quinta-feira, 21 de junho de 2012

Monologando sobre a solidão - Henrique Donancio

Não me lembro qual foi a última vez que fiquei um dia sem mandar-lhe mensagens ao celular. Talvez nunca o fiz, pela necessidade de estar presente de alguma forma e também de me acalmar. A falta de notícias, de contato, carregam-me para uma imensidade de suposições que me atordoam. Aonde e com quem você está agora? Apenas sacio esta necessidade doentia quando insisto e descubro que você está no sofá da sala conversando com seus pais.
Já se fazem duas semanas que não nos vemos e toda viagem que temos que nos ausentar por determinados dias me trazem a crença que voltaremos novos, com vontade do outro, mas pelo que parece essa não será diferente de outras idas. Por hoje resolvi fingir não existir, ver se você notava minha ausência, mas já fazem algumas horas de um novo dia e provavelmente já está deitada em sua cama, descansando para tomar o rumo de nossa casa outra vez, e de novo ter que ouvir você talhar desculpas e engolir todas como um filho alimentado por sua mãe. Em alguns momentos perco-me, sinto vontade de jogar tudo que construímos e passamos juntos fora, ver-me livre, noutras apenas a sensação de perca já me basta para desistir.
Me consome um pensamento covarde, como imagino que você o seria. Pedir que não me procure, que preciso de um pouco de paz, que estou cansado de tudo isso, tudo num simples adeus por SMS, pois pessoalmente sempre que tentei lhe reivindicar um pouco mais de atenção ou dizer-lhe que estava de partida, você me fez parecer um idiota, sei que também faltou por minha parte certa convicção, mas esperava que apenas fingisse.
O telefone soa...
“Me ligue, estou com saudades...” – Faço o que me pede.
-Oi, onde você está?
-Oi.
-Onde você está? Pergunto-lhe insipidamente.
-Nossa! Como sempre né Guilherme! Olha eu ligo, mando mensagens, faço questão e você ainda me trata assim, nunca está bom, nunca... Eu estava lá embaixo com as gurias e deixei o celular no meu quarto, quando voltei vi suas ligações... – Então desligo.
Mais uma vez meus ciúmes doentios... Tento ligar os fatos, as pessoas, tudo que havia contado nos últimos dias e parece tudo fazer sentido até que minha insistência faça parecer que algo está errado. Fico abatido então, sei que errei e por isso você vai se isolar, outra vez pareci não confiar, não acreditar...
Nas semanas seguintes parecia conversar comigo quase por obrigação, como sempre fazia, e isso me atordoava mais ainda, essa incessante ideia de que tudo deveria ser intenso e sempre intenso, talvez por de certa forma tentar alçar isso, por querer sempre melhorar coisas que só funcionam com seus defeitos, como aquele liquidificador que trouxe de minha antiga casa, que só ligava quando o cabo de energia ficava enrolado em sua base.
Decidi então que precisava de um tempo para mim, ou acabaria por te perder.Liguei para o Daniel e perguntei-lhe de seu avô, que há tempos atrás viera me falar de sua solidão, peguei todas minhas economias e fui rumo ao Uruguai, para o sítio do velho que apenas vira uma vez na vida, através  do amigo que conhecera assim que chegará ao sul. Dizia ele que o velho gostava de uma boa companhia, pois alguns anos atrás sua parceira de quase uma vida falecera de um câncer que lhe tomara os pulmões.
Quando cheguei ao sítio o velho me mirava com uma espingarda que mais tarde me contou ser lembrança sua de caçadas noutros tempos. Só a abaixou quando consegui falar-lhe com meu portunhol muito mal elaborado que era amigo de seu neto. Era uma figura exótica dos quais me habituara durante os anos de vida, simples e sempre sorridente. Ainda tinha muitos de seus fios que um dia creio que foram negros sobre o couro de sua cabeça, também um bigode e uma cicatriz ainda de um vermelho vívido no supercílio. Perguntei-o onde a adquiriu e ele me disse que foi numa pescaria. Tive a impressão que não a conquistou lidando com a pesca.
Duas semanas se passaram...
O velho se chamava Abelardo e em pouco tempo lhe confidenciei muito ao meu respeito como também o fez. Contou-me sobre a perca de um dos filhos e como sua esposa morreu. Abelardo esteve por um tempo em Cuba pois era um aspirante comunista e queria ver de perto como funcionava o regime da família Castro, logo após a estabilização dos rebeldes no poder. Gostava de tragar alguns cigarros e então despertara o interesse pelos charutos cubanos que dizia ele se envergonhar pois aquilo não tinha a alma caribenha e sim o suor. Fumou demasiadamente por muitos anos, algo que compartilhou com a esposa até o fim da sua vida, após isso largou o vício e dizia arrependido de um dia ter oferecido a amada o primeiro trago. Contou-me sobre o que aprendeu da vida e como estava a desperdiça-la no seu restante. Parecia ter retirado com suas mão manchadas pela idade todos os meus devaneios, algo que consegui me desapegar somente dois meses após.
Quando tornei a cidade que passara os últimos anos mais felizes de minha vida ao lado da mulher que julgava ser capaz de estar ao lado até o fim da minha existência, soube que ela se cansou da espera e falta de notícias minhas, em tão curto tempo. Havia desistido, sofreu com meu desaparecimento, se perdeu em algumas noites entre copos e outros corpos, mas que ainda assim andava a voltar para casa sozinha, ainda guardava o lado esquerdo da cama a espera que eu voltasse, cinco meses haviam se passados desde a última vez que lhe pusera os olhos. Aquilo tudo me tomara em angustia, talvez o melhor seria deixar tudo como estava, pensei então em ficar e continuar com minhas ambições mais singulares, talvez esquecê-la...
Quando amanheceu tomei o primeiro ônibus para Porto Alegre, afim de seguir em outro para uma pequena cidade em meio as Serras, trataria de trazê-la, ou mesmo ficar se isso lhe fizesse mais feliz, e se ainda me quisesse.


domingo, 17 de junho de 2012

Um dia e nada mais - Caio Machado

Disseram-me que aquela era a única pessoa na cidade capaz de realmente lançar um mal olhado em alguém. Recorrer para macumba para dar um fim no amante de minha mulher. Em que ponto foi chegar essa situação? Eu poderia tentar outros métodos, aliás, já tentei, mas nada funcionou. O pequeno escritório daquela mãe de santo ficava dentro da galeria central e cheirava a incenso barato e sabão em barra. Seus cabelos negros eram encaracolados e desgrenhados. Sua fala era longa e arrastada. Após nos cumprimentarmos disse sem rodeios para que ela desse um sumiço daquele rapaz na vida de minha esposa. Ela paulatinamente disse ser impossível conseguir que ele se afastasse dela por algo mais do que um dia e eu reclamei dizendo que um dia não mudaria em absolutamente nada. Por trás daqueles olhos castanhos escuros eu percebia de que algo ali estava bem errado. Ou ela conseguia sim se livrar do amante de minha mulher ou ela não passava de uma charlatã tentando me convencer de que é capaz de tal feito para apenas extorquir meu dinheiro. Mesmo tendo sido extremamente recomendada por pessoas de minha confiança, não conseguia entrar em um consentimento com a bruxa.
Ela insistia na ideia de que poderia afastar a pessoa por apenas um dia e que nesse curto período de tempo minhas atitudes sim, seriam definitivas para que mudanças a respeito da infidelidade de minha esposa fossem tomadas. Discordei novamente dizendo que se só isso resolvesse eu mesmo daria um sumiço naquele infeliz por vinte e quatro horas. Pedi para que ela o mandasse para o Recife ou mesmo a China. Só bastava que ele desaparecesse por completo, não se tratava de tirar a vida daquele homem. Meu amor por minha mulher já aceitou a traição, não custaria muito perdoá-la após ele partir. A macumbeira não se deu por vencida e continuou na mesma ladainha. Aquela saliva grossa que saltava de sua boca ao dizer sílabas carregadas me enojava cada vez mais.
Não me dei conta de que havia perdido toda à tarde naquele lugar sem nada ter resolvido e decidi largar mão disso tudo e partir para minha casa. A senhora me jogou um sorriso de lado bastante pejorativo e disse que no dia seguinte ela resolveria meu problema. Novamente a sensação de estar sendo passado para trás me ocorreu, mas agora eu já não tinha mais nada a perder. Ao chegar em casa, notei que minha esposa se encontrava em nosso quarto arrumando os lençóis da cama e conversando ao telefone. Sorrateiramente pude ouvir bem enquanto ela agradecia a mãe de santo por me manter afastado de casa bem no dia da folga de seu amante e como a sua tarde havia sido maravilhosa. Segui para o sofá da sala e afundei em minha poltrona. Era quarta-feira e o Jornal Nacional trataria de me distrair ou confortar meus mansos chifres.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Dupla Descoberta - Caio Machado


Naquela manhã a última coisa que eu precisava era de ter que me levantar. O sol já preenchia com luz todo o meu quarto e os clarões já não ofuscavam mais minha visão. O perfeccionismo de meu pai ao projetar a planta de nossa casa, fez com que todas as janelas dos quartos iluminassem as camas assim que o sol nascesse. A luz incide do começo da cintura até os pés, de maneira com que os primeiros raios não incomodem os olhos e nem que esquentem demais a cama. Toda aquela paixão que eu estava sentindo desaparecia e em seu lugar uma aflição bombardeava meus anseios para que tudo aquilo fosse esclarecido. Na verdade eu nunca demonstrei que estava me sentindo apaixonada ou algo do tipo. Definitivamente isso é algo que eu geralmente nunca deixo transparecer, mas que de todo jeito ainda me deixa numa posição confortável perante tudo, pois sempre houve quem pensasse e agisse por mim nessas situações. Como se isso de alguma maneira segurasse a pessoa que estivesse interessada em mim. Mas dessa vez é algo maior e toda essa minha demora e errônea impressão de desinteresse pode resultar em algo trágico e eu deveria evitar.
No caminho até o colégio eu não tirava isso da cabeça e nem mesmo mudando de trajeto duas vezes consegui me desvencilhar disso. Eu deveria relaxar, pois já havia tomado meu banho que em cada manhã servia para que eu realmente despertasse e me sentisse disposta para o resto do dia. O que geralmente sempre funcionava e, além disso, eu havia usado até o perfume novo que ganhei de presente dele e acertado no meu penteado. Nada sairia errado.
Parecia até que os horários escolares se arrastavam como lesmas de uma tonelada ou mesmo que o tempo tivesse me escolhido pra me chatear naquela manhã... O fato de estudarmos em colégios diferentes também colocava minha ansiedade a toda prova, mas finalmente nos encontramos e já estávamos fazendo o percurso de volta para minha casa.
- Laura, eu consigo ver que você está nervosa. Seu pai é tão severo assim? Porque eu estou muito tranqüilo quanto a tudo e até...
- Não se trata dele ser severo... – respirei fundo - O problema não é ele te aceitar e sim você aceitar ele – Foi a coisa mais séria que eu já tinha dito em toda minha vida e eu não queria mesmo que isso fosse um problema para nosso namoro.
- Escuta. Eu gosto de você e sei que vou aceitar ele. – Notava-se que ele não entendia o que era pra ser aceito... - Confia em mim!
Como eu queria que só a confiança dele resolvesse isso. Seria a terceira vez que eu me sentiria insegura com a idéia de alguém ir conhecer meu pai. Ao chegarmos em minha casa encontramos o jardim recém tratado e o regador jogado ao chão, que por sinal ainda estava molhado e bem próximo das tulipas. Mamãe nem chegou a vê-las tão lindas assim e provavelmente que Leonardo nem tenha as notado. Claro que o cheiro do Ravióli que meu pai preparava desviaria a atenção até da mais bela e perfumada tulipa do planeta e o aroma que agora invadia todo o jardim. Além de invejar o vizinho e instigar o paladar também aflorou os tremores de Leonardo que agora começavam a desapontar freneticamente desordenados. Sabia que ele cederia e isso utopicamente começava a me animar.
Ao entrarmos notei que havia uma mala ao lado das escadas. Aquele cheiro esplendido estava por toda a casa e nesse momento nota-se que a tão bem elaborada arquitetura da casa apresentava um pequeno probleminha em dissipar o cheiro de alimentos pelos outros cômodos da casa. Nessa situação foi um erro bem cabível, já que o aroma era agradável, salvo algumas vezes em que eu queimava algo nas minhas frustradas tentativas em prepara algo! Meu pai estava na cozinha e vestia um avental de uma cerveja belga desconhecida, trajava aquelas luvas engraçadas de cozinheiros e um par de sandálias um tanto quanto “mitológicas”. A mesa na copa estava estupenda e havia até mesmo taças de cristal que geralmente meu pai usava para ocasiões especiais em que ele servia o vinho chileno que ele tanto adorava. Acho que a euforia do preparo do almoço fez ele se esquecer de que seus convidados não haviam feito sequer dezesseis anos. Leonardo permitiu que eu os apresentasse:
- Pai, esse é o...
- ...garoto que vai cuidar muito bem da minha filhinha! E eu espero que suas mãos não estejam tremendo assim quando a Laura estiver em alguma encrenca!
Meu pai conseguia ser sempre adorável. Até mesmo com meu primeiro namorado que agora já se sentia mais aliviado e confortável ao ouvir essas palavras.
- ...a propósito, meu nome é Alberto. E não me trate por sogro! Vocês ainda não têm idade para se casarem. – Papai soltou uma enorme gargalhada e todos os tremores de Leonardo despareceram!
O almoço ocorreu perfeito e parecia agora que os dois já se conheciam a anos. Obviamente o vinho deu lugar a um delicioso suco de uva que para quem não degustasse ousaria dizer que se tratava mesmo de vinho, por estar tão bem translúcido naquelas luxuosas taças. Meu pai percebeu que eu tinha encontrado uma boa companhia e se sentia bastante orgulhoso de mim e acima de tudo se sentia satisfeito por ter cozinhado um Ravióli tão suculento. De longe devia ser o melhor que ele já havia preparado! Claro que Leonardo começava a notar que meu pai era um tanto quanto perfeccionista e afeminado, mas preferiu continuar na dele...
Ao terminarmos Leonardo se levantou e foi até a cozinha onde paulatinamente começou a lavar os pratos e talheres que havíamos sujado no almoço. Corri até ele apavorada e disse:
- Olha não precisa se preocupar...
- Laura, eu tenho esse hábito desde garoto e não...
- A nossa empregada sempre limpa tudo...
- Eu nunca tive empregada! Você pode aprender muito sem uma. Dá pra ver que seu pai faz de tudo pra vo...
O tilintar da campainha interrompeu a nossa conversa. Meu pai que nos observava instigado da copa se levantou serenamente e foi até a sala atender a porta. Era seu namorado Cícero e papai não economizou folego naquele ardente beijo ao recebê-lo. Os dois deram as mãos e foram até a cozinha. Senti um frio passando pela espinha seguido de um arrepio breve.
- Leonardo, eu quero que você conheça...
- Tio Cícero?
O espanto foi com todos. Cícero corou e com o impasse não proferiu uma palavra sequer. Meu pai iminente do constrangimento dos dois postou se apenas a observar. Eu que antes me sentia preocupada sobre o aceitamento do homossexualismo de meu pai me via agora forçada a torcer para que uma família não fosse destruída. Quiçá duas. Os olhos de Leonardo lacrimejavam e Cícero já pálido esfaqueou todo aquele silêncio:
- Leonardo? O que você faz aqui...?
- Eu deveria te fazer a mesma pergunta se já não tivesse entendido tudo! Eu estava a conhecer o pai de minha namorada que por sinal parece ser o seu namorado! Disseram-me que você tinha fugido de casa há alguns dias? E o seu noivado com a Carmen, o que vai ser?
- Eu consigo explicar! Já não encontrava mais o que eu queria na Carmen. Aliás, nem em mulher alguma. Você me entende... Eu sempre tentei dizer isso pra ela, mas ela não conseguia ou não queria entender! – Cicero agora parecia mais aliviado ao contrário de mim que estava com as pernas tremulas e suando frio. O único aspecto positivo em tudo é que eu não detectava nenhum sentimento preconceituoso sendo proferido de Leonardo - Olha estou indo agora viajar com o Alberto e ficarei fora por duas semanas...
- De fato tio, você fugiu!
- Não é isso garoto! Você ainda não sabe nada sobre como conseguir felicidade plena! Vai querer abrir mão de muitas coisas quando souber, é muito imprevisível...
- Eu não sei se quero entender! Mas por que fugir assim da Carmen? Isso é covardia... – não conhecia esse lado desequilibrado de Leonardo, mas confesso que ele ficava bem charmoso com essa expressão fechada.
- Covardia ou não estamos de saída! Desculpe-me Leonardo.
Meu pai olhava para baixo e eu o fitei um tanto decepcionada. Será que ele tinha conhecimento que Cícero havia abandonado mesmo essa tal de Carmen? Os dois viraram de costas e meu pai se resumiu apenas em nos dar um olhar que serviria tanto para repreendimento de Cícero ou mesmo de vergonha própria. Leonardo ao contrário mostrava uma visível ânsia de choro e tudo que eu fiz foi o abraçar.
- Eu só queria que você aceitasse meu pai e não que isso tudo acontecesse!
Agora nos dois é que chorávamos e sem nenhum pudor ou censura de ninguém. Senti que aquele abraço carregado de lágrimas seria um dos mais intensos que já tive em toda a minha vida.
Ouvimos o ronco do motor do carro de Cícero e eles nem se deram ao luxo de se despedirem. Espero que essa viagem da qual eu mesma nem tinha conhecimento sirva de reflexão sobre esse conturbado reconhecimento ou algo que o valha.
Meu quarto com certeza não seria o refúgio ideal para nós. Minha bagunça já se acumulava sobre minha cama e o dia estava límpido e ensolarado demais para ser desperdiçado em apenas em uma janela. Fomos para o jardim dos fundos e sentamos nas velhas gangorras azuis. Embaixo de nossos pés não havia mais grama devido ao atrito dos pés para movimentar as gangorras, mas ao redor tudo se mantinha impecável.
- Olha Leonardo, me desculpe pelo papai... Ele não conseguiu se interessar por nenhuma mulher depois a mamãe faleceu e agora opta por esse tipo de vida só pra se saciar, eu não sei te explicar bem como são as coisas. – Comecei novamente a chorar – Eu sinto muita a falta dela. Nos a amávamos tanto! Não imaginava que o Cícero fosse seu tio, se eu soubesse eu nem teria te chamado para almoçar aqui hoje e nem...
- Laura, eu não me importo com isso. De verdade. Não tenho nem preconceitos! Meu único susto foi com meu tio Cícero que abandonou a Carmen de uma maneira meio bruta. Muito da minha personalidade foi formada por ele... Não esperava que ele abandonasse tudo assim! Mas pelo que me parece foi tudo por uma boa causa... Eu não entendo o porquê das pessoas se interessarem por pessoas do mesmo sexo. Aceito tudo numa boa. Mas assim como ele mesmo disse: eles só estão buscando essa tal felicidade plena. Por Deus, eu entendi bem o que ele quis dizer! Eu sempre sinto isso quando estou com você!
Como eu me sentia apaixonada. Não dava mais pra fingir. Seria besteira deixar que esse garoto passar direto por minha vida. Ele se levantou do balanço e secou minhas lágrimas com a manga de seu moletom. Aquele gesto e aquelas palavras me davam tanta segurança que parecia até que meu coração rodava.
- Eu só quero o seu bem e se você quiser continuar comigo, se levante daí, esqueça tudo e venha já comigo lavar o resto daquelas louças na cozinha!
Eu tinha apenas quinze anos e já me sentia totalmente completa.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Casca de Noz - Henrique Donancio

      Rodrigo estava atrasado mais uma vez...
      Pacientemente andava de um lado ao outro da calçada frente a sua casa. Já havia mandado uma mensagem ao seu celular para que se adiantasse, havia certo receio de tocar a campainha, e acreditava que não influenciaria muito para adiantar seu retardamento. Trajava uma camisa azul que tinhas manchas nas costas, e impresso a sua frente uma mulher com headphones sensualmente pintada em tons pretos, sedutora em traços rápidos. Abaixo do olho direto uma pincelada cor de rosa. Fazia-se um dia quente, raros em tal posição geográfica, a barba já começava a me incomodar, nunca lhe fui um apreciador, esteticamente até achava que me caía bem, mas me agoniava, os pelos grossos atritavam com minha pele causando-me gastura.

     Ouço os primeiros acordes de No Rain soar, é meu aparelho telefônico que vibra e canta, vejo no display outro nome insistente, e desisto. Quando me viro para avenida dou-me com sua imagem embaçada pela minha miopia. Já havia aprendido a conhecer seus passos, percebo que sua cabeça de repente pende para baixo, deixando cair duas mechas, e desconcertadamente, cheia de receios num ato impetuoso você se põe ereta novamente, passa as mãos sobre o cabelo, conserta-o e volta a andar, mas quando chega mais perto de novo acontece, você nunca conseguiria disfarçar...
     - Olá Humberto.
     -Bem? Então aceno com a cabeça.
     -Meu irmão ainda não saiu? Já tocou a campainha? Bah, ele sempre se atrasa!
     Explano que já havia lhe mandado uma mensagem e que ele não tardaria muito a chegar.
     -Você está bem? – A pergunta me constrange, fixo os olhos nos seus e confiantemente quase silencioso digo-lhe um singelo "sim". Também pára, põe se a olhar, deixa as sacolas que carregava caírem de suas mãos, me abraça como senti em outra ocasião quando nos despedíamos na praia, escorre uma lágrima de seu olho, chego a não acreditar que tanto orgulho despencaria sobre meus ombros dessa maneira, de um jeito que se mede em metade compaixão, outra metade num sentimento mais forte lhe envolvendo num abraço caloroso.
     -Volta, eu já não consigo mais...
     -Eu também não, mas não dá, acabou!
     A porta se abre, Rodrigo aparece sobre a luz da sala, faz sua graça, tira sarro da situação de um jeito peculiar. Você seca sua pele, agarra as sacolas rapidamente e diz um “tchau” ríspido pondo-se para dentro. Rodrigo ainda diz mais algumas asneiras, bobagens que intrinsecamente tem o coro de uma enorme torcida. Tomamos o rumo do bar.

     A música estava demasiadamente alta e "suja". Quando todos estavam entretidos pus-me em mais um momento particular de reflexão, parado, olhando para o nada quietamente. Deixarei vago tudo que me passou naquele instante singular da minha existência afim de que nunca se descubra quais idéias perambulam pela minha mente no meu silencio. Tomei o celular em mãos e lhe mandei uma mensagem, talvez a primeira em dois meses.
     “Precisamos reaver a situação da Nina”, então sorri. Queria lhe provocar, não que a cachorra não fosse importante para mim, o era, me sentia responsável por sua irresponsabilidade, mas no fundo um ímpeto que me levava a aguçar sua raiva me conduzia a isso.
    Rodrigo me contara algumas vezes que o seu novo namorado havia tentado frustradamente tomar meu lugar de “pai” do cão, e que a dócil Nina agora estava raivosa, e ladrava contra o rapaz. Imaginei que você dava-lhe uns tapas por causa da impetuosidade, me aborreci, ao mesmo que tomado por uma satisfação maldosa. Ele tentava tomar meu lugar de pai?! Tudo ainda devia ter meu cheiro, os lençóis, o travesseiro, as paredes a ecoar minha voz, os ponteiros do relógio a esperar minha chegada. Você deverás estaria arrependida.
     Mais algumas cervejas então tomo coragem para ligar, já se fazia 1 hora e meia de um novo dia, pela sua voz ao atender ele devia estar ao seu lado, mas como você certa vez foi estúpida o suficiente para atender ligações de outro sob meus olhos, não faria diferente agora. Ríspido reclamo da cachorra, digo que me pertence, e você só ouve, e depois desliga. Se não te conhecesse tão bem agora ficaria mais tranqüilo, mas entendo o turbilhão de problemas que esse telefonema causaria. Você tentaria dar insignificância, menosprezar, me odiar, mas de nada adiantaria.
     Logo pela manhã recebo uma mensagem do Rodrigo me dizendo que Nina iria há uma consulta no veterinário. Retorno com uma ligação e peço lhe o endereço da clínica e tomo uma condução para o local.
     -Você ainda o chama para vir aqui? Ríspido seu namorado aponta o dedo para sua face.
    -Eu não o chamei.
    -Fui eu homem, diz Rodrigo. Então silencia, fita-me com raiva.
    O veterinário parece interpretar a situação e com uma voz grave chama a atenção de todos. Explana que pela falta de alimentação o cão acabou adoecendo, seria causa da depressão que estava a sofrer. Ele tem certeza do seu diagnóstico quando me aproximo do Cofap desengonçado sobre a mesa.
     -O senhor é dono do cão?
     Constrangido digo-lhe que sim e o tomo nos braços, pago a consulta e dou de costas para todos.
     A noite recebo outra mensagem de Rodrigo: “A mana acaba de terminar o namoro com o almofadinha, kkk”.
     Leio e suspiro... assovio para Nina que pousa ao meu lado no sofá. Teria sido melhor se tivesse lhe comprado uma tartaruga de presente.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Artista Itinerante - Caio Machado

Para Gabriel e Caroline Soares

Faltará lirismo no caso em que relatarei. Mas quem se importa? Aquela cidade ainda era uma grande incógnita para mim. A rodoviária não era muito amigável e estava num processo de reforma, que a meu ver ainda iria bem devagar. O que dava uma primeira impressão de atraso e retrocesso a quem chegava naquela cidade não muito receptiva. Antes de me dirigir ao meu destino resolvi consultar o mapa da cidade para que eu me orientasse melhor. Havia um enorme cartaz fixado em uma das paredes do local. Não existiam muitos bairros e pelo que calculei não gastariam mais que algumas horas pra se circular por toda a cidade. Enquanto eu pousava os olhos no mapa um jovem engraxate se aproximou de mim e perguntou de maneira bastante coloquial se eu queria “dar um trato” em meus tênis. Habitualmente ele só deveria fazer a seguinte proposta a senhores trajando sapatos, mas a evidente fome em que ele se encontrava, acompanhada de um possível desespero induziu o rapaz a me propor o serviço. Eu não precisava necessariamente do serviço, mas acabei aceitando. Sentamos no banco mais próximo e ele se postou aos meus pés e começamos a trocar algumas palavras durante uns instantes. O rapaz que perdeu a mãe recentemente se viu forçado a trabalhar, mas a falta de estudos não lhe proporcionou muitas oportunidades. E já que o ganha pão de seu pai é todo investido em exploração etílica não lhe restou muito que se fazer senão seguir o ofício ensinado humildemente pelo seu falecido avô. O rapaz não se dava muito bem com o português, mas era bastante loquaz. Contou-me que quando era mais novo não agia de maneira muito correta e que até preso já foi, por um envolvimento em uma briga. Fez uma singela e grotesca comparação ao dizer que durante o tempo que permaneceu enjaulado ficou tão branco por não tomar sol que estava até parecendo um europeu. Perguntava-me sobre meus interesses e parecia não saber muito bem o que fazia em meu tênis. Ele usava uma mistura que provavelmente não passava de água e sabonete e o serviço dele não me custaria mais do que três reais, mas preferi pagar-lhe dez para que ele se se alimentasse melhor ou o que quer que seja que ele fosse fazer com o dinheiro. Ele agradeceu-me repetitivamente e apresentou-se como simplesmente Gil. Disse que não se esqueceria facilmente de mim e pediu que eu voltasse depois com algum sapato para que ele engraxasse para mim. Aproveitando a ocasião disse também algo sobre doação de roupas e mais coisas das quais não me recordam bem. Para um recém chegado eu agora já ostentava minha primeira amizade.
A rodoviária ficava localizada na orla de uma enorme lagoa que se não fosse pelo visível descaso seria linda. Provavelmente aquele era um dos únicos cartões postais da cidade e para mim já estava ficando claro que a cidade em questão era meio abandonada pelas autoridades políticas. Tanto que em poucos minutos presenciei inúmeras infrações de trânsito que pareciam passar despercebidas por todos ali. Ironicamente isso me deixou satisfeito, pois eu estava ali justamente para escrever um artigo sobre o espalhafatoso trânsito. Ao sair da rodoviária me deparei com um simpático senhor que trajava uma boina cinza e carregava uma pasta de desenhos. Eu com meus vinte e poucos anos não conseguia emanar tanta vida como aquela alma conseguia transbordar. Uma estranha curiosidade se encheu em mim e resolvi perguntar as horas ou mesmo alguma informação qualquer só para poder verificar do que se tratavam as figuras ilustradas em questão. E bem, o senhor se mostrou bastante acessível e carismático. Informou-me as horas, iniciou uma conversa trivial e logo me contou sobre as aulas de desenho que estava tomando e me mostrou quase todos os seus trabalhos que abrangiam em sua maioria objetos e cenários bucólicos. A grande dificuldade dele se mostrava em ilustras rostos humanos. Aqueles punhados de figuras coloridas e monocromáticas me deixaram muito feliz repentinamente. Lembrei-me de outrora quando o primo de minha namorada (que por sinal nunca se mostrava com essas minhas viagens a trabalho) dava aulas de desenho e os expunha em festivais musicais. Isso bem antes dele se formar em Artes Visuais e embarcar para a França. O senhor, que por sinal se chamava Erasmo me contou que era formado em História e que mastigou também alguns anos do curso de Filosofia, mas sem se formar. Acrescentou que aos oitenta e seis anos sua vida apenas começava e que independente do que eu fazia Deus me ajudaria no meu destino. E claro que não existe mais em mim essa crença em Deus com a mesma força que em tempos anteriores, mas mesmo assim agradeci as palavras e lhe desejei o mesmo. Fantástico como essa cidade feia carregava almas tão curiosas e expressáveis. Erasmo aproveitou da ocasião e se pos a desenhar um pássaro e reparei que ele não tinha muita destreza em segurar o lápis com a mão esquerda e antes mesmo que eu perguntasse me contou que estava trabalhando o lado esquerdo do corpo e que na sua juventude o pessoal dizia que quem nascia canhoto era ignorado por Deus. Incrível como na mesma proporção que a fé diminuía absurdos de coisas mundanas ela também os aumentava. Contei para ele que eu sofria o “mal” de ser canhoto e contei também minha curiosa história das aulas de violão que tive como destro e sobre como tive que inverter as cordas e o lado do violão para também me oficializar como canhoto musicalmente. Jimi Hendrix, Tony Iommy e recentemente meu último herói Kurt Cobain também eram canhotos e eu não conseguia me orgulhar muito dessa situação, já que só encarecia e reduzia a possibilidade de encontrar instrumentos musicais para canhotos. Às vezes me perguntou se alguém já ouviu falar em algum piano para canhotos? Mas de fato eu conseguia me enxergar naquele senhor e parecia também que ele sentia o mesmo em mim. Como se estivéssemos naqueles filmes de ficção cientifica da década de oitenta em que as pessoas se personificam em nós através de maquinas do tempo ou buracos de minhoca. De súbito o senhor se despediu apressadamente de mim e entrou em um ônibus de transporte público. Não entendi a pressa dele, mas minha admiração por idosos era tanta que eu achava injusto poucos privilégios como filas especiais ou transporte público gratuito. Eles merecem muito mais do que isso e, aliás, esse é futuro esperado para todos que são jovens agora. Reparei que sua pasta de desenhos tinha sido esquecida no banco da praça e que eu agora me sentia extraordinariamente destinado a entregá-la para ele. Informei-me sobre a linha em que o senhor tomou e sobre os bairros em que o ônibus percorria em seu trajeto. Com as poucas informações já obtidas declarei meu infortúnio que se daria ao perceber que eu não saberia sequer por onde começar e que eu não sabia ao certo para onde ele estaria indo. Encontrei um catálogo telefônico na rodoviária e procurei por todos os Erasmos da cidade. Dos cinco listados nenhum era ele. Minha busca se daria de forma exasperada agora. Pensei em pegar o primeiro ônibus que viesse e ir a alguns pontos referenciais do itinerário que me foi informado, mas não me parecia uma idéia sã e nem de longe sensata. Quase desisti da idéia, me dirigi a padaria mais próxima e fui me alimentar. A cidade tinha um delicioso refrigerante com nome indígena e durante meu lanche me veio a idéia de verificar o que havia na pasta. Além de dezenas de desenhos que já tinha visto havia também alguns poemas com uma marcante e perceptível influencia simbolista. Fiquei fascinado com alguns deles e inclusive entremeio aos papéis encontrei o cartão de visitas da escola de desenho onde o senhor estava matriculado e de imediato soube que eu o encontraria no local.
Antes que eu fosse até lá resolvi me hospedar em um dos hotéis que cercavam a rodoviária. Curiosamente todos tinham letreiros luminosos e seus aspectos deploráveis me remetiam a motéis baratos de Los Angeles. Não que eu já tivesse ido para L.A., mas o cinema os retrata bem assim. Quase todos eles tinham nomes de mulheres o que engrandecia ainda mais o iminente estereotipo de espelunca. Escolhi o hotel com a fachada menos velha e com o nome feminino menos grosseiro e me hospedei naquela mesma tarde nublada. Minha primeira exigência no Hotel Lucíola foi que me colocassem em um quarto com muitas janelas e sem ar condicionado. A segunda logo foi que me emprestassem o catálogo telefônico. Obviamente o deles estava desatualizado e faltando diversas páginas toscamente arrancadas, mas felizmente na minha consulta percebi que a escola de desenho ficava a poucas quadras dali e que seria muito fácil encontra-la. Decidi-me por ir até lá na manhã seguinte para a devolução dos desenhos. Sem me esquecer é claro, que eu me encontrava na cidade para escrever sobre as calamidades que estavam acontecendo nas reformas do transito e sobre o confuso e desrespeitoso tráfego. Deixei minha mala em cima da velha mesa que havia no flat. Fora isso os únicos móveis que haviam por ali eram a cama e a estante improvisada para o televisor. Durante o resto da tarde fiz algumas anotações sobre os semáforos furados, calçadas sem acessibilidade para deficientes, ultrapassagens perigosas e limites de velocidades excedidas que eu já havia presenciado durante minhas poucas horas na cidade. Ao dormir deixei a TV ligada e uma das duas janelas entreabertas. É natural que eu só consiga pegar no sono com alguma coisa me deixando sempre alerta, não suporto silêncios absolutos.
Na manhã seguinte tomei café na mesma padaria e o saboroso pão de queijo era ainda melhor recém saído do forno. Dessa vez deixei o refrigerante local de lado e me deliciei com um café expresso com bastante açúcar. De lá mesmo me dirigi até a escola de desenhos. Pensei na possibilidade de alugar um carro, mas a urgência por encontrar Erasmo e os ares de interior daquela cidade me deixava instigado a caminhar e desbravar tudo o que fosse possível por ali. Sempre adorei essa sensação de reconhecer território. Quatro quarteirões depois e lá estava eu de frente a escola de desenho, que por sua vez era um duplex azulado e sem dúvida era mais bem tratada do que a rodoviária, a lagoa e claro, todos os hotéis sujos que havia me deparado ontem. Para minha surpresa ou mesmo sorte o próprio senhor Erasmo já se encontrava na recepção conversando veemente com a secretaria. Sua leve expressão de desolação deu lugar a um largo sorriso ao me ver e ele logo me perguntou se a nossa conversa havia me deixado interessado nas aulas de desenho. Respondi que não, mas logo em seguida voltei atrás e disse que sim e que até tinha trago uns desenhos meus para mostrar na escola para ver se eu mostrava alguma vocação. Outro sorriso se abriu e o senhor Erasmo mal reparou que o que eu segurava era sua própria pasta de desenhos. Ao notar que se tratava de seus desenhos ficou um pouco surpreso e frustrado e me agradeceu dizendo que ele tinha o estranho hábito de fingir que esquecia seus desenhos para presentear pessoas especiais que conhecesse por aí. Especialmente turistas recém-chegados. Disse que fez isso durante sua vida toda e que durante todo esse tempo eu havia sido a primeira pessoa que o procurou para devolvê-los. Fiquei extasiado com aquela história e perguntei se ele não se preocupava em perder todas as artes e poemas. Ele me respondeu astutamente que não possuía mais parentes e nem herdeiros para serem presenteados e que se livrando de seu legado se via sempre obrigado a recomeçar e produzir cada vez mais e com isso iria sempre se aperfeiçoar. Senti-me comovido com aquela lição e o abracei vigorosamente. Ele notou as lágrimas que estavam se formando em meus olhos e disse para que eu fosse embora e que levasse tudo comigo. Ele insistia por isso. Além de tudo, ressaltou ainda a importância de não se apegar muito a coisas materiais e de sempre aproveitar cada situação como uma maneira de se engrandecer como pessoa. Agradeci por tudo e sai da escola sem olhar para trás. Que se dane esse trânsito patético. Um grande artigo ou crônica sobre um artista itinerante estava prestes a ser redigido por mim!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Os Saqueadores de Valas Comuns - Caio Machado

Para Moniza Borges

Indigentes, assassinos em vida, esquecidos ou mesmo abandonados por famílias que sequer ousaram reclamar seus corpos. Restos mortais emaranhados de terra, numa iminente escavação feita com bastante escárnio e descaso. Homúnculos agora frios e moribundos que jazeriam em esquecimento para sempre. Por que agora resolveriam desrespeita-los e saqueá-los? Ou mesmo por que não considerar essa forma de “vandalismo” como uma maneira de punição pela vida imprópria que eles levaram um dia? Desenterrados de maneira tosca e urgente, várias valas comuns estavam sendo violadas e saqueadas semanalmente naquele desolado cemitério e nenhum coveiro, funcionário ou entidade responsável do local conseguia explicar tamanha irracionalidade. Décadas e gerações mesmo que desconhecidas, sofrendo uma severa desconsideração. A ausência de lápides e caixões somados a rasa profundidade daquelas grosseiras covas ajudariam a facilitar o atentado à paz daqueles corpos agora totalmente desmantelados, como se ainda já não bastassem estarem todos desalmados. Não que algum dia eles tivessem tido paz uma vez em vida, mas o desrespeito por aqueles vis cadáveres começava a crescer. O maior agravante daquela questão se dava por ninguém se preocupar com todos aqueles desconhecidos, porque obviamente não haveria a quem todos aqueles desconhecidos recorrerem, mas o conflito não poderia passar em branco já que ele começava a incomodar a outra parte do cemitério que por sua vez era diariamente visitado e agora tinha suas vias subterrâneas sangrando devido a essa bizarra depredação.
Famílias mais prestigiadas, honradas ou mesmo mais freqüentadoras do insalubre parque de jazigos resolveram investigar por si próprias o que estava causando todo esse tumulto mórbido. Pais, irmãos e até primos distantes se puseram de guarda em turnos diurnos por todo o cemitério. O tumulto foi tanto que ao passo dos primeiros dias de vigília, os saques logo pararam de ocorrer de forma súbita e silenciosa, de maneira que nada foi descoberto, ocasionando na desistência das mesmas pessoas que iniciaram as inquirições. Fato esse que não evitou que em poucos meses mais valas voltassem a ser violadas e que dessa vez as sobras das ossadas saqueadas fossem espalhadas por todo o local, com isso um odor visceral putrefato passou a preencher todo aquele parque de almas perdidas, que em sua maioria das vezes é inodoro, tirando claro, o odor das flores deixadas diariamente nos túmulos e todo o aroma bucólico do extenso e melancólico gramado do cemitério. Não tardou que medidas radicais fossem novamente tomadas e agora as famílias alheias mesmo assustadas, se organizaram para que pernoitassem no local. Dessa vez turnos mais longos e discretos foram necessários para que depois de dois meses de zelo a matilha faminta de cães retornasse de madrugada ao local e que fossem enfim descobertos. As famílias desconformadas não acreditaram ao ver que não passavam apenas de cães decadentes, que de uma maneira um tanto quanto inusitada estavam apenas buscando uma maneira de sobreviver. A fome agora latejava no estomago daqueles cães que antes evitavam o local devido a toda aquela agitação e mesmo agora com aquela guarda armada os mesmos não se privaram de se revelarem e se postarem a cavar mais uma das diversas covas espalhadas. Como se as almas daqueles vis cadáveres estivessem agora apossadas dos corpos dos seus próprios violadores. Dezenas de caninos imundos e esqueléticos, submetidos a roerem ossos humanos em busca de uma sustentação alimentar, evitando que se juntem ao estado atual de suas refeições.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sonho Oriental - Caio Machado

Para Mariana Takagui e Nádia Lúcia

O corte era imenso e profundo, abrangendo a região entre as axilas e a cintura. Se fosse um pouco mais estreito se assemelharia ao Z que o Zorro deixa em suas vítimas, mas nem de longe o anti-herói conseguiria um feito tão preciso daquela maneira. A vítima era uma mulher de aproximadamente trinta e cinco anos, pesando sessenta e oito quilos, de feições indígenas e que trabalhava como atendente em uma biblioteca da universidade federal da cidade. Não possuía antecedentes criminais, levava uma vida normal e tranqüila em um casamento que já durava quase seis anos. Ainda não tinha filhos e planejava conhecer a Bélgica no próximo semestre. Seu marido era um cozinheiro muito renomado e respeitado. Um homem com uma estatura alta e deveria estar, senão obeso, com sobrepeso. Encontrava-se aflito em suas lágrimas e repetia incansavelmente sobre as tão sonhadas férias na Bélgica, que por sinal nunca mais ocorreriam. O corpo foi encontrado por ele ao chegar a sua casa após um árduo expediente. O corpo dela estava estirado no sofá, curiosamente deveria estar mais ensangüentado e aos seus pés se encontrava a edição da revista Caras daquela semana. O legista não conseguiu identificar que tipo de arma ou objeto fez o corte em seu abdome, que por sua vez seria algo extremamente cortante já que até os ossos da costela também foram serrados. Descartaram a possibilidade do uso de um bisturi ou qualquer objeto cortante de origem médica. As devidas investigações começaram, mas era visível que o caso seria arquivado pois não haviam mais suspeitos além de seu próprio marido.
Não bastaram três dias para que encontrassem na saída sul da cidade, outra vítima com o mesmo tipo de corte e tamanha fatalidade. O infeliz dessa vez era um rapaz de vinte e dois anos que residia na cidade a estudos e que entregava sanduíches para uma lanchonete nos finais de semana. Alias o assassinato aconteceu durante seu expediente, após o rapaz ser chamado para uma entrega, que de maneira extremamente amadora não foi anotada pela secretaria da lanchonete, sendo apenas repassada verbalmente. A moça certamente seria demitida e a lanchonete também sofreria uma visita da vigilância sanitária que provavelmente fecharia o estabelecimento por tamanho descaso e falta de higiene. O lugar estava entregue as moscas, mas mesmo assim mantinha uma boa clientela e após vários interrogatórios ninguém encontrou nenhuma pista ou prova contra o estudante de Artes Cênicas que ainda mal tinha feito amizades na cidade. A secretaria foi tida como possível cúmplice, mas novamente pela falta de pistas o inspetor da polícia se via obrigado a esperar por um próximo assassinato, já que não conseguia se encontrar relações entre os dois assassinatos e tampouco algum fundamento para eles.
Nas duas semanas seguintes nada ocorreu e a polícia já se via obrigada a engavetar os dois assassinatos, uma vez em que não ocorriam mais avanços nas investigações e que o triste fato de os dois crimes não possuírem testemunhas só empacava todo o processo. A ansiedade dos investigadores só foi cessada após o único jornaleiro daquela pequena cidade, ser encontrado assassinado numa fria manhã e que de maneira bem grotesca o orvalho tenha coagulado seu sangue sobre o corte criando umas bolhas de sangue extremamente repugnantes. Dessa vez bem mais preciso do que antes. O assassino era tão profissional que nunca deixava impressões digitais ou pegadas e parecia que as vítimas nem se dariam conta de suas iminentes mortes. Assim como as vítimas anteriores o jornaleiro também levava uma vida tranqüila de viúvo e mantinha a banda de revistas no Parque Central só para dar uma engordada financeira na sua aposentadoria e para ajudar no financiamento de sua ONG a favor de pássaros silvestres em extinção. Já não dava mais para entender se o assassino serial fazia isso de maneira pessoal ou de maneira aleatória, pois nunca existia uma correlação entre os fatos e os legistas continuavam sem entender a origem dos cortes letais.
Um fato curioso se deu um dia depois, quando um rapaz foi contratado para afixar um cartaz de outdoor na Praça dos Coronéis. Possivelmente o mesmo assassino das vítimas anteriores tentou açoitá-lo com a misteriosa faca, mas errou porque o rapaz percebeu a presença do assassino no outdoor e se jogou da escada se esquivando do golpe letal. O assassino frustrado e desesperado saltou do outdoor e pôs-se a correr de maneira lenta e desengonçada. O rapaz o perseguiu, mas a dor nas costas causada pelo tombo o fez delirar de dor e ele desistiu de alcançá-lo. Após registrar a queixa do crime o rapaz foi encaminhado para a clínica geral e infelizmente acabou com uma costela quebrada. Pelo menos ele estava vivo e o ocorrido serviu para que uma descrição detalhada do assassino fosse feita e o detetive já interado do assunto não tinha mais dúvidas de quem seria o assassino.
Quatro policiais armados acompanhavam o detetive e ao chegarem à casa do cozinheiro tiveram o desprazer de encontrarem o próprio degolado na cama onde ele dormia com sua falecida esposa. Em sua mão esquerda havia uma carta de despedida e na mão direita estava a estranha faca que por sinal quase arrancara sua cabeça. Para a surpresa de todos não passava de uma faca japonesa Deba Botyo que havia chegado para sua esposa junto com a coleção Sonho Oriental da Revista Caras no dia do seu assassinato. E se ainda associarmos o jornaleiro e o rapaz que fixava um anúncio da mesma revista no outdoor entenderíamos que o cozinheiro não morria de amores pela revista. Tamanha foi a sorte do rapaz que afixava o anúncio da Caras, pois o mesmo não havia tido conhecimento da morte do jornaleiro e não faria mais sentido divulgar a revista, já que não haveria mais outra banca de revistas para vender a revista na cidade. Mas onde é que a esposa do cozinheiro e o entregador de sanduíches entrariam nessa história? A carta de despedida esclarecia tudo. A primeira pessoa que o estudante conheceu foi a mulher do cozinheiro, que de maneira extremamente simpática o orientou para que conseguisse chegar ao prédio de seu curso na faculdade. A partir desse dia o contato dos dois passou a ser freqüente e logo se constatou um affair entre os dois. O cozinheiro notou certa distância de sua esposa e após segui-la descobriu o ocorrido. Enciumado acabou liquidando-a e como a faca japonesa escolhida como arma por puro acaso se tornou tão eficaz e irreconhecível resolveu matar o entregador também a usando. Seu único descuido foi tentar limpar as possíveis pistas assassinando a todos que divulgavam a revista pela cidade. Acabou custando-lhe a própria vida, mas rendeu um artigo policial nunca publicado antes em uma edição da Revista Caras e o encerramento e suspensão da coleção Sonho Oriental.