez que havia tocado na mão de uma mulher. Era macia e quente.
   — Até mais, caro Devaneador. — E ela se virou antes que eu pudesse dizer “até”.
   Não me lembro do caminho de volta para casa. Nem de ter aberto e trancado a porta. A única coisa que me recordo foi de ter sonhado com belos dentes e mãos macias e quentes.
(...)
Noite 2
    ― Acho que sei qual é a minha missão na terra! ― Atalaia exclamou, logo ao me ver na segunda noite. Dessa vez eu estava com uma lanterna e consegui reparar nos seus detalhes. Olhos escuros, cabelos avermelhados. A boca fina estava curvada num sorriso e vi suas mãos ― que constatei como macias e quentes na noite anterior ―, pequenas e delicadas.
    ― Qual é? ― Indaguei.
    ― Ajudar você. Tirar você da solidão antes que fique velho e mofe conversando com casas.
    Eu tentei ficar bravo, mas não consegui. Tentei me sentir magoado, mas percebi que aquilo não me magoou. Ao invés disso, eu sorri.
    ― Como planeja fazer isso?
    ― Obviamente, fazendo algo mais inteligente do que fizemos ontem à noite.
    ― “Mais inteligente” como, senhorita Atalaia? Para mim, conversa à toa é algo mais inteligente e despretensioso que existe. E aproveito muito bem.
    Ela riu e admitiu que de fato aquela conversa havia sido proveitosa e ainda acrescentou:
    ― Preciso falar que pensei muito no senhor durante o dia.
    ― E?
   ― E... nada. É isso que me preocupa. O senhor Devaneador é um desconhecido, embora eu o observe. Eu proponho que recomecemos.
    ― Como?
    Ela revirou os olhos e imagino que, em seus pensamentos, chamou-me de besta.
    ― Olá, meu nome é Atalaia. Qual é o seu?
    ― Devaneador ― respondi, entrando no joguinho dela.
    ― Belo nome. Posso chama-lo de Dev?
    Pensei um pouco naquilo e, por fim, decidi deixar.
    ― Pois bem, Dev, conte-me a sua história.
    ― Quem disse que eu possuo história? Eu não tenho história.
   ― Desculpe-me, caro Dev, mas se o senhor não tem história, como viveu até hoje? Ou o senhor nasceu ontem na forma de um adulto?
    Ela me divertiu com esse comentário e decidi falar. Você deve saber, caro leitor, que sou natural de uma cidade desconhecida chamada Onirismo. É um lugar belo, ainda rural, com montanhas no horizonte. Eu acordava cedo todos os dias e caminhava com meu pai até um pequeno riacho com águas transparentes. Víamos pequenas tilápias. Nossa diversão era tentar pescá-las com a mão. Contei isso a ela.
     ― Parece um lugar bom. E seu pai também.
     ― Sim. Passei uma boa parte da minha vida dessa forma. Nessa rotina. Vim para Frutal depois da morte do meu pai. Úlcera. Minha mãe mora aqui com o quinquagésimo namorado. Não suportava viver naquele lugar. Hoje moro sozinho.
    ― Onde o senhor mora?
    Decidi fazer mistério. ― Ainda não te conheço bem para te dar meu endereço.
   Ela sorriu e olhou para o céu. Era a segunda noite de lua nova e, daquela vez, as estrelas haviam aparecido. Pareciam lantejoulas penduradas num longo vestido preto.
    ― Agora é sua vez ― disse, tomando coragem. ― Quem é você?
    Ela demorou a responder. Por um instante, parecia-se como eu: uma devaneadora. De repente, ela apontou para a região austral do céu.
   ― Está vendo aquela constelação? A Constelação Fênix? Sim? Vê? Está vendo a estrela mais brilhante? Ela se chama Ankaa. É de lá que eu vim.
    Eu realmente quis rir. Mas tive medo de ferir os sentimentos dela, pois havia dito tão seriamente e seu semblante possuía algo como uma nostalgia verdadeira.
    ― Então você é como o Pequeno Príncipe? Veio de um astro?
   Atalaia deu uma cotovelada nas minhas costelas e gargalhou profundamente e disse que eu era muito fácil de ser enganado e que minha ingenuidade tornava-me um fofo.
   Ela se levantou e foi caminhando. Fiquei confuso. ― Ei! É só isso? Você não vai me falar a verdade?
    Ela se virou e gritou: Amanhã! Neste mesmo horário e lugar.
   Segui a silhueta de seu corpo com os olhos e senti uma pontada de dor quando ela despareceu. Eu tive medo. Mas ainda não sabia de/do quê.
(...)
Noite 3

    Atalaia quis fazer algo diferente de conversar. Disse-me que gostava de filmes e perguntou-me se eu tinha um favorito. Respondi que não assistia à televisão.
   ― Você é um chato, Dev. Vamos fazer o seguinte: esta noite atuaremos partes dos meus filmes favoritos. Vamos pichar como em Toda Forma de Amor e ficar deitados na rua como em O Diário de uma Paixão.
   ― Isso parece perigoso. ― Respondi, mas ela nem deu atenção. ― Pichar é ruim, Atalaia. É depredação.  ― Eu acrescentei, em vão. Sabia que ela faria e me convenceria a fazer.
   Ela pegou sprays e começou a pichar o asfalto ― consegui convencê-la a não pichar casas. Eu a observava de longe, ainda nervoso. Ela agitava o spray vez ou outra e voltava à sua obra-prima.     Quando terminou, Atalaia me chamou para contemplar.

“24 de agosto de 1954: Vargas encontra o diabo”

    ― O que é isso?
    ― Pichação nerd. ― Ela respirou e me entregou o spray. ― Votre tour, mon ami.
    Caminhamos até à rua paralela a que estávamos. Respirei fundo, agitei o tubinho em minhas mãos e comecei:

“09 de agosto de 1943: Brasil vai à II Guerra Mundial”

    ― Você é realmente um cara sem criatividade, seu colão!
   Depois, fomos ao cruzamento entre as duas avenidas mais movimentadas da cidade. Eram quase onze horas da noite.
    Passamos a noite ali, deitados no cruzamento, olhando as estrelas.
(...)
Noites 4, 5 e 6

    Era agradável conversar com ela. Atalaia havia se tornado a melhor coisa na minha vida desde quando vim de Onirismo para essa chata cidade. Eu ainda era um devaneador, ou como ela me chamava, Dev. Mas minhas “devaneações” ― por assim dizer ―, tinham um novo foco: Atalaia.
    Na quarta noite ela levou algo para comermos. Ela mesma havia criado a receita: uma mistura de bacon com uvas passas e pães asmos. Ficou saboroso.
   Nas duas noites seguintes, falamos sobre livros e artes. Ela era uma descobridora como Américo Vespúcio; uma bandeirante como Anhanguera. Conseguia desbravar os recônditos da minha alma como ninguém antes.
   Talvez porque nunca houvesse me aberto com alguém e, quando ela se despediu de mim na sexta noite, seus lábios roçando minha bochecha barbada, soube do que tive medo: de estar apaixonado.
(...)
Noite 7
            
    ― Atalaia?
    ― Sim?
    ― Você não me contou sobre tua história, afinal.
   Ela estava estranhamente calada. Era a última noite de lua nova e eu esperava que ela fosse estar feliz. Mas não. Ela sorriu fracamente
    ― Eu não sou real.
    Eu não entendi o que Atalaia quis dizer. Como assim não era real? Quem ela era?
    ― Você não vai dizer que é natural de Ankaa, vai? Porque se for, eu te darei uma cotovelada.
Atalaia não riu. Nem mesmo sorriu.
    ― Sou uma criação da sua cabeça. Sou a resposta dos anseios da sua alma. Há uma semana você estava cansado de ser solitário e de falar somente com casas...
    ― ...
    ― ...
   ― Mas, se você não existe, como eu te vejo? Como falamos sobre tantas coisas? Como pichei, sendo que não gosto disso?
    ― Sou seu id, Dev.
    ― Como?
    ― Meu Deus, Dev! Para que tantos livros de Freud se você não os lê? Sou seu id. A parte de você que é selvagem e hiperativa.
    A melhor parte de mim era irreal ― ou surreal, tanto faz. 27 anos e tendo visões senis!
    Devo ser louco, amigo leitor. Penso nisso agora, 1 mês depois do sumiço de Atalaia. Mas eu ainda a perguntei o porquê de estar me contando aquilo e como ela partiria.
   ― Mas e agora? Uma serpente vai te morder e você vai voltar para o seu mundo? Como no Pequeno Príncipe?
    ― Você realmente gosta desse livro, caro amigo. Mas se você acha que será assim, então será. ― Ela pausou para respirar. ― Eu apareci porque você precisava e agora me vou, não porque não precisa mais de mim, mas porque é necessário que você se relacione com alguém real. Amores platônicos são bons porque ficam nas ideias e você tem medo de trazê-los para a vida real, pois acha que serão um desastre. Mas eu te digo, Dev, o real pode ser melhor.
    Quando disse isso, “o real pode ser melhor”, Atalaia sumiu. Não virou uma estrela. Nem foi para um asteroide ou coisa do gênero. Ela voltou para dentro de mim.
    A última noite de uma lua negra se findava. Eu estava pronto para quando a lua cheia chegasse.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Almas perdidas - Francinele Valdivino


"A infância é medida por sons, cheiros e sinais.
Antes que a sombria hora da razão cresça."
- John Betjeman

Sentia naquele momento a vida se esvaindo por todos os seus poros, enquanto aquela mão pesada impedia que sua respiração fluísse livremente fazendo o mundo não ter mais sentido e menos ainda perspectivas futuras.
Em um devaneio lhe voltou a mente a imagem da mãe que a algumas horas atrás havia lhe pedido para ir à casa da avó deixar os comprimidos e em seguida lhe repassara os milhares de conselhos que toda mãe parece saber decorados.
“Evite passar pela rua “tal”, tome cuidado com os carros, não converse com pessoas estranhas...”.
Amabelle, uma garotinha de treze anos, de pele clara e cabelos negros como qualquer outra que se vê vagando pelas ruas da grande São Paulo, semanalmente passava na farmácia do quarteirão onde morava, comprava remédios e levava a casa de sua avó. Hoje ela havia contrariado a mãe, tomando um atalho pela rua proibida e como sempre acontecia todas as vezes que por ali passava suas narinas foram invadidas pelo odor dos narcóticos que exalava da fumaça produzida pelo grupo acocorado na calçada. O cheiro lhe causara a familiar sensação de enjoo fazendo-a acelerar o passo para tentar faze-la desaparecer.
Ela lembrava-se de ter usado sua cópia da chave para abrir a porta e de estar á vista do estranho homem que sem perceber sua presença enrolava apressadamente os fios do aparelho DVD da avó. Lembrou-se de ver o corpo inconsciente de uma anciã jogado ao chão, mas o que lembrou mais nitidamente foi do cheiro. Era o mesmo da rua proibida, e com ele a mesma sensação de antes, só que desta vez mais forte e assustadora que a anterior, que a arrebatou numa mistura de medo e pavor.
Não havia tido tempo de reagir, pois de repente estava lutando contra uma mão poderosa que a prendia sufocando seu choro. Mas pior que a falta de ar havia sido a dor que estraçalhara seu corpo, ao ponto de agora já não sentir mais nada, apenas a sua própria mente que rodopiava em coisas vagas e desconexas. A voz de sua professora de literatura citando Lorde Byron...

“Entre dois mundos paira a vida como uma estrela.
Entre noite e manhã, em cima da linha do horizonte.
Quão pouco sabemos o que somos!
Quanto menos o que podemos ser!”

Era bem assim que se sentia neste momento, como uma estrela perdendo todo o seu brilho para o universo sem fim, sem saber o que é que significava tudo aquilo ou mesmo o que aconteceria nos próximos segundos.
Quando finalmente o peso moveu-se de cima de seu corpo frágil, facilitando a respiração, sentiu um pouco de esperança, mas foi apenas por um breve momento, pois a poderosa mão agora pressionava sua garganta. O teto ficou turvo e depois disso mais nada, só a escuridão e o silêncio.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O Violino do meu Amor - Paulo Cesar Corrêa

“Feche os olhos e ouça com atenção.
Escute uma música que só existe em você
e cante esta canção”.
Augusto Branco

     Vamos começar. Bem suave. O segundo movimento do Inverno de Vivaldi. Sim. Perfeito. Violino principal, sole como se estivesse andando sob a chuva leve. Violinos secundários, façam o pizzicato, imitando os pingos do chuvisco. Isso... muito bom. Andréa, você está rápida demais. Desacelere. Agora sim. Magnífico! Estupendo! Isso. Desse jeito estaremos prontos para tocar até mesmo no Châtelet... O quê?! Ahn?! Quem é você?! Droga...
(...)
    Está um dia chuvoso. Eu gosto assim. Principalmente para ficar sentado nos bancos da Praça Sérgio Pacheco. Uberlândia faz tanto calor que os dias nublados são uma bênção. Na maioria das vezes, evito pisar em poças d’água, com medo de serem pessoas derretidas. Você pode rir, porém é verdade. Mas vou parar de reclamar. Por mais que seja uma característica dos velhos ― reclamar de tudo ―, fiz uma promessa para minha neta que pararia de por defeito nas coisas ou dizer que os tempos antigos eram melhores. Prometi parar de dizer, mas continuo pensando assim.
    Na minha adolescência, os Beatles e os Rolling Stones estavam começando a fazer sucesso. Quando me casei, Richard Clayderman e Kenny G tocavam as músicas românticas mais emocionantes. Minha neta ousa dizer que One Direction é melhor. Que blasfêmia! Aqueles guris?! Melhores que o John Lennon, Mick Jagger e outros mestres da música?! Mas os tempos mudam. As opiniões também.
    Quando me formei na escola, meus pais não interferiram na minha decisão sobre que faculdade ou curso deveria fazer. A única obrigação era estudar francês. Hoje, sou grato a isso: dou aulas de francês numa escola chamada Flexion, na Alberto Alves Cabral, perto da UFU – Santa Mônica.  
    Na faculdade, estudei música. Mais especificamente, violino. Foi a melhor época da minha vida, pois conheci duas pessoas que mudaram minha história: Andréa, minha querida Andréa; e Antônio Vivaldi.
    Começo a sentir frio agora. Deixo meus livros de francês no colo e coloco minhas mãos deformadas por causa da artrite dentro do bolso. Andréa costumava esfregá-las até ficarem quentinhas e depois as beijava. Era bom. Sentir seus lábios finos sobre minha pele. Quando a vi pela primeira vez, nunca havia imaginado que nos casaríamos. Na verdade, acho que me escolheu por causa do francês. Ela brincou comigo sobre isso duas ou três vezes e, mais uma vez, agradeço meus pais por terem-me obrigado a estudar essa língua.
    Lembro-me que eu havia me destacado de entre os alunos. O professor me perguntou se eu tinha a intenção de ser maestro. Eu disse que sim. Seria uma honra para mim.
    ― Então, Levi ― o professor disse ―, se prepare. Daqui a dois meses tocaremos Vivaldi num concerto. Você será o maestro.
   “As Quatro Estações”. Era quase uma hora de concerto. Os tons mudavam a cada estação. Começava em Mi Maior na “Primavera” e terminava em Fá Menor, no “Inverno”. Tinha muita coisa a ser feita, pelo que me lembro. Estudei as partituras durante três semanas. Ensaiei com a orquestra durante o resto do tempo até chegar o dia do concerto. É claro, Andréa era a violinista solo. Formávamos uma dupla muito boa no palco.
    Hoje, a única coisa que me resta é a saudade. Está aí mais uma razão de eu pensar que o passado é melhor que o presente. Andréa morreu de câncer no estômago há 7 meses. O meu ortopedista me proibiu de tocar violino por causa da artrite. As melhores coisas que aconteceram na minha vida na época da faculdade, agora são só resquícios de uma outra era, bem distante dessa em que vivo hoje.  
    Mas ainda ouço o violino. Tantos anos tocando me fizeram decorar seu som e suas variações. Minha neta me deu um celular e, para me agradar, colocou música clássica na minha playlist. Ganhei um fone de ouvido também. Pego meu aparelho celular e conecto o fone nele. Dou play na Chuva de Vivaldi e começo a devanear. Eu sei que vai acontecer. Sempre acontece e não me importo de estar em um lugar público.
    Eu fecho os olhos. A melodia os faz lacrimejar. Aprumo meu corpo na posição de maestro e começo a reger. Em minha mente, Andréa está ali, solando. Ela, estranhamente, está tocando rápido demais e peço para que desacelere. O restante da orquestra também está presente. Leopoldo, Angélica, Luís... Peço para que larguem os arcos e façam o pizzicato. É o diferencial da música, pois caracteriza bem o som da chuva. Está tão bonito. Tão perfeito. Mas parece que alguém está se aproximando. Sinto alguém tocando em mim, tirando-me do meu devaneio.
      Abro os olhos:
      ― O que?! Ahn?! Quem é você?! Droga... ― Eu digo.
(...)
     É uma jovem. Deve ter cinco anos a mais que minha neta e não se parece nada com ela. Faz-me lembrar de alguém do meu passado. A jovem está escrevendo algo num pedaço de papel.
    ― Excusez-moi, monsieur. ― É o que ela escreve. ― Je peux me asseoir avec vous?
    ― Oui. ― Eu respondo. Ela sorri. Eu estou pensando: por que escrever ao invés de falar? Talvez seja surda e muda. E que pergunta era aquela? “Com licença, senhor, posso me sentar com você?”. Ora, o banco está numa praça pública! É claro que sim.
    Ela se arruma no banco e volta a escrever. ― Se il vous plaît, pardonnez-moi. Je suis sans voix.
   Está explicado. A guria não é surda nem muda. Está somente sem voz. Olho para ela e tento reconhecê-la, mas não se parece com nenhuma de minhas alunas no Flexion. Nem com aluna nenhuma daquela escola. Os livros de francês no meu colo entregaram que eu falo a língua dela.
    Pergunto de onde ela é e o que está fazendo. Primeiro, ela diz seu nome: Helene Laurient. Pergunta pelo meu: “Levi”, digo. Somente depois disso que ela responde minha pergunta. Ela é de Tolousse, na França e está em Uberlândia por causa do namorado. Bom, ex-namorado, ela corrige. Haviam se conhecido num intercâmbio em Berna e estavam juntos há um ano e meio. Ela havia chegado essa madrugada, de surpresa, e o pegara com uma menina dentro do carro dele, em frente à casa do ex. A passagem de volta é só dali a uma semana. Está sem lugar para ficar.
    ― Quand je suis nerveux, ma voix échoue. ― Helene rabisca rápido no seu papelzinho, explicando que quando fica nervosa, sua voz falha.
    Olho para ela. Seus olhos são verdes e os cabelos, loiros. Pintados, percebo. Tem duas pintas no pescoço. Não usa maquiagem, mas é óbvio. Depois de uma longa viagem e uma madrugada triste, que mulher estaria maquiada? Começo a perceber com quem ela se parece. Ela é parecida com minha esposa. Com a minha Andréa. Estou a devanear, novamente. Eu regia para ninguém há dez minutos, imaginando minha esposa e, de repente, abro os olhos e me deparo com uma francesa que se parece com Andréa! Que louco. Faço uma nota mental para lembrar-me de parar de tomar os remédios tarja preta.
    Mas... não. Não pode ser. Não creio em reencarnação nem em pessoas que voltam do além. No entanto, eu queria acreditar que era ela. Que ela havia voltado para mim através da música de Vivaldi.
    ― Aimez-vous jouer à personne? ― Recebo mais um bilhete. Eu rio. Ela está perguntando se eu gosto de tocar para ninguém. Respondo-a que não estava tocando e sim regendo e que não, não gostava de reger para ninguém, mas aquilo acontecia sem que eu percebesse.
    Ela tenta rir, mas está sem voz. Helene me olha e seus olhos estão brilhando, da mesma forma como os de Andréa faziam e isto me dói. Quero que Helene vá embora para eu parar de sofrer. Para eu voltar a reger uma orquestra e uma Andréa mentais. Mas existe um motivo para tudo. Helene não saiu da França somente para ser largada pelo ex-namorado. Novamente, olho para ela e digo:
    ― J'ai faim. Et vous?
    Ela confirma. Está com fome.
(...)
    Normalmente, não como em lanchonetes, mas faço uma exceção por causa de Helene. Ela toma Pepsi e eu, café. Ela está comendo a segunda coxinha e eu, um pão de queijo. Sei que vamos ter azia em meia hora. O silêncio entre nós é divertido. Os olhares dizem tudo. Ela está cansada de escrever, então, comunicamo-nos por leitura labial e olhares.
    Ela é inteligente, percebo. Sussurra que estuda Economia e que sonha em fazer diferença no país. Coleciona quadros de Tolousse-Lautrec como hobby e pretende aprender algum instrumento. Nada barulhento, acrescenta ela. Talvez piano. Quem sabe, violino. Até brinca com a possibilidade de eu ensiná-la. Minha neta tem muito a aprender com ela.
     ― Vous devez me apprendre le violon. ― Helene escreve de novo. ― Se il vous plaît. ― E faz uma carinha de “pidona”. Ela quer que eu a ensine violino.
    Olho minhas mãos deformadas. Relembro os momentos de glória da minha juventude. Todas as lamentações e murmurações da minha velhice são devidas ao fato de não poder mais tocar e aqui está minha chance. Helene me olha, cheia de expectativa.
    ― Oui. ― Respondo, aceitando o convite.
(...)
    Tenho dois violinos Stradivarius em casa. Estão empoeirados, talvez até com teias de aranha. Aviso Helene para não esperar muita coisa de um velho como eu. Ela sorri gentilmente e diz que sabe que eu sou bom. Fico a me perguntar como ela sabe disso, mas deixo para lá.
    Pego os instrumentos e limpo a poeira. Sou lento, mas ela parece não ser impaciente. Vou à cozinha e pego uma colher e mel. Ofereço para ela, dizendo que vai fazê-la melhorar.
     ― Mercì, monsieur ― Ela agradece.
     Toma o mel e sussurra que está pronta para as lições. Faço exercícios com minhas mãos. Os dedos estalam. Ela também exercita seus dedos. Pego o violino. Pareço não ter mais o jeito. Acho que esqueci como se segura. Helene se levanta da cadeira de onde está e coloca o violino na posição correta para mim. Pergunto-a como ela sabia e a senhorita Laurent simplesmente sorri e escreve que viu na televisão francesa. Precisamos de algo educativo na TV brasileira, penso.
     O arco, em minha opinião, é a parte mais chata. Tem de ser firme e delicado ao mesmo tempo. Demoro um pouco para pegar o jeito, mas, logo, estou tocando. Lento, mas bem. Afinado, o que é mais importante. Estou de olhos fechados, mas sei que Helene está sorrindo a me ver e me ouvir. Não toco Vivaldi. Seria demais para mim. Toco Ode à Alegria, a 9ª sinfonia de Beethoven. Fácil, mas, na minha atual condição, a única coisa que me importa é me sair bem e não passar vergonha.
     Pego o outro violino e o entrego a Helene. Conto a ela os nomes das partes do instrumento: alma, cavalete, espelho, ouvidos, estandarte... Ela tenta falar e um fiapo de voz sai de sua boca. Eu rio de satisfação. Definitivamente, ela não havia vindo ao Brasil simplesmente para ser largada. Na verdade, sua missão, mesmo que não soubesse, era resgatar este velho da caverna e da desgraça.
     Digo os nomes das cordas. Mostro-a como pegar no arco. Ela põe o violino no ombro. Espero ela me pedir para ensiná-la alguma coisa, porém, ao invés disso, ela começa, suavemente, a tocar A Chuva de Vivaldi.
     Estou parado. Congelès. Isso não é possível. Ela me pediu para ensiná-la, mas..
     Mas...
     Mas ela está, tão divinamente, tocando, seus dedos viajando pelas cordas. O movimento do arco é tão perfeito. Ela me olha, sem parar de tocar. Estou chorando e ela ri. Gargalha. Sinto meus pelos arrepiados.
     Helene Laurient termina e fixa seus olhos em mim. Parece estar se divertindo com tudo. Ela é tão bela.
     ― Andréa... ― Sussurro.
    Ela nega com a cabeça. Diz que não é Andréa. Aproxima-se de mim. Abraça-me. O cheiro é conhecido. Convivi com essa fragrância por tanto tempo.
     ― Andréa... ― Novamente, sussurro.
    Helene, novamente, nega. ― Je ne suis pas Andréa. Mais, si vous voulez, je peux être elle. Pour vous rendre heureux.
     Dessa vez, a voz verdadeira dela saiu. Era como a de minha esposa. Ela continuava a dizer que não era Andréa, mas, se eu quisesse, ela poderia sê-la, para me deixar feliz.
      Estou soluçando.
     ― Êtes-vous ok? ― Helene pergunta.
     ― Sim, estou ok. Mas emocionado.
    A música a trouxe de volta para mim. Eu a toco e ela não se afasta. Sinto seu cabelo, sedoso e macio. Ela tem um olhar misterioso, fascinante. Poderia olhar para ela por horas. Por mais que negue, eu sei que é ela. Só pode ser ela.
    Conversamos por horas. Fiz chá matte, mas ela recusa, dizendo que só toma Namastea. Rio da brincadeira que ela faz com as palavras indiana e inglesa. Pergunto, mais uma vez, se ela não é minha esposa. Helene se levanta da cadeira, guarda o violino, arruma a roupa e diz:
     ― Adiéu, mon ami. ― E desaparece, como se nunca houvesse existido.
     “Adiéu”, eu digo, certo de que nunca mais tomarei tarjas pretas. 

* Para escutar a música base deste conto, clique no link abaixo.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Jacques Bonhomme - Henrique Donancio

A capital era uma oportunidade...

Mudar-me para lá é uma ideia que me ocorreu quando já não via possibilidades de prosseguir. Julia estava doente e os custos médicos eram exorbitantes. Era terrível a ideia de todos os dias ter que pensar o que comer e o que beber, visando apenas consumir o mínimo possível, não que alguma vez fossemos providos de tudo mas é que não havia culpa em comprar tomates em qualquer época.

A capital era a solução, já não era um garoto, me tornara um pai solteiro com responsabilidades. Morar no interior sempre foi o desejo de Luísa e já não há motivos para permanecer com tão poucas oportunidades... Ao fim da faculdade tomamos a decisão visando apenas uma vida mais tranquila.

De fato numa cidade menor a vida é mais calma, mais lenta. Se ganha menos mas anda-se menos, come-se mais, descansa-se mais e se diverte menos.

Júlia começaria a tratar-se do câncer na Santa Casa da capital. Eu não suportaria sua distância mesmo sabendo que poderia ficar aos cuidados dos pais de Luísa. Eles inclusive me indicaram um hotel para que pudesse me hospedar durante os dias que por lá ficasse. Dizia o bilhete “Copa Hotel”, e o valor pago para sócios da cooperativa de crédito o qual o pai de Luísa era filiado. Obviamente não me queriam por perto ao me indicar um hotel mesmo tendo condições de me oferecer hospedagem, nossa relação nunca foi das melhores.

Tentei pesquisar informações dias antes da partida, mas o que encontrei navegando por páginas da internet foram as mesmas informações que o bilhete trazia: Número e endereço do estabelecimento. Ainda que com alguma sorte pois, em poucos dias haveria o mundial de seleções e tudo que se referia a palavra “Copa” remetia à competição.

Tomei nota do endereço e fui investigar sobre a localização do hotel. O pai de Luísa me disse que era perto da rodoviária e que de lá até o ponto de ônibus que me levaria até o hospital andava-se poucos metros. Busquei no mapa e de fato o velho safado tinha razão, e talvez não me quisesse tão mal, apenas longe.

A noite que antecedia a partida pus me a olhar os quadros, as flores já sem vida do inverno que Luísa plantara. Dizia gostar das “copo de leite” mais que as outras mas não sabia explicar bem o motivo. Confesso que as copo de leite me faziam bem, não que tivesse qualquer apego a espécie mas a sutileza em que decoravam o jardim remetiam a personalidade de quem as plantara, não era tão extravagantes como as rosas e nem tão formais quantos as margaridas.

Tudo naquela casa remetia a personalidade de Luísa, e agora olhando para estas paredes me dou conta que tão pouco de mim dei-lhe. 

Na capital...

Pela manhã fui visitar Júlia assim que cheguei a capital. Pelo corredor ouvi as vozes dos pais de Luísa e quando adentrei ao quarto, o mesmo silêncio constrangedor. Julia sorriu-me, quase que com todas as suas forças. Dei-lhe um beijo e os cumprimentei.

- Como foi de viagem? – Perguntou-me com o mesmo sotaque colono.

- Bem – prontamente o respondi.

- Vejo que ainda não se instalou na capital, é isso mesmo que deseja? Sabe que tenho condições de cuidar de minha neta muito bem. – Disse ao ver que trazia minha mala.

- Eu o agradeço por toda a ajuda, mas creio sinceramente que Júlia precise de mim.

- Você sabe que poderias ficar em nossa residência, mas é que estamos reformando o quarto de hóspedes para que você se acomode caso decida ficar. – Disse minha sogra.

A falsidade como eles me dizia aquilo fazia minhas veias dilatarem de uma fúria quase incontrolável, mas via Júlia e tudo era por ela, então me acalmava e jogava com eles.

- Eu sei de todo o esforço de vocês e os agradeço.

- Precisa de algum dinheiro? – Disse-me o velho como se fosse seu filho que aos trinta de vida ainda vivia de esmolas.

- Preciso ficar com minha filha e é só, se não se importam.

- Tudo bem, tudo bem. Contratamos enfermeiras que mais tarde irão vir busca-la, se precisar de qualquer coisa ligue nesse número. – E me deu um bilhete.  -Ah!, e não ande pelas bandas da rodoviária ao anoitecer, pegue um táxi.

Mais tarde, despedi-me de Júlia e parti em direção ao hotel. Peguei um ônibus até a rodoviária e de lá um táxi até o hotel. Sabia pelo mapa que estava a alguns metros, mas não quis arriscar perder-me ali.

- Para onde vai?

- Para o Copa Hotel, por favor.

- Copa Hotel? Copa Hotel...

- Sim, Copa Hotel, na rua Andradas, esquina com a Farroupilha.

- Ah sim! Mas lá não se chama Copa Hotel, pelo menos não era esse nome, a não ser que tenham mudado de nome ou de dono, é lá onde ficam os negrim.

A corrida me custou seis pila e notei que o senhor, apesar de simpático, não gostou de fazer uma corrida tão curta já que teria de voltar a fila para uma novo cliente. Paguei-lhe e saltei do carro.

Na rua frente ao hotel, alguns usuário de drogas perambulavam como almas penadas. Adentrei e uma mulher que parecia ter seus quarenta anos estava ao lado de outra que parecia ter seus vinte e cinco. A segunda me atendeu.

Já no quarto logo notei um aquecedor posto a parede, era inverno e as noites eram frias no sul. Além do aquecedor, duas camas, TV, armário e também um criado onde me livrei de tudo que trazia no bolso, estava exausto! Procurei por toalhas, e não haviam as deixado. Pensei em descer até a recepção e pedir-lhes um jogo, assim como a senha da internet sem fio.

Quando abri a porta, notei que haviam deixado um par de sapatos no corredor, ao lado da porta do meu quarto. O cheiro de suor pairava no ar. Desci até a recepção, a mesma mulher, agora sozinha desculpou-se e entregou-me duas toalhas, e também pediu para que deixasse a chave ao sair se possível, para que arrumassem o quarto. Devo ter lhe olhado de maneira desconfiada, já que em seguida talhou alguma explicação, apenas assenti dessa vez.

Já no corredor, voltei a olhar os sapatos, e também notei que haviam um banheiro no seu final, que parecia compartilhado. Havia uma placa também que dizia: “Proibido andar sem camisa ou de toalha”. Bem longe, vozes graves e assertivas falavam em francês, parecia discussão, mas ao me aproximar pude perceber que não.

Duas voltas cerraram a porta. Conectei-me a internet e Charles, um amigo havia mandado uma mensagem:

 Olá meu velho! Espero que tenha feito uma boa viagem... tenho duas boas notícias. A primeira é que encontrei locadores para sua residência e a segunda daí advém. Quando contei-lhes sobre sua mudança me passaram um contato que talvez lhe interessa. Conhecem o editor do Jornal Alerta Capital, parece ser um sobrinho deles e disseram para que você o procurasse. Um beijo a Júlia e boa sorte meu velho.
Charles.”

As coisas pareciam começar a caminhar... Alugando a casa poderia me instalar, e se ainda surgisse um emprego estaria tudo mais que perfeito! E que grande dia hoje se mostra!

Liguei o chuveiro, parecia queimado. Então desliguei-o e liberei a água e estava ainda mais gelada, então voltei a chave a apontar para o inverno e novamente liberei água. Um pouco mais ameno, mas ainda gelada. Então voltei algumas voltas para que saísse pouca água mas um pouco mais quente. Era isso... ainda gelada, então saí do banheiro, liguei o aquecedor no máximo, olhei algumas páginas na internet enquanto o calor tomava o quarto, voltei, ensaboei a esponja e joguei-lhe um pouco d’água, e membro a membro fui me lavando até que tomado de espuma me joguei debaixo a água, um “banho de gato”.

Era quarta e o Palmeiras jogava, e nenhuma cansaço superava jogos do Palmeiras. Luísa que um dia se afirmou gremista, ao passar dos anos acabou cedendo e passou a fazer-me companhia, e creio eu que o meu fanatismo lhe mostrou o que é torcer para um time, e como uma criança que gosta de ver os adultos vibrarem com seus times de coração tomou o Palmeiras um pouco pra si.

As vozes falando francês vez ou outra passavam pelo corredor durante o jogo. Já no segundo tempo minhas pálpebras teimavam em descer e me encontrava embriagado pelo cansaço. Desliguei a TV e dormi. No dia seguinte trataria de ver um emprego novo.

Durante a noite me acordei. Olhei o relógio do celular que marcava pouco mais de 3 horas do meu segundo dia na capital. As vozes em francês ainda ecoavam, em menor número e vez ou outra passando por minha porta. Pouco depois uma se aproximou e abriu o que pareceu ser a porta do quarto ao lado, talvez o dono dos sapatos. Ouvia também uma porta ranger, um chuveiro ligar e pouco depois desligar e a porta ranger novamente. Fiz desapegar-me da curiosidade para que pudesse dormir novamente, afinal teria de acordar no meu melhor.

Segundo dia na capital...

O hotel não servia café da manhã, então pensei em acordar cedo e pegar o lanche que o hospital servia aos acompanhantes de leito. Desci as escadas e entreguei a chave agora ao que parecia o dono do hotel. Era como imaginava Tarantino dez ou vinte anos mais velho.

Julia estava exausta quando cheguei, e como no dia anterior parecia usar o resto de suas forças para um sorriso. A quimioterapia parecia tirar-lhe um pouco mais de vida a cada sessão. Sentia-me destroçado ao vê-la, mas não poderia deixar pensar que sofria, tinha de lhe devolver um pouco de sua alegria. Retirei da pasta que trazia comigo alguns desenhos que havia feito durante a viagem, ela e Luísa tinham como atividade desenhar e pintar algumas coisas. Dei-lhe algumas folhas em branco e pedi que fizesse alguns desenhos para mim.

Pelo correio eletrônico veio a confirmação do jornal que me receberiam para uma entrevista naquela tarde. As dezessete horas, tal como um inglês vizinho ao Big Bang estava lá eu, posto a esperar o editor chefe que faria a entrevista. Creio que tenha surpreendido a mim e aos outros dois candidatos ao fazer uma entrevista coletiva. Nos propôs um desafio: que escrevêssemos um artigo para a semana seguinte e que seria publicado, o melhor autor seria contratado. O tema era livre, mas deixou entender que o jornal era um tanto comprometido com matérias investigativas, denúncias e escândalos de todos os tipos. De certo tinha um cunho político esquerdista. Ao fim, pediu que mantivéssemos comunicação sobre qualquer progresso.

Na volta para o hotel, decidi que a melhor logística era de fato pegar um ônibus até a rodoviária e de lá um táxi até o hotel. As redondezas de onde me hospedara eram fatalmente hostis e não me arriscaria até conhecer um pouco mais os caminhos que tinha de tomar para chegar seguro. Também aproveitaria para jantar na rodoviária, pois dificilmente haveria algum estabelecimento aberto com tantos usuários de drogas perambulando por lá.

- Para onde? – perguntou o taxista.

- Copa hotel, na rua Andradas.

Pô meu, vai a pé cara é logo ali.

- Desculpe, mas não conheço a cidade. – Nesse momento tive que me fazer de desentendido, sabia que era arriscado a caminhada por aqueles poucos metros.

Cara, é logo ali, só atravesse a rua e tu já  lá.

O fiscal de táxis se aproximou quando percebeu que o taxista hesitava e eu já abria a porta para tentar outro.

- O que está acontecendo ? – perguntou.

- Ele quer ir até o Copa, to dizendo para o cara que  de ir a pé.

- Tu quer ir de carro? – Percebendo que aquilo poderia se estender.

- Preferiria, não conheço a cidade – respondi.

- Se ele quer ir de carro, você leva ele de carro.

- Tu quer que eu te leve eu levo meu, mas  dizendo que  de pé.

-Gostaria.

- Leve ele então meu, se ele quer ir de carro você leva.

Senti um mal estar quando arrancou bruscamente. Havia-lhe tirado da enorme fila a espera por um cliente por trocados.

- Tu não deve conhecer a cidade mesmo.

- Por que me diz isso?

- Se tu saí ali a noite meu, não sai andando.

No corredor do hotel, veio em minha direção um negro enrolado numa toalha. Eu, de fronte a placa que proibia tal atitude, fiquei sem reação. Passou rápido e confiante, como fosse dono daqueles poucos metros que me levavam até o meu quarto. Fitou-me despretensiosamente enquanto vozes pareciam outra vez discutir em francês. De certo haitianos, os negrim que o taxista havia mencionado, e pela placa que avisava sobre andar trajando toalha talvez viessem muito deles se hospedarem aqui. Ao lado de minha porta, outra vez o sapato postado ao lado. Desta vez ri com o pensamento que me ocorreu: “Um haitiano com hábitos nipônicos”.

Enquanto aquecia o quarto para que pudesse tomar um banho, pude notar que se tratava de vários alojados em um mesmo quarto. Pela quantidade de tons distintos de vozes, talvez quatro, cinco até seis dividindo o mesmo espaço. Chegavam e saiam a todo instante. Pouco mais tarde o chuveiro e a porta começaram o seu compassado ritual. Aquilo aguçava minha curiosidade... O que faziam na capital afinal? Os motivos que levava-os a ficar no Copa Hotel pude imaginar... Começava a me ocorrer a ideia a matéria que me daria um emprego estaria naquelas vozes que passavam pelo corredor.

Tomei o laptop ao colo antes que aquela curiosidade fosse sanada por uma descoberta insossa. Escrevi bem aquela noite, como um romântico escreveria para seu novo amor, pus em linhas mesmo que digitais tudo que parecia ser no Copa Hotel. Nessas horas a saudade de Luísa aguçava, uma sensação de vazio me consumia, não havia ninguém com quem compartilhar minhas pequenas vitórias, quem consolasse minhas grandes derrotas. A vida dos outros parecia tão mais fácil...

O hotel de todo não era ruim. As roupas de cama e toalhas cheiravam a amaciante, suponho bem concentrado, pois aquele mesmo cheiro havia me acompanhado durante todo o dia. Pensei que tive sorte em não estar acompanhado, as colchas mesmo com o aquecedor na máxima temperatura não me aqueciam do inverno do sul. A TV me intrigara naquela noite, não era uma TV a cabo, parecia ser uma TV via internet, com metade dos canais religiosos e a outra vendendo animais. Também havia outro que penso ter toda sua programação voltada a filmografia do Frota. Confesso que maliciosamente me perguntei se nos outros quartos haviam TVs.

Pela manhã desci as escadas lentamente, com a esperança de encontrar um daqueles haitianos. Até a recepção, somente o cheiro de suor que pairava pelos corredores. O gerente sósia do Tarantino me ofereceu as chaves, e forçando um diálogo perguntei do clima da capital. Parecia um homem tranquilo, deixei que me especulasse um pouco até lhe perguntar sobre os haitianos. 

- São todos haitianos aqueles?

- Sim – respondeu gauderiamente. Sabia o que tinha de fazer para falar mais...

-  O táxi que me trouxe até aqui os mencionou.

- Hmmm, é.... são boa gente, não te preocupes.

- O que fazem aqui?

- Trabalham nas fábricas aí, vez ou outra são pegos e tem de ajeitar a vida.

- São ilegais?

- É, vem atravessando as fronteiras aí da vizinhança – decidi então que era melhor parar com as perguntas já que começava a se irritar, despedi-me brevemente.

Quando tomava a rua, um deles passou por mim, parecia carregar um quadro. Esperei que tomasse um pouco de distância para que ninguém do hotel notasse que o seguia, então quando longe o bastante o abordei:

- Fala português?

Seus olhos se arregalaram, parou sua caminhada e ficou a me olhar esperando.

 Do you speaking English?

- Jacques, Jacques! – foi o que entendi do que falava e apontava para o hotel.

Parecia nervoso... Mas parou, parecia querer dizer que um tal Jacques sairia do hotel e foi o que aconteceu. Saiu do hotel um negro vestindo uma blusa três listras e boina, esperei até que se aproximasse:

- Jacques?

Vous?

- Sabe falar português?

- Um pouco, amigo – disse com seu sotaque.

- Me acompanham em um café? –  eles se olharam, falaram algo em francês, mas concordaram.

Sentamos no café da rodoviária que agora era meu preferido. O outro haitiano se chamava Olivier. Era natural que se mostrassem desconfiados, e assim se portavam. Nos primeiros minutos senti que se fosse ao banheiro, ao retornar não os teria ali sentados. Jacques estava a mais tempo no Brasil, quatro anos me disse, e Oliver a seis dias, contou que vivia de trabalho honesto. Olivier parecia mais um dos casos de “turistas” que vieram para Copa, e Jacques parecia determinado a me fazer pensar que o era.

Creio eu que nunca antes estivesse a conversar com um haitiano ou um tipo próximo. Pela voz ríspida, alguém a lhes ouvir pensariam que eram rudes, suas vozes eram incisivas e determinadas em dizer o que diziam, mas sorriam nas vezes que pareceram esquecer da situação em que estavam. Certamente pensaram que era ou algo do governo ou alguém a lhe querer vantagens, e isso me incomodava, pouco quis ficar para que ganhasse a sua confiança.

Paguei-lhes o café e disse que também me hospedara no Copa Hotel, que se precisassem de algo poderiam contar com minha ajuda. Pareceram mais aliviados em poder sair dali.

No hospital os pais de Luísa já estavam a postos, ocupando seu imenso tempo ocioso com Julia.

- Olha quem chegou Julia! É o papai quem veio te visitar minha pequena!

- Bom dia. – disse-lhes.

Abracei Julia, que me entregou os desenhos que havia feito. Era nossa família, eu junto a Luísa e ela e um cachorro salsicha, rodeados de um jardim de copos de leite.

- E esse cachorro filha?

- É o Toby, vovô já encomendou pra mim! – um dos hábitos do velho era comprar as pessoas.

- E tu meu genro, já se arranjasse?

- Ainda falta um pouco meu sogro, mas creio que logo poderei me estabelecer e estar com Julia.

- Que ótima notícia meu querido, não achei que resolvesse suas questões em tão pouco! E onde almejas um trabalho? – perguntou minha sogra, com sua irritante voz, com seu irritante desdém.

- Há muitas latinhas na capital minha sogra – consegui interromper aquela falsa empolgação.

O meu sogro olhava furioso, decerto dariam um jeito de estragar qualquer oportunidade que tivesse. Pouco depois saiu do quarto sem nada dizer e em seguida minha sogra.

Fiquei até a hora do almoço com Júlia, que me contava seus planos para quando saísse do quarto de hospital. Contou-me sobre Toby também, e como seria sua casinha, e quais brinquedos teria e os horários e lugares que brincaria com ele. Ela sempre quis ter cachorros, mas Luísa era irredutível sobre o caso, e se defendia dizendo que todo serviço ficaria a suas custas, e que toda casa se infestaria de cheiro de cão, e que estragariam seu jardim de flores... Por minha vontade, Júlia já teria seu Toby.

Ao anoitecer, voltei ao hotel e escrevi um pouco mais. Tentei distanciar tudo que relatava para longe do Copa Hotel, afinal, logo alguns daqueles haitianos se tornariam ilegais no país. Sentia falta de uma janela que desse para rua, olhar para a cidade nos intervalos de inspiração na companhia de uma boa cerveja, ou de duas taças servidas de um bom vinho.

Ao fim, antes de deitar-me, escrevi ao redator contando-lhe sobre minha descoberta e que esperava descobrir que tipo de emprego aqueles haitianos estavam empenhados antes de concluir a matéria.

Quarto dia na Capital...

Pela manhã, nos primeiros raios de sol pus me a espreita a escutar qualquer voz que passasse pelo corredor. Através da porta vi que um deles acabara de chegar, e como a sombra demorou algum tempo para deixar a minha porta e o som tão próximo, suponho que fosse o dono dos sapatos chegando, e de certo trabalhava durante a madrugada, pois os sapatos sempre estavam lá durante o dia. Arrumei algumas coisas dentro da mochila e pensei ser melhor esperar Jacques e Olivier, pois tomariam o caminho da estação de ônibus da rodoviária e assim não despertaria nenhuma desconfiança.

O caminho do hotel até a rodoviária era desolador, alguns viciados dormiam enquanto todos tomavam seus caminhos. Os funcionários da limpeza urbana varriam bem próximos a eles, como se rodeassem um móvel qualquer da sala de estar.

Jacques e Olivier enfim apareceram, embarcaram na linha Distrito Industrial e eu também. Fiquei na parte dianteira do ônibus, e não atravessei a catraca, ocupei um assento preferencial por ali já que o automóvel não estava tão ocupado e assim evitar que me reconhecesse.

Paramos no Distrito Industrial, como já esperava. Pedi informações ao cobrador a fim de ganhar tempo até que desembarcassem, segui-os com os olhos. Adentraram numa fábrica de reciclagem. Alguns carroceiros faziam uma pequena fila com seus carros carregados de papelão, latas e embalagens plásticas do lado de fora, alguns até crianças. Uma mão toca meu ombro.

- O que fazes aqui amigo, podemos lhe ajudar? – Disse um homem calvo, com bigodes acompanhado de Jacques.

- Me desculpe, estava de passagem, trabalho para um jornal.

- Jornal? Tu  de brincadeira comigo Jacques?! – Disse se voltando para o negro ao seu lado.

Nom sabia, eu nom sabia que era jornal.

Porra cara, está querendo me foder? Porra cara!

Jacques estava nervoso, não de raiva, de nervosismo, parecia temer algo e gesticulava com as mãos, pedia que o outro homem se acalmasse e transpirava mesmo com todo frio que fazia aquela manhã.

Eu não sabia o que dizer, mas imaginava o que passava por suas mentes exaltadas. Aquele homem decerto empregava vários imigrantes naquela fábrica, na sua maioria ilegais, explorando-os acima de qualquer lei e Jacques, o pobre temia pelo emprego dos seus companheiros.

- Jacques fala, Jacques pede para falar.

- Falar... é bom que fale ou nunca lhe vi antes seu senegalês duma figa!

Jacques pediu para que conversássemos, fomos até a esquina. O sol tocava a sua pele negra, iluminava seus olhos amarelos afligidos de uma preocupação, suas mãos ainda suavam, sua testa se desdobrava em rugas de aflição...

- Jacques tem esposa em Haiti, também filha doente. Também amigos de Jacques da fábrica tem família em Haiti.

Sua pupila se debatia, parecia faltar espaço, queria fugir do olho que a conservava...

- Trabalha em fábrica pra trazer família pra junto, para morar aqui com Jacques.

Me sentia culpado, culpado de uma culpa que ainda não entendia, mas o fato da filha... Jacques também tinha uma filha e doente, assim como Júlia, e assim como eu lutava para tê-la por perto... Me perdi, me sentia enfermo, o sol que tão sutilmente tocava os olhos daquele homem me dava náuseas agora.

- Entendo Jacques, não se preocupe - e saí, tão rápido que em pouco os gritos do calvo da fábrica que pedia que voltasse em meio a alguns palavrões se emudeceram aos meus ouvidos.

Fui ao hospital ver Júlia. Teu sorriso, teu cheiro tão doce e voz tão macia me fizeram recuperar os sentidos. Minha pequena, minha pobre pequena! Tão poucas chances terá não encontrar um doador. Me viu chorar pela primeira vez... 

Penso que será uma excelente matéria, estamos ansiosos para publicá-la no jornal.
Ressalto que o texto deverá ser entregue o mais breve.

Att,

Eduardo, Editor Chefe Alerta Capital

Ao anoitecer dei fim a minha estadia no Copa Hotel e então tomei um táxi.

Cogitei que me esperassem, mas creio que suas esperanças eram poucas, talvez aguardassem uma visita para me oferecer estadia, mas certamente não que bateria a sua porta pedindo abrigo, ainda mais com um emprego em vista. Meu sogro sorria e não conseguia disfarçar, de certo não por minha resignação, mas pelo prazer de me ter em sua casa, e pedindo, assim como sua arrogância entendia que deveria ser.