terça-feira, 8 de abril de 2014

Choque - Caio Machado

Tomava banho avidamente e vangloriava-se da última noitada que teve com Sofia. Segurava seu membro veemente e com a mão esquerda girou a torneira para desligar o chuveiro. Uma corrente elétrica atravessou seu corpo. O chuveiro não era aterrado e ele já não se lembrava. Sentiu um fio elétrico cortar sua barriga e percorrer toda sua região peniana. Soltou o pênis de súbito e quase escorregou no chão do banheiro.

Recuperou-se do susto e desligou o fluxo da água segurando a torneira com sua toalha. Enxugou-se desacertadamente e se vestiu com o corpo ainda úmido. Foi urinar e o membro flácido retorceu-se fazendo com que ele molhasse toda sua calça jeans. Já não sentia mais o pênis entre as pernas. Tateou-se desesperadamente e não conseguiu sentir nada além da pele que seus dedos tocavam. Trocou de calças e correu até a junta de saúde do quarteirão de baixo.

O urologista disse que a sensibilidade foi perdida pela descarga elétrica e que por sorte o canal urinário não havia sido deteriorado. O tratamento de reversão lhe custaria cerca de cinquenta mil reais, e apenas um de dois pacientes havia sobrevivido ao procedimento, considerado altamente arriscado. Ele não conseguiria pagar. Recomendou-lhe que tivesse paciência com a situação e até indicou um grupo de apoio da igreja protestante.

Recorreu à pornografia pesada por várias horas a fio. Assistiu aos vídeos caseiros feitos com suas colegas de trabalho em festas da firma. Tentou pornô gay, necrofilia, scat, tortura, zoofilia. Nada feito. Na farmácia cantou a atendente e nem isso o estimulou. Ingeriu uma cartela inteira de Viagra. Lembrou-se de sua primeira vez com sua prima caçula na fazenda. Nada funcionou.

Acendia um cigarro e o esmagava contra o cinzeiro. Não sentia mais vontade de fumar. Estava ciente de ter destruído a sua única razão de existir. Sentia-se um eunuco deprimido. Imaginava seu pênis sendo guilhotinado por um cortador de charutos enferrujado a todo o instante. Tentava dormir, mas não pregava os olhos. Enfiava a mão dentro do zíper e sentia novamente sua mão tateando aquele membro lânguido e gelado.

Ligou pra Sofia e aos prantos criou coragem para contar. Ela gargalhou bastante e entendeu aquilo como uma nova fantasia dele. Aos soluços ele só conseguia dizer para que ela viesse até sua casa. Ingeriu todo o resto da garrafa de conhaque e afundou-se no sofá. Aguardou de luzes apagadas e parecia para ele que cada segundo estava perdurando por vários anos.

Viu o corpo despido de Sofia e percebeu que uma enorme excitação preenchia todo seu corpo. Suava frio, pois a única parte essencialmente necessária estava intacta e estática. Apertou seus dedos contra as nádegas de Sofia e a puxou para perto de si. Nada aconteceu. Sofia abaixou-se pelo seu corpo e colocou o membro dele em sua boca. Insistiu muito até salivar e levantou-se da cama vestindo-se constrangidamente. Ele estava arruinado.

Ainda nu, enfiou o pênis dentro do aquário de seu peixinho betta. Esperava de verdade que fosse atacado e mordido. A criaturazinha azulada reduziu-se a esconder no fundo rochoso e falso do vidro cheio d’água fétida. Esmurrou o aquário espatifando-o e assistiu com desdém o pobre animalzinho se debater até morrer no imenso carpete da sala.

Acendeu o isqueiro embaixo de seu saco e viu as gotas de sangue pingar e sentiu o forte cheiro de pele queimada. O odor não lhe parecia tão ruim. Não havia mais nada a fazer, ele já não sentia absolutamente nada ao redor de sua virilha. Pensou em fazer um empréstimo. Pensou em se matar.

Atirou-se do terceiro andar do prédio de seus pais. Quebrou três costelas e não morreu. Regozijando-se conseguiu colocar a mão dentro de sua calça. Sentia novamente o sangue quente fluindo e percorrendo o interior de seu pênis. O choque em sua costela havia reanimado seu falo desfalecido. Desmaiou de dor e não se sabe ao certo se ele acordou.

Frutal, 04/05/2013

quinta-feira, 27 de março de 2014

Retrato - Henrique Donancio

De vô para neto.

     Otaviano sentou-se ao meu lado espiando o que fazia...

     Era um garoto curioso, tal como o pai, e igualmente tímido. Ficou a me fitar com seus olhos grandes e claros, pintados com um verde sujo de amarelo tais como os meus, escondidos entre a pele flácida que o tempo me trouxe. Porém suas mãos não escondiam a vontade de tocar no objeto que estava a manusear, os seus dedos se mexiam em movimentos sutis e sutilmente deixando a sua vontade transparecer. Em algo lembrava a mim, mas seus cabelos ruivos lhe deram o que de mais maravilhoso havia nesse mundo, tal como uma pintura pintada abstratamente era essa quebra cabeça de informações que compõe um indivíduo e o lastra as suas origens, e diz ao mundo filho de quem o é, seus olhos e cabelos o definiam bem.

     - O que você está fazendo vovô? – Perguntou-me curiosamente. Deixei-lhe pensando e não o respondi.

     Daí então engoliu um pouco de sua saliva e pôs sua cabeça frente ao objeto, ocultando-o de minhas vistas.

     - Filha, vai ver teu irmão e não o deixe incomodar seu avô – Disse a mãe.

     Até poderia lhe talhar alguma explicação, mas não seria suficiente compreensível e mais tarde teria de lhe fazer novamente, não daria nos seus dez anos de idade a importância devida a uma câmera fotográfica como aquela que estava em minhas mãos.

     “-Venha Otaviano, vai brincar com teus primos e não incomode mais o vovô”. Disse sua irmã, minha neta Bruna.

     Como era bela! E eu que achava que nunca colocaria os olhos em algo tão belo como minha filha, me surpreendo todos os natais com o seu crescimento e beleza. Os mesmos cabelos ruivos da mãe, e os olhos meus, mas diferentes dos de Otaviano, eram moldados na rígida delicadeza da outra metade do seu quebra-cabeça, encaixado perfeitamente, montando aquela figura que parecia tão decidida sobre si. Veio a ter comigo.

     - Tome, já não se faz uso aqui em casa. – Então Bruna me olhou com um olhar surpreendido.

     - Mas vovô, é tão importante essa máquina pra ti, porque se desfazer dela, suponho que não a tenha com tanto apego.

     De fato era uma máquina muito importante e realmente minha neta se cansaria logo após que sua empolgação cessasse. Era uma velha máquina de fotografias Polaroid que comprei ainda na adolescência, nada comparado ao que ela trazia no bolso, mas infinitamente mais material.

     - Seu velho avô ainda é de tempos onde se ouvia discos em vinis e fotografias eram tiradas por máquinas como esta minha filha, sei que o instantâneo não mais é ver a imagem assim que se aperta este botão, mas que todos a vejam, mas mesmo assim peço que a experimente.

     Ela pareceu assentir, visto que percebeu parecer indelicado de sua parte não o fazer.

     Por mais que relutasse era realmente difícil me desfazer de um objeto se não tivesse a certeza que minhas palavras eram apenas uma desculpa para que ela aceitasse meu presente, pois sempre que vinha me visitar notava sua curiosidade e em algumas ocasiões até pediu que a usasse.  Se havia um pouco de sinceridade neste meu presente, era que já não mais fazia uso a mim, e isso me acalmava.

     Levantei-me enquanto ela contemplava seu presente e me servi um pouco mais do peru e das uvas passas.

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De pai para filho

     Todos os anos religiosamente voltávamos ao Rio Grande do Sul para passar o natal com meu velho pai. O clima serrano me agradava e as crianças sentiam-se felizes em estar com seus primos.

     Quando chegamos de volta a nossa casa, pude perceber a alegria de Bruna com o presente que ganhara do avô. Creio que o gosto por retratar o mundo tenha sido herdado de meu pai, passando por mim sem nenhum vestígio. Fotografamos durante todo o fim daquelas férias.

     Ainda na adolescência comprara a máquina como me contara um dia, e tal como Bruna fotografava tudo o que lhe marcasse de alguma forma, com certo critério, ele pois o salário era escasso e filmes naquela época custavam um bom valor, já ela por sua vez, pela dificuldade de encontrá-los.

     Meu velho pai trabalhou bastante até conquistá-la. Aos doze anos labutava na mercearia do bairro só para ter aquele objeto, o que não me admira, os tempos eram outros, as crianças eram crianças por menor  tempo e não que meus avós lhe dessem de menos, a questão é que ele queria mais.

     O fato é que com o passar dos anos, o gosto por aquilo virou vício e fotografar era parte de sua vida tal como conversar com os amigos, ir ao cinema e bailes, ou algo de mesma natureza, tanto que mais tarde foi ter com o dono do primeiro comércio especializado em fotografias na cidade, era então contratado como revelador de filmes.

     Por mais inusitadas fossem as histórias que me contara, era uma profissão divertida. As pessoas, na medida em que as máquinas foram ficando mais acessíveis, traziam-na mais e mais dentro de suas intimidades, e se viam constrangidas somente ali, na hora em que teriam de revelar, antes a um desconhecido.

     O meu velho pai acabou por conhecer um pouco da vida privada de cada habitante daquela cidade que possuísse uma câmera fotográfica. Sabia de um pouco o que cada um guardava, mas sempre ignorava ao tratar delas. A fotografia lhe rendeu tanto, que aos finais de semana, já não se dispunha a si, passando a frequentar parques e eventos da cidade, fotografando quem lhe pedisse uma foto. Todos passaram a lhe conhecer e creio que fora o primeiro fotografo profissional da cidade.

     Numa manhã de segunda-feira, foi que algumas fotos lhe surpreenderam. Naquela época, por vezes ás pessoas fotografavam e se esqueciam dos filmes até que um novo evento surgisse, então, levavam seus filmes usados para que lhe fossem revelados e adquiriam outros.

     Meu pai começou a revelar um bocado de fotos em que meu avós apareciam. De fato ele ficou muito surpreso com aquilo, ora pois, pensou consigo “como esse mundo é pequeno”. Mas as fotos mesmo naquelas circunstâncias deviam datar ao menos alguns oito anos pois, não se lembrava de ver seus pais saírem para bailes tais como as fotos revelavam, ou então, era muito novo a época, o que se justificava pela jovialidade de seus pais nas imagens. Ficou admirando cada foto nova que punha no varal, a beleza e a delicadeza de sua mãe, o vigor e a estima de seu pai enchiam-lhe os olhos.

     Sua curiosidade aguçou, tinha de conhecer o dono daquele filme e pediu para que lhe dissessem que viesse pegar as fotos de suas próprias mãos. Talvez fosse um velho amigo de sua família que voltara a cidade, ou algum parente que não conhecia, mas certamente era um daqueles presente nas fotografias.

     Ás dezesseis horas daquele dia, tal como combinado, adentrou ao estabelecimento um homem, com os mesmos olhos verdes que os seus, um caminhar cansado e assustado, mas não o reconheceu. Pediu das fotos, perguntou-se lhe tivessem dado salvação após tantos anos guardadas, meu pai o respondeu assertivamente e as lhe entregou num pacote, então perguntou quem era aquelas pessoas, mas o homem não quis lhe responder, pagou e lhe deu de costas.

     Mais tarde, já em casa, jogou cópias daquelas fotografias sobre a mesa, pois a princípio queria dar aos pais como presente, mas a sua curiosidade falava mais alto agora. De fato eram todos eles nas imagens, durante um baile de formatura, seus pais e seus tios com alguns outros amigos. Perguntou então porque se aquele senhor era seu tio lhe dera então as costas naquela tarde, o que havia acontecido afinal?

     Sua tia então respondeu: “É seu pai meu querido, e sua mãe morreu seis meses depois, no parto”.

............

     Bruna não se conteve ao fim da história... escapou-lhe do seus verdes olhos uma lágrima.




segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A Fotografia - Paulo Cesar Corrêa

    Começo dizendo que este é um pequeno relato sobre a minha vida. Talvez seja algo muito pessoal, mas tenho de escrever, nem que seja para que as memórias se materializem em letras numa tela de computador.
    Sobre o criado mudo, ao lado da minha cama, tenho um pequeno suvenir de um pedaço da minha história que deduzo ter sido o mais feliz.
    É uma fotografia...
    De Letícia.
    Ela está de costas, um forte ao fundo, a água da praia roçando-lhe nos quadris, o cabelo esvoaçando ao vento. Não posso ver, mas sei que ela tem um sorriso no rosto. Primeiramente tímido, depois uma curva meiga — até mesmo sensual — que lhe empresta uma beleza radiante à face. É uma foto antiga e quando a examino de perto, vejo uma mancha marrom-escura no canto superior direito, cortesia de uma espanhola louca que tentou tacar fogo na foto, muitos anos atrás.
    Seguro a foto, só por um instante, e lembro-me de tudo, nos mínimos detalhes:
    (...)
    Quando eu tinha 15 anos, sonhava em ser fotógrafo e viajar pelo mundo.
    Estávamos nas férias de dezembro, em Cabo Frio, eu e minha família. O sol ardia, inclemente, e o vento litorâneo trazia o cheiro de sal para o continente.
    Todos estavam sob guarda-sóis, esparramados em cadeiras de praia, tomando água de coco ou comendo camarões. Meus pais e meu irmão não pareciam se mover, alheios a tudo o que acontecia ao redor.
    Aquilo tudo parecia chato para mim. Eu havia visto uma loja de máquinas fotográficas perto de onde estávamos e não perdi tempo. Fui até lá, a passos largos, indo ao encontro do meu sonho. A máquina da vitrine que eu nem sabia a marca. A máquina que eu não fazia ideia do preço, nem de como se usava. Ela estava lá, me seduzindo, chantageando-me, chamando-me e, aos poucos, minha testa foi-se apoiando ao vidro e comecei a sonhar acordado.
    Não sei por quanto tempo eu fiquei neste devaneio. O que sei foi que escutei uma voz feminina, bem suave e melodiosa, perguntando-me:
    — Você sabe qual é a máquina?
    Afastei minha cabeça e vi o reflexo da menina na vitrine. Ela tinha cabelos negros, lisos em cima e cascateavam, encaracolados, abaixo dos ombros. Os olhos eram como o céu noturno e a pele, leitosa e lisa, refletia a luz do sol. A menina parecia ter a minha idade.
    — Não sei. — Disse, desviando o olhar.
    — Parece uma Nikon D3100 — ela disse.
    — Como você sabe?
    A menina abriu uma bolsa que parecia grande demais para o tamanho dela. Tirou de lá a máquina e me mostrou. Parecia pesar como um tijolo. Mas era bonita.
    — Gosta de fotos? — Ela me perguntou com uma sobrancelha arqueada.
    Simplesmente meneei a cabeça. Nunca fui bom em falar perto de meninas bonitas e minhas bochechas enrubesceram. Mal consigo olhá-la, mas vejo um lampejo de um sorriso, os dentes perfeitamente encaixados.
    Ela suspirou. — Quer que eu te mostre como usar?
    Lembro-me que meus olhos adquiriram um brilho travesso e disse que sim. Que era tudo o que eu mais queria. Ela deu uma risada e disse que se chamava Letícia. Cumprimentei-a, dizendo o meu nome: Douglas. Ela tem as mãos macias, aveludadas e um calor confortável.
    — Você já tirou alguma foto antes?
    — Não — eu disse — Não com uma câmera dessas.
    Letícia resolveu que seria bom que eu tirasse a minha foto na Praia do Forte. Ela me mostrou todas as ferramentas da câmera, dizendo sobre o ajuste da abertura da lente, da velocidade e do ISO. Também me disse que era bom eu ter um ponto de apoio, para que a foto não ficasse tremida.
    — Vai ficar uma foto perfeita — Ela comentou. — Com essa paisagem e tudo o mais.
    — Quase perfeita. — Eu disse. — Precisamos de um tema.
    Fiquei surpreso comigo mesmo quando disse aquilo e vi um leve rubor nas bochechas de Letícia. Um tom de vermelho que me fazia lembrar o blush que minha mãe usava.
    Ela contestou, dizendo que não podia fazer isso e ficamos argumentando por algum tempo e a menina, finalmente, acabou cedendo. Letícia tirou as sandálias, pondo os pés delicados na areia compacta. Depois, tirou o pequeno short e a camiseta, revelando um biquíni branco, como o leite. Seguiu em direção ao mar, lentamente. As ondas rebentavam contra algumas pedras. Vários surfistas estavam levando “caldos” vergonhosos e, ao horizonte, o céu se encontrava com a terra num abraço infinito. Ela tentou, em vão, arrumar os cabelos, pois o vento os fazia balançar. Era perfeita, para mim, aquela imagem. Então, ela se virou para trás e me disse:
    — Conte até 35, ok?!
    Virou-se outra vez para o mar. Eu não havia entendido o porquê de contar até 35, mas supus que ela quisesse tempo para arrumar a melhor pose. Ajoelhei-me, fazendo de um dos meus joelhos o meu ponto de apoio.
    Um... dois... três... quatro...
    (...)
    Estou deitado na cama, as persianas fechadas, mas consigo ver o rosto de Alejandra. Uma caixa de pizza está no chão e alguns copos sujos, jogados pelo quarto do hotel. Eu a havia conhecido no dia anterior, num pub em Zaragoza. Espalhadas pelos lençóis da cama estão as fotos de minhas viagens que mostrei para Alejandra. Fotos de Varanasi, Sidney, Montevidéu, Buenos Aires e Paris. Mostro as fotos de um congresso que fui, em Zurique. Outra que tirei de vários skinheads, em Viena. Alejandra observa que não estou em nenhuma das fotos.
    — Eu prefiro ficar atrás das lentes — explico e é verdade.
    Oito... nove... dez... onze...
    Alejandra apoia-se nos cotovelos em cima da cama e encosta-se a mim. Estende a mão até um maço de cigarros Marlboro, pega um e acende. Eu estava cansado e disse que, se ela quisesse, podia olhar as fotos enquanto eu descansava.
    Depois de meia hora, sinto uma cutucada nas costelas. Abro os olhos, atordoado, sentindo o cheiro forte do cigarro.
    — ¿ Esta chica es tu novia, hã? — pergunta, em espanhol. Ela havia encontrado a foto de Letícia na praia. Alejandra queria saber se a menina da foto era minha namorada.
    — No. — Respondo.
    — ¿ Su cohabitación o hermana? — Perguntou se era a minha amasiada ou irmã.
    Simplesmente nego com a cabeça. Alejandra fica a olhar para a foto e para mim. — Creo que ella es tu esposa! — E, depois de falar isso, pega o isqueiro e começa atear fogo na foto. Entro em desespero. Pego as fotos, minhas coisas e saio.
    Quinze... Dezesseis... Dezessete... Dezoito...
    De repente, mando o motorista do ônibus parar e dar meia volta, pois tinha esquecido algo em Jerusalém. Ele murmura qualquer coisa em hebraico, mas não consigo entender. Depois, em inglês, diz que é inviável, pois o risco de ataques dos palestinos é muito grande.
    — It’s really important!— Digo que é muito importante, mas ele nega com a cabeça. Desço do ônibus, determinado a não deixar nada para trás.
    — What is so important? — Ele me questiona enquanto pego minhas malas.
    — Uma fotografia.
    Eu a tinha esquecido na recepção do hotel, pois havia tirado da minha carteira, para olhar e, por alguma razão, não devolvera ao lugar. Quando cheguei, a fotografia ainda estava sobre a poltrona de couro. Fiquei aliviado. 
    Vinte e sete... vinte e oito... vinte e nove... trinta...
    Em Pequim, durmo sob viadutos. Amsterdã, num albergue junto com viciados em LSD. Às vezes, esbanjo um pouco e vou para um hotel, tomar banho e fazer a barba. A fotografia sempre comigo.
    No Minato Mirai, em Yokohama, vejo o sol se por, deixando um reflexo chamejante nas águas do Pacífico. Conheço dois alpinistas que escalaram o Everest, no Nepal. Recuso uma refeição de insetos, na Tailândia.
    Em Los Angeles, vejo as estrelas brilharem. Em Montreal, tremo com o frio da noite, mas o pensamento daquele dia ensolarado numa praia de Cabo Frio me aquece e consigo dormir.
    Trinta e um... trinta e dois... trinta e três...
    Acordo num lugar que me parece ser um hospital. O ar está pesado e cheirando a remédios. Um ventilador de teto mal refresca o ambiente e, pelos murmúrios ao redor, sei que muitas pessoas estão esperando para serem atendidas. Pergunto para um enfermeiro onde estou e ele diz, em urdu, que estou na Somália. Pela sua vestimenta, sei que ele é um muçulmano e, depois de um tempo, pergunto o que estou fazendo naquele hospital.
    — Malária. — Ele respondeu. — Mas se Deus quiser o senhor ficará bem. Allah u Akbar. — Ele diz que Alá é grande, em urdu.
    Pergunto sobre as minhas coisas. Que coisas?, pergunta o muçulmano. Todas as minhas coisas sumiram. Minhas roupas, máquina fotográfica, meu dinheiro. Tateio o meu bolso e suspiro. A foto ainda está lá.
    — Quando eu vou sair daqui?
    Ele olha para baixo e diz que, provavelmente, eu não saia.
    Pego a foto. Letícia, seu cabelo esvoaçado, os pés descalços, o biquíni branco. O Atlântico furioso, lançando ondas espumantes contra as pedras. O forte. Sinto um nó na garganta. “Não quero morrer aqui”, pensei, “longe dela”.
    Passa-se uma semana e melhoro. Os remédios respondem bem e recebo alta.
    Vou à Irlanda, Noruega e Dinamarca. Ando nos belos ônibus avermelhados de Londres e nos riquixás coloridos de Nova Délhi.
    Só então, finalmente, volto para casa.
    Trinta e quatro... trinta e cinco.
    Clico no botão e a foto é tirada.
    (...)
    Não sei o que dizer dos meus sentimentos sobre a menina da foto. Nunca mais a encontrei depois daquelas férias de verão e admito que foi minha culpa. Eu devia ter dito alguma coisa, qualquer coisa que a fizesse saber que ela era importante para mim. Mas não fiz.
    A história está chegando ao fim. Desligo o meu notebook e me levanto da escrivaninha. Minhas costas doem. Como doem!Deito-me na cama e passo os lençóis por cima de mim. Neste momento — sempre neste momento — tudo vem para mim com uma força colossal: eu estou com a máquina nas mãos, Letícia está tirando as sandálias, lentamente, como se fosse numa slow motion. Tira o short, a camiseta. Seu andar é sublime. Ela põe os pés na água. Um pelicano voa ao horizonte e vários pássaros marinhos alçam voo ao mesmo tempo, formando um imenso V no céu. O biquíni branco parece ser algo celestial, os cabelos de Letícia se agitam. O farfalhar do vento é como uma música. Sim. Uma música. E lá em cima, perto das nuvens, uma pipa plaina, suavemente. As águas já batem nos quadris dela e, então, estagna. Letícia se vira e me pede para contar até 35. Eu conto, tiro a foto e ela volta para mim. Sorri. Põe a mão direita na minha face e, inclinando-se um pouco, me dá um beijo agridoce.
    É com esta sensação que fecho os olhos, vagarosamente, e durmo.







sexta-feira, 17 de maio de 2013

Download do Livro Corsário Solitário

Acabo de lançar meu primeiro livro em formato digital. A obra Corsário Solitário trata-se de alguns textos que escrevia anos atrás em um blog e que resolvi unificar e transformar em livro. A arte da capa foi feita pelo meu grande amigo e designer Rafael Maciel. A revisão da obra foi feita de maneira colaborativa por amigos e familiares. O grande mérito da produção do livro foi o aprendizado e a experiência adquirida ao revisar e diagramar todo o material. Devo um enorme agradecimento a todos os envolvidos nesse projeto. A seguir o link para download:

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Um borrão preto percorria aquele marrom intenso - Caio Machado



Não esperava nada além do tédio. Anualmente nos encontrávamos na casa de Rodolfo para celebrarmos a existência de nossa família. Ou algo relacionado à união dela, que eu particularmente não conseguia notar. Rodolfo Couto era o quinto irmão de meu pai. Sete anos mais novo do que ele, fez carreira militar no Rio de Janeiro e se casou bem moço. Não fosse pela suposta união da família ele jamais teria retornado para Maringá, onde o resto todo dos Couto ainda residia. O casarão que ele morava ocupava uma área nobre da cidade e de comum acordo de todos era o melhor lugar para sediar a celebração. Chacotas e bajulações à parte, o que mais me agradava nisso tudo era a comida em abundância e em estrondosa qualidade. As enormes panelas postadas no forno à lenha davam um ar mineiro. O bucolismo existia pelo fato que a festa ocorria sempre no enorme quintal do casarão. Infelizmente, o almoço só seria servido às quatro da tarde e no decorrer do dia beberíamos e comeríamos alguns petiscos.
Mônica Kaneshiro era a esposa de outro tio meu. O casal vinha do Japão, de onde não regressavam desde 1997. Mônica entrou na casa acompanha de Fausto Couto e de uma moça que até o momento eu sequer sabia sobre sua existência. Aparentando seus dezoito anos, a garota tem o cabelo negro azulado em um liso irregularmente ondulado. Os traços do rosto são bem arredondados e orientais. Os olhos eram bastante puxados e grandes, protegidos por uma estreita e corredia sobrancelha. Os lábios eram curtos e rosados. Seu corpo tinha curvas sinuosas o bastante para que a moça pudesse ser confundida com uma típica brasileira formosa. Senti-me estupefato com o ar indiferente que ela carregava e com sua beleza desnorteante. Dei-me por convencido de que iria conhecê-la naquela tarde. E não perdi um segundo sequer. Após todos cumprimenta-los tratei de encaminhá-los pelo casarão arranjando-lhes um lugar um pouco mais isolado de todos. Sentei-me junto ao trio à mesa. Tio Fausto estava satisfeito com a atenção que eu prestava a eles. Parecia que eu era o único ali interessado em conversar com eles, o que de certa forma os agradava muito. Mônica era mais reservada, limitando-se a apenas responder o que eu perguntava e a sorrir quando necessário. A garota não deu um pio e olhava para os lados frequentemente. Seu nome era Clarice e ao nos apresentarmos ela me fitou de maneira tão fixa que senti um estranho desconforto. Contei para eles que abandonei a faculdade de Física quando recebi uma proposta de trabalhar como gerente de uma agência de encomendas e eles ficaram surpresos. Não dei maiores detalhes, mas a partir daí Clarice não desgrudou mais seus olhos de mim. Ela disse que iria até a cozinha buscar algo para beber que lhe agradasse e eu decidi acompanha-la. Novamente a satisfação evidenciou-se no casal e eu de certa forma senti que isso representava um sinal verde para nos dois.
No caminho até a cozinha, ela não disse nada. Entrou pegou um copo de limonada na geladeira e misturou com um chá mate que estava em outra jarra. Limitei-me a segui-la com um copo de refrigerante. A garota andava de forma majestosa e pausada. Ou eu estava bastante apaixonado ou seus pés que calçavam um par de sandálias fechadas mal tocavam ao chão. Ao invés de voltar para a mesa de seus pais ela sentou-se em uma mureta próxima a área de serviço da casa e me perguntou se eu queria saber por que ninguém a conhecia. Rapidamente ela se corrigiu dizendo que todos fingiam não a conhecer. Demonstrei interesse e acenei com a cabeça dizendo que queria saber mais sobre isso. Ela não me deu um detalhe sequer de sua vida. Disse-me apenas que ninguém da família tem fotos dela e que alguns prefeririam que ela nunca tivesse existido. Contou-me que nos anos que passou no Japão desenvolveu uma doutrina própria onde era necessário estender um lençol lilás por sobre todos os móveis da cozinha para que sua crença se estabilizasse. Além disso, sete contas feitas com bordado e conchas do mar deveriam estar ao redor de todos os vasos sanitários de sua casa. Feito isso ela atingiria seu singular nirvana num transe excêntrico e solitário, pois claro, só ela seguia sua doutrina. Naquele momento eu estava de fato fascinado com tudo aquilo que ela me dizia, mas meu interesse maior era apenas carnal. Ela me prendia pelo seu jeito único e claro, pela sua inalcançável beleza.
Repentinamente seu olhar se tornou estático ao notar que um gato caminhava pelo muro da casa. A parede era repleta de lodo e folhagens, o que sugeria um aspecto bem gótico e assustador. Aquele gato branco se arrastava suavemente pelas relvas. Como que se recitasse uma oração Clarice sibilou algumas palavras que remetiam a elegância e discrição do andar dos gatos. Algo sobre como eles sobreviviam em qualquer situação e repetia firmemente que viver pensando só em si próprio era a melhor qualidade que o homem poderia ter para si observando o estilo de vida gatos. Assim que o bichano pulou para a rua ela saiu de sua súbita hipnose e me disse que no seu bolso se encontrava a única foto que havia sido feito dela. Com sua pequena mão esquerda ela retirou um recorte amarelado de jornal e me entregou com um bizarro sorriso no rosto. Um torcer de lábios de um mistério tão vasto que só se via algo similar no quadro da Monalisa ou algo que o valha. A notícia do jornal era sobre o massacre de crianças em uma escola primária no Japão. A assassina era Clarice Couto Kaneshiro, que na foto carregava uma submetralhadora, trajava um uniforme escolar escuro e não ilustrava nenhuma feição em seu rosto. As cores gritantes e o mau gosto evidenciado pela escolha da foto acusava o caráter sensacionalista do jornal que noticiou o ocorrido. A nota curta não dava muitos detalhes e limitou-se a comparar a garota com os jovens assassinos do massacre de Columbine. Aquele foi o único jornal brasileiro a relatar o ocorrido, no Japão a imprensa foi totalmente barrada. Por incrível que pareça a notícia não me chocou nem um pouco e o sentimento que ardia em meu peito incrementou-se ao olhar novamente para Clarice após ler o jornal. Meu coração parecia que iria explodir, eu nunca havia sentido isso por ninguém. Clarice notou o que eu estava sentindo e se aproximou de mim. Nossos lábios se tocaram por automatismo e ela não se mostrou evasiva. Beijamo-nos longamente e ela não hesitou.

            (...)

Clarice tomava seu chá gelado. Seus colegas de classe preferiam café. O gatinho marrom de Clarice se chamava Sembe. Já era habitual que o felídeo ficasse aos seus pés enquanto ela tomava seu chá. Por estranhar tanta gente na cozinha o gato deitou-se ao lado de um dos garotos que tomava café. Katsuhito era um garotinho muito efusivo e adorava traquinagens. Não se aguentou ao ver o gato bocejando de sono e derramou café no dorso de Sembe. O gato estremeceu e num berro de dor se jogou janela a fora num salto imenso. Todas as crianças se esbaldaram em risos de escárnio. Clarice mirou Katsuhito sem qualquer expressão facial. Espatifou sua xícara no chão e vociferou para que todos fossem embora dali.

 (...)

Clarice contou-me que após o ocorrido passou sete anos internada em clínicas, submetida a intensas sessões psicológicas perante ingestão de medicamento pesado. O curioso é que seu tratamento ocorria em paralelo ao de alguns colegas que sobreviveram e também com pais de alguns outros que ela havia assassinado. Ela sorriu sem som e disse que não sabia por que tinha feito aquilo. Disse que encontrou a arma no cofre da casa de uma colega enquanto brincava de pique-esconde. A garota era filha de um oficial, que por distração não havia trancado a caixa no dia em questão. Ela guardou a arma discretamente em sua mochila. Na manha seguinte, entrou na sala de aula e disparou contra alguns de seus colegas. Detalhou que quando atirava a pressão que a arma exerceu contra seu corpo à fez ver intensos clarões lilases e que foi a partir daí que passou a dar vazão a sua própria doutrina. Ela necessitava de sentir aquilo tudo de novo. Voltamos a nos beijar. Dessa vez por decisão minha. Clarice pareceu não estar gostando do rumo que isso estava tomando. Disse-me que assim seria mais fácil e correu para o interior da casa. O sentimento que passava pela minha cabeça é que eu realmente havia estragado tudo. Eu devia ter tentado entende-la, questionando-a mais sobre o ocorrido e sucessivamente mostrando-me interessado. Decidi não ir procura-la por agora e me juntar aos seus pais.
Novamente conversei com Fausto e afirmei que sua filha era uma rapariga muito especial. Ele me retribuiu com um riso sonoro e sincero. Seus olhos realmente brilhavam e assim faziam-se também os de Mônica. Um calafrio percorreu minha espinha, pois pela primeira vez naquela tarde passei a suspeitar de algo estranho, já que o casal trajava roupas com os mesmos tons escuros que os do uniforme usado pela filha na manhã do massacre. Tornei a mesa onde se encontravam meus pais e recordei-me amargamente do hostil terreno de “união” no qual me encontrava. Era evidente que todos ali buscavam apenas a herança de meu avô. O patriarca Dantas Couto já andava com um pé na cova. Dividir os bens com catorze filhos com certeza não será uma tarefa simples de resolver. Pra piorar o velho decidiu que sua família não necessitava de testamento já que todos se amavam por igual. Pudera eu me fazer de bobo de maneira tão hiperbólica.
O gato branco regressara ao muro e já era hora do almoço ser servido. O delicioso aroma recendia por todo o jardim. Meu estomago roncava e minha boca estava inundava de saliva. O mais engraçado é que o sentimento de paixão intensificava essa fome de uma maneira muito excêntrica. Eliza Ribeiro Couto, esposa do anfitrião da casa foi quem destampou as desmedidas panelas. Enquanto isso o marido agradecia a presença da enorme família e salientava o quanto estava feliz por ter uma família tão harmoniosa. O senil Dantas sentia-se bastante orgulhoso em sua cadeira de rodas e foi o primeiro a despregar um prato vazio da mesa para se servir. Ao puxar o pesado prato de porcelana um pedaço de papel revelou-se na mesa. A seguir, todos que pegaram um prato tiveram a mesma surpresa. Ao terminar de ler o papelucho, Dantas deixou o prato deslizar de sua mão e inesperadamente desmaiou causando imediata preocupação em todos os presentes no casarão. O velho estava morto. Um longo silêncio percorreu o jardim onde todos agora liam o papel que se encontrava debaixo de cada prato. Tratava-se de cópias do recorte de jornal que noticiava a chacina na escola de Clarice. Era evidente que os papeis haviam sido recortados de jornais, mas tudo soava meio falso, pois não havia nada nas costas dos recortes.
O longo silêncio foi cortado pelo som de passos vindos à direção da cozinha do casarão. Clarice calçava um sapato preto bastante lustrado, uma saia preta de brim e uma blusa azul escura. Tratava-se do mesmo uniforme que a garota usava no incidente da escola e também das mesmas cores que vestiam seus pais. A submetralhadora em suas delicadas mãos também parecia ser a mesma. Sua beleza continuava lá, intacta. Superior. Como se um marcador de livros em um álbum de fotos estivesse sido retirado da última imagem que tive de Clarice. Seus pais já não se encontravam mais na mesa e dessa vez três gatos postavam-se ao muro dos fundos. O gato branco, agora acompanhado de um casal de gatos negros, observava a família Couto por cima da parede. Clarice entrou repetindo uma frase curta de maneira estática e automática. Não parou de proclamá-la nem mesmo enquanto puxava o gatilho e dizimava sua família, que segundos antes a repudiava por provocar a falência de Dantas Couto. Sabia que sua suave voz seria a última coisa que ouviria e sequer senti medo. Que fim melhor todos nós poderíamos ter? A garota alvejava um por um e a assustadora indiferença em seu rosto novamente fazia com que meu coração chacoalhasse em meu peito. Os gatos assistiam ao banho de sangue com intensos miados e pareciam extasiados com um febril brilho lilás que refletia o vitral da cozinha com o clarão dos tiros disparados. Fui poupado pela moça e observava tremendo, o sangue se misturando por todo o chão do jardim. Os gatos se aproximaram e para que não se sujassem de sangue saltavam levemente de corpo em corpo pelo chão. O trio se aproximou de mim, mas logo saíram em disparada quando fui baleado no estomago por Clarice. Sua voz repetia a mesma coisa desde que saiu de dentro da cozinha.

            (...)

Sembe cortou-se ao pular da janela da cozinha, pois caiu bruscamente em cima de uma torneira que ficava no jardim da casa de Clarice. Não resistindo às dores da queimadura e do corte, o bichano morreu ali mesmo. A garotinha o encontrou enquanto ele solfejava seu último miado. Sua dor refletia a mesma dor que a de Clarice sofria por perdê-lo. Um borrão preto percorria aquele marrom intenso.

domingo, 28 de outubro de 2012

Ela será só minha - Caio Machado

Os pingos de chuva coloriam em tons mais escuros do que habituais às calçadas, ruas e pisos por todo o chão. A terra é subitamente umedecida e se torna viscosa, superfícies lisas se tornam escorregadias e perigosas. Meus trajes imundos logo começarão a encharcar e meu vasto e crespo cabelo não absorverá muito da água. A boa notícia é que a tempestade aliviará um pouco do calor e do clima seco deixado em setembro pelo mês de agosto. A má notícia é que eu não tenho teto.
Lembrei-me da ponte situada na avenida que eu saberia o nome se soubesse ler. Pensando bem, ao menos consigo distinguir uma rua de uma avenida. Serão três quadras de um sôfrego caminhar e a probabilidade de meus pertences não molharem e da rua não se inundar é nula. Mais vale um chão seco e duro, do que um chão macio e molhado. Minhas caixas de papelão com meus mantimentos derreterão, mas eu as levarei assim mesmo. Meu cantil já está seguro em meu bolso e um breve gole será um tanto quanto encorajador.
Pés descalços em superfícies alagadas sempre resultam em infortúnios. O primeiro corte foi no calcanhar e o pior de tudo é que eu sempre evitei aquela imperfeição do asfalto. O desespero te confunde e te torna seu pior inimigo, mesmo quando você conhece perfeitamente todo o itinerário a ser seguido. Felizmente meus calos transformaram a sola dos meus pés numa resistente crosta.
Um cão esquelético e ensopado atravessava a rua vagarosamente. A ausência de raciocínio não faz com que a chuva incomode aquele animal errante. Eu provavelmente estou com mais fome do que ele. E olha que minhas costelas nem estavam assim tão expostas. Nem todos os cães conhecem o álcool e seus benefícios relacionados à fome e a dor. Minha luta agora era por um lugar seco para repousar e não por alimentos. Se fosse isso comeria até mesmo aquele magérrimo cachorro.
O sangue do meu calcanhar pintava cada poça que eu pisava. A dor do corte logo foi substituída pela sensação de frio que fazia meu corpo ulcerado tremer. Nas noites frias, as estrelas são como flocos de neve. Naquela noite eu não teria essa singela distração que sempre pulsava congelada no céu. Pior ainda são os banhos que eu sempre tomo por cada carro que cruza meu caminho. Lancei um olhar de desprezo para cada motorista que jorrou água em mim. Praguejei para que seus filhos morressem em uma enchente ou algo que valha.
Queria saber quando foi que o ser humano tomou os mendigos por desalmados e meros objetos de diversão. Garotos que jogam meus pertences em córregos, pessoas que me expulsam de estabelecimentos e já ia me esquecendo dos outros mendigos que roubam minhas moedas na cuia de esmolas. A maldade em si está em qualquer homem, não escolhe a condição em que ele vive. Ao nascer, a sociedade é corrompida pelo homem, e não o contrário.
Minhas únicas aliadas, naquela noite chuvosa eram as marquises de edifícios, que se tornavam praticamente sazonais. Varandas de alvenaria e toldos também são todos bem vindos. Acentuam o frio, mas me deixam menos exposto ao temporal. Árvores são traiçoeiras. Quando não despeja na sua cabeça a água acumulada em suas folhas, estão servindo de para-raios. Evitei todas as possíveis.
Dali já avistava a parte inferior da ponte em que me abrigaria. Ela será só minha. Nenhum dos infelizes que furtavam minha cuia de esmolas estava na área. Aquela ponte era mais suculenta do que um prato feito. Remendava minhas angústias mais do que um trago de conhaque. Superava até o amor materno que nunca tive ao ser abandonado ao nascer. Ela será só minha. Por um instante eu até me esqueci da chuva. Obrigado por me trazer de volta a realidade, trovão.
O maior desafio do trajeto era descer até a ponte. O concreto estava úmido e o lodo se tornou ainda mais pegajoso. Dois passos. Três passos. Ela será só minha. Eu estava quase lá. No quarto passo, o fundo da caixa de papelão cedeu e todos os meus pertences caíram rio abaixo. Dane-se, estou a salvo. Cinco passos, seis passos. Ela será só minha. Já conseguia avistar o local, totalmente seco e mal iluminado. Deitado me imaginava, apenas ouvindo os gritos da chuva martelando o asfalto acima de minha cabeça.
Nem percebi que havia pisado em falso e que agora estava caindo em direção ao córrego. As pedras da barragem me avisaram do ocorrido. A dor na coluna só não é mais gritante do que a dor da fome. Provavelmente quebrei umas sete costelas, quatro dentes e outros inúmeros ossos dos quais eu nunca soube os nomes. E por falar em números, vinte deles serão gastos em minutos para que o nível da água suba e me mate afogado. Nem sequer um velório digno eu terei. Como se algum instante em minha vida paupérrima tivesse sido digna. Amigos e familiares num enterro? Provavelmente a água me enterrará. Permaneço estagnado ao chão contemplado minha última ambição em vida. Ela será só minha.

sábado, 22 de setembro de 2012

O Caso - Henrique Donancio


Parecia um dos casos insolúveis de seriados norte americano, mas era real. Eu e minha equipe há seis meses estávamos exclusivamente dedicados ao caso sem ainda uma pista concreta que nos guiasse a uma resolução, quando então parecíamos próximos de algo, isso se tornava mais longínquo do que de fato era, andava impaciente. A última vítima fora o rico Otávio Medeiros, dono da maior rede farmacêutica da região e como pista apenas um escândalo em 2003 quando então teria sido indiciado por contrabandear e adulterar antidepressivos, anticoncepcionais e remédios para o controle cardíaco. Sem justificativas, duas mulheres o processaram por engravidar quando tomavam do remédio, o problema é que a prova já havia sido consumida, a população ficara desconfiada durante alguns meses, mas brasileiro tem memória curta e atualmente os seus negócios fluíam normalmente. Quando foi encontrado Otávio tinha marcas em suas costas do que parecia ter sido talhado por um salto agulha, estava sem os sapatos e meias e apenas a calça e a peça íntima o vestiam, parecia não haver indícios de qualquer espécie de ato sexual, pedi então que Natasha investigasse coletando amostras de qualquer coisa que houvesse tocado seu órgão, quem sabe vestígios de saliva, pois do contrário tratar-se-ia de mais um crime perfeito do nosso procurado, o sexto.
Uma coisa me deixava confiante em relação ao caso, pois todas as vítimas de certa forma haviam causado algum tipo de dano à sociedade e eram bem sucedidos. Outra coisa me intrigava... Não acreditava por mais que tudo me levasse à constatação de que era apenas um assassino agindo, apesar da brutalidade sempre deixar evidente uma marca pessoal dele a forma como se davam eram opostas a antecessora. Como o delegado da nossa jurisdição que teve o couro cabeludo e crânio cortado em círculo deixando a massa cerebral exposta ou o caso de Otávio, não tinha uma linha a ser seguida, algo que marca um serial killer, uma assinatura deixada nos seus crimes.
- Com licença.
-Entre Natahsa, me traz alguma novidade?
-Analisamos o corpo e o resultado nos indica que a vítima como imaginávamos não chegou a ter relações sexuais antes de sua morte.
-Tem alguma suspeita?
-Nenhuma senhor.
-Obrigado, é só por enquanto.
Maldito seja, até quando e quem estaria a ter tanta necessidade por sangue. Seria uma vingança? Um acerto de contas doentio? Quando ele iria parar? Maldito seja!
-Com licença senhor, o prefeito está na linha.
-Pois não senhor.
-Espero Charles que dessa vez me traga uma solução, já basta seu cretino, é ano de eleições ou será que não percebes? Todo meu eleitorado está em prantos, a segurança pública está em risco e o seu maldito departamento está de braços cruzados...
Desligo então, já não mais suporto esse corrupto me cobrando respostas, ainda mais quando possui certa razão.
-Charles, então, muito ocupado?
-Por favor, entre Natasha, são só preocupações sobre esse caso.
-É, ando preocupada também, ainda mais quando se trata de uma sexta-feira treze como esta.
Dou-lhe uma risada. - Então acha que nosso assassino é um mascarado?
-Quando se trata de psicopatia tudo é possível não?
-Sim, mas o que tens a mão?
-Apenas papéis e ingressos para um cinema, que tal?
Eu não deveria, ainda mais quando minha situação com Paula ainda estava pendente. Estava me separando, deixando minha casa e meus filhos. Se não fosse por todos os problemas talvez tivesse recusado o convite.
Parece bom o filme, mas receio que nem nos seus momentos de folga você esqueça que é uma militar. Disse a Natasha já na porta do cinema.
-Na verdade sim, mas é que este tipo de arte me atrai mais que outras, serve-me de inspiração.
-É tudo que necessitamos nesse momento Natasha, este último caso já requer inspiração, uma vez que já não encontro razão.
-É melhor deixar isto cair por hoje, vamos nos divertir e relaxar um pouco.
Natasha era inteligente e uma boa companhia. Calma e com uma voz serena além de muito atraente. Confesso que por uma noite me fez esquecer-se de todos os problemas e isso teria aberto um pouco mais a visão sobre tudo que estava a acontecer. Conversamos bastante logo após o cinema e pude notar que tínhamos alguns suspeitos em comum numa conversa extraoficial. Não pude deixar-lhe de convidar para tomar um vinho em casa ao fim da noite.
Ao fim do expediente fui visitar meus filhos e tomar um pouco de conhecimento do principal suspeito da nossa constatação na noite interior. Era o padrasto dos meus filhos, o homem com quem Paula estava a morar.
Ao chegar notei que todos estavam na sala assistindo TV antes de tomarem seus rumos com a minha chegada. Emanuel era sobrinho da última vítima e também seu sócio nas redes farmacêuticas, estudara medicina. Quando que quase sem a intenção, olhei para a TV e me deparei com a cena em que Lecter retira o couro cabeludo de sua vítima e então prepara seu cérebro. Aquilo me deixou em choque... Teria sido ele que matara o policial, e talvez seu próprio tio, já que se tornaria sócio majoritário com sua morte.
-Esses filmes não são apropriados para as crianças Paula.
-Eu sei o que é apropriado para eles Charles, agora se não se importa gostaria que as levasse o mais rápido, suas visitas andam cada vez mais estressantes e Emanuel anda passando por momentos ruins agora com a morte de seu parente.
Sabia por quais momentos ele andava a passar, mas tentei disfarçar sendo um tanto educado. Disse-lhe adeus, mas não pude deixar de sentir que me andava a fitar com certa obsessão.
No dia seguinte, quando deixei as crianças na escola tomei o rumo da casa de Natasha, tinha de compartilhar minhas descobertas...
-Oi Charles, que surpresa, não estava a te esperar.
-Atrapalho?
-Não entre.
Natasha também era um tanto recatada, cheguei por um instante a achar que não queria minha presença. Foi de certo isso quando nos deitamos e vi algumas marcas no seu corpo, ela teria alguém e eu só servira como distração naquela noite. Ao fim contei-lhe tudo que achava do nosso suspeito e ela pareceu confiante nas minhas descobertas. Cabia a nós agora colher algumas evidências e terminar logo com tudo isso. Trataria de ficar com meus filhos enquanto tudo se resolvia e pedir que alguns de nossos homens rodeassem minha antiga casa a fim de cuidar para que não oferecessemos risco a Paula.
Quando cheguei ao escritório mais uma vítima havia sido achada, e por incrível que pareça a morte teria sido talhada com uma serra elétrica, era o fim da minha paciência e de todos os governantes, agora todos queria a minha cabeça e se não mais pude do que decretar a prisão preventiva de Emanuel enquanto buscava provas.
Fui até a sala de Natasha para lhe pedir que procurasse amostras de DNA nas roupas do nosso suspeito...
“Que bom que temos esse assassino preso”, disse quando noticiei a prisão.
Nos dias seguintes mais vítimas e Emanuel preso. Além do seu álibi, a Paula, na sexta-feira treze. Por mais que guardasse alguma magoa de si, ainda confiava na sua índole. Além disso tinha a vítima com marcas do que parecia ter sido causado por um salto de sapato feminino, as coisas não se encaixavam.
Voltei à sala de Natasha para saber se já me trazia alguma resposta, a situação já era insustentável e minha cabeça já estava por rolar...
Dei-lhe uma carona no fim do expediente, dormimos juntos mais uma vez, conversamos... Nosso único suspeito estava sobre nossas asas quando mais crimes aconteceram e não havia provas nenhuma contra ele. Paula ameaçou entrar na justiça contra mim, talvez por achar que usei minhas responsabilidades para minar sua relação, e de certa forma ela tinha suas razões.
Acordei no meio da noite, andei pela casa de Natasha como um sonâmbulo. Era de certo minha demissão no dia seguinte e isso me tirava o sono. Bisbilhotei seus livros, seus filmes, tudo que me distraísse e fizesse as horas passarem, assim o fiz...
-O que está fazendo acordado?
- Notei que gosta de filmes como aquele que assistimos, os “Homens que não amavam as mulheres”, não era esse?
-Sim, mas não devia mexer nas minhas coisas sem minha permissão. Notei que ela se alterara bastante.
-Desculpe, não foi minha intenção lhe incomodar.
-Saía agora.
Por qual motivo Natasha se incomodara tanto foi o pensamento que me tomou na volta para casa. Parecia ter algum ciúme possessivo com todos os seus pertences, mas não dei tanta importância, cada um com suas estranhezas.
-Senhor, o relatório que me pediu sobre as últimas vítimas...
-Sim, obrigado.
Quando terminei de ler fui até a sala de Natasha.
-Notou que todas as vítimas são judias, como no filme que assistimos?
-Não me dei conta disso.
-Sem nenhuma prova todo esse tempo...
Então ficou em silêncio e quieta, apenas sorriu. Saquei a arma.
Ponha as mãos sobre a mesa, você está presa Natasha.